Educação, Fé e o Testemunho de Estranhos
Levi Edgar Young
Meus irmãos e irmãs: a história dos Santos dos Últimos Dias, desde a organização da Igreja em 1830, é uma das histórias mais maravilhosas de todos os tempos. A glória de sua história está no fato de que houve um propósito e um ideal divinos a serem realizados nesta vida. ¶
Este propósito divino baseia-se na fé em Deus, na inteligência e na previsão. Muitos visitantes de todo o mundo vêm perguntar sobre o verdadeiro significado de nossa religião. Há poucos dias, sentou-se em meu gabinete um certo senhor Walter Mallin, representante de um dos jornais sobreviventes da Alemanha Ocidental. Junto com outros dois jornalistas, ele fora enviado à América para estudar o governo, a educação e a religião americanos. Veio a Salt Lake City, por ser este um dos centros que fora orientado a visitar, pois sabia que tínhamos muitos conversos alemães. Seria impossível relatar-vos as muitas perguntas que ele fez, mas a mais importante para ele foi como nossa religião funcionou em favor da educação. Explicou-se-lhe nossos ideais de educação e religião. ¶
Em um livro recente intitulado Education — America's Magic ("Educação — a Magia da América"), de Raymond M. ¶
Hughes, Presidente Emérito do Iowa State College, e William H. Lancelot, Professor de Educação Vocacional do Iowa State College, temos a mais recente declaração sobre a educação na América e nos respectivos estados da América. ¶
Falando do lugar dos estados da União na educação, os autores desse livro nos dizem que "Utah ocupa o primeiro lugar entre os estados, por larga margem." Ao falar do lugar de Utah, verificamos que ele lidera todos os estados na educação de adultos. ¶
Isso parece dever-se quase inteiramente ao alto valor que o povo de Utah atribui à educação, aliado a uma alta eficiência no uso dos recursos destinados a fins escolares. Essa combinação de grande esforço e alta eficiência na utilização dos recursos escolares parece ter operado de modo notável para superar muitos obstáculos. ¶
A condição geral da educação em Utah também é registrada pelo Professor Ellsworth Huntington, da Universidade de Yale, em seu interessante livro intitulado Civilization and Climate ("Civilização e Clima"), quando escreve: ¶
A posição de destaque de Utah é presumivelmente resultado do mormonismo. Os líderes dessa fé tiveram a sabedoria de insistir em um sistema completo de escolas, e obrigaram as crianças a frequentá-las. Os "gentios" foram forçados, em legítima defesa, a fazer igualmente bem, e o resultado tem sido admirável. Seja qual for a opinião que se tenha sobre o mormonismo como crença religiosa, deve-se reconhecer-lhe o mérito de haver realizado um trabalho notável na disseminação de um grau moderado de educação quase universalmente entre o povo de Utah. . . . ¶
Além disso, informou-se ao correspondente alemão o que seu compatriota, o Conde Keyserling, certa vez escreveu. O erudito filósofo visitou a América alguns anos atrás e, em sua travessia do continente, fez uma parada em Salt Lake City. Como resultado de sua visita, escreveu, em sua famosa obra em dois volumes, estas palavras: ¶
Sem dúvida, Joseph Smith e Brigham Young foram profetas tão genuínos quanto Moisés, Lutero e Calvino; apenas eram excessivamente incultos. ¶
Depois, continua: ¶
Nós, ocidentais, não somos homens de compreensão, mas homens de ação. Os mesmos mórmons cujas ideias religiosas pareciam tão infantis alcançaram uma civilização dificilmente igualada por qualquer outro povo; em pouco mais de meio século, transformaram um deserto de sal em um jardim. São, além disso, cidadãos admiráveis, respeitadores da lei, honestos e progressistas. . . . ¶
É a previdência, a paciência serena e confiante, a suprema fé em Deus com que nosso povo tem trabalhado. Começando pelo Templo de Kirtland, construíram, não para a satisfação presente, mas por algum propósito profundo e nobre para seu Deus. No Templo de Kirtland, o Profeta Joseph Smith demonstrou grande amor pela educação e estabeleceu classes de hebraico, grego e latim, e a elas assistiu ele mesmo. Em Nauvoo, escolas foram estabelecidas e uma universidade fundada, tudo para um grande e nobre propósito. Suas vidas foram a encarnação da fé política, civil e religiosa. Consideremos por um momento apenas uma linha de pensamento, um idealismo que permanece sempre entre o povo mórmon. Falamos das escolas em Kirtland e, mais tarde, em Nauvoo, atividades em empreendimentos educacionais que eclipsaram todos os outros povos na fronteira americana. ¶
Tomando seu nome de um número dos discípulos de nosso Senhor, os "Setentas" ¶
