Pulpit

Defendendo os Santos e a Retribuição da História

B. H. Roberts

Conferência Geral de Outubro de 1907·Sessão da Tarde do Terceiro Dia·1907-10-06

Quando tomei meu assento no início desta conferência e olhei para o povo, perguntei-me: O que dirão nossos irmãos a este povo durante a conferência? Então me lembrei de um verso de um de nossos hinos familiares: "Que mais podemos dizer do que já vos dissemos;" e confesso que, naquele momento, não consegui pensar em nada que pudesse ser considerado de especial interesse para esta conferência, que pudesse ser discutido. A conferência, contudo, não havia avançado muito — apenas alguns dos irmãos haviam se dirigido às reuniões — quando outro pensamento me ocorreu, e foi este: Como encontraremos tempo para considerar todos os assuntos de interesse que foram trazidos ao povo e sugeridos pelas observações dos irmãos? Confesso agora, meus irmãos e irmãs, que penso que muitos assuntos muito importantes e ponderosos terão que ser deixados de lado, com apenas uma simples alusão a eles pelos oradores nesta conferência — assuntos que seria proveitoso considerarmos, se pudéssemos apenas dedicar o tempo a tal consideração.

Fiquei especialmente interessado nas observações de meu irmão e amigo, o Élder Orson F. Whitney; e, embora corrigir deturpações e chamar a atenção para aqueles que, sabendo ou não, caluniam nosso povo, nem sempre seja uma tarefa agradável, ainda assim, ocasionalmente, é necessário, para que os anais dos tempos possam ser escritos corretamente; e para que haja menos oportunidade para vilões falsificarem a história. Portanto, regozijei-me com sua defesa de nosso povo; e, ao segui-lo em sua defesa do povo, desejei em meu coração que nossa defesa fosse sempre tão bem conduzida, pois vos lembrareis de que ele não apenas falou daqueles que haviam deturpado o povo, mas também deu louvor merecido àqueles que haviam falado verdadeiramente a nosso respeito, ou que se haviam abstido de se juntar à deturpação do povo de Deus. Regozijei-me com seu louvor a tais homens honrados; e aos nomes do Bispo Tuttle e do Bispo Leonard, que ele mencionou, desejo acrescentar mais um nome, o nome de um homem muitíssimo honrado. No ano de 1903, um representante do Newark (Nova Jersey) News, estando em nosso meio, procurou o Reverendíssimo Lawrence Scanlan, Bispo Católico da Diocese de Utah e Nevada, e, ao relatar o que se passou, o representante do News disse:

"Aquele veterano e velho padre, o Bispo Scanlan, que tem a seu cargo todo o Utah e a metade oriental de Nevada, pela Igreja Católica, visitou todos os cantos remotos de Utah, durante os 30 anos em que esteve aqui. Ele disse: 'Considero o povo 'mórmon' um povo gentil e bem disposto. Nunca fui insultado uma única vez. Fui obrigado a visitar lugares onde não há hotéis, e onde quer que tenha me hospedado em casas particulares, o povo sempre se sentiu ofendido se eu me oferecesse para pagar-lhes pela hospedagem de mim e de meu cavalo.' Já sentiu, alguma vez, a necessidade de um revólver? — perguntei. 'Nunca possuí um em toda a minha vida.' Apontando para o crucifixo, o Bispo disse: 'Essa é a única arma que já carreguei.' A Igreja Católica tem dez mil comungantes em Utah no momento presente; não vejo o nome de Vossa Excelência, Bispo, em protestos e outros papéis que alguns dos ministros aqui estão ativos em circular.' 'Não,' respondeu ele, 'nunca me junto a nada desse tipo. Minha missão aqui não é fazer guerra ao povo 'mórmon' nem a nenhum outro povo, mas antes ser o portador da mensagem de paz e boa vontade para com todos os homens. Se há alguma lei a ser cumprida, deixo isso a cargo de meu governo.'"

É um prazer falar de conduta cristã honrada onde quer que a encontremos. Não conheço pessoalmente o Bispo Scanlan, embora tenha trocado algumas cartas com ele e recebido dele algumas gentilezas, na forma de contribuições de artigos para nossa Young Men's Magazine. Estou ciente da estreita amizade que existiu entre o Bispo e o falecido Élder Erastus Snow. Essa amizade deveria ser uma lição objetiva para todo o povo de nosso estado, de que é possível, apesar de mantermos visões diferentes de nossos companheiros cristãos, em relação à religião — é, no entanto, possível para homens honestos e honrados conviverem como concidadãos de nosso país comum, sem inimizade ou amargura, uns para com os outros. E pensei que gostaria de mencionar estes fatos a respeito deste honrado Bispo Católico, com quem, e, tanto quanto sei, com cuja congregação e povo vivemos em paz, apesar de nossas visões de religião serem tão opostas, talvez, quanto possa ser possível.

