A Letra Mata, mas o Espírito Vivifica: Provados em Tudo
Spencer W. Kimball
Meus amados irmãos e irmãs, quero assegurar-vos hoje de minha humildade e de meu desejo de dizer algo que seja útil. ¶
Asseguro-vos também de minha lealdade, de meu amor e de minha fé no profeta, vidente e revelador, Presidente David O. McKay, e em seus Conselheiros. ¶
Ao serem lidas esta manhã as estatísticas do crescimento da Igreja, ocorreu-me o pensamento de que talvez nosso amado Presidente George Albert Smith, o Presidente Heber J. Grant, o Presidente Joseph F. Smith, todos os quais conheci pessoalmente, e aqueles outros que presidiram este Tabernáculo e esta Igreja, ficariam gratificados ao ver o tremendo desenvolvimento da Igreja. Esperamos que o crescimento espiritual tenha acompanhado esse ritmo. ¶
Novas Autoridades da Igreja
Hoje sustentamos alguns novos homens em posições oficiais como Autoridades Gerais da Igreja. Tendo conhecido cada um desses homens, meu coração se enche de gratidão por tê-los próximos de nós. Tenho observado o Irmão Longden crescer nestes últimos oito anos desde que o conheci. Estive na estaca do Irmão Stayner Richards e vi a precisão com que sua obra era conduzida. Com o Irmão Moyle, ajudei a empossar o Irmão ElRay Christiansen como presidente da Estaca East Cache, sobre a qual ele agora preside, e ali entrei em contato com um homem de Deus, cujo amor por seu Pai Celestial era insuperável. Foi meu privilégio, muito recentemente, passar uma semana com o Presidente George Q. Morris nos Estados do Leste. Nunca antes tivera o privilégio de conhecê-lo intimamente, mas essa semana convenceu-me de que ele é um dos grandes servos de Deus. E assim sou grato por esses quatro homens que estarão associados a nós um pouco mais de perto do que estiveram no passado, e tenho certeza de que vós sereis inspirados por eles. Por uma década, o Irmão Romney tem crescido cada vez mais próximo de seu Criador. Ele tem servido fielmente; provou-se a si mesmo; resistiu à prova e esteve à altura dela. Sou grato por ter o Irmão Marion Romney como um de nosso Conselho, e o sustentarei plenamente. ¶
Ao pensar no chamado destes irmãos, lembro-me da declaração feita pelo Salvador no nono capítulo de Lucas, em que ele diz: E aconteceu que, indo eles pelo caminho, alguém lhe disse: Senhor, seguir-te-ei para onde quer que fores. ¶
E disse-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. ¶
E disse a outro: Segue-me. Porém ele disse: Senhor, deixa que primeiro eu vá, e enterre meu pai. ¶
Mas Jesus lhe disse: Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos; porém tu vai e anuncia o reino de Deus. ¶
Disse também outro: Senhor, eu te seguirei, mas deixa-me despedir primeiro dos que estão em minha casa. ¶
E Jesus lhe disse: Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus. (Lucas 9:57-62.) Cinco homens hoje puseram firmemente as mãos no arado, para nunca mais voltar atrás. Estiveram dispostos a fazer ajustes, sejam quais forem os exigidos, e os ajustes não serão poucos. Não temem o sacrifício. E assim é também, em maior ou menor grau, com os membros da Igreja. ¶
"Assim Os Provaremos"
Antes de virmos ao mundo, o Senhor nos disse, a nós e à grande multidão: . . . Desceremos, pois há espaço lá, e tomaremos destes materiais, e faremos uma terra onde estes possam habitar; E assim os provaremos para ver se farão todas as coisas que o Senhor seu Deus lhes ordenar. (Abraão 3:24-25.) Creio que foi deste mesmo púlpito que meu avô proferiu um sermão em que disse: "A prova, a prova, A PROVA está chegando." Pois bem, a prova está aqui. A prova sempre esteve aqui. Viemos ao mundo como uma prova. Ao longo de todo o caminho há ajustes a fazer. Há pecados a vencer. Há muito a aprender. Há fraquezas acima das quais devemos nos elevar. Devemos alcançar o autodomínio, tornar-nos justos e atingir a perfeição. ¶
Nos primeiros dias do ministério do Salvador, ele nos deu, num grande sermão: ¶
E ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; ¶
E se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. ¶
(Mateus 5:40-41.) E ele diz um pouco mais adiante: . . . Amai vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; Para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus: ¶
. . . Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? ¶
Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus. (Ibid., 5:44-46, 48.) ¶
O Espírito Vivifica
A letra mata e o espírito vivifica, e em todas as nossas atividades devemos lembrar-nos disso. ¶
O Irmão Romney falou da bela vida do Salvador, de sua vida de sacrifício. Pergunto-me se, ao irmos às nossas reuniões de testemunho, refletimos sobre a expiação e seu sacrifício. A letra mata, mas o espírito vivifica. Tomamos o pão e a água em memória do corpo, da carne e do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, ou apenas tomamos pão e água? ¶
Quando oramos a nosso Pai Celestial, seguimos procedimentos rotineiros e proferimos uma oração de palavras, ou oramos ao Senhor com todo o nosso coração e alma? A letra mata, e o espírito vivifica. Apenas esta semana, uma jovem me disse que havia orado por luz e pela solução de alguns de seus problemas, mas, embora tivesse proferido muitas orações, sentia que suas súplicas não haviam ido além do teto. ¶
E quanto aos demais princípios do evangelho — somos sinceros e devotos? Pagamos nossos dízimos com grande devoção — com gratidão pelo privilégio, ou pagamos automaticamente, por rotina, ou porque nos sentimos pressionados? É minha opinião sincera que o Senhor não precisa dos dízimos que pagamos. Certamente ele os aplica de forma benéfica, na construção de capelas, templos, na obra missionária, em empreendimentos educacionais, mas o Senhor poderia encontrar outras formas e meios de financiar seu programa sem os dízimos. ¶
Somos nós, vós e eu, que somos abençoados quando pagamos os dízimos. Obedecemos a um princípio; dominamos nossos desejos; obedecemos a um mandamento sem necessariamente saber plenamente por quê. Vós vos lembrareis de que o anjo disse a Adão: "Por que ofereces sacrifícios ao Senhor? E Adão respondeu-lhe: Eu não sei, exceto que o Senhor me mandou." (P. de G. P., Moisés 5:6.) Adão era um homem de Deus de grande fé, e continuou a oferecer sacrifícios ao Senhor porque isso lhe havia sido ordenado, ainda que não compreendesse plenamente o motivo, e ainda que isso representasse para ele um sacrifício financeiro considerável. Por que ofereceu sacrifícios — porque era um mandamento de seu Pai Celestial. ¶
Fora-lhe dito para realizar esse ato por alguém que ele sabia ser seu Deus. Tinha fé e confiança absolutas de que bênçãos viriam dessa obediência, e não hesitou. Depois que viveu a lei, então veio a compreensão, pois o milagre segue a fé, e não a fé o milagre. O anjo explicou-lhe que isso era para mantê-lo em memória constante da vinda de Cristo, que salvaria o mundo e exaltaria aqueles do povo que vivessem os mandamentos. ¶
Se Adão tivesse esperado até poder compreender e racionalizar plenamente o programa, talvez, nesse ínterim, sua família tivesse se afastado da verdade, e ele mesmo pudesse ter perdido sua fé. Ele precisava de algo tangível — um sacrifício constante — para ajudá-lo a lembrar-se da vinda do Salvador num tempo posterior. E assim participamos do sacramento para nos lembrar do sacrifício que o Salvador fez, e agora podemos pagar nossos dízimos, que serão para nós uma lembrança constante das promessas e das exigências de nosso Pai Celestial. Assim, cada vez que pagamos nossos dízimos, é um sacrifício pessoal e traz, com ele, uma bênção de fé e proximidade com nosso Pai Celestial. ¶
A Palavra de Sabedoria
Frequentemente ouço as pessoas falarem sobre a Palavra de Sabedoria e enfatizarem o fato de que ela prolongará o período de suas vidas se a observarem estritamente. Eu também creio que é a lei de saúde do Senhor e que ela prolongará nossas vidas e nos dará melhor saúde enquanto vivermos. Mas essa não é a razão pela qual obedeço à lei da Palavra de Sabedoria, e desejo digredir para enfatizar novamente que a Palavra de Sabedoria é uma lei. Deste mesmo púlpito, foi declarada por profetas de Deus como sendo uma lei — não apenas uma sugestão. ¶
O Presidente Francis M. Lyman, na conferência geral de abril de 1908, disse: ¶
