Estou Consciente De Que Falo A...
Gordon B. Hinckley
Estou consciente de que falo a muitas vezes mais pessoas fora deste histórico edifício do que as aqui reunidas. Busco a inspiração do Senhor para que minhas palavras encontrem recepção em vossos corações. ¶
Uma das cenas fascinantes e desafiadoras desta estação é a procissão de milhões de jovens homens e mulheres que retornam às universidades. Percebe-se não apenas suas grandes expectativas, mas também seus temores e frustrações. Outros de sua idade estão deprimidos pelo fato de estarem sendo convocados para as forças armadas para formar uma vasta reserva militar, enquanto seus colegas em serviço ativo estão envolvidos numa guerra não declarada, mas ainda assim real e sangrenta, numa terra distante e estranha. ¶
Tempo Frustrante Para A Juventude
Ninguém precisa ser lembrado de que este é um tempo frustrante para a juventude. Muitos se veem em rebelião contra as práticas e as instituições de nossos dias. São sinceros em seu descontentamento. Têm fome de algo melhor. ¶
Chegaram a perceber que há valores que o dinheiro não pode comprar. Sentem falta da estabilidade da vida familiar à moda antiga; anseiam por um relacionamento mais pessoal com professores que possam desafiar suas mentes inquisitivas. Muitos estão desiludidos com os antigos padrões de patriotismo e lealdade. Mesmo nas igrejas, muitos se viram adorando um ritual morto em vez do Deus Vivo. Tiveram fome de pão e receberam uma pedra. ¶
Aqueles de vós que testemunharam ou leram sobre os motins de Berkeley na primavera passada, e motins menores em outras escolas, não podem minimizar a seriedade da situação em que se encontram milhares de nossos jovens. ¶
Não posso concordar com muito do que fizeram para dar voz a seus protestos, mas posso concordar que muitos deles merecem algo melhor do que estão recebendo. Estão sendo enganados — por si mesmos, em parte — mas mais ainda por nós, seus pais, seus professores, seus líderes. Eles têm direito a mais, e é nossa obrigação oferecê-lo. E assim, gostaria de falar àqueles de minha própria geração e propor, com grande seriedade, uma carta de direitos para a juventude baseada no evangelho que professamos. ¶
É uma carta de quatro pontos. É uma carta de direitos, expondo brevemente alguns daqueles valores inestimáveis que devemos a todo jovem americano, e à juventude do mundo. São eles — 1. Um lar em que crescer. ¶
Um Lar Em Que Crescer
Menciono primeiro um lar em que crescer. ¶
Recentemente li um artigo escrito por um jovem que percorreu o campus de Berkeley e seus arredores. Suas descrições eram engenhosas, mas suas ilustrações eram trágicas. Ele falou de uma moça, uma estudante de um lar abastado. Seu pai era um homem de posses, um executivo de uma grande corporação, leal à empresa, leal a seu clube, leal a seu partido, mas, sem o perceber, um traidor de sua família. Sua mãe havia salvado a ópera cívica, mas havia perdido seus filhos. A filha, uma criança de promessa, envolvera-se numa revolta estudantil e, sem âncora, abandonara a escola e derivara para o meio dos beatniks, suas satisfações fugazes vindo apenas de noites de farra e dias de rebeldia. ¶
Naturalmente, seu pai lamentava e sua mãe chorava. Eles a culpavam, evidentemente inconscientes de seu próprio exemplo lastimável de paternidade, que muito contribuíra para trazê-la às trágicas circunstâncias em que se encontrava. ¶
Ao ler aquele relato, passou por minha mente a declaração clássica proferida neste púlpito pelo Presidente McKay — "Nenhum outro sucesso pode compensar o fracasso no lar." ¶
É a herança de direito de toda criança fazer parte de um lar em que crescer — crescer no amor no relacionamento familiar, crescer na apreciação uns pelos outros, crescer na compreensão das coisas do mundo, crescer no conhecimento das coisas de Deus. ¶