Seguindo, de certo modo, o exemplo do Élder Whitney na correção de deturpações, leio-vos agora uma breve citação da Historical Magazine de julho de 1906, contendo uma insinuação que desejo corrigir. Diz o autor:

"Os Santos, onde quer que estivessem localizados, tiveram problemas com seus vizinhos, sendo sucessivamente expulsos de Ohio, do Missouri, e de Illinois. Para este último estado foram em 1839, e foram recebidos com uma hospitalidade tão de braços abertos quanto apenas um povo muito generoso e amante da liberdade pode conceder àqueles que honestamente creem estarem sofrendo de uma opressão injusta. A conduta dos Santos, em cinco anos, transformou este sentimento de extraordinariamente profunda simpatia, que induzia grandes caridades práticas, num sentimento de ódio muito amargo, ameaçando explodir em violência de turba."

Tornou-se bastante comum, ultimamente, que artigos apareçam na imprensa, com este espírito, referindo-se às experiências da Igreja em Ohio, no Missouri, e em Illinois, em justificação da guerra agora movida contra a Igreja nesta terra ocidental. Num artigo recente contribuído ao Lewiston (Maine) Journal, revendo alguns comentários favoráveis no Journal a respeito do povo mórmon e seu sistema religioso, ocorreu a seguinte passagem:

"Os mórmons viveram em cinco estados diferentes. Se seu sistema é tão puro moralmente e tão patriótico quanto se afirma que é, como acontece que sua estada em cada um destes estados foi caracterizada por conflito contínuo e crescente com o governo e as leis estabelecidas desses estados e dos Estados Unidos, enquanto as grandes denominações cristãs vivem em paz e harmonia sob essas mesmas leis?"

Argumenta-se, a partir do fato de que os Santos dos Últimos Dias tiveram dificuldades nestes estados onde a Igreja estava anteriormente localizada, que é evidente que houve alguma má conduta de sua parte que justificava as crueldades praticadas contra eles, e que levaram à sua expulsão daqueles estados; e que a mesma justificativa para a oposição à Igreja existe agora tal como existia então. Na consideração de, e, como espero, na refutação dessa ideia, vou tratar de um pouco de história. Não posso, é claro, cobrir todo o terreno, e, por razões muito especiais, que confio ficarão evidentes à medida que eu prossiga, vou tomar o caso do Missouri em seu tratamento dos Santos dos Últimos Dias. Vou tomar o caso do Missouri pela razão de que as acusações agora feitas contra a Igreja de Cristo, de ilegalidade, e de antiamericanismo, não eram então feitas, e não poderiam ter sido feitas durante as experiências da Igreja no Missouri. Era impossível, então, para nossos oponentes fazerem estas acusações, ou justificarem as agressões praticadas contra os Santos, sob o pretexto de suprimir um sistema de casamento plural, ou o domínio do estado pela Igreja; não se fizeram queixas em nenhum desses termos.

