O Preço de Um Só Erro
Stephen L Richards
Eu poderia muito bem ter escolhido, para esta noite, um assunto diferente daquele sobre o qual me proponho discorrer, não fosse eu impelido, há alguns dias, ao contemplar esta reunião, a trazer à vossa atenção um assunto em particular. Confio que não seja demasiado inapropriado para esta grande ocasião. Se, no início, assim parecer, peço-vos que reserveis vosso julgamento. ¶
Li no jornal, no outro dia, um artigo. Ele me levou a trazer o assunto aqui. Foi escrito pelo Juiz Rudolph C. Geissler, de Connecticut. ¶
Alguns de vós talvez o tenham visto, mas temo que não tenha sido lido de modo geral e sério, ou eu não tomaria o tempo de reproduzir ao menos parte dele. Diz o Juiz: ¶
"Nos 24 anos em que estive na magistratura, jamais dei uma segunda chance a um infrator por excesso de velocidade. Jamais darei. Se for condenado em meu tribunal, ou se se declarar culpado, o infrator recebe uma multa ou uma pena de prisão, e sua carteira de motorista fica manchada. ¶
"No sentido de que adiro estritamente à lei, sou um juiz 'severo'. Em minha opinião, essa é a função do juiz. Como infrator, sois um homem num tribunal de trânsito num dia específico; como juiz, sou testemunha, dia após dia, aos centos e aos milhares, da pior carnificina que o homem já conheceu. ¶
Pior que a peste. Pior que a guerra. ¶
"Os motoristas tendem a pensar que, ao comparecerem diante de um juiz por sua primeira infração de velocidade, deveriam receber uma segunda chance. Não querem aquela 'marca negra' no verso de sua carteira de motorista. Oferecem desculpas. Buscam amigos do juiz para tentar resolver as coisas por eles. Contratam advogados para usar de influências. O que não compreendem é que a velocidade é sua inimiga, não o tribunal. O tribunal é simplesmente sua consciência. ¶
"Desculpas, súplicas, tentativas de influência, já ouvi de tudo: ¶
" 'Juiz, dirijo há doze anos com registro limpo — dê-me apenas esta chance.' " 'Juiz, se o senhor colocar esta segunda multa por excesso de velocidade em minha carteira, a empresa vai me demitir.' " 'Excelência, não tenho emprego, e meus filhos estão doentes, e se o senhor me multar, terei de ir para a prisão.' " ¶
Depois ele cita os casos de amigos que intercedem por aqueles que são presos. ¶
"Sim, já ouvi todas elas, e recusei todas. Às vezes isso me parte o coração, como quando um homem está sem emprego e em apuros, mas não lhe dou uma segunda chance. 'Que espécie de justiça é essa?', podereis perguntar. ¶
'Não tendes compaixão? Não pode um homem ser perdoado por um erro?' Um erro. ¶
Compaixão. Que pensais que já vi e ouvi durante meus 24 anos na magistratura? Um homem dirige a 70 milhas por hora, à noite, numa rodovia de duas pistas. Roça de raspão em outro carro numa curva; ambos os carros perdem o controle e colidem. Quatro pessoas morrem. Foi apenas um erro, não foi? "Um grupo de jovens está voltando de um baile para casa, e o motorista de 19 anos resolve se exibir, levando o velocímetro até o limite — um erro. Um motorista acelera para passar antes que o semáforo mude, num cruzamento — apenas um erro. ¶
"O fato é que isso é tudo o que um acidente de excesso de velocidade sempre representa — apenas um erro. A vasta maioria das colisões graves envolve pessoas com registro 'limpo'. Sim, tenho compaixão, e a maioria dos outros juízes também, mas a compaixão é pelos permanentemente aleijados, pelos cadáveres 'inocentes' no outro carro, pelas crianças que ficam sem um ou ambos os pais. Nós, juízes, temos de olhar para fotografias intermináveis de corpos destroçados e automóveis retorcidos, apresentadas como prova pelos policiais — a evidência muda do único erro de um infrator." ¶
E ele cita outros casos. Depois diz: ¶
"Sei bastante sobre rapazes, e penso mesmo neles. Por exemplo, penso naqueles dois jovens de Storrs, Connecticut, que se mataram batendo numa árvore; nos rapazes de Hartford que terminaram nas mesas do necrotério depois que seu carro capotou três vezes e caiu numa vala; naqueles quatro rapazes universitários que faziam 75 milhas por hora na Wilbur Cross Parkway — dois morreram instantaneamente e dois no hospital. ¶
"Sei sobre rapazes, sim, e muito bem. Tenho três filhos e oito netos, e, se algum dia começarem a exceder a velocidade, só espero e oro para que haja um policial rodoviário ali para pegá-los, e um juiz para multá-los devidamente. ¶
"Eis o que digo à maioria dos jovens que comparecem diante de mim e tentam se safar de seu 'aperto'. 'Rapaz', digo eu, 'considera este um dos dias mais felizes de tua vida — pois acabaste num tribunal de trânsito, e não num cemitério.' "Tive recentemente, em meu tribunal, um estudante de dezoito anos, do ensino médio. Fora flagrado à meia-noite fazendo 80 milhas por hora numa rodovia de duas pistas. Perguntei-lhe por que seu pai não viera ao tribunal com ele. ¶