Recentemente me foram entregues estas estatísticas, tiradas dos registros do condado de uma de nossas comunidades do Sudoeste. Em 1964, neste condado de que falo, houve 5.807 casamentos e 5.419 divórcios, quase um divórcio para cada casamento. Podemos esperar estabilidade a partir da instabilidade? Será de admirar que muitos de nossos jovens vaguem em rebelião quando vêm de lares em que não há evidência de amor, em que há falta de respeito uns pelos outros, em que não há expressão de fé? Ouvimos muito, nestes dias, a respeito da Grande Sociedade, e não desprezo os motivos daqueles que a defendem, mas somente teremos uma grande sociedade à medida que desenvolvermos boas pessoas, e a fonte de boas pessoas são bons lares. ¶
Foi dito antigamente: "Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; . . ." (Salmos 127:1.) Nossos filhos merecem tal lar em que crescer. Não falo da arquitetura ou da mobília. ¶
Falo da qualidade de nossa vida familiar. Sou grato por termos, como Igreja, como parte básica de nosso programa, a prática de uma noite familiar semanal. É algo significativo que, nestes dias atarefados, milhares de famílias por todo o mundo estejam fazendo um esforço sincero para consagrar uma noite por semana para cantar juntas, instruir-se mutuamente nos caminhos do Senhor, ajoelhar-se juntas em oração, ali para agradecer ao Senhor por suas misericórdias e invocar suas bênçãos sobre nossas vidas, nossos lares, nossos trabalhos, nossa terra. ¶
Penso que pouco estimamos o vasto bem que virá deste programa. ¶
Recomendo-o a nosso povo, e recomendo-o a cada pai na terra, e digo que estamos prontos para vos assistir, os que não sois de nossa fé.* Teremos satisfação em enviar-vos sugestões e materiais sobre como conduzir uma noite familiar semanal, e não hesito em vos prometer que tanto vós quanto vossos filhos ficareis cada vez mais gratos pela observância desta prática. Foi João quem declarou: "Não tenho maior alegria do que esta: de ouvir que os meus filhos andam na verdade." (3 João 4.) Esta será vossa bênção. ¶
E foi Isaías que disse: ". . . todos os teus filhos serão ensinados do Senhor; e a paz de teus filhos será abundante." (Isa. 54:13.) Não podemos nos dar ao luxo de desconsiderar o sagrado mandato que sobre nós recai de ensinar nossos filhos, primeiro pelo exemplo de nossa própria vida e, em segundo lugar, por aqueles preceitos que, se seguidos, trarão paz às suas vidas. Toda criança tem direito à bênção de um bom lar. ¶
Uma Educação Pela Qual Vale A Pena Lutar
Passo à segunda premissa desta carta para a juventude — uma educação pela qual vale a pena lutar. O tempo permitirá pouco mais do que uma breve menção a algumas observações. ¶
A educação tornou-se nosso maior negócio. Em termos econômicos apenas, é maior do que o aço, ou os automóveis, ou os produtos químicos. Em termos de sua influência sobre nossa sociedade, seu impacto é incalculável. Seu próprio tamanho, particularmente em nossas universidades, trouxe à tona seu problema mais sério — uma falta de comunicação entre professor e aluno, e uma consequente falta de motivação daqueles que vêm para ser ensinados. ¶
Um artigo recente numa de nossas revistas nacionais continha esta declaração de um professor universitário: ". . . dificilmente houve um tempo, em minha experiência, em que os estudantes precisassem mais de atenção e de escuta paciente por parte de professores experientes do que hoje. A pena é que muitos de nós recuamos para a pesquisa, os contratos governamentais e as viagens de licença sabática, deixando o aconselhamento e a instrução para colegas juniores e assistentes de pós-graduação. . . . O que se necessita são menos livros e artigos escritos por professores universitários e mais busca cooperativa por professor e aluno de uma autoridade sobre a qual basear a liberdade e a individualidade." (J. Glenn Gray, Harper's Magazine, maio de 1965, p. 59.) Estou ciente da pressão de "publicar ou perecer" sob a qual os professores trabalham em algumas de nossas universidades, mas gostaria de dizer a estes professores que vossas eruditas monografias renderão pouca satisfação, com o passar dos anos, se descobrirdes que, enquanto publicáveis, vossos alunos pereciam. ¶
Os grandes pensamentos, as grandes expressões, os grandes atos de todos os tempos merecem mais do que uma crítica superficial. ¶
