Desde O Dia Em Que O Anjo Morôni...
Milton R. Hunter
Desde o dia em que o Anjo Morôni entregou as placas de ouro ao Profeta Joseph Smith, das quais ele traduziu e publicou o Livro de Mórmon, vastas quantidades de evidências maravilhosas se acumularam. Essas evidências sustentam a autenticidade divina e a veracidade daquele sagrado registro antigo. ¶
Também, durante o mesmo período de tempo, inimigos da verdade e da luz fizeram tudo o que estava ao seu alcance para se opor ao Livro de Mórmon, tentando provar que suas alegações são falsas. Alguns desses homens, sem dúvida, foram apenas enganados; mas a maioria deles agiu com intenção maligna. O resultado tem sido que todas as suas obras se reduziram a nada. Os resultados malignos de seus esforços desvaneceram-se como o orvalho sobre a verdura da terra desvanece-se na presença do sol nascente. Assim, o Livro de Mórmon está hoje em maior estima do que jamais esteve na história da Igreja. Nenhuma de suas alegações foi provada falsa. Por outro lado, uma vasta acumulação de evidências — algumas das quais falam, por assim dizer, do pó, e outras do passado antigo — continua a testificar a divindade deste livro sagrado e a sua veracidade. ¶
Além de qualquer sombra de dúvida, o Livro de Mórmon é a palavra de Deus, um livro divino e sagrado, preservado pelo Senhor e por seus santos anjos para vir à luz nos últimos dias como uma nova testemunha de Jesus Cristo e do evangelho que ele proclamou. ¶
Apontarei algumas das surpreendentes evidências do Livro de Mórmon, listando-as sob três títulos principais: primeiro — evidências arqueológicas; segundo — testemunhos de historiadores indígenas do século dezesseis; e terceiro — escritos de padres católicos dos séculos dezesseis e dezessete, os quais obtiveram suas informações diretamente dos índios. ¶
A arqueologia americana teve seu nascimento pouco antes da morte do Profeta Joseph Smith. John Lloyd Stephens havia visitado a Guatemala, Honduras e Yucatán, havia retornado aos Estados Unidos e escrito um relato entusiasmado dos belos templos, pirâmides e outros vestígios arqueológicos que pontilhavam as selvas da América Central e do México.1 A partir da publicação dos livros de Stephens, os governos do México, da América Central e de partes da América do Sul, bem como organizações arqueológicas dos Estados Unidos e de seus vizinhos ao sul, gastaram vastas quantias de dinheiro e despenderam uma quantidade incalculável de esforço em numerosos desses sítios arqueológicos. Além disso, um trabalho considerável tem sido feito na reconstrução dos edifícios antigos. Ao reconstruir essas maravilhosas pirâmides, templos e outras ruínas arqueológicas, os arqueólogos e seus auxiliares recolocaram as pedras, tanto quanto possível, como estavam quando os antigos americanos ergueram pela primeira vez os edifícios. O resultado é que hoje o território que vai do norte da Cidade do México até o Chile está literalmente salpicado de numerosos sítios arqueológicos, muitos dos quais foram escavados por arqueólogos. ¶
1John Lloyd Stephens, Incidents of Travel in Central America, Chiapas, and Yucatan (1841): Incidents of travel in Yucatan (1843). ¶
Antes de prosseguir, desejo assinalar, com clareza, que a maioria das ruínas arqueológicas que foram escavadas é posterior aos tempos do Livro de Mórmon, e algumas delas foram originalmente erguidas várias centenas de anos após o fim da história nefita. ¶
Então vocês poderão perguntar: "Que evidência dão essas ruínas antigas para sustentar o Livro de Mórmon?" ¶
Responderei o seguinte: O Livro de Mórmon afirma que grandes civilizações viveram na América antiga. De fato, esse sagrado registro assinala que três povos distintos vieram à América em tempos antigos e ali estabeleceram suas civilizações. Esses povos eram conhecidos como jareditas, nefitas e mulekitas. Os melhores arqueólogos, no momento presente, afirmam que muitos dos vestígios arqueológicos que foram escavados foram construídos sobre templos, pirâmides e outros edifícios anteriores, denotando civilizações mais antigas; e, em muitos aspectos, esses povos anteriores eram mais desenvolvidos, ou mais civilizados, do que o povo que ergueu os edifícios dos vestígios arqueológicos que hoje ainda existem; por exemplo, Miguel Covarrubias, expressando os pontos de vista dos arqueólogos mexicanos, situa o sítio de La Venta dentro do período de 200 a.C. a 300 d.C. Cito este autor: ¶
