Somos Cristãos
Hugh B. Brown
Oro humildemente para que eu possa ter a liberdade que vem da posse do Espírito Santo e para que vossas orações e as minhas sejam eficazes para esse fim. ¶
Como foi mencionado, acabamos de retornar de uma visita às missões no Pacífico Sul, e temos certeza de que vós, pais, amigos e parentes dos missionários que ali labutam, tereis interesse em saber que eles estão bem, felizes e realizando uma obra maravilhosa. Enviam-vos, e a todos os membros da Igreja, seu amor, suas saudações e sua gratidão. Encontramo-nos com 575 deles enquanto lá estávamos, realizamos reuniões com eles, ouvimos seus testemunhos, discutimos com eles alguns de seus problemas e fomos inspirados por sua fé e devoção. ¶
Por toda parte aonde fomos, o povo vivia no rescaldo luminoso da recente visita do Presidente David O. McKay e de sua esposa. ¶
Para milhares, isso marcou o auge de suas experiências espirituais. Desejamos agradecer publicamente a ele e a seus conselheiros pelo inestimável privilégio de visitar o maravilhoso povo daquelas ilhas e pela honra de comparecer à cerimônia de lançamento da pedra angular do Templo da Nova Zelândia. ¶
Outros dois nomes são imortais entre os polinésios. O amor deles pelo Élder Matthew Cowley e sua esposa beira a devoção. Mencionam seus nomes em tons reverentes e cantam hinos especiais escritos em memória de seus anos de serviço amoroso e devotado. ¶
Além desses missionários regulares, há outros 500 missionários de trabalho locais e 120 supervisores de trabalho de Sião trabalhando ali sob a liderança inspirada e competente do Presidente Wendell B. Mendenhall. ¶
Há agora quarenta e uma capelas em construção, cinco grandes projetos de faculdades, quatro lares de missão, e outras trinta capelas estarão em construção dentro do ano. Penso que, em toda a história da Igreja, jamais tivemos um exemplo mais inspirador de esforço cooperativo voluntário do que vimos nos projetos de faculdades e templos na Nova Zelândia e no Havaí. Os missionários e supervisores não apenas trabalham nesses projetos sem remuneração — muitas vezes cantando enquanto trabalham — mas a maioria deles também é hospedada e alimentada pelos membros locais da Igreja. Um representante da imprensa, após visitar o projeto da Nova Zelândia, expressou espanto e disse: "Uma obra mais completamente altruísta jamais chegou ao meu conhecimento." ¶
Há agora mais de 59.000 membros da Igreja no Pacífico Sul, e, à medida que viajávamos entre eles, lembramo-nos dos primeiros missionários que ali estiveram quando as condições eram bem diferentes. Pensamos no Presidente Joseph F. Smith, no Presidente George Q. ¶
Cannon, em meu próprio avô, James S. Brown, e em outros, que suportaram dificuldades e privações sob aquelas condições primitivas. De fato, alguns deles correram, por vezes, o perigo de se tornarem o ingrediente principal de um cozido à moda antiga. Foram misericordiosamente preservados disso. Esperamos que aqueles que plantaram aquelas primeiras sementes estejam compartilhando conosco a alegria de uma maravilhosa colheita. ¶
Trazemos-vos, então, dos dignos, humildes e fiéis polinésios e outros no Pacífico Sul, que nos cobriram de amor e de colares de flores, seu "Aloha — Kiaora Koutou Katoa," ou, em outras palavras, "Saudações, e Deus vos abençoe." ¶
Durante nossa viagem, muitas perguntas foram feitas a respeito da Igreja e de suas atividades. A que mais frequentemente se fazia era: "Os mórmons são cristãos e, se são, em que a Igreja difere das outras igrejas cristãs?" ¶
Ora, se ser cristão significa crer que Jesus de Nazaré era o Filho de Deus, o Redentor do mundo, e seguir seus ensinamentos; se ser cristão significa viver ou tentar viver a vida cristã como ele orientou, então respondemos à primeira parte dessa pergunta com um categórico: "Sim, somos cristãos." ¶
A resposta à segunda parte da pergunta é complexa e não pode ser dada em um breve discurso. Contudo, talvez alguns de nossos amigos não membros que nos honraram com sua presença aqui, ou entre os ouvintes de rádio e televisão, tenham interesse em uma breve referência a algumas dessas diferenças. ¶