Merecem uma apresentação simpática e entusiástica à juventude, que em seu coração tem fome de ideais e anseia por olhar para as estrelas. Tampouco é nossa responsabilidade, como professores, destruir a fé daqueles que a nós vêm; é nossa oportunidade reconhecer e edificar sobre essa fé. Se Deus é o autor de toda verdade, como cremos, então não pode haver conflito entre a verdadeira ciência, a verdadeira filosofia e a verdadeira religião. E, além disso, como disse George Santayana: "Não é sabedoria ser apenas sábio, E fechar os olhos à visão interior, Mas é sabedoria crer no coração." ¶
("O World.") Vossos alunos merecem mais do que vosso conhecimento. Merecem e têm fome de vossa inspiração. Querem o calor dos relacionamentos pessoais. Esta sempre foi a marca distintiva de um grande professor, "que é o cúmplice do aluno na aprendizagem, e não seu adversário." Esta é a educação pela qual vale a pena lutar, e a educação pela qual vale a pena zelar. ¶
Uma Terra Da Qual Se Orgulhar
Passo ao próximo — uma terra da qual se orgulhar. O Congresso recentemente aprovou uma lei impondo penalidades severas para a destruição voluntária de cartões de recrutamento. Aquela destruição foi essencialmente um ato de desafio, mas foi mais séria como sintoma de um mal que dificilmente será curado por legislação. O patriotismo evidentemente se foi do coração de muitos de nossos jovens. ¶
Talvez esta condição venha da falta de conhecimento, um provincianismo que nada mais conhece e zomba do pouco que sabe. Talvez venha da ingratidão. Esta atitude não é nova. ¶
Josué, falando em nome do Senhor, sem dúvida tinha em mente esta mesma indiferença quando disse a uma nova geração que não conhecera as provações da antiga: "... eu vos dei a terra em que não trabalhastes, e cidades que não edificastes, e habitais nelas, e comeis das vinhas e dos olivais que não plantastes." ¶
(Josué 24:13.) Aqueles que pagaram com labuta e lágrimas por sua herança amaram a terra em que viveram. Os antepassados de muitos dos aqui reunidos neste Tabernáculo hoje caminharam a longa trilha pela pradaria e pelas montanhas. Nestes vales, cavaram e labutaram para arrancar o sustento do deserto. Vieram a amar aquilo por que labutaram, e um grande patriotismo encheu suas almas. ¶
Não construiremos o amor à pátria retirando de nossa juventude os princípios que nos fizeram fortes — a economia, a iniciativa, a autoconfiança e um senso soberano de dever para com Deus e para com o homem. ¶
Um terrível preço foi pago por aqueles que nos precederam, para que pudéssemos ter as bênçãos da liberdade e da paz. Estive, não faz muito, em Valley Forge, onde George Washington e seu exército esfarrapado passaram o inverno de 1776. Ao fazê-lo, pensei numa cena da peça de Maxwell Anderson em que Washington olha para um pequeno grupo de seus soldados, cobrindo com pá a terra fria sobre um camarada morto, e diz sombriamente: "Esta liberdade parecerá fácil, com o tempo, quando ninguém mais morrer para obtê-la." ¶
Como precisamos acender, no coração da juventude, um amor à moda antiga pela pátria e uma reverência pela terra de seu nascimento. Mas não o faremos com manobras políticas vulgares e enormes doações pelas quais nada é dado em troca. ¶
O amor à pátria nasce de matéria mais nobre — do desafio da luta que torna precioso o prêmio conquistado. ¶
Esta é uma boa terra, declarada pelo Senhor na escritura em que cremos, ser "... uma terra ... escolhida acima de todas as outras terras" (1 Néfi 2:20), governada sob uma constituição estruturada sob a inspiração do Todo-Poderoso. ¶
"Existirá o homem, de alma tão morta, Que nunca a si mesmo tenha dito, Esta é minha, minha terra natal!" ¶
(Sir Walter Scott, de "The Lay of the Last Minstrel," Canto VI, est. 1.) É isto de que a juventude necessita — orgulho de nascimento, orgulho de herança, orgulho da terra da qual cada um faz parte. ¶
Uma Fé Pela Qual Viver
E agora a quarta premissa de minha carta — uma fé pela qual viver. ¶
Foi dito antigamente que "não havendo visão, o povo fica desenfreado: . . ." ¶