Por toda parte há tesouros arqueológicos escondidos nas selvas e sob o rico solo do sul de Vera Cruz, montículos funerários e pirâmides, monumentos colossais de basalto magistralmente esculpidos, esplêndidas estatuetas de jade precioso, e figurinhas de argila sensivelmente modeladas, todas de uma qualidade artística sem precedentes. A instigante presença de um grande e remoto passado no que hoje é uma selva desabitada e impenetrável é ainda mais intrigante porque os arqueólogos concordam agora que muitas dessas obras-primas artísticas remontam aos primórdios da era cristã. Surgindo subitamente do nada, em estado de pleno desenvolvimento, elas constituem uma cultura que parece ter sido a raiz, a cultura-mãe, da qual surgiram as culturas posteriores e mais conhecidas (maia, totonaca, zapoteca etc.). ¶
Esta, a mais antiga das altas culturas nativas americanas, é também a mais nova, pois só foi "descoberta" há poucos anos e ainda aguarda um estudo científico exaustivo.2 Os Santos dos Últimos Dias sabem que as três mais antigas "altas culturas nativas americanas" foram as culturas jaredita, nefita e mulekita, sendo estas duas últimas perfeitamente compatíveis com o período de La Venta. ¶
2Miguel Covarrubias, Mexico South—The Isthmus of Tehuantepec (1946), pp. 79-80. ¶
O sítio arqueológico de La Venta, localizado perto da costa do Golfo do México, foi escavado pelo Dr. Matthew W. ¶
Stirling em 1939-1940. A ele se atribui a datação desta cultura de 450 a.C. ¶
a 600 d.C.3 Ele fez ali um achado arqueológico de grande importância: a talha de uma estátua de um homem que lembra a representação usual do "Tio Sam".4 Esta figura tinha uma barba cheia e fluente e um nariz aquilino, constituindo uma boa representação de um sacerdote hebreu. Covarrubias descreveu a figura como representando uma pessoa com "...surpreendentes traços semíticos pronunciados."5 Stirling assinala que a figura é retratada usando "...sapatos com bicos estranhos, pontudos e voltados para cima."6 Nem os sapatos nem o rosto e a barba fluente do "Tio Sam" poderiam ser a representação de um índio de pele vermelha;7 mas, como afirmado, assemelha-se fortemente a um sacerdote judeu de tempos pré-cristãos. ¶
3A. Hyatt Verrill, Americas' Ancient Civilizations (1953), p. 100. ¶
4Matthew W. Stirling, National Geographic Magazine (Sept., 1940), p. 327; Milton R. Hunter and Thomas Stuart Ferguson, Ancient America and the Book of Mormon, pp. 133-135, 173. ¶
5Covarrubias, op. cit., p. 90. ¶
6Stirling, op. cit., p. 327. ¶
7Sylvanus G. Morley, The Ancient Maya, p. 21, afirma: "Os maias não são um povo peludo. Os homens ou não têm barba nem bigode, ou apenas muito escassos e ralos, enquanto outras partes de seu corpo têm menos pelo do que ocorre nos brancos americanos." Os mesmos fatos aplicam-se à maioria dos índios. ¶
O Dr. Stirling também encontrou no sudoeste do México, em Izapa, uma pedra coberta de talhas que foram interpretadas pelo Dr. M. Wells Jakeman, da Universidade Brigham Young, como uma representação do sonho de Leí sobre a "Árvore da Vida", registrado em 1 Néfi 8:1-38. Cito o Dr. Jakeman: ¶
...a semelhança desta escultura com o relato do Livro de Mórmon não pode ser acidental. ... Ela praticamente estabelece... uma conexão histórica... entre os antigos sacerdotes centro-americanos responsáveis pela escultura e o povo de Leí do Livro de Mórmon! De fato, o conhecimento preciso e detalhado da visão de Leí... demonstrado por esses sacerdotes nesta escultura só pode ser explicado por sua identificação como um grupo real do povo de Leí.8 De especial interesse para os Santos dos Últimos Dias é o templo de Quetzalcóatl, localizado em Teotihuacán, ao norte da Cidade do México. ¶
8M. Wells Jakeman, "An Unusual Tree of Life Sculpture from Ancient Central America," Bulletin of University Archaeological Society (March, 1953), pp. 26-49. ¶
Este templo é decorado com cabeças de serpentes, rodeadas de penas de quetzal. ¶