Primeiro, permiti-me dizer-vos os resultados líquidos da perseguição aos Santos dos Últimos Dias no Missouri, na medida em que podem ser resumidos: Foram mortos, diretamente, homens, mulheres e crianças, na medida em que estimativas cuidadosas podem ser feitas, mais de cinquenta almas. Havia tantos outros feridos e espancados. Quantos pereceram de morte lenta, sofrendo agonias indizíveis, por causa da exposição e das crueldades, ninguém sabe, nem se pode calcular. Mais de 250 casas foram queimadas ou de outra forma destruídas, e as famílias que nelas habitavam ficaram sem lar; e, embora, em alguns casos, esses lares fossem humildes, deve-se, contudo, lembrar que eram tudo o que o povo tinha, e eram lares para eles. Entre doze e quinze mil pessoas foram expulsas do estado do Missouri, sob circunstâncias que acarretaram sofrimento excruciante, e, em pleno inverno, foram levadas através do rio Mississippi para o estado de Illinois. Este povo sofredor foi despojado de propriedades de terra de mais de 250.000 acres; e o pior e mais vergonhoso de tudo, para aqueles culpados do feito, a castidade de mulheres, por força brutal, foi violada. Isto é apenas um resumo daquela perseguição. Ora, o que se alega como justificativa desta crueldade — crueldade infligida a um povo, lembremo-nos, não numa terra selvagem, não numa era remota, mas no século dezenove, sob as garantias da liberdade constitucional de adorar a Deus, na Grande República do novo mundo? Tanto quanto se pode apurar, resumidamente, das declarações da turba, este povo ousou crer que Deus havia falado dos céus, que anjos haviam revisitado a terra, que um volume de escritura americana havia sido revelado e traduzido pelo poder de Deus; ousaram crer na blasfêmia (e estes são termos da turba) de que os doentes podiam ser curados pela imposição das mãos; e, além disso, "criam em todos os milagres maravilhosos da antiga religião cristã." Estas frases não são minhas; mas vivem em minha memória, e são recordadas das confissões da turba. Os Santos foram aconselhados pelo General Clark, na queda de Far West, quando estavam prestes a ser expulsos do estado e despojados de suas terras, que nunca mais deveriam se reunir em comunidades, com Apóstolos e Profetas, com Bispos e Sumos Conselheiros; em outras palavras, sua crença na antiga organização da Igreja cristã era, em parte, a pedra de sua ofensa. Não podemos nos demorar nestas coisas, mas, para que tenhais diante de vós a evidência de que a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias não havia violado nenhuma lei da terra, e portanto não era passível de responder à lei da terra, ouvi isto, de um documento da turba, promulgado como uma "constituição secreta," fazendo estas queixas contra nosso povo, e buscando justificar seus atos de violência para com eles, expressando sua intenção de livrar sua sociedade de nosso povo, "pacificamente, se pudessem, à força, se necessário." Dizia: "O braço da lei civil não nos oferece garantia, ou pelo menos não suficiente, contra os males que agora nos são infligidos e que parecem estar aumentando por causa desta seita religiosa. O mal é de tal natureza que ninguém poderia ter previsto, e, portanto, não está previsto pelas leis; e os atrasos inerentes à legislação colocariam o dano além de remédio." Isto é uma confissão franca, embora talvez inconsciente, de que não havia falhas de nosso povo que estivessem sujeitas a correção sob a lei. Ora, permiti-me dizer que não vos apresento a ideia de que nosso povo estava sem falhas; de forma alguma; houve muita imprudência em algumas de suas declarações e em algumas de suas ações, muito que foi tolo e vão; muito que foi resultado de zelo sem sabedoria, algumas coisas, talvez, que cheiram a fanatismo; concedo que indivíduos foram culpados de grande imprudência, mas as ofensas de que nosso povo foi culpado eram ofensas contra a lei moral estrita e elevada e as exigências do Evangelho, e não contra as leis da terra, de modo que, embora os Santos fossem responsáveis perante Deus, sob aquelas circunstâncias, não eram responsáveis perante o estado. Viviam acima da lei do estado — no sentido de que guardavam a lei, e, portanto, não estavam sujeitos às penalidades da lei do homem. Não obstante isso, as crueldades acima mencionadas — cuja soma mencionei — foram praticadas contra os Santos.

Ora, desta experiência do Missouri, desejo extrair, se puder, uma lição, tanto para os Santos dos Últimos Dias quanto, confio também, sinceramente confio, uma lição para aqueles que se opõem, em iniquidade e por violência, à obra do Senhor. Traçar-vos-ei um paralelo: Os missourianos, entre 1832 e 1839, queixaram-se em voz alta de nosso povo, e, como razão para sua hostilidade para com eles e o desejo de se livrarem deles, afirmaram que eram um povo do Norte, que tinham modos e costumes diferentes, e até mesmo diferentes no sotaque de sua fala, dos antigos colonos do Missouri; mas os missourianos foram ensinados a tolerar um povo de modos e costumes diferentes, e aprenderam a suportar o sotaque nasal da Nova Inglaterra antes de terminarem com isso. Os missourianos se queixaram da rapidez com que os Santos se reuniam no estado; mas os missourianos aprenderam a tolerar um afluxo maior e mais rápido de gente do norte em seu estado do que jamais se conheceu durante a estada dos Santos em seu meio, antes de terminarem com suas experiências. Os missourianos acusaram falsamente que a vinda do "acampamento de Sião" a seu meio era, praticamente, uma invasão armada do Estado. O "acampamento de Sião," permiti-me explicar, era uma companhia de homens com menos de 200 pessoas, que vieram com provisões e implementos agrícolas, em auxílio e apoio de seus irmãos, que haviam sido expulsos do condado de Jackson sob circunstâncias de grande crueldade; e, visto que o governador do estado se havia recusado a estabelecer uma força militar permanente para mantê-los na posse de seus lares quando fossem reintegrados a eles por seu ato oficial, pensou-se ser boa coisa fortalecer o número do povo, para que pudesse proteger-se, caso o estado não os protegesse — e o estado se havia recusado a protegê-los. A vinda, então, do "acampamento de Sião," repito, foi chamada de invasão armada do estado. Bem, o Missouri, antes de terminar com isso, aprendeu o que significava uma invasão armada do estado. O compromisso do Missouri — esqueço agora a data exata de sua ocorrência — mas o compromisso do Missouri foi praticamente anulado — aquele compromisso que proibia a introdução da escravidão no território dos Estados Unidos ao norte da linha fronteiriça do sul do estado do Missouri — aquele compromisso foi praticamente anulado por legislação introduzida no Congresso nacional por Stephen A. Douglas, pela qual a questão de os estados serem escravocratas ou livres, ao serem admitidos na União americana, seria deixada ao povo, quando este viesse a formar a constituição de seus estados. Isto precipitou uma luta, como vos lembrareis, pela posse do Kansas. As agências de emigração da Nova Inglaterra e os partidos abolicionistas empreenderam fazer do Kansas um estado livre, e, portanto, enviaram grande número de seus emigrantes ao leste do Kansas, que fazia fronteira com os condados ocidentais do Missouri, onde os Santos anteriormente fizeram seus lares. Isto resultou numa das mais cruéis guerras de fronteira (começando por volta de 1855) conhecidas na história dos Estados Unidos ou na história do mundo. Os grupos "jayhawking" de um lado, os desordeiros sem lei que vinham do norte, e os grupos "bushwhacking" do outro, invadiram aqueles condados ocidentais do Missouri até que a anarquia prevalecesse e a violência abundasse em toda parte, e é isso que quero dizer quando afirmo que o Missouri entrou em contato com os homens, e foram eventualmente obrigados a tolerar homens de modos e costumes e sotaque de fala diferentes dos seus.

