Preparando um Povo para o Reinado Milenar
Harold B. Lee
Esta tarde sinto-me encorajado, pelo impressionante discurso do Presidente McKay na abertura desta conferência, a dar humilde expressão a alguns pensamentos que tenho tido sobre o que considero ser um dos assuntos mais importantes que dizem respeito aos Santos dos Últimos Dias hoje. ¶
Na Documentary History of the Church, Volume IV, está registrado um incidente, e está copiada uma carta que foi preparada pelo Profeta Joseph Smith a pedido do editor e proprietário de um jornal, que havia pedido ao Profeta que escrevesse um artigo contando o surgimento, o progresso, as perseguições e a fé dos Santos dos Últimos Dias. O Profeta concordou em fazê-lo sob uma condição: que publicassem seu artigo na íntegra, sem supressões nem alterações. Aparece então, nessa carta, ou nesse artigo escrito para o jornal, um dos mais importantes documentos históricos que temos na história da Igreja. ¶
Nessa carta, o Profeta Joseph Smith contou uma experiência que teve na noite de 21 de setembro de 1823. Enquanto orava humildemente a Deus, de repente percebeu que o quarto em que orava estava se enchendo de luz, uma luz mais brilhante que o brilho do sol, e enquanto se maravilhava com esse brilho, percebeu que um personagem havia entrado no quarto com um brilho consumidor ainda maior do que aquele que havia contemplado no quarto. ¶
Ao recuperar-se do choque do aparecimento desse personagem, que se apresentou ao Profeta como um mensageiro enviado por Deus, o mensageiro anunciou quatro coisas, que são declaradas neste documento ao qual fiz referência e que têm grande significado para a obra hoje, tal como havia de ser estabelecida por meio do jovem profeta Joseph Smith. Farei apenas breve referência a três desses anúncios do mensageiro celestial: ¶
A primeira coisa que o mensageiro disse foi que o convênio que Deus fizera com o antigo Israel estava próximo e prestes a cumprir-se. Isso, sem dúvida, fazia referência ao convênio anunciado a Abraão, a quem, por causa de sua fidelidade, foi prometido que, por meio dele e de sua semente, todas as nações da terra seriam abençoadas; e que Deus faria da semente de Abraão uma grande nação. Basta-nos lembrar que o Salvador do mundo veio por essa linhagem; e embora seu ministério pessoal fosse dirigido apenas à casa de Israel, antes de deixar seus discípulos ele lhes declarou que deveriam "pregar arrependimento e remissão de pecados a toda a terra, começando em Jerusalém." Dessa linhagem um povo escolhido havia de ser preparado para estabelecer o reino de Deus nestes últimos dias, e foi sobre esse reino que o Cristo havia de reinar quando viesse à terra pela segunda vez. ¶
O segundo anúncio feito por esse mensageiro celestial foi que uma obra preparatória para a segunda vinda do Messias estava para começar em breve. Recordareis que, pouco antes da crucificação do Mestre, ele disse a seus discípulos que voltaria, e eles lhe disseram, sentados com ele no monte, talvez por uma das últimas vezes, "Mestre, dize-nos quando serão essas coisas." E então saiu de seus lábios uma sequência de acontecimentos que, disse ele, seriam o seguro prenúncio de que se aproximava a hora de sua segunda vinda, quando apareceria nas nuvens do céu com grande poder e grande glória. ¶
Depois de ministrar entre eles por quarenta dias após sua crucificação e ressurreição, ele foi arrebatado deles nas nuvens do céu, e dois personagens angélicos vestidos de branco disseram aos que testemunharam a ascensão do Mestre, ¶
Homens galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir. (Atos 1:11.) ¶
A terceira coisa que o mensageiro anunciou ao Profeta foi que havia chegado o tempo de o evangelho, em toda a sua plenitude, ser pregado com poder a todas as nações. Isso se cumpriu naquilo que fora prometido a João, quando o anjo voaria pelo meio do céu, "tendo [a plenitude do] evangelho eterno para pregar aos que habitam sobre a terra." (Ap. 14:6.) A restauração dessa plenitude do evangelho aconteceu quando o Livro de Mórmon, que foi declarado ser um registro no qual a plenitude do evangelho estava contida, foi restaurado ao mundo por meio do Profeta Joseph Smith. ¶