Quetzal é o nome de uma bela ave de longas e resplandecentes penas verdes, encontrada principalmente na Guatemala e em Honduras.9 Coatl é a antiga palavra mexicana para serpente.10 O Livro de Mórmon dá um belo relato da aparição de Cristo aos nefitas após sua crucificação e ressurreição.11 A eles, ele deu o verdadeiro plano evangélico de salvação, e o povo viveu em quase perfeita retidão por mais de duzentos anos. Certamente a visita de Cristo constituiu um dos maiores acontecimentos, senão o maior, que transcorreu na América antiga. ¶
9Hunter and Ferguson, op. cit., pp. 199, 195-222. ¶
10Ibid., 199; Verrill, op. cit., pp. 101-111. ¶
113 Néfi, capítulos 11 a 28, pp. 420-453. ¶
Após a apostasia dos nefitas e dos lamanitas da verdadeira religião do Mestre, e a extinção da civilização nefita (por volta de 400 d.C.), os lamanitas, ou índios, conservaram em suas tradições a memória da aparição do Salvador ressuscitado a seus antepassados. Este Deus de barba branca, segundo uma tradição, veio ao povo através do ar, e, ao descer à terra, os raios do sol cintilavam em seu belo corpo e vestimenta brancos. A ave quetzal, ao voar pelo ar, lembrava ao povo a gloriosa beleza e o esplendor radiante do Deus de barba branca que aparecera a seus antepassados; e assim eles acrescentaram um toque pagão a esse acontecimento memorável, escolhendo a mais bela e altamente estimada ave do Novo Mundo, o quetzal, como símbolo do Deus branco, ou Jesus Cristo. Além disso, coatl, ou serpente, era um antigo símbolo do Ungido de Israel. Assim, os índios comemoravam seu Deus de barba branca com o símbolo da "ave-serpente quetzal" ou Quetzalcóatl.12 Existiam tradições em praticamente todas as tribos indígenas americanas, especialmente entre os povos mais civilizados do Peru, da América Central, da Guatemala, do Yucatán e do México, de que seus antepassados haviam sido visitados por um Deus de barba branca, que lhes deu sua cultura, sua civilização e sua religião, e que prometeu que um dia retornaria a seus descendentes. Essas tradições explicam a fácil conquista do México e do Peru; mas, mais importante ainda, todas elas testificam da aparição de Cristo aos antigos americanos, conforme relatado no Livro de Mórmon. ¶
Também, de especial interesse para os membros da Igreja de Jesus Cristo são as belas e famosas ruínas arqueológicas no Yucatán, especialmente as de Chichén Itzá, Uxmal e Kabah. As maciças pirâmides, templos e outras importantes estruturas foram erguidos durante o século dez d.C., constituindo obra do Novo Império Maia. Aqueles maias do Yucatán, como haviam feito os toltecas de Teotihuacán, adoravam o Deus de barba branca, a quem chamavam Kukulcán. Eles esculpiram em seus edifícios motivos referentes a Kukulcán, semelhantes aos de Teotihuacán e de outros sítios mexicanos, isto é, a serpente emplumada.13 De fato, a serpente emplumada é amplamente usada na decoração de todos os seus edifícios. ¶
12George C. Vaillant, Aztecs of Mexico, p. 52; Bancroft, Native Races, vol. 2, p. 511 e segs.; Números 21:8-9; João 3:14-15; Maurice H. Farbridge, Studies in Biblical and Semitic Symbolism, p. 25; Hunter and Ferguson, op. cit., pp. 195-222; Verrill, op. cit., p. 67. ¶
Além disso, os maias decoravam seus edifícios com outro motivo ou símbolo — o de um homem branco barbado usando penas de quetzal. Essas últimas talhas representavam sacerdotes de Kukulcán (Quetzalcóatl), ou provavelmente o próprio Kukulcán. Elas definitivamente não são de tipo indígena, mas de tipo hebraico. Cito Theodore Arthur Willard: ¶
Um detalhe interessante... é o semblante distintamente semítico de algumas das esculturas e murais antigos encontrados em Chichén Itzá e em outras antigas cidades maias. A dignidade do rosto e a serena compostura dessas efígies esculpidas ou pintadas são marcadamente hebraicas.14 ¶
Os maravilhosos achados arqueológicos de Palenque, no Vale de Usumacinta — especialmente a cruz e os sepultamentos de tipo egípcio —, as famosas ruínas do Antigo Império Maia em Honduras e na Guatemala — especialmente as de Copán, Uaxactún e Quiriguá — todos testificam das alegações do Livro de Mórmon de que altas civilizações viveram na América antiga. O falecido Dr. Sylvanus G. ¶