Mas, para continuar o paralelo. O Missouri acusou falsamente os Santos de serem abolicionistas, de interferirem com seus escravos, de encorajarem a entrada de "pessoas de cor livres",

que alegavam ameaçar seu sistema de indústria escravista; e, por esta razão, conspiraram contra os Santos, e justificaram as atrocidades contra eles — porque sua instituição do trabalho escravo era ameaçada pela entrada dos chamados abolicionistas. Desejo dizer, em favor dos Santos dos Últimos Dias, e do Profeta Joseph Smith especialmente, que foram muito conservadores quanto à questão da escravidão. O Profeta Joseph abordou aquele tremendo problema no verdadeiro espírito de estadista, e, se a nação tivesse tido a sabedoria de seguir o conselho que ele lhe deu, com relação àquele grande problema, é bem possível que não tivesse havido Guerra Civil, com sua triste história de destruição de tesouro e vidas. Mais de vinte anos antes de Ralph Waldo Emerson defender a compra dos escravos do sul com o dinheiro recebido da venda de terras públicas, Joseph Smith já havia apresentado essa política ao povo dos Estados Unidos. O filósofo da Nova Inglaterra recebeu todo tipo de elogio por sua sugestão, e foi aclamado como um grande filantropo cristão e estadista humano pela apresentação dessa política ao país; mas um célebre escritor, Josiah Quincy, chama a atenção para a atitude do Profeta "mórmon" sobre esta questão em seu livro, "Figures of the Past," e, com efeito, pergunta: Se o louvor é devido ao filósofo cristão por defender esta doutrina quando as nuvens de guerra já se distinguiam no céu (1855), o que se deve dizer do Profeta "mórmon" que o antecipou em cerca de onze anos, com o anúncio da mesma política?

A linguagem exata do Sr. Quincy é: "Nós, que podemos olhar para trás, para o terrível custo da guerra fratricida que pôs fim à escravidão, dizemos agora que tal solução da dificuldade [a compra dos escravos] teria sido digna de um estadista cristão. Mas, se o erudito recluso [Emerson] estava à frente de seu tempo quando defendeu esta disposição da propriedade pública em 1855, o que devo dizer do líder político e religioso [Joseph Smith] que se havia comprometido, por escrito, bem como em conversa, com o mesmo curso, em 1844? Se a atmosfera das opiniões dos homens foi agitada por tal proposta quando as nuvens de guerra já se distinguiam no céu, não teria sido uma palavra digna de estadista, onze anos antes, quando os céus pareciam tranquilos e benfazejos?"

Não era verdade, repito, que os Santos fossem abolicionistas, ou que o Profeta Joseph fosse abolicionista, no sentido do termo aplicado àqueles primeiros agitadores da Nova Inglaterra sobre essa questão. Mas o Missouri finalmente encontrou agitadores dessa questão dentro de suas próprias fronteiras e na nação, que mantiveram viva a agitação até que o Missouri perdesse 115.000 de seus escravos, representando, em propriedade a seu povo, mais de quarenta milhões de dólares.