As treze Regras de Fé, publicadas pela Igreja em 1842, equivalem aproximadamente aos credos de outras organizações religiosas. Nelas se estabelece uma declaração concisa e autorizada sobre os ensinamentos de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. É claro que apontar as diferenças entre esses ensinamentos e os de outros exigiria uma análise e uma discussão muito além dos limites de tempo desta ocasião e da capacidade do orador. Podemos, porém, referir-nos de passagem a algumas delas. Vale notar, e sem dúvida surpreenderá alguns, que tudo o que ensinamos ou praticamos se baseia e está em estrita harmonia com a Versão Autorizada do Rei Jaime da Bíblia Sagrada, que aceitamos como a palavra de Deus. ¶
Cremos em outras escrituras além da Bíblia Sagrada; escrituras que foram produzidas como as escrituras sempre foram produzidas, por, como disse Pedro, "homens santos de Deus [que] falaram inspirados pelo Espírito Santo." (2 Pedro 1:21.) Há um acordo meticuloso entre o Livro de Mórmon e a Bíblia Sagrada, um acordo não apenas quanto à doutrina básica, mas ambos também têm o mesmo tema central, a saber: predizer o acontecimento, registrar o advento e testificar da importância da vida e da missão de Jesus, o Cristo. O fato de que esses volumes sagrados foram escritos em hemisférios diferentes, em épocas em que não havia intercomunicação, não é apenas evidência de propósito divino, mas também indica autoria inspirada. ¶
Os Santos dos Últimos Dias, como os santos de outrora, creem nos dons do Espírito enumerados pelo apóstolo Paulo: línguas, profecia, revelação, visões, curas, interpretação de línguas, etc. (Ver 1 Coríntios 12:7-10.) Cremos que esses dons, tal como são hoje desfrutados, fazem parte das bênçãos que vieram por meio da restauração do evangelho. Percebemos que, ao dizermos que foram restaurados à Igreja, isso implica que foram retirados ou deixaram de ser desfrutados. A história, tanto profana quanto sagrada, confirma esse fato. ¶
Muitos escritores cristãos sinceros e devotos afirmam e lamentam a perda desses dons, e concordam com John Wesley que não foram desfrutados além do segundo ou terceiro século, e raramente foram conhecidos depois "daquele período fatídico em que o imperador Constantino se declarou cristão." ¶
Nossa observância da Palavra de Sabedoria, a lei da saúde dada por Deus, é distintiva e é uma bênção física e espiritual para o povo. Nesta conferência, já se fez referência ao terrível preço que o mundo está pagando pelo uso de coisas que Deus disse não serem boas para o homem. ¶
Praticamos a lei do dízimo como foi ensinada e praticada antigamente, e, sendo a lei financeira do Senhor, consideramo-la superior a qualquer sistema econômico feito pelo homem. As ofertas de jejum, o programa de bem-estar administrado pelo sacerdócio, a Sociedade de Socorro e outras agências são uma extensão da política econômica da Igreja, tendo sempre em mente o bem-estar tanto físico quanto espiritual do povo. ¶
Alguns se queixam de que somos demasiadamente materialistas, de que nossos ensinamentos carecem de ênfase espiritual; dizem que deveríamos manter a vida espiritual livre da contaminação com o material, o qual, segundo eles, é grosseiro e mau. Mas somos lembrados de que o corpo do homem foi feito à imagem de Deus, do pó da terra. Que o Salvador não considerava as substâncias terrenas como más evidencia-se pelo fato de que ele foi batizado no elemento terreno da água, e apontou tal batismo como a porta de entrada para seu reino a todos os que o seguissem. ¶
Além disso, ele ensinou as mais profundas verdades sobre o espírito humano por meio de referências a coisas materiais comuns, tais como as aves do céu, os lírios do campo, ovelhas e pastores, e lavradores semeando. Escolheu humildes pescadores para serem seus discípulos e não apenas os ensinou a se tornarem pescadores de homens, mas também lhes deu uma lição de como pescar peixes. Ele e seus apóstolos passaram grande parte de seu tempo ministrando aos pobres, curando os enfermos, movendo-se entre o povo comum enquanto este se ocupava dos afazeres mundanos da vida, restaurando tanto o corpo quanto a alma dos homens. ¶
Cremos que a religião deve tocar a vida dos homens de modo redentor aqui e agora, em cada ponto da experiência humana, que a matéria não é essencialmente má, mas que seu propósito é servir ao espírito, ao passo que o espírito controla e glorifica a matéria. Há uma relação benéfica e eterna entre o espírito e o elemento. ¶