Morley sustentava que a história maia teve início já por volta de 300 a.C.15 e que a história pré-maia remonta a cerca de 3000 a.C.16 A primeira data alcançaria a parte inicial da história nefita, e a última se estenderia até os primórdios da história jaredita. ¶
Quando se consideram todas as maravilhosas ruínas arqueológicas do México, de Honduras, da Guatemala e da América Central, e as da América do Sul, chega-se à conclusão de que as do hemisfério norte não superam as maravilhosas ruínas arqueológicas encontradas no Peru, no Equador, na Bolívia e na Colômbia. Numerosos edifícios foram escavados, e alguns deles reconstruídos. Milhares de sepulturas foram abertas, e delas foram retirados os mais belos e artísticos trabalhos em ouro, prata, cobre e pedras preciosas de vários tipos.17 ¶
13Ibid., p. 101 e segs. ¶
14Theodore Arthur Willard, The City of the Sacred Well, p. 36. ¶
15Morley, op. cit., p. 14. ¶
16Ibid., pp. 38, 44. ¶
Além disso, dessas sepulturas foram retiradas as mais finamente tecidas e belas rendas, os mais suntuosos tecidos de lã e algodão, e o "linho fino trançado". De fato, vários arqueólogos sustentam que o mundo não conheceu raças de povos que superassem os predecessores da civilização inca nesses vários ofícios manuais. Alguns deles sustentam que a mais antiga civilização sul-americana remonta a cerca de 3000 a.C.;18 por exemplo, A. Hyatt Verrill afirma: ¶
Apesar da alta realização em arte, engenharia, astronomia e governo alcançada pelos astecas, pelos incas, pelos maias e outros, de certa forma essas raças desconhecidas e esquecidas da América do Sul foram mais notáveis, e eram inquestionavelmente muito mais antigas. Desde a região chibcha, na Colômbia, até o norte do Chile, numerosas raças chegaram a um estado civilizado, desapareceram e foram esquecidas séculos antes de o primeiro Montezuma ou o primeiro Inca verem a luz do dia.19 Como regra geral, quando encontramos uma raça que se destaca em alguma arte ou ocupação, encontramos o povo deficiente em alguma outra arte ou indústria, mas os chimus parecem ter sido mestres de todos os ofícios. Seus têxteis, especialmente suas rendas, eram exemplos maravilhosos de tecelagem, e seu trabalho em mosaico e madrepérola era requintado. Muitos espécimes desses são exemplos verdadeiramente maravilhosos desta arte altamente desenvolvida. Há vasos, taças, utensílios cerimoniais, alargadores de orelha, peitorais, utensílios de madeira, objetos feitos de argila e de osso que são altamente e muito artisticamente ornamentados com incrustação de mosaico de madrepérola, a concha vermelha Spondylus, pedra colorida e metais preciosos. Muitas de suas vestes e ponchos, de magníficos tecidos, estão completamente cobertos de ornamentos de ouro, prata, madrepérola e seções de conchas marinhas de cores vivas, dispostas em padrões encantadores, de modo a dar o efeito de um tecido em mosaico. ¶
Eram também talhadores de madeira altamente habilidosos, e dificilmente há um objeto de madeira que não esteja lindamente entalhado. ... Haviam desenvolvido um método único de tecer penas em tecidos, produzindo assim mantos de penas, túnicas, cobre-cabeças etc., de cores e desenhos deslumbrantes. ... ¶
Mesmo em seu trabalho comum com metais, os chimus exibiam a maior habilidade e um gosto muito artístico. Os metais eram fundidos, embutidos, corroídos, gravados, prensados, martelados, torneados ou construídos em inúmeras formas por ¶
17Verrill, op. cit., pp. 183-195. ¶
18Ibid., pp. 174-175, 183, 210. ¶
19Ibid., p. 148. ¶
soldagem e fusão. De fato, todo meio de trabalhar metais conhecido pelos artesãos modernos era empregado pelos chimus.20 Cabe lembrar que a história do Livro de Mórmon está confinada ao período compreendido entre a construção da Torre de Babel e o ano 421 d.C., o período durante o qual os antigos americanos alcançaram suas maiores realizações nos vários ofícios manuais descritos pelo Sr. Verrill. Também devemos recordar que o Livro de Mórmon fez as seguintes afirmações: ¶
[Os jareditas tinham] ...toda espécie de frutas e de grãos e de sedas e de linho fino e de ouro e de prata e de coisas preciosas.21 [Os nefitas e os mulekitas também tinham em abundância] ...tudo que lhes era necessário — abundância... ¶