Em meio à sua aflição, os Santos no condado de Jackson pediram ao Governador Dunklin que estabelecesse proteção militar para o povo, até que se tivesse certeza de que a lei civil seria respeitada; mas o governador alegou que não havia garantia constitucional que o autorizasse a fazer tal coisa; mas o povo do oeste do Missouri, que clamava contra ele fazer tal coisa em favor dos "mórmons," com o tempo se viu na necessidade de pedir o mesmo tipo de proteção contra os desordeiros de fronteira do Kansas; e o Governador Stewart, diferentemente do Governador Dunklin, encontrou meio de estabelecer tal proteção militar. Então algo estranho aconteceu: quando os Santos em Far West e em outros pontos pegaram em armas em sua própria defesa e declararam que já não cederiam sem resistência à violência das turbas, então esta mesma turba clamou por proteção militar contra os "mórmons," e lhes foi dada; e os líderes da turba foram convertidos em generais, coronéis, capitães e tenentes, ad infinitum; duvido que essa raça já tenha se extinguido — esta raça de oficiais titulados. E assim os líderes da turba se tornaram os comandantes da milícia; e a milícia nada mais era do que uma turba convertida nas divisões e subdivisões de um exército. Os Santos sofreram uma injustiça imensurável com um arranjo desses; porque agora opor-se a esta turba-milícia era opor-se à autoridade constituída do estado; e sua autodefesa colocava os Santos na posição de resistir ao governo. Pois bem, o oeste do Missouri, no curso de sua experiência, recebeu uma dose desse mesmo tipo de remédio; pois, quando os grupos "jayhawking" do Kansas descobriram que o Missouri provavelmente lhes ofereceria resistência armada bem-sucedida, apelaram ao governo geral; e, em resposta a esse apelo, os líderes "jayhawking" foram constituídos generais, coronéis, capitães e tenentes no Exército Regular dos Estados Unidos; e suas tropas — as divisões e subdivisões de seu exército — eram esses mesmos grupos "jayhawking" que, pouco tempo antes, haviam sido uma turba; e o povo do Missouri foi colocado na posição de contender contra a autoridade constituída; e aquele vilão, General James H. Lane, e aquele igualmente grande vilão, General Jennison, perpetraram atrocidades que oficiais do Exército Regular dos Estados Unidos, entre eles o General Hallack, tiveram a hombridade, a coragem e a humanidade de denunciar como o mais selvagem tipo de guerra, uma desonra ao uniforme dos soldados dos Estados Unidos; e nesta denúncia foi acompanhado pelo Governador Charles Robinson, o governador unionista do Kansas.

O Missouri acusou falsamente os Santos de comunicação ilícita com os índios, e fingiu temer que seu estado fosse invadido por selvagens e seus lares fossem devastados. Era falso, como as outras acusações contra os Santos eram falsas; mas o Missouri aprendeu o que era ver este falso temor realizado; pois o governador do estado vizinho, o estado do Arkansas, autorizou Albert Pike, durante a Guerra Civil, a alistar dois regimentos de índios choctaw e chickasaw, e, com eles (ele próprio vestido como chefe indígena e pintado nas cores de guerra da tribo, para agradar os índios), Pike marchou para o estado do Missouri, e esta força foi empregada na batalha de Pea Ridge. Antes de entrar em ação, os índios, dizem, receberam bebida alcoólica e foram embriagados, para que à sua natureza selvagem se acrescentasse este outro complemento de selvageria; e a mutilação dos mortos, a desolação e o terror espalhados por estes selvagens, trouxeram a realização dos falsos temores expressos pelo povo do Missouri sobre este assunto, quando acusava falsamente os Santos de relações ilícitas com as tribos indígenas.