" 'Ele está aqui', disse o rapaz, 'no fundo do tribunal.' Pedi ao pai que se aproximasse. ¶
" 'Meu filho se meteu nisso', disse o pai, 'e terá de se safar sozinho. Não há desculpa para dirigir um carro àquela velocidade.' " 'Tinhas algum motivo?', perguntei ao rapaz. ¶
" 'Sim, senhor', respondeu ele. 'Eu tinha ficado acordado até tarde várias noites seguidas, e por isso queria chegar logo em casa para recuperar o sono.' " 'Pois bem', eu disse, 'tinhas uma distância de vinte e cinco milhas a percorrer. Ora, ao fazeres oitenta milhas por hora em vez do limite legal, provavelmente economizaste uns quinze minutos. E, no processo, poderias ter morrido — ou matado outra pessoa. Achas que o risco valeu a pena?' " 'Não, senhor', disse o rapaz. 'Acho que não. ¶
Acho que mereço ser multado.' "Notei o pai animar-se com isso, e pude ver que ele se sentiu um pouco melhor quanto ao encontrão de seu filho com a lei. Admiro muito mais aquele pai do que um que tenta 'proteger' seu filho influenciando o juiz ou o promotor. ¶
"Como podemos fazer-vos ir mais devagar? Como podemos fazer-vos obedecer ao limite de velocidade que está clara e incessantemente indicado em toda rodovia deste país? ¶
"As multas não têm funcionado. ¶
"As ameaças não têm funcionado. ¶
"A educação pública não parece estar funcionando. ¶
"Talvez a nova experiência de Connecticut o consiga. O Governador Abraham A. Ribicoff emitiu recentemente uma ordem que, ao que sei, é a regra de velocidade mais drástica do país. Qualquer pessoa que exceda o limite de velocidade em qualquer estrada, rodovia ou rua do estado de Connecticut agora perde automaticamente sua carteira de motorista por 30 dias; se for uma segunda condenação, perde-a por 60 dias. E o regulamento se aplica não apenas aos residentes de Connecticut, mas também aos infratores de outros estados com os quais Connecticut tem acordos de reciprocidade." (Reproduzido da revista This Week. Copyright 1956 pela United Newspapers Magazine Corporation.) Ora, não li isto para advogar a favor da recomendação daquele Governador. Não sei o suficiente a respeito para saber se essa é a melhor recomendação que se pode propor. Li isto para tentar salvar a vida de algumas de nossas pessoas. Noto esses acidentes no jornal a cada dia ou dois, e, se não diz a que Igreja pertenciam, quase sempre investigo e descubro de onde serão sepultados, e descubro que uma grande proporção de todos eles, nesta região, são membros de minha própria Igreja, meus irmãos no Sacerdócio. ¶
Sei que alguns jovens pensam que têm liberdade para fazer o que quiserem. Parecem pensar que têm liberdade para dispor de sua vida como desejarem. Deveriam ser ensinados quanto às palavras do Senhor a respeito da vida. A vida é preciosa, "porque fostes comprados por um preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus" (I Cor. 6:20). Nenhum homem tem a liberdade e o direito de dispor sequer de sua própria vida, e de ser tão descuidado a ponto de pôr em perigo a vida de outros. ¶
Eu tinha um velho amigo — o Irmão McKay se lembrará dele — que quase foi tirado do ramo de negócios pela lei da proibição. Lembro-me de uma declaração que ele fez, que jamais esqueci. Ele disse: "Reservo-me o direito de criticar a lei, mas não o de infringi-la." Até onde sei, ele jamais a infringiu. ¶
Quem faz a lei? Vossos representantes. Não é desleal para com eles infringir as leis que fazem? Penso que não há apenas um elemento de deslealdade nisso, mas sei que isso gera desrespeito pela lei, e é imoral infringir as leis da terra. ¶
A vida é preciosa demais. É o maior dom que o Senhor nos deu. Não podemos desperdiçá-la, e, se eu, ao trazer isto à vossa atenção, puder salvar um carro cheio de adolescentes de se lançarem descontroladamente contra um posto e morrerem, como aconteceu outra noite, ficarei grato, e por isso tomo a liberdade de trazer isto à atenção de meus irmãos do Sacerdócio, para ver se não podemos desenvolver um respeito pela lei que nos permita evitar muitos desses acidentes trágicos. Meu coração sangra pelas vítimas. Meu coração sangra pelas vítimas inocentes que viajam em segurança e são atropeladas por esses demônios da velocidade. ¶
Este Juiz tem muito bom senso, e penso que talvez tenha um meio de dissuasão que será útil nesta maior carnificina que nosso País já conheceu. ¶
Que o Senhor nos abençoe, nos ajude a preservar nossa vida, e a usar nossa vida para os elevados propósitos que o Senhor nos deu, oro em nome de Jesus. Amém. ¶