da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias formam o conselho central da atividade missionária da organização. Já no período de Nauvoo da história mórmon, sentia-se vivamente a necessidade de uma boa biblioteca, pois os setentas deviam então, como agora, ler e buscar avidamente as verdades do evangelho. Em Times and Seasons, de 1º de janeiro de 1845, foi publicado o seguinte item: ¶
Entre os melhoramentos em andamento nesta cidade, nenhum merece [sic] maior elogio do que a Biblioteca dos Setentas. O empreendimento foi iniciado em bases e escala amplas o bastante para abranger as artes e as ciências, em toda parte: de modo que os Setentas, ao viajarem pela face do globo, como "Soldados Regulares" do Senhor, possam reunir todas as coisas curiosas, tanto naturais quanto artificiais, com todo o conhecimento, as invenções e os maravilhosos espécimes de gênio que têm ornado o mundo por quase seis mil anos. . . . (formando) o alicerce para a melhor biblioteca do mundo! ¶
Nauvoo foi destruída enquanto os Santos marchavam para seu novo lar no distante oeste. Mas os sonhos do povo nunca se perderam, e, em 15 de julho de 1851, lemos na Quinta Epístola Geral da Igreja, descrevendo Salt Lake City, o seguinte: ¶
No dia 27 de novembro, o quórum dos Setentas, reunido em conferência, decidiu erguer uma extensa rotunda em Great Salt Lake City, a ser chamada de "Salão das Ciências dos Setentas", e Joseph Young, seu Presidente, foi nomeado curador e superintendente da obra. O alicerce do salão foi iniciado nas ruas East Temple e Second South. [Hoje, ruas Main e Second South.] . . . O projeto é altamente louvável aos irmãos, e um edifício assim é muito necessário neste lugar. ¶
Truman O. Angell, mais tarde nomeado arquiteto do Templo de Salt Lake, foi encarregado de elaborar as plantas do edifício, como mostra o desenho há muito esquecido, recentemente encontrado. ¶
Tivesse o projeto sido realizado, a estrutura teria, sem dúvida, possuído incomum interesse arquitetônico, pois tinha uma majestade e beleza próprias, superando tudo o que havia na fronteira em originalidade e dignidade. ¶
As plantas de Truman Angell mostram sua resposta ao renascimento gótico contemporâneo, então em seus estágios iniciais. Foi projetado para ser o repositório da primeira biblioteca trazida a Utah em 1851, mas, devido à pobreza do povo que apenas começava a estabelecer seus lares, o Presidente Brigham Young persuadiu seu irmão Joseph, Presidente dos Setentas, a não construir por alguns anos ainda. Por essa razão, o edifício nunca foi iniciado. Os setentas, porém, continuaram a colecionar livros, e logo tiveram uma boa biblioteca dos clássicos modernos e antigos. Desde a época da organização do Primeiro Quórum dos Setenta em Kirtland, seus deveres foram apontados pelo Profeta Joseph Smith, e vieram a perceber que deviam ser os professores, os missionários da Igreja. Sensíveis às palavras encontradas na 109ª seção de Doutrina e Convênios: ¶
. . . buscai diligentemente e ensinai-vos uns aos outros palavras de sabedoria; sim, nos melhores livros buscai palavras de sabedoria; procurai conhecimento, sim, pelo estudo e também pela fé. (D. & C. ¶
109:7.) Tinham profundo desejo de possuir uma biblioteca de obras religiosas, históricas e literárias, que lhes desse o impulso para o autodesenvolvimento. ¶
Os setentas tornaram-se leitores da mais fina literatura do mundo, começando pela Bíblia Sagrada, o Livro de Mórmon e as outras duas obras da Igreja. ¶
O povo era pobre em recursos, mas se preocupava com certas influências transmitidas nos escritos de grandes autores. Sublime era sua reverência pelo conhecimento, que é afim ao amor pela verdade. Sabiam que um grande feito, de qualquer natureza, só podia ser alcançado pelo poder de algum ideal. ¶
E são os altos ideais na conduta da vida que sobrevivem. ¶
Dificilmente havia uma família vivendo em regiões remotas do território que não tivesse livros, e penso que muitos de vós podem se lembrar das bibliotecas das escolas de sábado dos primeiros dias. O Presidente Joseph Young e seus colaboradores no Primeiro Conselho dos Setenta continuaram, através dos anos, a colecionar livros, e o povo mórmon tornou-se um grande leitor de literatura. Muitos dentre vós, membros mais antigos da Igreja, podem lembrar-se dos grandes mestres que outrora havia nas escolas e faculdades daqui. Um professor da Universidade de Princeton, em sua Life of Mr. justice Sutherland ("Vida do Juiz Sutherland"), escreveu reverentemente sobre o Dr. Karl G. Maeser, e outros têm relatado, por toda parte, a história de muitos dos gloriosos intelectos deste povo que viveram nos tempos pioneiros. Houve também escritores, já nos primeiros dias, e foi William Cullen Bryant quem escolheu um dos poemas de Sarah E. ¶