Os missourianos, em vez de fazerem cumprir a lei para a proteção dos Santos dos Últimos Dias no estado, reuniram-se em suas assembleias públicas e expressaram o temor de que, se os "mórmons" permanecessem, o resultado seria a guerra civil, e seus lares seriam devastados. A questão era de tal natureza, diziam, que nenhum homem, em tal evento, poderia permanecer neutro; todos deveriam ser participantes de um lado ou de outro. Fizeram disso o fundamento para exigir que os Santos dos Últimos Dias se mudassem, pelo menos, de um condado para outro, e sempre sustentaram que a presença dos Santos era uma ameaça de guerra civil. Pois bem, como nos outros casos deste paralelo, o Missouri aprendeu o que era a guerra civil antes de terminar com isso. Vos lembrareis de que o Missouri era um "cabo de escravidão" projetado para dentro de território livre — isto é, havia estados livres a leste, a oeste e ao norte dele, e ele foi atacado de todos os lados durante a Guerra Civil. Por uma maioria de oito mil votos, seu povo determinou que o Missouri não deixaria a União; e não o fez. Mas um número muito grande de seu povo — bem, quase metade deles — simpatizava com o Sul, e a luta que este travava pela separação da União. Isto trouxe uma condição de coisas no Missouri que foi das mais terríveis. Fez com que aquele estado sofresse mais do que qualquer outro estado da União sofreu; primeiro, nisto: enquanto os outros estados tiveram quatro longos anos de guerra civil, o Missouri teve, praticamente, dez, se levarmos em conta sua guerra de fronteira, pois teve cinco anos de guerra de fronteira antes de o Sul se separar, e teve vários anos de guerra civil, ou antes, guerra de guerrilha dentro de suas fronteiras, depois que a Guerra Civil terminou; sim, e até o ano de 1881, os condados ocidentais do Missouri, onde os Santos haviam habitado, e dos quais haviam sido tão injustamente expulsos, foram atormentados por bandidos, que fizeram daquela seção do Missouri uma vergonha para o estado, e o estado, uma vergonha para a nação. Durante a Guerra Civil, o Missouri forneceu sua cota de tropas ao Exército da União, num total de 109.000, incluindo 8.000 de seus antigos escravos. Mas, por simpatia à Confederação, seu povo também forneceu 30.000 tropas para essa causa, elevando sua cota de tropas em campo a 139.000. A proporção de tropas em relação à população nos estados ocidentais e centrais chegava a 13,6 por cento da população; na Nova Inglaterra, a 12 por cento da população, mas o Missouri enviou ao campo mais de 14 por cento de sua população — ou algo mais de 60 por cento daqueles no estado sujeitos à convocação para o serviço militar. Deste número enviado à frente em ambos os exércitos, 27.000 pereceram em batalha, ou de seus ferimentos, ou de doença. De um só golpe, quarenta milhões de dólares em propriedade do povo do Missouri foram apagados da existência pela emancipação de seus escravos. O Missouri deu sete milhões em receita para sustentar suas tropas em campo. Quatro anos depois de a guerra terminar, alguns dos quais anos foram prósperos, revelam as estatísticas oficiais que a propriedade tributável no Missouri era $46.000.000 menor do que era em 1860; e isto foi a guerra civil! Perdoai-me, vou me deter um pouco mais nisto, e espero que estejais interessados.

No ano de 1864, Sterling Price (o homem que fixou os grilhões nos membros de Joseph Smith, Hyrum Smith, Parley P. Pratt e Sidney Rigdon, na prisão de Richmond, condado de Ray, Missouri), à frente de doze mil homens, entrou no estado do Missouri, pelas fronteiras do sudeste dele, e abriu um rastro sinuoso de destruição através do estado, por uma distância de mais de mil e quatrocentas milhas. Durante aquele tempo, travou 43 batalhas e escaramuças; destruiu mais de dez milhões de dólares em propriedade, principalmente entre seus próprios amigos. Sua incursão se estendeu pelos próprios condados anteriormente habitados pelos Santos, de onde escapou para o estado do Kansas. Em 1863, tendo o oeste do Missouri sido um viveiro de traição, rebelião e guerra de guerrilha onde os simpatizantes do Sul podiam recrutar seus cavalos e provisões, o General Thomas Ewing, então no comando em St. Louis, determinou acabar com essas condições, e por isso emitiu sua célebre "Ordem Militar Nº 11," reconhecida como uma das mais drásticas ordens militares já emitidas neste ou em qualquer outro país, quando se leva em conta a maneira como foi executada. Deu ao povo de localidades nomeadas quinze dias para deixar seus lares, e designou os lugares para onde poderiam ir. As ordens foram executadas da forma mais drástica. As cenas de sofrimento pelas quais passaram os Santos dos Últimos Dias em 1833 foram encenadas em maior escala. Casas foram queimadas, os móveis foram empilhados nos quintais e queimados diante dos olhos dos donos; a velhice não foi respeitada; homens e mulheres foram fuzilados a sangue frio. Por toda parte reinava a desolação, e as estradas estavam repletas de gente fugindo da cruel execução dessa ordem. Foi a partir deste incidente que G. E. Bingham, o notável artista, pintou, a partir de cenas ocorridas no condado de Jackson, Missouri, sua célebre pintura, agora no Capitólio, em Washington, intitulada "Civil War" (Guerra Civil), que ele "dedicou aos amantes da liberdade civil." Naquela pintura, podeis ver o patriarca idoso, a terna donzela, o escravo negro, a matrona chorosa, as crianças assustadas deixando a grande e velha mansão, de estilo sulista, em chamas, e, por toda parte, as chaminés das casas vizinhas de pé como monumentos da desolação abundante. Isto me traz à memória uma circunstância relacionada ao Profeta Joseph Smith e ao General Doniphan. O General Doniphan era amigo de Joseph Smith; um amigo que, em certa ocasião, nobremente se opôs à execução de uma ordem de corte marcial de uma turba-milícia — e alguns dos que participaram daquela corte marcial, aliás, eram ministros, ou assim chamados ministros, do Senhor Jesus Cristo. Aquela corte marcial condenou o Profeta Joseph a ser fuzilado na praça pública de Far West, na presença de seu povo. Em certa ocasião, quando o General Doniphan estava em consulta com o Profeta, um missouriano veio acertar uma conta com Doniphan, e ofereceu, em pagamento de sua dívida, algumas terras no condado de Jackson, e Doniphan lhe disse que pensaria a respeito. Então o Profeta disse a Doniphan: "Doniphan, aconselho-o a não aceitar essa terra do condado de Jackson em pagamento dessa dívida; a ira de Deus paira sobre o condado de Jackson; o povo de Deus foi impiedosamente expulso dele, e o senhor viverá para ver o dia em que será visitado pelo fogo e pela espada; o Senhor dos Exércitos o varrerá com a vassoura da destruição; os campos, as fazendas e as casas serão destruídos, e só as chaminés restarão para marcar a desolação." Isto foi proferido em 1834. Em 1863, L. M. Lawson, homem de posição no mundo comercial, no estado de Nova York, cunhado do General Doniphan, o visitou. Aqueles de vós que conheceis a história de Doniphan sabeis que, embora fosse um veterano soldado da guerra do México, não tomou parte na Guerra Civil, senão como espectador pesaroso. Com seu cunhado, o Sr. Lawson, cavalgou até o condado de Jackson, na ocasião da visita acima mencionada, e, chegando ao cume de uma colina, e não vendo nada senão as chaminés de casas de pé por quilômetros ao redor deles, monumentos de lares outrora esplêndidos, o General Doniphan relatou a circunstância da profecia de Joseph Smith e disse que ficara muito impressionado com o que o Profeta "mórmon" lhe havia dito. Detenho-me demais nisso; permiti-me tirar a conclusão.