... Creio que chegou o tempo de os Santos dos Últimos Dias, particularmente, se colocarem em harmonia com esta revelação, a Palavra de Sabedoria, que foi dada no princípio pelo Profeta Joseph como uma palavra de sabedoria, com promessas muito preciosas. No início, não foi estabelecida como um mandamento estrito. Não sei se o Senhor levou em conta o fato de que nossos antepassados, e nossos pais, estavam tão habituados a muitas coisas proibidas na Palavra de Sabedoria que lhes seria difícil ordenar suas vidas em harmonia com essas exigências: assim, nos foram dados talvez trinta a quarenta anos de treinamento e experiência antes que o Senhor anunciasse, por meio de seu servo o Profeta Brigham Young, que a Palavra de Sabedoria havia agora se tornado um mandamento do Senhor. O Presidente Young a estabeleceu muito estrita e exatamente, deste mesmo púlpito, dizendo que, dali em diante, a Palavra de Sabedoria é um mandamento do Senhor, e todos os Santos dos Últimos Dias são obrigados a observá-la. (Conference Report, abril de 1908, 14-15.) O Senhor tem insistido que nos abstenhamos do uso de bebidas alcoólicas, tabaco, chá e café. Tenho certeza de que essa abstinência aumentará a duração de nossas vidas e aumentará o vigor de nossas vidas. Mas tenho certeza de que um valor mais profundo advém da observância da Palavra de Sabedoria do que apenas a duração da vida, pois, afinal, todos nós havemos de partir. Chegará o tempo em que nossos corpos e espíritos serão separados, e nossos corpos serão depositados na Mãe Terra, para passar pelo processo regular, e, embora desejemos continuar nossa existência mortal o quanto pudermos com coerência, estou confiante de que há bênçãos maiores que virão a nós do que as estritamente físicas. ¶
A Obediência Traz Bênçãos
Quando me abstenho do uso dessas coisas proibidas, estou obedecendo a meu Pai Celestial, e, quer eu compreenda o propósito ou não, ainda assim receberei a bênção. O Senhor prometeu a todos nós que obedecemos a seus mandamentos e vivemos seus estatutos que tudo o que ele tem é nosso. Viver a Palavra de Sabedoria é uma prova. Talvez ele tenha escolhido tornar parte dessa prova aquelas coisas de uso universal, e que exigiriam caráter, coragem e força para deixar de lado. Foi dada como um princípio, "... adaptada à capacidade dos fracos e do mais fraco de todos os santos, que são ou podem ser chamados santos." (D&C 89:3.) Se alguém obedece à Palavra de Sabedoria apenas por causa do aspecto físico, talvez seja da letra. Mas, se puder resistir à prova e provar-se a si mesmo, que obedecerá aos mandamentos de Deus, então é do espírito, e ele colherá ricas bênçãos. Pode haver outras coisas destrutivas ao corpo, mas, uma vez que o Senhor, por meio de seus profetas, mencionou especificamente certos itens, então destes devemos nos abster. Caso o Senhor venha mais tarde a incluir na Palavra de Sabedoria outras coisas difíceis, também as obedeceremos. ¶
A Lei do Jejum
A lei do jejum é outra prova. Se apenas ficamos sem comer para prover os fundos do bem-estar, isso é, em grande parte, da letra, mas no verdadeiro jejum, em busca de bênçãos espirituais, vêm o autodomínio e a espiritualidade crescente. ¶
No décimo quarto capítulo de Lucas, o Senhor diz: . . . Quando deres um jantar, ou uma ceia, não chames os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem vizinhos ricos, para que não suceda que também eles te tornem a convidar, e te seja isso recompensado. ¶
Mas, quando deres um banquete, chama os pobres, aleijados, coxos e cegos, ¶
E serás bem-aventurado; porquanto não têm com que to recompensar; porque recompensado te será na ressurreição dos justos. (Lucas 14:12-14.) Estamos interessados no que podemos receber, ou estamos interessados no que podemos dar? A vida do Salvador foi uma vida de serviço desinteressado. ¶
A doutrina e o evangelho do Salvador são de abnegação. Estamos interessados no glamoroso e no espetacular? Nosso serviço à Igreja é como a oração do fariseu ou como a do publicano? Vós vos lembrareis de que o Salvador nos deu a parábola: Dois homens subiram ao templo para orar: um fariseu, e o outro, publicano. ¶
O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. ¶
Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo. ¶
O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia em seu peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador! ¶
Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado. (Ibid., 18:10-14.) ¶
A Mansão