O Senhor, falando por meio do Profeta Joseph Smith, declarou: Pois o homem é espírito. Os elementos são eternos, e espírito e elemento, inseparavelmente ligados, recebem a plenitude da alegria; E, quando separados, não pode o homem receber a plenitude da alegria. ¶
Os elementos são o tabernáculo de Deus; sim, o homem é o tabernáculo de Deus, ou melhor, templos; . . . (D&C 93:33-35.) Cremos que o evangelho de Jesus Cristo deve ser pregado a todo o mundo, e para esse fim temos um grande e singular sistema missionário. Jovens rapazes e moças são chamados, aos milhares a cada ano, para dedicar dois ou três anos de sua vida ao serviço missionário, à própria custa. Estão dispostos a interromper seus estudos, adiar seu casamento ou abandonar seu emprego a fim de realizar esse serviço. ¶
Como ouvimos ontem, há agora 13.000 deles, dentro e fora do país, em várias fases da atividade missionária. ¶
Esses jovens são instruídos a não atacar nem lançar quaisquer difamações contra outras igrejas, mas a respeitar o direito de cada homem de adorar a Deus como bem entender. ¶
A organização, o governo e a disciplina da Igreja têm atraído ampla e favorável atenção. A Igreja confere o sacerdócio a todos os membros do sexo masculino dignos, acima de doze anos de idade. Com uma associação total de menos de um milhão e meio, temos 372.530 homens e rapazes que possuem algum ofício no sacerdócio. Isso significa uma partilha de autoridade e responsabilidade, resultando em amplo interesse e atividade. Ontem à noite, por exemplo, realizou-se uma reunião geral do sacerdócio da Igreja neste tabernáculo, e os procedimentos foram transmitidos por rádio de circuito fechado a grupos em noventa e seis capelas nas cidades e estados vizinhos, onde um total de 37.180 homens portadores do sacerdócio receberam instruções dos líderes da Igreja. ¶
Assim poderíamos continuar, muito além dos limites de tempo aqui, apenas listando os ensinamentos distintivos da Igreja. Mas há uma diferença básica e fundamental para a qual chamamos a atenção por um momento, a saber, a doutrina da Divindade. Sobre este assunto de transcendente importância, discordamos de modo agudo, mas amistoso, dos credos dos homens, e estamos dispostos a fundamentar nossa posição em precedentes bíblicos e revelação divina. Adoramos o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, o Jeová do Antigo Testamento. Cremos que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus e o Messias esperado ao longo dos séculos, mas rejeitado quando veio. ¶
Cremos que a Trindade consiste no Pai, no Filho e no Espírito Santo, geralmente conhecida como a Santíssima Trindade, mas cremos que são Personagens separados e distintos, que o Pai e o Filho são pessoais e materiais, e cada vez mais compreensíveis à medida que os homens progridem e adquirem entendimento; que o Pai e o Filho têm corpos compostos de partes e possuidores de sentimentos; que o Espírito Santo é um Personagem de Espírito. ¶
Se Jesus de Nazaré era e é Deus, como João, o Amado, e outros o declararam ser (ver João 1:1-3), então Deus deve ser pessoal e material. Não foi uma essência incompreensível e imaterial que saiu do túmulo, mas o corpo glorificado e ressuscitado de Jesus, o Cristo; era um corpo de carne e ossos, como ele mesmo declarou, e como Tomé foi chamado a verificar tanto pelo tato quanto pela vista. Foi esse corpo que ascendeu ao céu na presença dos assombrados discípulos. ¶
Foi esse corpo que os anjos presentes declararam que haveria de voltar, quando disseram: Homens galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir. (Atos 1:11.) Quando Jesus veio e revelou Deus aos homens, apresentou-lhes um ideal pessoal e vivo e os exortou a se tornarem perfeitos, assim como seu Pai é perfeito. O valor de se ter um ideal é que ele inspira emulação. Buscamos nos tornar como aquilo que adoramos. ¶
Certamente ninguém aspira a se tornar uma essência difusa e imaterial, desprovida de corpo, partes ou sentimentos, e sem centro nem circunferência. A fé de que um Deus vivo e pessoal é o Pai do espírito humano encoraja os homens a expandirem seus horizontes, a olharem para cima, e não para baixo, em busca de sua origem. Amplia sua perspectiva, e a vida assume novo interesse e novo significado. Encoraja os homens a viverem mais abundantemente, e ele disse que este era um dos propósitos de sua vinda. ¶
