A Regra de Ouro e a Necessidade de Arrependimento
Joseph F. Merrill
Irmãos e Irmãs: Estar neste púlpito para dirigir-me aos muitos milhares que aqui se reúnem e aos incontáveis milhares que ouvem pelas transmissões de rádio é sentir-me grandemente humilhado por um vivo sentimento de pesada responsabilidade perante tão vasto auditório, de dizer algo que valha a pena ouvir. Contudo, em minha humildade, conforta-me o pensamento de que o mormonismo, o evangelho restaurado de Jesus Cristo, está tão repleto de verdades preciosas que qualquer uma delas de que possamos falar é digna da atenção de cada um de nós — de todo ser humano normal. Mas não estarão todos os Santos dos Últimos Dias familiarizados com essas verdades, por já as terem ouvido discutidas muitas vezes? Sim, pode ser o caso, mas, se as amam, uma reafirmação ou discussão será ouvida com maior ou menor satisfação. Ao menos essa é a minha experiência. Espero que seja também a vossa. ¶
Um Povo Adquirido
O mormonismo, tal como acabo de defini-lo, não é uma fé protestante, católica, judaica, ou qualquer outra fé ensinada por outras igrejas. Caracteriza-se por muitos ensinamentos e doutrinas não aceitos por outras igrejas. Esse fato é por vezes indicado pela afirmação de que somos um povo adquirido — algo de que nos orgulhamos, mas pelo qual também somos muito humildes e gratos; pois cremos e testificamos que esses ensinamentos característicos são absolutamente verdadeiros, porque nos vieram por meio de visitações e revelações de fontes celestiais — de Deus e de seus mensageiros. ¶
É lugar-comum dizer que o mormonismo é uma religião do dia a dia, porque exige de seus adeptos que ponham em prática, em sua vida diária, o ensinamento de que a fé sem obras é morta — como o disse o apóstolo Tiago; devem praticar todas aquelas virtudes que os farão Santos de fato. Algumas dessas virtudes, contudo, são consideradas por todas as igrejas cristãs como básicas para uma vida cristã aceitável. Uma declaração de algumas delas encontra-se nos artigos onze, doze e treze de nossa fé, que são os seguintes: ¶
"11. Pretendemos o privilégio de adorar a Deus Todo-Poderoso de acordo com os ditames de nossa própria consciência; e concedemos a todos os homens o mesmo privilégio, deixando-os adorar como, onde, ou o que desejarem" ¶
— uma declaração ideal de tolerância religiosa, algo muito necessário hoje, mas negado a milhões de seres humanos no passado. ¶
"12. Cremos na submissão a reis, presidentes, governantes, e magistrados; na obediência, honra, e manutenção da lei." ¶
A lealdade ao país e a obediência às leis constitucionais são exigências para plena comunhão em nossa Igreja. ¶
"13. Cremos em ser honestos, verdadeiros, castos, benevolentes, virtuosos, e em fazer o bem a todos os homens. . . . ¶
É a ênfase que damos a algumas dessas coisas — a castidade, por exemplo — que torna nossos padrões morais mais elevados do que os mantidos por alguns outros grupos religiosos. ¶
Presidente George Albert Smith
Neste ponto, permitam-me um momento de digressão para prestar uma palavra de tributo ao nosso grandemente amado e falecido Presidente, George Albert Smith. ¶
Fomos amigos durante sessenta e dois anos. No final da década de 1880, ele e eu fomos colegas de estudo durante um ano na Universidade de Deseret. Desde então, tenho estado mais ou menos estreitamente associado a ele na obra da Igreja. Por vários anos, estivemos juntos na superintendência da Associação de Melhoramentos Mútuos dos Rapazes na Estaca de Salt Lake, quando essa estaca abrangia todo o Condado de Salt Lake. Tenho dito muitas vezes que nunca conheci um homem que, a meu ver, se esforçasse mais sinceramente e com mais afinco para amar a todos do que George Albert Smith. Não que ele aprovasse tudo o que as pessoas faziam, mas quanto mais elas se desviavam do caminho certo, mais ele parecia ter compaixão delas, por sua maior necessidade de ajuda. ¶