Em seu livreto The Mansion,1 Henry Van Dyke nos apresenta um quadro dos mais interessantes do tipo de homem que ora para se exibir e por suas grandes palavras, que faz suas doações onde lhe trarão retorno pessoal, que serve a si mesmo em primeiro lugar e a seu próximo como uma conveniência para si próprio. Sua história é a de um tal John Weightman, que morava numa grande casa de pedra que exalava um ar de calma e opulência reservada. Como sua casa, ele era um homem que se fizera por si mesmo, firme, sólido, bem-sucedido. A arquitetura austera de sua casa era o símbolo de sua posição social, de sua doutrina religiosa e de seu credo comercial. Ele doava generosamente a instituições de caridade estabelecidas. Havia fundações que ele mesmo criara. Dava a sua família luxos, viagens, apresentações na corte, temporadas na Riviera. Seu nome era conhecido e respeitado por toda parte. Mais de cem milhões de dólares já se haviam sentado à sua mesa em banquetes. ¶
Weightman havia dito a seu filho, que o criticava: "Nunca ganhei um único dólar que os tribunais não confirmassem, ao menos a longo prazo, e ainda assim meus negócios têm prosperado. Não há uma única de minhas obras de caridade que não me tenha trazido um bom retorno, seja no aumento de minha influência, na construção de meu crédito, ou na associação com pessoas de posição. É claro que é preciso ter cuidado em como se dá, para garantir os melhores resultados. Nada de doações indiscriminadas, nem moedas nos chapéus dos mendigos." ¶
Seu cheque no prato da coleta valia muito mais para ele do que a mesma quantia em dinheiro teria valido. Ele associava seu nome a todas as campanhas públicas, e lembrava a seu filho: "Vais aprender, meu rapaz, que é sabedoria colocar tuas doações onde possam ser identificadas e te façam bem também." ¶
Seu filho queria que ele ajudasse um homem doente cujos negócios estavam falindo, mas o pai disse: "Dá-lhe algumas centenas, mas não abuses de tua gratidão. Tudo o que receberás dele será uma carta de agradecimento. Não sejas sentimental. A religião não é uma questão de sentimento, mas de princípio." ¶
Quando o filho saiu, John Weightman ficou sentado sozinho em sua cadeira entalhada, sentindo-se estranhamente velho e apático. Sobre a mesa da biblioteca havia recortes de jornal que o elogiavam por sua benevolência. Um editor os chamava de "As Caridades Weightman." Havia hospitais que ele havia mantido, escolas que ajudara, empreendimentos comunitários que fomentara. A denúncia de seu filho o havia feito pensar. ¶
Poderia ele estar errado em sua filosofia de vida? Sentou-se à mesa; a Bíblia aberta estava diante dele. Seus olhos caíram sobre as palavras: "Não ajunteis para vós tesouros na terra . . ." então, sonolento, pesadamente, tentou fixar sua mente nelas. Leu mais adiante: "... ¶
mas ajuntai para vós tesouros no céu. ..." O livro pareceu flutuar para longe — a luz se apagou. Seria isto a morte? O pensamento veio com serenidade, irresistível. Ele afundou sobre a mesa e deslizou para o vazio desconhecido. ¶
Sua vida pareceu retornar a ele depois de um intervalo em branco, e o Sr. Weightman se viu numa terra estranha, atravessando caminhos e encontrando grupos amistosos vestidos de branco, entre os quais reconheceu o velho médico da aldeia, um homem simples, trabalhador, dado ao sacrifício. Outro que reconheceu foi um pobre guarda-livros que se sacrificara ao longo dos anos para cuidar de uma filha aleijada, enquanto a mãe estava internada num hospício. Essa também havia sido uma vida de sacrifício. Viu uma viúva que havia labutado longamente e com muito sacrifício por seus filhos; um mestre-escola que se dedicara à formação da juventude, e muitos outros de semblante alegre e passo leve — todas essas pessoas pareciam estar a caminho da Cidade Eterna, para tomar posse de suas mansões. ¶
À medida que a corrente de pessoas chegava à Cidade Santa, uma personagem vestida de túnica os recebia. "Entrai, vossas mansões estão prontas." Uma a uma, as pessoas deixavam o grupo e entravam nas mansões que lhes haviam sido preparadas. Havia evidências de alegria surpresa, como se seus edifícios fossem mais formosos do que haviam esperado. ¶
De dentro vinham vozes doces de boas-vindas, risos baixos e cânticos suaves. ¶
A maior e mais bela de todas as mansões foi apontada ao médico como sendo a sua, e John Weightman ficou a sós com o guia. ¶
