O Mormonismo Visto Pelos Olhos de um Não Membro
Hugh B. Brown
Pergunto-me se, por vezes, nosso povo pensa, ao ouvir cada orador pedir orientação divina, que isso se tornou apenas um hábito. Se vos fosse pedido ocupar esta posição, saberíeis que não é o caso. Por essa orientação, humildemente oro. ¶
Gostaria de seguir o exemplo de brevidade estabelecido ontem pelo presidente Joseph Fielding Smith. Penso que ele demonstrou a verdade da afirmação de que, para um discurso ser imortal, não precisa ser eterno. ¶
Não é de surpreender que o élder LeGrand Richards e eu estejamos pensando ao longo de linhas semelhantes, pois ambos tivemos experiência missionária, e, sempre que um missionário se levanta diante de uma congregação de santos, se houver um único indivíduo presente que não seja membro da Igreja, o missionário falará com ele e ignorará todos os demais. Gostaria de seguir seu exemplo, se me permitis, e dirigir o que tenho a dizer a vós, aí fora, nossos outros irmãos e irmãs que não são membros da Igreja, e penso que não é presunçoso pensar que há milhares de vós ouvindo. ¶
Desde nossa última conferência de abril, repórteres, editores, comentaristas e outros, dentro e fora do país, dedicaram bastante tempo e espaço à Igreja e às suas atividades. Como já foi sugerido, isso resulta em parte da turnê do coro, da dedicação dos templos da Suíça e de Los Angeles, e do anúncio de outros templos a serem construídos. Apreciamos a uniforme simpatia e a precisão geral desses relatos e comentários. ¶
Variaram desde discussões eruditas sobre várias facetas do evangelho até generalizações breves e imprecisas como esta: "Ser mórmon significa simplesmente não beber chá nem café, nem usar tabaco ou bebida alcoólica." ¶
Ora, de fato aceitamos e tentamos viver a Palavra de Sabedoria, uma lei de saúde, primeiro porque o Senhor a considerou digna de dar uma revelação sobre ela, e também porque, por cem anos, provamos seu valor. Mas há outras coisas que gostaríamos que nossos amigos soubessem a respeito da Igreja, e assim, por alguns momentos, gostaria de discutir algumas facetas do mormonismo que não são tão geralmente conhecidas. ¶
Devido à limitação de tempo e do orador, qualquer tentativa de exposição será inadequada e incompleta. Gostaria, primeiramente, de dizer-vos que a conduta de um membro típico da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, ou mórmon, é influenciada não tanto por proibições, inibições ou disciplina eclesiástica, mas por suas próprias convicções íntimas quanto à dignidade essencial e à possível glória do indivíduo, ao significado da vida, à origem, ao propósito e ao possível destino do homem. ¶
O mormonismo não é apenas um código de ética; não é meramente um conjunto de preceitos inibidores; não é apenas um sistema teórico de doutrina e filosofia. É, antes, um modo de vida, baseado num conceito de Deus como nosso Pai Eterno, e do homem, criado à imagem corporal de Deus, um filho de Deus, que tem todas as obrigações, oportunidades e potenciais da condição de herdeiro. O conceito mórmon da Divindade, com seu concomitante conceito da condição potencial de semelhança a Deus do homem, deve fazer com que os crentes resistam ao arrastão descendente de hábitos e indulgências que são hostis a, ou que impediriam ou atrasariam, o progresso do homem rumo à sua meta. ¶