(Prov. 29:18.) Visão de quê? Visão a respeito das coisas de Deus, e uma severa e inflexível adesão a padrões divinamente pronunciados. Há evidência de sobra de que os jovens responderão ao chamado claro da verdade divina, mas são rápidos em detectar e abandonar aquilo que tem apenas uma forma de piedade, mas nega o seu poder, "ensinando doutrinas que são preceitos dos homens." (Mat. 15:9; ver Joseph Smith 2:19.) Tenho sincero respeito por meus irmãos de outras fés, e sei que estão cientes do grande problema que enfrentam numa diluição de seus ensinamentos, à medida que alguns tentam tornar sua doutrina mais geralmente aceitável. O Dr. Robert McAffee Brown, professor de religião em Stanford, foi recentemente citado como tendo dito: ¶
"Muito do que está acontecendo atualmente na cena protestante dá a impressão de disposição para descartar o que for necessário para apelar à mentalidade moderna. . . . ¶
"Não é tarefa dos cristãos ir aparando sua herança até que finalmente se torne palatável a todos." (The Daily Herald [Provo, Utah], 12 de agosto de 1965, p. 13A.) A isto poderíamos acrescentar que aquilo que é palatável a todos dificilmente será satisfatório para alguém, e particularmente para uma geração de jovens homens e mulheres em busca, indagação e investigação. ¶
Em meio a toda a mudança ao seu redor, precisam de uma constância de fé em verdades imutáveis. Precisam do testemunho de seus pais e de seus professores, de seus pregadores e de seus líderes, de que Deus, nosso Pai Eterno, vive e governa sobre o universo; de que Jesus é o Cristo, seu Unigênito na carne, o Salvador do mundo; de que os céus não estão selados; de que a revelação vem àqueles designados por Deus para recebê-la; de que a autoridade divina está sobre a terra. ¶
Sei que os jovens homens e mulheres responderão a esta fé e a este desafio. Temos quase doze mil deles hoje servindo pelo mundo como missionários. Sua força é uma fé certa. Sua causa é a causa de Cristo, o Príncipe da paz. Sua declaração é um testemunho de que Deus novamente falou desde os céus. Seu ministério é a serviço de seus semelhantes. Sua alegria, como a do Mestre, está na alma que se arrepende. ¶
Estive com eles nas ruas lamacentas da Coreia e nas estradas apinhadas de Hong Kong. Estive com eles nas cidades e vilas da América. Estive com eles nas grandes capitais e nas vilas tranquilas da Europa. São os mesmos em toda parte, servindo por dois ou mais anos à sua própria custa na causa do Mestre e da humanidade. ¶
Espero sinceramente que, se houver algum entre aqueles que ouvem neste dia à cuja porta um missionário mórmon venha bater, o recebais e o escuteis. Descobrireis que ele é um jovem com uma fé pela qual viver e uma convicção a compartilhar. Descobrireis que ele é um jovem feliz, alerta e vivaz, não envergonhado do evangelho de Jesus Cristo e com a capacidade de explicar a razão da fé que há dentro dele. ¶
E, à medida que o conhecerdes melhor, descobrireis que ele provavelmente cresceu num lar onde havia amor e virtude, paciência e oração; que estava frequentando a escola quando partiu em sua missão e espera retornar para sentar-se aos pés de bons conselheiros e capazes professores e participar da sabedoria e do conhecimento misturados com a fé; que, com uma grande herança de antepassados que desbravaram o deserto por amor da consciência, ama a terra da qual faz parte; e que carrega em seu coração uma certa e silenciosa convicção da realidade viva de Deus e do Senhor Jesus Cristo, e da certeza de que a vida é eterna e cheia de propósito. ¶
Quisera que todo jovem homem e mulher na terra pudesse ser abençoado a desenvolver-se e viver sob tal carta para a juventude — para que cada um pudesse ter um lar em que crescer, uma educação pela qual valesse a pena lutar, uma terra da qual se orgulhar, uma fé pela qual viver. ¶
Nós, seus pais, seus professores, seus líderes, podemos ajudá-los. Que Deus nos ajude a assim fazer, para que possamos abençoar suas vidas e, ao fazê-lo, abençoar as nossas próprias, humildemente oro em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