Para que o evangelho pudesse ser "pregado com poder," era necessário mais algo. Antes da organização da Igreja, era necessário que as chaves do sacerdócio fossem novamente conferidas aos homens, para que o evangelho pudesse ser pregado com poder, e suas ordenanças administradas aos homens. ¶
Mas a última e quarta coisa que foi anunciada é aquela sobre a qual desejo dirigir as poucas observações que faço esta tarde. Era que um povo pudesse ser preparado para o reinado milenar. O significado desse termo era compreendido, ao que parece, desde os profetas, do tempo de Enoque até o tempo do Profeta Joseph Smith, quando o Senhor falava de um período de mil anos na história do mundo que seria chamado de reinado milenar, o qual começaria com a segunda vinda do Salvador. João viu em visão a ressurreição dos justos que reinariam com Cristo por mil anos. Viu que, durante esse período, Satanás estaria preso, que haveria paz sobre toda a terra. O céu e a terra estariam estreitamente associados, e toda obra inacabada pertencente a este mundo seria concluída. As injustiças seriam corrigidas, e ao fim desse reinado viria um julgamento final. ¶
Ora, tenho me perguntado, sendo este o tempo de nos prepararmos para o reinado milenar, como havemos de proceder para preparar um povo para receber a vinda do Senhor? Ao pensar seriamente sobre esse assunto, cheguei a duas ou três conclusões seguras em meu próprio pensamento. Essa preparação exige, primeiro, que um povo, para receber a vinda do Senhor, seja ensinado quanto à personalidade e à natureza de Deus e de seu Filho, Jesus Cristo. ¶
Alguém disse o seguinte: a exigência de nossa era moderna não é "por um Deus que outrora existiu, mas por um Deus que agora existe." Ao ler isso, pensei: como pode alguém encontrar-se com uma pessoa cuja identidade desconhece? Como pode alguém preparar-se para encontrar-se com uma pessoa a respeito de quem não tem conhecimento? Como pode alguém preparar-se para encontrar-se com um ser cuja personalidade não consegue compreender? ¶
Grandes pensadores há muito reconheceram essa necessidade na religião, para que ela se torne uma força vital. George Harris, em seu livro A Century of Change in Religion, disse o seguinte: "O pensamento de Deus como uma personalidade é uma condição necessária de tudo o que está contido no campo da experiência religiosa." ¶
O Professor Hacking, de Harvard, em sua obra "Meaning of God in Human Experience," fez uma declaração ainda mais significativa quando escreveu: "A alternativa ao pensamento de Deus como pessoa é o pensamento dele como substância, como mera energia e, principalmente, como lei. Parai apenas por um momento e considerai o que significaria para nós tentar obedecer à vontade de uma substância, de um amor, de uma energia, ou adorar uma lei, e tereis alguma ideia, ao menos, de quão próxima essa questão da personalidade de Deus está do cerne da verdadeira religião." ¶
Quando o Apóstolo Paulo falou sobre a organização da Igreja, disse que um dos principais propósitos dessa organização era ¶
. . . para a edificação do corpo de Cristo: ¶
Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito. (Efésios 4:12-13.) ¶
E recordareis que, naquela última e memorável oração, o Mestre disse: "E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste." (João 17:3.) ¶
A vida eterna é a vida de Deus, ou a vida com Deus. Em outras palavras, parece-me que estão tentando nos dizer que a dignidade para habitar em sua santa presença só pode ser obtida conhecendo-se a Deus e conhecendo-se Jesus Cristo, a quem ele enviou. ¶
A meu ver, outro requisito dessa preparação para receber o Senhor no início de seu reinado milenar exige que o povo seja ensinado a aceitar a divindade da missão de Jesus como Salvador do mundo. Por que o Salvador foi enviado ao mundo? O próprio Mestre respondeu a essa pergunta durante seu ministério, quando disse: "Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele." (Ibid., 3:17.) ¶
Numa revelação em nossos dias, ele o disse novamente: ¶
Pois eis que o Senhor vosso Redentor sofreu a morte na carne; portanto, sofreu a dor de todos os homens, para que todos os homens se arrependessem e viessem a ele. ¶
E ressuscitou dentre os mortos, para trazer a si todos os homens, sob condição de arrependimento. (D & C 18:11-12.) ¶
Salvos de quê? Redimidos de quê? Bem, primeiro, salvos da morte mortal por meio da ressurreição dos mortos. Mas, em outro sentido, também somos salvos por seu sacrifício expiatório. Somos salvos do pecado. Eis o que o Profeta Alma explicou a seu povo a esse respeito: ¶