Talvez gostásseis de dar uma rápida olhada no mormonismo pelos olhos de um não membro da Igreja que se dedicou a estudá-lo. Tenho a permissão do autor para ler alguns parágrafos de um panfleto recentemente publicado pelo departamento de humanidades do Massachusetts Institute of Technology sob o título geral "The Sociology of Mormonism" [A Sociologia do Mormonismo]. Esses estudos foram feitos e escritos pelo Dr. ¶
Thomas F. O'Dea, que teve uma carreira acadêmica distinta em Harvard, em Stanford e no M.I.T. Esses escritos revelam estudo cuidadoso, análise perspicaz e uma invejável facilidade de expressão. ¶
Vou ler alguns trechos: ¶
Das muitas igrejas fundadas nas regiões ao sul dos Grandes Lagos na primeira metade do século dezenove, somente a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, ou Igreja Mórmon, evitou as águas estagnadas do sectarismo. A necessidade de recomeçar quatro vezes em dezesseis anos contribuiu para a flexibilidade e evitou a atmosfera e a cultura sectárias. ¶
E, novamente, diz ele: Em 1847, os mórmons, perseguidos e assediados, despojados de tudo menos da fé, da liderança e de uma organização soberba, atravessaram as planícies e se estabeleceram no deserto de Utah. * * * A liderança mórmon escolheu deliberadamente uma região pouco atraente para obter o respiro necessário que o isolamento proporcionaria, e resistiu às seduções de perspectivas mais agradáveis. ¶
E então, falando de nosso americanismo, ele disse: ¶
O patriotismo americano deles é um Artigo de Fé para eles. * * * O desenvolvimento de uma condição de nação foi inibido pelas convicções patrióticas americanas por parte dos próprios Santos dos Últimos Dias. O mormonismo vê a América como uma terra escolhida e sustenta que a segunda vinda de Cristo será a este continente. A América é um país divinamente preferido, e os períodos anteriores da história foram preparatórios para a restauração mórmon. Assim, os mórmons, ao mesmo tempo em que exaltavam a América e nela se regozijavam, podiam sentir-se chamados a sair da Babilônia para construir a cidade de Deus. * * * Os mórmons são, por excelência, práticos e são o típico movimento religioso americano. Como tal, o mormonismo apresenta uma intensificação, uma formulação e uma síntese mais explícitas da experiência americana do tempo e da pontualidade americana. ¶
A Igreja Mórmon se define como uma restauração, nos últimos dias, do evangelho original de Jesus Cristo, que havia sido corrompido e em parte perdido pelos últimos quinze séculos. Sua restauração é concebida em termos da história cristã. * * * É uma nova interpretação do próprio cristianismo. Um profeta singular e um momento singular e oportuno, bem como um lugar singularmente apropriado, fazem parte dessa concepção. O mormonismo sustenta ter sido revelado na plenitude dos tempos — uma plenitude dos tempos que envolve o destino do Hemisfério Ocidental e da nação americana. A descoberta da América e o desenvolvimento das instituições políticas dos Estados Unidos são vistos como preparados pela orientação divina para a restauração que seria feita por meio da agência do profeta original, Joseph Smith. ¶
Dentro desse enquadramento maior, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias tem sua própria história, um registro de peregrinação e perseguição, de construção e de conquista sobre elementos hostis, culminando na edificação de Sião nos cumes das montanhas. ¶
- O mormonismo viveu seu Êxodo e suas Crônicas não uma, mas muitas vezes. Teve seu Moisés e seu Josué. As circunstâncias lhe deram um palco em que sua reencenação da história bíblica não foi farsa nem espetáculo simbólico.