de ouro e de prata e de coisas preciosas; e abundância de sedas e de finos tecidos de linho e de toda espécie de bons tecidos simples.22 Novamente lemos: ¶
E eis que em ambas essas terras havia todo tipo de ouro e de prata e de minerais preciosos de toda espécie; e havia também hábeis artífices que trabalhavam e refinavam toda espécie de minério; e assim, tornaram-se ricos. ¶
Eis que suas mulheres trabalhavam e fiavam e faziam toda sorte de tecidos de linho fino; e tecidos de todo tipo para cobrir sua nudez.23 Certamente todos esses vestígios arqueológicos se ajustam bem às alegações do Livro de Mórmon a respeito das civilizações jaredita, nefita e mulekita; assim, a arqueologia fala, por assim dizer, do pó, comprovando que o Livro de Mórmon é verdadeiro — que é a palavra de Deus. ¶
20Ibid., pp. 154-157. ¶
21Éter 9:17. ¶
22Alma 1:29; ver 4:6. ¶
23Helamã 6:11, 13; ver Mosías 10:5. ¶
A segunda evidência que verifica o Livro de Mórmon, da qual tratarei, são os escritos dos historiadores indígenas do século dezesseis. Quando os conquistadores espanhóis e os padres católicos conquistavam o México e o Yucatán, descobriram que os índios tinham muitos livros — grandes bibliotecas. Muitos dos índios sabiam ler e escrever e eram mais civilizados do que seus conquistadores da Europa. A fim de destruir, tanto quanto possível, a civilização dos nativos e acabar com o que os padres católicos chamavam de "o pagão perverso dos índios", os padres católicos queimaram todos os livros que puderam encontrar, destruindo completamente as bibliotecas. ¶
Este terrível ato de vandalismo resultou numa perda terrível para a nossa compreensão da história dos índios e de seus antepassados. ¶
Foi felizmente, porém, que três ou quatro excelentes manuscritos escritos por historiadores indígenas durante o primeiro século de seu contato com os espanhóis escaparam à destruição impiedosa. Esses escritos foram traduzidos para o inglês durante os últimos anos. ¶
Um desses importantes escritos foi produzido em 1554, na língua indígena quiché-maia da Guatemala, e "...assinado pelos reis e dignitários da corte quiché."24 É conhecido como o Título dos Senhores de Totonicapán. ¶
24Title of the Lords of Totonicapdn, p. 164. ¶
A pedido dos índios quichés, Dionisio José Chonay, um sacerdote católico, traduziu o documento da língua quiché para o espanhol em 1834. ¶
Foi primeiramente traduzido para o inglês por Delia Goetz e publicado em 1953. ¶
Contudo, o Dr. M. Wells Jakeman publicou em inglês trechos da versão espanhola em 1945, sendo esta a primeira vez que qualquer parte desta obra apareceu em inglês. O Totonicapán afirma que os antepassados dos quiché-maias... vieram da outra parte do oceano, de onde nasce o sol, um lugar chamado Pa Tulán, Pa Civán [significando Abundância]... e vieram de onde nasce o sol, descendentes de Israel, da mesma língua e dos mesmos costumes... eram filhos de Abraão e Jacó.25 E então os autores do Totonicapán encerram seu relato assim: ¶
25Ibid., pp. 169-170. ¶
Agora, no vigésimo oitavo dia de setembro de 1554, assinamos este atestado, no qual escrevemos aquilo que, por tradição, nossos antepassados nos contaram, os quais vieram da outra parte do mar, de Civán-Tulán, fazendo fronteira com a Babilônia.26 Essas afirmações estão todas em perfeito acordo com as alegações feitas no Livro de Mórmon.27 Devemos recordar que Néfi e seus irmãos construíram seu navio num lugar que chamaram de Abundância, localizado nas costas sudeste da Arábia, ou "fazendo fronteira com a Babilônia"; e desse lugar partiram rumo à América. O Totonicapán também afirma que Deus deu ao seu profeta-líder original um instrumento peculiar, chamado Girón-Gagal, pelo poder do qual o povo foi guiado até sua nova terra.29 Isso nos faz lembrar da Liahona, dada pelo Senhor ao Pai Leí.30 Outro livro quiché-maia, o Popol Vuh, muito mais detalhado do que o Totonicapán, foi escrito entre 1554 e 1558 d.C. Em sua forma impressa atual, é um livro com mais de duzentas páginas. Poderia ser chamado o relato lamanita de sua história e religião, assim como o Livro de Mórmon é o relato nefita. A respeito deste livro, Brasseur de Bourbourg escreveu: ¶