Vós, que me acompanhastes por este paralelo, encontrais, em cada falso temor que foi fingido pelos missourianos, em consequência de nosso povo viver entre eles, vede que ele foi respondido por uma realidade, uma terrível realidade; o pior de todos os seus falsos temores se realizou, mas não pela ação dos "mórmons." Toda falsa acusação feita contra os Santos de Deus voltou para casa, para os missourianos, a medida acumulada, comprimida e transbordante. Podeis duvidar de que existe outra coisa senão a relação de causa e efeito entre estas duas coisas? Isto me leva a esta reflexão, e esta é a lição que desejo trazer-vos, a vós, Santos dos Últimos Dias, a saber: esta experiência do Missouri nos dá a garantia de que o olho de Deus está sobre Seu povo. Vós estais dentro da sombra de Seu braço que tudo protege. Não podeis ser atacados sem causa justa, sem que resulte séria consequência para os culpados da ofensa. O mandamento ainda está em vigor: "Não toqueis os meus ungidos, e não maltrateis os meus profetas;" e, embora, em casos individuais — e é bem possível também, às vezes, em instâncias nacionais — não vivamos para testemunhar o julgamento de Deus caindo sobre homens ou estados culpados de injustiça, ainda assim é bom que tal julgamento, rápido e certo, se siga, às vezes, para que os homens não venham a pensar que a Justiça dorme, ou, o que seria pior, que ela não existe de todo. Aceito, por mim, esta terrível experiência do Missouri nas guerras de fronteira e na Guerra Civil, de 1855 a 1865, como seu castigo pelos males que infligiu aos Santos de Deus. Semeou ao vento. Quem negará que colheu a tempestade? Estive em meio às glórias da Feira que celebrou a aquisição da compra da Louisiana, realizada em St. Louis, Missouri, em 1903, e vi o Missouri honrado, naquele grupo de estados, acima de todos os outros estados, pois dentro de suas fronteiras a Feira foi realizada, e ali se reuniram a riqueza e as esplêndidas realizações de nossa civilização moderna. Dia após dia caminhei em meio à "Cidade Branca," e me lembrei do fato de que o governo havia destinado quarenta milhões de dólares para auxiliar nesta grande exposição, da qual o Missouri era o principal beneficiário; e então me perguntei por que seria assim — que este estado que tanto havia despojado e ferido o povo de Deus e o enviara, sangrando, literalmente, de seu território, para o exílio. "Por que é ele tão honrado?" perguntei-me cem vezes. Foi ao buscar a resposta a essa pergunta que fui levado à investigação destes fatos em sua história, sobre os quais me detive; e isso me levou a crer que o Missouri havia pago, até o último centavo, no que dizia respeito ao estado — o que será a prestação de contas dos indivíduos não me cabe dizer — mas, como estado, creio que o castigo do Missouri o purificou daquele grave erro, e, por isso, começam a vir a ele novas honras. Que jamais volte a perder o favor de Deus, mas, corrigido por aquelas tristes experiências, que aquela grande comunidade, na qual está o lugar central de Sião, seja multiplicada em bênçãos e paz. Que continue como começou, com braços abertos para receber de volta o povo que outrora expulsou de suas fronteiras; e, se assim o quiser, assim será, em nome de Deus, assim será, encontrará favor e bênção, onde antes encontrou condenação e castigo. Que os dias de sua paz continuem e permaneçam! Que Deus abençoe o Missouri, o lugar central de Sião.