Sim, nossa história tem sido, em parte, uma reencenação da história bíblica, mas, o que é mais importante, nossa doutrina é uma reafirmação da verdade bíblica. Cremos no Deus do Antigo Testamento — Jeová, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Cremos que aquela Divina Personagem tornou-se Jesus, o Cristo do Novo Testamento, o Filho de Deus, o Redentor do mundo. Cremos que, mediante a expiação de Cristo, toda a humanidade pode ser salva pela obediência às leis e ordenanças do evangelho. ¶
Enfatizamos "toda a humanidade" e "obediência" porque o evangelho e suas ordenanças salvadoras devem ser disponibilizados aos vivos nesta terra, e aos vivos em outros lugares, sendo a obediência pré-requisito para as bênçãos. ¶
Porque para isso foi o evangelho pregado também aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens na carne, porém vivessem segundo Deus em espírito; ¶
(1 Pedro 4:6.) Crendo, como cremos, no grande serviço vicário do Mestre, que é o próprio fundamento do cristianismo, empreendemos fazer por nossos mortos aquilo que eles não podem fazer por si mesmos, e por isso construímos estes templos que vós, nossos amigos, vistes e dos quais ouvistes falar. ¶
Cremos num estado pré-existente onde exercíamos o livre-arbítrio, onde havia diferenças individuais, onde a vida era propositada e progressiva, e onde o homem, em seu estado original, existia como inteligência. ¶
Depois de referir-se às "inestimáveis contribuições ao povoamento do Oeste e ao plantio ali de uma civilização americana viável e vital", o Dr. O'Dea diz: "Quão notavelmente familiares são os elementos básicos do evangelho mórmon, quão notavelmente semelhantes à apreensão geral da América por outros americanos quando ele se despoja de sua contundência teológica." ¶
Ele se refere à teologia mórmon como Uma destilação daquilo que é peculiarmente americano na América, e que, ao incorporar as metas do mundo presente a uma visão de progressão eterna, a Igreja conseguiu, para seus seguidores, aniquilar a linha demarcatória entre o tempo e a eternidade de uma maneira bastante nova. ¶
Para o mormonismo, o mundo é incriado, e Deus e os homens estão conquistando o domínio sobre outros elementos incriados. Deus tornou-se, mais uma vez, um demiurgo * * * o que significa alguém que trabalha sobre matéria já existente, um artesão. ¶
Tudo o que é está em processo, e é um processo marcado por duas características principais: está se tornando cada vez mais complexo, e os seres inteligentes, Deus e os homens, estão, colaborativamente, obtendo domínio cada vez maior sobre ele. A vida do homem na terra é vista como um de uma infinidade de episódios caracterizados por desenvolvimento e domínio crescentes dos demais elementos da natureza. Esse conceito do propósito e do método de Deus quanto à existência do homem foi claramente exposto pelo falecido Dr. John A. Widtsoe, ele próprio grande erudito e profundo estudioso do evangelho: A lei da progressão é, então, uma lei do desenvolvimento sem fim de todos os poderes do homem no meio de um universo que se torna cada vez mais complexo. Nenhum princípio mais esperançoso pode ser incorporado a uma filosofia de vida. (A Rational Theology.) O Senhor revelou, na Seção 93 de Doutrina e Convênios, versículo 29: O homem também estava no princípio com Deus. ¶
A inteligência, ou seja, a luz da verdade, não foi criada nem feita, nem verdadeiramente pode sê-lo. ¶
- Pois o homem é espírito. Os elementos são eternos, e o espírito e o elemento, inseparavelmente ligados, recebem uma plenitude de alegria; . . .
Sobre este ponto, o Dr. Widtsoe escreveu o seguinte: ¶
No princípio, o que transcende nosso entendimento, Deus, sem dúvida, exerceu vigorosamente sua vontade e assim obteve grande experiência das forças que o rodeavam. ¶
À medida que o conhecimento crescia em conhecimento cada vez maior pelos esforços persistentes da vontade, o reconhecimento que ele tinha das leis universais tornou-se cada vez maior, até que, por fim, obteve uma conquista sobre o universo que, para nosso entendimento finito, parece absolutamente completa. ¶
Proclamamos a doutrina bíblica e inspiradora de que o homem deve olhar para cima, e não para baixo, quanto à sua origem, pois ele é de linhagem divina; que o homem é inocente ao nascer, o que é a antítese da doutrina da bola de ferro e corrente do pecado original e da maldade inata. ¶