26Ibid., p. 194; Hunter and Ferguson, op. cit., pp. 8, 56-64, 70, 80-84, 250. ¶
27l Nefi 17:40. ¶
28Ibid., 17:5-7. ¶
29Totonicapan, op. cit., p. 170. ¶
301 Nefi 16:10; Alma 37:38-41. ¶
O Popol Vuh parece ter sido escrito, em parte, de memória, seguindo originais antigos, e, em parte, copiado dos livros sagrados dos quichés. ... Este manuscrito... está escrito num quiché de grande elegância, e o autor deve ter sido um dos príncipes da família real, que o compôs poucos anos depois da chegada dos espanhóis, quando todos os seus antigos livros estavam desaparecendo.31 O Popol Vuh foi primeiramente traduzido para o inglês por Delia Goetz e Sylvanus G. Morley, e publicado em 1950. ¶
Neste livro, os índios quiché-maias da Guatemala dão um relato da criação do mundo,32 da origem do homem,33 do dilúvio,34 da confusão das línguas,35 e da vinda de seus antepassados através do mar, vindos do Oriente.36 Também menciona o fato de que os colonizadores foram guiados até sua nova terra por um instrumento peculiar, chamado Pizom-Gagal37 (a Liahona). Assim, o Popol Vuh, em muitos pontos, sustenta os ensinamentos do relato mais belo e completo encontrado no Livro de Mórmon. ¶
31Brasseur de Bourbourg, citado em Popol Vuh, p. 21. ¶
32Popol Vuh, pp. 81-90. ¶
33Ibid., pp. 86-89. ¶
34Ibid., p. 90. ¶
35Ibid., p. 36. ¶
36Ibid., pp. 18, 79-80. ¶
37Ibid., p. 205. ¶
Um terceiro livro escrito pelos índios da Guatemala, Os Anais dos Cakchiqueles, também testifica dos ensinamentos do Livro de Mórmon. Os autores, os índios cakchiqueles, eram um ramo dos quiché-maias. Citarei este escrito: ¶
Escreverei as histórias de nossos primeiros pais e avós, ... que do outro lado do mar viemos ao lugar chamado Tulán [Abundância], ... ¶
Assim, então, éramos quatro famílias que chegamos a Tulán, nós, o povo cakchiquel, ó, nossos filhos! assim nos disseram.38 O maior livro dos escritos indígenas do século dezesseis é as Obras de Ixtlilxóchitl, escritas por volta de 1600 d.C. por um príncipe asteca chamado Ixtlilxóchitl, que vivia perto da Cidade do México.39 Este escritor indígena afirmava que a América antiga foi colonizada por três grupos distintos de pessoas. Os primeiros colonizadores, chamados os Antigos, os Gigantes, ou os Primeiros Tultecas, ele afirmava terem vindo da Torre de Babel na época da confusão das línguas. Vieram a esta terra através do mar, vindos do Oriente. Muitos detalhes de sua história, dados por Ixtlilxóchitl, correspondem de perto à história jaredita no Livro de Éter. ¶
38The Annals of the Cakchiquels (trad. do cakchiquel-maia para o inglês por Adrian Recinos e Delia Goetz, 1953), pp. 43-44. ¶
39Hunter and Ferguson, op. cit., pp. 1-450. ¶
O segundo grupo de colonizadores, Ixtlilxóchitl chamou de Tultecas. Seu relato sobre esse povo, embora muito mais breve, corresponde muito de perto ao relato dado no Livro de Mórmon a respeito dos nefitas, evento após evento concordando nos pontos principais. Ele até conta das últimas grandes guerras entre os dois povos, com datas quase idênticas às registradas no Livro de Mórmon. ¶
O terceiro povo, a quem Ixtlilxóchitl chamou de olmecas e que são identificados como os mulekitas, exterminou os últimos dos primeiros colonizadores. Este acontecimento nos faz lembrar de Coriântumr, o último jaredita, que viveu nove meses com os mulekitas antes de sua morte. Ixtlilxóchitl chega até a contar a fusão dos tultecas e olmecas (nefitas e mulekitas) e do predomínio da cultura tulteca, o que está em completo acordo com o relato do Livro de Mórmon. ¶
Ao longo de toda a obra de Ixtlilxóchitl, ponto após ponto, tanto na história quanto na doutrina, são razoavelmente comparáveis aos acontecimentos históricos e aos ensinamentos do Livro de Mórmon. ¶
Meramente para fins de ilustração, darei uma citação de Ixtlilxóchitl. Ele conta a terrível destruição que ocorreu na época da crucificação de Cristo, da seguinte forma: ¶