Carmichael para incluir em sua antologia de versos americanos. Muitos dos missionários que foram para o exterior, muito antes da ferrovia, carregavam em seus carrinhos de mão as obras de Shakespeare e do escritor alemão Goethe. Meu próprio pai levou consigo para a Inglaterra, em 1857, os ensaios de Francis Bacon. Praticamente em cada ala de Utah, estabeleceu-se uma biblioteca em conexão com as escolas de sábado. Felizmente, temos em nossa posse um catálogo da Biblioteca dos Setentas que não classifica os livros, mas havia escritos sobre religião, línguas, governo, educação, ética e as várias fases das ciências. ¶
Além da Biblioteca dos Setentas, havia a biblioteca territorial trazida por carros de boi a Utah em 1851. Fora comprada na cidade de Nova York pelo Dr. ¶
John M. Bernhisel, e era uma coleção maravilhosa de livros. Havia as obras de Shakespeare, Milton, Bacon, Homero, Juvenal, Lucrécio, Virgílio, Eurípides, Sófocles, Platão, Montaigne, Tácito, Spenser, Heródoto, Goldsmith, e muitos outros dos grandes mestres da melhor literatura do mundo. A biblioteca recebia exemplares do New York Herald, do New York Evening Post, do Philadelphia Saturday Courier e do North American Review. Das obras científicas, havia a Principia de Newton, o Outlines of Astronomy ("Esboços de Astronomia") de Herschel, e o Cosmos de Von Humboldt. Esses livros também eram bem conhecidos de Orson Pratt. Os tratados de filosofia incluíam as obras de John Stuart Mill, Martinho Lutero, John Wesley e Emanuel Swedenborg. ¶
O tema da educação foi apenas uma das facetas da conversa com nosso visitante alemão. O assunto mais importante foi o da religião e de nossos livros sagrados: a Bíblia Sagrada, o Livro de Mórmon, Doutrina e Convênios e a Pérola de Grande Valor, que ocuparam muitas horas dos três dias em que nosso amigo esteve aqui. ¶
Chamei sua atenção para a douta declaração feita pelo famoso erudito alemão Adolf Harnack, reitor e professor de história eclesiástica na universidade, e membro da Real Academia Prussiana, em Berlim: ¶
Senhores, é a religião, o amor a Deus e ao próximo, que dá sentido à vida; o conhecimento não pode fazê-lo. Permiti-me, se quiserdes, falar de minha própria experiência, como alguém que, por trinta anos, tomou sério interesse por essas coisas. O conhecimento puro é uma coisa gloriosa, e ai daquele que o tem em pouca conta ou embota seu senso para ele! Mas à pergunta: De onde, para onde, e com que propósito? — ele dá hoje uma resposta tão insuficiente quanto a dava há dois ou três mil anos. Ele nos instrui, sim, quanto aos fatos; detecta inconsistências; liga fenômenos; corrige as ilusões do sentido e da ideia. Mas onde e como começam a curva do mundo e a curva de nossa própria vida — essa curva da qual nos mostra apenas um trecho — e para onde essa curva conduz, o conhecimento não nos diz. ¶
Mas, se com vontade firme afirmarmos as forças e os padrões que, nos píncaros de nossa vida interior, brilham como nosso bem mais alto, sim, como nosso verdadeiro eu; se formos sérios e corajosos o bastante para aceitá-los como a grande Realidade e dirigirmos por eles nossas vidas; e se então olharmos para o curso da história da humanidade, seguirmos seu desenvolvimento ascendente e buscarmos, em serviço árduo e paciente, a comunhão das mentes nele, não desfaleceremos em cansaço e desespero, mas nos tornaremos certos de Deus, do Deus a quem Jesus Cristo chamou seu Pai, e que é também nosso Pai. ¶
Para encerrar nossa conversa, fez-se menção à vida e à obra de George Santayana, que fora certa vez professor de filosofia em Harvard e um dos maiores filósofos de nossos dias. Havíamos lido o décimo terceiro capítulo de I Néfi, no Livro de Mórmon, e citado a referência a um homem que foi chamado dentre os gentios. ¶
E olhei e vi entre os gentios um homem que estava separado da semente de meus irmãos pelas muitas águas; e vi que o Espírito de Deus desceu e inspirou o homem; e indo esse homem pelas muitas águas, chegou até a semente de meus irmãos que estava na terra da promissão. ¶
E aconteceu que vi o Espírito de Deus inspirar outros gentios; e eles saíram do cativeiro, atravessando as muitas águas. (1 Néfi 13:12-13.) George Santayana certa vez escreveu um belo poema intitulado "Fé", que trata desta primeira viagem de Colombo. ¶
As palavras iniciais são: ¶
Ó mundo, não escolheste a parte melhor! Não é sabedoria ser somente sábio, E fechar os olhos à visão interior, Mas é sabedoria crer no coração. ¶
Colombo encontrou um mundo, e não tinha mapa, Senão aquele que a fé decifrou nos céus; Confiar na invencível suposição da alma Foi toda a sua ciência e sua única arte. ¶
A vós, meus irmãos setentas, quero dizer: "Aquilo que teus pais te legaram, conquista-o de novo, se queres possuí-lo." ¶
Sede fortes e corajosos; não temais, nem vos espanteis diante deles; porque o Senhor teu Deus é o que vai contigo; não te deixará nem te desamparará. (Deuteronômio 31:6.) Que o Senhor nos abençoe a todos, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