Todo espírito de homem era inocente no princípio; e Deus, tendo redimido o homem da queda, os homens tornaram-se outra vez, em sua infância, inocentes perante Deus. (D. e C. 93:38.) O homem enfrenta uma perspectiva de desenvolvimento sem limites, progressão eterna, se cooperar em conquistar o domínio sobre si mesmo e sobre o universo. Cremos que a vida terrena do homem foi possibilitada pelo papel de Adão num plano predestinado que incluía a provisão para que o homem se deparasse com o bem e o mal e, sob a lei eterna do livre-arbítrio, escolhesse o bem ou o mal sem compulsão, sabendo, porém, que, sob a lei imutável da colheita, deve arcar com as consequências de sua escolha, deve colher o que semeia. O livre-arbítrio é pré-requisito para qualquer plano de formação de caráter e, embora, com o livre-arbítrio, qualquer plano esteja inevitavelmente repleto de risco, nós, com todos os filhos de Deus, aceitamos esse risco e gritamos de júbilo diante da perspectiva da vida terrena. O Senhor disse a Jó: Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? . . . ¶
Quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus jubilavam? ¶
(Jó 38:4, 7.) Se Deus é, de fato, nosso Pai, então nós, Pai e filhos, pertencemos à mesma sociedade de inteligências eternas. Entre elas, ele é supremo, é o mais avançado, o mais poderoso e o mais inteligente. ¶
Ora, o Senhor mostrara a mim, Abraão, as inteligências que foram organizadas antes de o mundo existir; e entre todas essas havia muitas das nobres e grandes . . . ¶
Eu sou o Senhor teu Deus, eu sou mais inteligente que todos eles. (Abraão 3:22, 19.) Quando dizemos que o homem pode tornar-se como nosso Pai, não pretendemos humanizar Deus, mas antes deificar o homem — não como ele agora é, mas como pode vir a ser. ¶
A diferença entre nós é indescritivelmente grande, mas é uma diferença de grau, não de espécie. ¶
Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, . . . (João 1:12.) Para os santos dos últimos dias, a salvação, ou o ser salvo, não implica uma transformação súbita ou metamorfose em algo inteiramente diferente da própria natureza, nem pode ser alcançada por mero assentimento mental ou conversão súbita. É, antes, um processo contínuo de tornar-se ou de desabrochar de acordo com a lei e o plano divino, de trazer a própria vida à harmonia com a lei eterna e inexorável. ¶
Cremos que, em seu desenvolvimento infinito e eterno rumo a uma condição semelhante à de Deus, o homem se move em direção a, e através de, uma catraca chamada morte; que não há interrupção da vida nesse portal, pois a eternidade é tempo indefinidamente prolongado. ¶
Cremos que o homem, depois de passar por essa catraca, continuará sua jornada eterna a partir do ponto a que suas ações nesta vida o trouxeram. ¶
"Qualquer princípio de inteligência que alcançarmos nesta vida surgirá conosco na ressurreição." (D. e C. 130:18.) Negar a possibilidade da progressão eterna é aceitar a terrível alternativa da eventual estagnação, que seria a danação. ¶
Cremos que ser salvo envolve educação, que o homem não pode ser salvo na ignorância, assim como não pode ser salvo no pecado, pois, assim como a glória de Deus é inteligência, ou seja, luz e verdade, também o grau de nossa inteligência será a medida de nossa glória. Nem o ignorante nem o pecador estariam à vontade ou em casa no céu. Esse conceito glorifica tanto a inteligência quanto a retidão. Mas não confundamos mero conhecimento com inteligência. O conhecimento de que falamos deve buscar o esclarecimento e ser aplicado com sabedoria. O conhecimento que nos salvará não é mera habilidade prática, certamente não é astúcia, nem agilidade mental, nem sagacidade; não é apenas erudição. O homem sábio pode não ser erudito, e os eruditos nem sempre são sábios. A inteligência, que é a glória de Deus, é todo o conhecimento (e o conhecimento é poder) aplicado com suprema sabedoria e total retidão. ¶
O tempo não permitirá uma discussão mais aprofundada dos nossos ensinamentos com relação a algumas das coisas que o Dr. O'Dea mencionou. Bastará dizer que o mormonismo, entre outras coisas, é uma busca eterna pelo conhecimento que é poder, pela verdade que é jubilosa porque nos torna livres, pela inteligência, que é a glória de Deus, e pela retidão que nos capacitará a sentir-nos em casa em sua santa presença. ¶
Que Deus nos ajude a viver dignamente e a seguir adiante sem temor em nossa busca pela verdade, é o que peço, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