Haviam passado cento e sessenta e seis anos desde que haviam ajustado seus anos e tempos com o equinócio, e duzentos e setenta desde que os Antigos haviam sido destruídos, quando o sol e a lua se eclipsaram, e a terra tremeu, e as rochas se romperam, e muitas outras coisas e sinais ocorreram, ... Isto aconteceu no ano de ce Calli, que, ajustando esta contagem com a nossa, coincide com a mesma época em que Cristo, nosso Senhor, padeceu, e dizem que aconteceu nos primeiros dias do ano.40 ¶
40Works of Ixtlilxochitl, in Hunter and Ferguson, Ibid., p. 190. ¶
Recordamos que em 3 Néfi está escrito: ¶
E aconteceu que no trigésimo quarto ano, no primeiro mês, no quarto dia do mês, levantou-se uma grande tormenta, como nunca antes havia sido vista em toda a terra.41 E então o relato do Livro de Mórmon prossegue com uma descrição da terrível destruição que ocorreu enquanto Cristo estava pendurado na cruz, e da intensa escuridão que prevaleceu por três dias enquanto o corpo do Mestre jazia no túmulo. Observe-se que o Livro de Mórmon dá o momento deste acontecimento como o primeiro mês do ano e o quarto dia do mês, e durante o período da crucificação de Cristo, ao passo que Ixtlilxóchitl afirma "...na mesma época em que Cristo, nosso Senhor, padeceu, ... nos primeiros dias do ano." Não há como, debaixo do céu, este índio poder saber tais fatos, exceto por revelação direta do Senhor ou por registros que estivessem em sua posse. Ele afirmou esta última hipótese. ¶
413 Nefi 8:5 e segs. ¶
Alguns autores estão inclinados a desacreditar os escritos de Ixtlilxóchitl e dos demais historiadores indígenas, com base no argumento de que poderiam ter sido influenciados pelos padres católicos espanhóis. É, contudo, um fato de grande significado que esses escritores indígenas registraram numerosos fatos históricos, bem como itens referentes aos ensinamentos e costumes sociais e religiosos de seus antepassados, dos quais os padres católicos não poderiam ter conhecimento algum, senão por meio da posse do Livro de Mórmon ou de registros comparáveis. Tais escritos, os sacerdotes católicos não tinham; mas os índios possuíam registros e tradições de seus antepassados, o que resultou em seus escritos concordarem tão favoravelmente com o Livro de Mórmon. ¶
O terceiro item que sugeri discutir são os escritos dos missionários católicos do século dezesseis, que obtiveram suas informações diretamente dos índios. ¶
Um dos mais importantes desses escritores foi Bernardino de Sahagún. Ele viveu no México de 1529 a 1590 d. ¶
C., e produziu sua obra erudita em nauá na segunda metade do século dezesseis.42 É um dos relatos mais confiáveis e abrangentes sobre os antigos povos da América Central. Foi publicado pela primeira vez em espanhol em 1829, e desde então partes dele foram publicadas em inglês. Sahagún afirma: ¶
42Bernardino de Sahagun, Historia de Las Cosas de Nueva Espana, cited in Hunter and Ferguson, op. cit., pp. 30-31. ¶
A respeito da origem desses povos, o relato que os anciãos [do México central] dão é que vieram por mar... em alguns barcos de madeira. ... Mas conjectura-se, por um relato encontrado entre todos esses nativos, que vieram de sete cavernas, e que essas sete cavernas são os sete navios ou galeras nos quais vieram os primeiros colonizadores desta terra, ... ¶
O povo primeiro... veio costeando a costa, desembarcando no porto de Pánuco, que chamavam Panco, o que significa "lugar onde chegaram aqueles que atravessaram a água." Este povo vinha em busca do paraíso terrestre, e tinha como nome de família Tamoanchan, que significa "estamos procurando nosso lar."43 ¶
43Ibid. ¶
Recorde-se a história jaredita, que conta que os antepassados atravessaram o oceano em oito barcaças em busca de "...a terra da promissão, que era escolhida acima de todas as outras terras da terra."44 Os escritos de Sahagún dão numerosas provas que sustentam os ensinamentos e a história do Livro de Mórmon, mas o tempo não permitirá dar mais delas aqui. ¶
44Ver Éter 1:42; 2:7, 15; 6:5, 12. ¶
O Bispo Bartolomé de Las Casas, um proeminente missionário católico, escrevendo em 1552-1553, disse dos índios da Guatemala que ...tinham entre eles informação do dilúvio e do fim do mundo, ... e assim acreditam que outro Butic está prestes a vir, o qual é um outro dilúvio e julgamento, não de água, mas de fogo, que dizem será o fim do mundo. ...45 ¶