"Para onde desejas ir?", perguntou o guia. E Weightman relatou suas muitas obras de caridade, suas doações e suas fundações, e, quando o guia parou diante de uma rude cabana, tão pequena quanto o abrigo de um pastor, aparentemente feita de sobras descartadas e materiais de refugo, o homem da terra ficou chocado! Certamente havia algum engano! Ele repetiu as muitas coisas que fizera por escolas, igrejas e hospitais, e o guia-anjo disse: "Guardamos e usamos tudo o que nos enviaste — esta é a mansão preparada para ti. ¶
Todas as coisas que fizeste na terra — muitas delas eram boas — mas em verdade já tiveste tua recompensa por elas. Quererias ser pago duas vezes? O bem que realizaste no mundo contou onde o contaste, mas não pertence aqui." ¶
O olhar profundo, penetrante e flamejante do guia pareceu despir John Weightman e o fez murchar, enquanto ele se encolhia e clamava, entrecortado: "Dize-me, então, se minha vida teve tão pouco valor, como vim eu parar aqui?" ¶
"Pela misericórdia do Rei", veio a resposta suavemente. ¶
"Então, como o mereci?", perguntou John. ¶
"Não foi merecido — foi dado. Somente o bem que se faz por amor ao dever, somente aqueles planos em que o bem-estar de outros é o pensamento principal, somente aqueles trabalhos em que o sacrifício é maior que a recompensa, somente aquelas dádivas em que o doador esquece a si mesmo. Não houve nada assim em tua vida?" ¶
"Nada", suspirou ele. "Se houve, foram poucos, e há muito os esqueci." ¶
O guia sorriu gentilmente: "Estas são as coisas que o Rei nunca esquece; e, porque houve algumas delas em tua vida, tens aqui um pequeno lugar." ¶
"A dormência de John Weightman formigou de volta à normalidade. Um cansaço e uma lassidão corporais pesavam sobre ele, mas estava calmo, resoluto e leve de coração. O que lhe havia acontecido, não sabia. Mas isto ele sabia — grandes verdades haviam sido gravadas em sua consciência." ¶
Este homem, Weightman, como muitos dos modernos, esqueceu a admoestação do Senhor quando disse: ¶
Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; Para que a tua esmola seja dada em oculto; e teu Pai, que vê em oculto, te recompensará publicamente. (Mateus 6:3-4.) Esquecem também que o Senhor disse: ¶
E quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. (Mateus 6:5.) Esquecem também que o Senhor disse novamente: ¶
E quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto, para que aos homens pareça que jejuam. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. (Ibid., 6:16.) ¶
Gratidão pelo Desinteresse
Sou grato porque, em toda esta grande Igreja, há muitas pessoas que vivem desinteressadamente, que oram na quietude de seus lares, que estão muito mais interessadas em pagar seus dízimos, dos quais ninguém sabe exceto seu bispo, do que em fazer grandes contribuições que possam ser anunciadas por toda parte. Sou grato porque há numerosas pessoas nesta Igreja que, silenciosamente, semana após semana, comparecem às suas reuniões; adoram o Senhor em suas assembleias; dão testemunho em suas reuniões de jejum; servem fielmente como professores de lar, missionários de estaca, ou nas organizações auxiliares ou quóruns do sacerdócio, sem glamour, sem elogios, sem publicidade. ¶
Que Deus nos abençoe, irmãos e irmãs, para que possamos "buscar primeiro o reino," para que possamos esquecer tudo o mais, e para que possamos nos projetar para fora de nós mesmos, para o grande mundo do serviço a nosso próximo, percebendo que, afinal, os dois grandes mandamentos que o Senhor nos deu fizeram justamente isso. Ele não mencionou a nós mesmos, mencionou os outros. Ele disse: . . . Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; . . . amarás o teu próximo como a ti mesmo. (Marcos 12:30-31.) Tudo isso é serviço aos outros — amor aos outros, não amor a nós mesmos nem serviço a nós mesmos. Que o Senhor nos abençoe para que sejamos desinteressados neste reino, que nos entreguemos generosamente, para que vivamos pelo espírito e não pela letra, para que continuemos a criar famílias numerosas, treinando-as em retidão até o fim. E tudo isso oro em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶
Notes
-
Ver Henry Van Dyke, The Mansion, pp. 16-23, 55ff., 57-59. ↩