E virá ao mundo para redimir seu povo; e tomará sobre si as transgressões daqueles que acreditam em seu nome; e estes são os que terão vida eterna e para ninguém mais haverá salvação. (Alma 11:40.) ¶
. . . ele não pode salvá-los em seus pecados, porque eu não posso negar a sua palavra e ele disse que nada impuro pode herdar o reino do céu; portanto, como podeis ser salvos, a menos que herdeis o reino do céu? Portanto, não podeis ser salvos em vossos pecados. (Ibid., 11:37.) ¶
Essa última declaração do Profeta Alma aponta para ainda outro requisito, a meu ver, para que um povo esteja preparado para receber a vinda do Salvador. Devemos ser purificados, limpos e santificados para nos tornarmos dignos de receber e habitar essa santa presença. O Profeta Mórmon expressou isso desta forma: ¶
Eis que eu vos digo que seríeis mais miseráveis habitando com um Deus santo e justo, conscientes de vossa imundície perante ele, do que se habitásseis com as almas condenadas, no inferno. (Mórmon 9:4.) ¶
Como pode essa purificação ocorrer? A resposta é: por meio das santas ordenanças que o Senhor estabeleceu para esse fim. Somos salvos pela graça, sim, mediante a expiação do Mestre, mas Néfi ensinou este outro princípio: ". . . pois sabemos que é pela graça que somos salvos, depois de tudo o que pudermos fazer." (2 Néfi 25:23.) ¶
Ora, a natureza dessa ordenança pela qual a salvação pode ser obtida também é claramente explicada pelo Profeta Néfi: ¶
Portanto, meus amados irmãos, sei que, se seguirdes o Filho com todo o coração, agindo sem hipocrisia e sem dolo diante de Deus, mas com verdadeira intenção, arrependendo-vos de vossos pecados, testemunhando ao Pai que estais dispostos a tomar sobre vós o nome de Cristo pelo batismo — sim, seguindo vosso Senhor e vosso Salvador à água, segundo a sua palavra, eis que então recebereis o Espírito Santo; sim, então vem o batismo de fogo e do Espírito Santo; e então podereis falar na língua de anjos e render louvores ao Santo de Israel. ¶
E ouvi a voz do Pai, dizendo: Sim, as palavras do meu Amado são verdadeiras e fiéis. Quem perseverar até o fim, esse será salvo. (Ibid., 31:13, 15.) ¶
E agora, finalmente, ainda há mais uma coisa necessária, a meu ver, antes que essa preparação seja feita para o reinado milenar. Devemos aceitar a divina missão do Profeta Joseph Smith como o instrumento por meio do qual a restauração do evangelho e a organização da Igreja de Jesus Cristo foram realizadas. Cada membro da Igreja, para estar preparado para o reinado milenar, deve receber um testemunho, cada um por si, da divindade da obra estabelecida por Joseph Smith. Foi isso que os santos ensinaram claramente após o advento do Salvador na terra, e um dos líderes de nossos dias o disse novamente, quando declarou, suponho que com referência à parábola das cinco virgens loucas e das cinco prudentes na parábola do Mestre: "Chegará o tempo em que nenhum homem nem mulher poderá subsistir com luz emprestada. Cada um terá que ser guiado pela luz que há dentro de si mesmo." (Life of Heber C. Kimball, pp. 449-450.) ¶
Sendo essas coisas verdadeiras, deve então tornar-se nosso objetivo e nosso mais profundo desejo ensinar essas coisas fundamentais para preparar nosso povo para a sua vinda. ¶
Enquanto o Irmão Romney proferia seu excelente discurso sobre o tema do aperfeiçoamento dos santos, lembrei-me do que disse um proeminente comentarista a respeito da citação dos escritos de Paulo aos Efésios. Ele disse que não deveria haver vírgula após a palavra "santos." Disse que deveria ler-se "para o aperfeiçoamento dos santos na obra do ministério," ressaltando a importância de aperfeiçoar todos os que são chamados a posições de liderança na preparação do povo para receber o conhecimento do Filho de Deus. Seja essa ou não a interpretação correta, é certo que, em nossos lares, em nossos seminários e institutos, nas organizações auxiliares, nos quóruns do sacerdócio, devemos ensinar o conhecimento e a natureza da Trindade. Devemos ensinar a missão do Salvador do mundo. Precisamos ensinar os princípios e ordenanças purificadores do evangelho. Precisamos ensinar a necessidade e a restauração do evangelho por meio do instrumento do Profeta Joseph Smith. ¶