45Bartolome de Las Casas, Apologetica Historia de las Indias, Cap. CCXXXV. ¶
Las Casas encontrou entre os índios uma abundância de ensinamentos que se assemelhavam à doutrina cristã, e assim concluiu que o diabo havia chegado à América antes dos cristãos e implantado na mente e no coração dos nativos muitos ensinamentos intimamente aparentados ao cristianismo.46 Visto que os povos do Livro de Mórmon tinham um conhecimento completo do evangelho, algumas das verdades divinas naturalmente seriam transmitidas de geração em geração, provavelmente em formas alteradas. ¶
46Hunter and Ferguson, op. cit., p. 222. ¶
Diego de Landa, um proeminente missionário espanhol no Yucatán, escrevendo por volta de 1556, diz que, segundo os maias, "...o mundo foi destruído por um dilúvio."47 Ele também afirmou: ¶
47Diego de Landa, Relation de las cosas de Yucatan (trad. inglesa de Alfred M. Tozzer, 1941), p. 93. ¶
Alguns dos anciãos do Yucatán dizem que ouviram de seus antepassados que esta terra foi ocupada por uma raça de pessoas que vieram do Oriente e a quem Deus havia libertado. ... Se isso fosse verdade, seguir-se-ia necessariamente que todos os habitantes das Índias são descendentes dos judeus.48 ¶
48Ibid., p. 16. ¶
Juan de Torquemada, um missionário espanhol no México cujo livro foi publicado pela primeira vez na Espanha em 1613 d.C., declarou que "...os antigos... puseram [isto é, escreveram ou inscreveram] muitas coisas em duas colunas, uma de metal, e outra de tijolo ou pedra."49 Deve-se recordar que os nefitas inscreviam sua história em placas de metal. ¶
49Juan de Torquemada, Monarquia Indiana, Tomo I, p. 255. ¶
Harold Gladwin cita a descrição que Torquemada faz das vestimentas usadas pelos olmecas, e então comenta que a descrição da veste lembra ". ..as vestes dos tempos bíblicos na Palestina."50 Apresentei algumas evidências sólidas da arqueologia, dos historiadores indígenas do século dezesseis e dos padres católicos do século dezesseis, as quais todas corroboram as afirmações feitas pelo Livro de Mórmon; entretanto, o maior testemunho que temos do Livro de Mórmon é o próprio livro, especialmente o testemunho e a admoestação de Morôni, que dizem o seguinte: ¶
50Harold S. Gladwin, Men out of Asia (1947), p. 305. ¶
E quando receberdes estas coisas, eu vos exorto a perguntardes a Deus, o Pai Eterno, em nome de Cristo, se estas coisas não são verdadeiras; e se perguntardes com um coração sincero e com real intenção, tendo fé em Cristo, ele vos manifestará a verdade delas pelo poder do Espírito Santo.51 Milhares de Santos dos Últimos Dias colocaram essa exortação à prova e sabem, como sabem que estão vivos, que o Livro de Mórmon é verdadeiro. Quando eu era criança e ouvi pela primeira vez as histórias do Livro de Mórmon, o Espírito Santo tocou meu coração e deu um doce testemunho da autenticidade divina daquele registro antigo. Eu soube então, como sabia que estava vivo, que o Livro de Mórmon é verdadeiro, é divino, é um registro sagrado dos habitantes da América antiga. À medida que fui crescendo, li o livro muitas vezes, e cada vez o mesmo doce testemunho penetrava em meu coração, às vezes vindo com tanta força que eu me enchia de emoção a ponto de as lágrimas correrem pelo meu rosto. ¶
Ao ler agora o Livro de Mórmon, o Espírito Santo ainda me testifica que ele é a palavra de Deus. ¶
Sei que o Livro de Mórmon é um dos maiores livros do mundo. ¶
Contém o evangelho de Jesus Cristo para os judeus e para os gentios. É uma nova testemunha de Cristo e da grande obra que ele realizou. Desafio qualquer homem ou mulher honestos no mundo a colocar a exortação de Morôni à prova; e prometo que, se isso for feito com real intenção, com um verdadeiro desejo de receber um testemunho, e tendo fé em Cristo, Deus revelará, por meio do Espírito Santo, a cada um, um testemunho da veracidade do Livro de Mórmon. ¶
51Moroni 10:4. ¶
Que Deus abençoe os de coração honesto em todo o mundo, para que estudem o Livro de Mórmon e recebam um testemunho; e que ele abençoe os membros da Igreja, para que estudemos este livro sagrado e vivamos de acordo com seus ensinamentos, rogo humildemente, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