Porque o Pai nos chamou de filhos e o Salvador nos chamou de irmãos, postulamos para o homem uma condição exaltada e semelhante à de Deus, com possibilidades quase ilimitadas. Essa qualidade de imagem de Deus no homem, que é a raiz de sua dignidade, dá à vida um significado mais profundo e um propósito mais elevado, estabelece fé e fortaleza, e fornece o valor necessário para realizar a visão sem a qual o povo perece. Renova a determinação do homem de perseguir a busca eterna por respostas ao de onde, ao porquê e ao para onde da vida. ¶
Novamente, se Deus não é compreensível, então a salvação do homem é impossível, pois Jesus disse: E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. (João 17:3.) Se, portanto, não podemos conhecê-lo, então não podemos ter a vida eterna, e, se assim for, então todo o plano de salvação fracassa, a doutrina da expiação é falsa e sem sentido, e os homens ficam no mais profundo inferno de Dante, "desejando sem esperança." Concordamos com Milton que "o fim de todo o aprendizado é conhecer a Deus e, a partir desse conhecimento, amá-lo e emulá-lo." ¶
Infelizmente, na mente de muitas pessoas religiosas, o termo Deus é ambíguo. Mas não havia nada de ambíguo no conceito que os profetas hebreus tinham de Jeová. Para eles, ele era um Deus vivo, com quem Moisés e outros falavam. Certamente não havia nada de misterioso ou difícil de compreender na revelação que Cristo fez de seu Pai. Ele disse: "quem me vê a mim vê o Pai." Cremos em um Deus vivo, um Ser consciente, senciente e inteligente, ao qual associamos os mais elevados atributos da personalidade em seu pleno desenvolvimento. ¶
Se essa alegação de uma restauração for verdadeira, então devemos esperar que a Igreja primitiva seja um protótipo da Igreja restaurada, pois não apenas ele, mas também seus ensinamentos, são os mesmos, ontem, hoje e para sempre. Segue-se, então, que para delinear a diferença entre a Igreja restaurada e as outras igrejas, basta familiarizar-se com a Igreja tal como foi organizada por Cristo e seus apóstolos no meridiano do tempo, e depois comparar as igrejas dos tempos modernos com aquela Igreja primitiva. Quaisquer diferenças que apareçam são as diferenças entre as igrejas dos homens e a Igreja restaurada de Jesus Cristo. ¶
Além disso, nossa fé na materialidade e nas individualidades separadas do Pai e do Filho sustenta a fé na doutrina da segunda vinda de Cristo, quando ele reinará durante o milênio e teremos mil anos de paz. Os profetas antigos predisseram sua segunda vinda em termos nada incertos ou místicos. Referimo-nos a Jó, Salmos, Isaías, Joel, Zacarias, Malaquias e outros. Ele mesmo prometeu que viria na glória do Pai com seus anjos. ¶
Lemos em Mateus: E quando o Filho do Homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; ¶
E todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas, (Mateus 25:31-32.) Paulo, ao escrever aos tessalonicenses, disse: Porque o mesmo Senhor descerá do céu com um brado, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus: ¶
e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro: ¶
(1 Tessalonicenses 4:16.) Testificamos da restauração do evangelho do Senhor Jesus Cristo. Testificamos que a Igreja foi organizada e que, como seu protótipo, a Igreja primitiva, está edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo o próprio Jesus Cristo a principal pedra angular. Por meio dessa restauração, foi dado aos homens o direito de falar e agir em nome de Deus como antigamente, e, por meio da concessão e do exercício desses dons entre os homens, a verdade foi restaurada, e nós humildemente a proclamamos. ¶
O tempo não permitirá sequer mencionar outras — e há muitas outras — diferenças, mas repetimos: somos cristãos; cremos na Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, nas escrituras sagradas, antigas e modernas; cremos na doutrina da segunda vinda do Cristo, e cremos que, quando ele vier, será, como a Bíblia prometeu, um Ser glorificado e ressuscitado, cujos pés se colocarão sobre o Monte das Oliveiras. Aguardamos ansiosamente essa vinda e oramos para que Deus nos ajude, a nós e a todos os homens, a nos prepararmos para ela, em nome de Jesus Cristo. ¶
Amém. ¶