Ora, apontei-vos o fato de que vós, Santos dos Últimos Dias, estais sob o cuidado protetor de Deus; e, ó, que força isso dá! Que conforto, que consolação! Quão corajosos deveria isso nos tornar! Quão fortes deveria isso nos inspirar a ser! Mas não deveria nos tornar orgulhosos; antes, deveria nos tornar humildes; deveria nos encher de misericórdia, de mansidão e de consideração pelos outros — pois os fortes e os corajosos são sempre mansos e generosos — e, sentindo à nossa volta, como devemos sentir, a força de Deus, estas qualidades de mansidão, generosidade e justiça para com os outros deveriam sempre caracterizar a Igreja de Deus, os Santos dos Últimos Dias.

Apenas mais uma palavra: que aqueles que, em seu orgulho, amargura de coração e maldade de disposição, atacam esta obra, aprendam uma lição do Missouri; pois estamos falando daquilo que é, da verdade, e não de falácias ou quimeras; e assim, com bondade, trago à sua atenção esta triste experiência do Missouri, para que possa adverti-los contra o mal de seus caminhos. Quero dar testemunho da verdade do que meu amigo e irmão, o Élder Whitney, disse outro dia, de que as deturpações que são fulminadas aqui em nossa sede e espalhadas amplamente pela nação, estão numa relação de causa a efeito, escrita em violência. Sou testemunha da realidade disso: vi os corpos mutilados, dilacerados por balas, de homens no Tennessee que foram martirizados, não tanto pelas mãos de ignorantes e obtusos homens do mato, mas por aqueles que fulminaram a maligna mentira primeiro publicada aqui em Salt Lake City, Utah, e que depois foi difundida por chamados ministros do evangelho no condado de Lewis, Tennessee, de casa em casa, até que homens ignorantes daquela localidade se inflamaram de paixão, e, sem dúvida, alguns deles pensaram que estavam realmente prestando serviço a Deus ao assassinar os servos de Deus. Digo que estes pobres homens ignorantes, que abateram nossos irmãos a sangue frio, estavam para com aqueles que fulminaram a falsidade que acendeu as chamas do ódio em seus corações como a mão está para a mente — a mão para o homem em ação. Nem é isso o pior. O então governador do território de Utah, Eli H. Murray, viu-se na necessidade de tentar converter este assassinato num meio de realizar o fim da conspiração que então se tramava em Utah contra o povo de Deus. Num telegrama ao Governador Bate, desde então Senador dos Estados Unidos Bate, presumiu agradecer a Sua Excelência do Tennessee por oferecer uma recompensa que o Élder Golden Kimball, que está aqui sentado, e eu mesmo o induzimos a oferecer, por meio de petições repetidas e insistência no assunto — digo que o governador de Utah agradeceu ao governador do Tennessee por tentar levar à justiça aqueles que haviam cometido este crime, mas foi extremamente cuidadoso, duas vezes em seu telegrama, em dizer ao governador que estes homens eram apenas "agentes de crime organizado," e disse-lhe também que, enquanto os representantes do Tennessee no Congresso recusassem seu consentimento à legislação então pendente perante o Congresso, estas cenas provavelmente se repetiriam contra os agentes do "crime organizado." Atos como estes, em auxílio e cumplicidade com o crime, são infames; e os homens que, pela falsidade e sua promulgação, enraivecem os ignorantes e os incitam a atos de violência, são os maiores criminosos. Indivíduos culpados de tais atos serão responsabilizados por eles, agora ou no mundo vindouro; e estados e nações que participam de atos de injustiça, como no caso do estado do Missouri, em sua conduta para com os Santos dos Últimos Dias, encontrarão, em algum momento e em algum lugar, justa retribuição.

Meus irmãos e irmãs, o Evangelho é verdadeiro; recebemos uma dispensação especial dele. Cabe a nós sermos verdadeiros e fiéis a ele, o que rogo que possamos ser, em nome de Jesus. Amém.

Como citar este discursoB. H. Roberts, “Defendendo os Santos e a Retribuição da História”, Conferência Geral de Outubro de 1907, Sessão da Tarde do Terceiro Dia (1907-10-06). Pulpit Vault, 1907-10-roberts-defense-of-saints. Tradução desta edição, por método de glossário, archive.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).