Padrões Morais
Olhando para o mundo hoje, o que vemos em relação aos padrões morais expressos por esses três artigos de nossa fé? ¶
Não importa em que direção olhemos, e sem irmos além das fronteiras de nosso próprio país, vemos que as condições morais são más, em alguns lugares muito más. A maldade dos tipos mais negros e abomináveis existe em quase toda parte. Falo dessas coisas apenas para que sejamos lembrados de que é nosso dever, a meu ver, minimizar e eliminar, na medida do que estiver ao nosso alcance, a entrega a esses males entre nós. Mas não existirá, em muitos lugares entre nós, uma repreensível indiferença e relaxamento em relação a essas coisas? No entanto, não ensinamos nós a tolerância e o arbítrio? — é uma pergunta que às vezes se faz. Por que interferir nos assuntos alheios? Esta é uma pergunta inspirada por Satanás. Certamente espera-se que nos defendamos contra o assaltante, o ladrão, o profanador da santidade de nossos lares e famílias, e o destruidor das coisas que consideramos sagradas e caras — como a vida, a liberdade e a busca da felicidade. ¶
O arbítrio é um direito inestimável, dado por Deus a toda criança nascida na mortalidade, mas não inclui o direito de manchar, ferir ou destruir o bem-estar de nosso próximo. Lestes as recentes notícias de jornal a respeito da existência de redes viciosas de narcóticos que se especializam no comércio voltado aos adolescentes, e incentivam festas de morfina e maconha entre rapazes e moças, que por vezes se transformam em orgias? Ouvistes, sem dúvida, falar do esquema das máquinas caça-níqueis em todo o país, cuja renda chega anualmente a bilhões de dólares; do jogo e das apostas em corridas de cavalos — outras atividades em que se perdem bilhões. Os males decorrentes do consumo de bebidas alcoólicas (cujo custo anual na América é de cerca de oito bilhões de dólares) também alcançaram uma magnitude enorme. Não somos nós, mais ou menos, indiferentes a esses e a muitos outros males? ¶
O Problema da Bebida Alcoólica
O Conselho Nacional de Segurança e outros órgãos advertem repetidamente que o álcool é responsável por grande número de nossos acidentes, aflições, tristezas e mortes. Então, por que consumimos bebidas alcoólicas? Em que medida essa entrega se deve à publicidade? ¶
Consta que os cervejeiros estão fazendo um bom trabalho de promoção de vendas. Neste momento, empenham-se em alcançar um consumo de cem milhões de barris de cerveja por ano, com vistas a chegar a 120 milhões de barris. Grande parte desse consumo, desejam-no no lar, pois é ali que melhor podem desenvolver o uso da cerveja entre mulheres e jovens. Assim se diz que os cervejeiros dão grande atenção aos princípios da venda em loja. A maior parte da publicidade de cerveja é dirigida ao lar, explorando o grande interesse pela televisão; faz-se também uso extenso de fotografias de moças jovens em outdoors. Essa invasão do lar para anunciar cerveja por meio do rádio e da televisão tem, naturalmente, encontrado vigorosa denúncia. ¶
O que podemos fazer a respeito? Este é um problema que todo lar deveria procurar resolver. Não nos esqueçamos da advertência divinamente dada a nós em Doutrina e Convênios: "maldades e desígnios que existem e virão a existir no coração de homens conspiradores nos últimos dias." A lealdade a nossas doutrinas e princípios exige que estejamos alerta e ativos em manter, tanto quanto possível, os males e a maldade longe de nós e de nosso próximo. Não nos esqueçamos, mas ajamos. ¶
Relações com o Próximo
Há outra classe de males a que desejo me referir — males que permeiam as relações com o próximo. Quando o doutor da lei lhe perguntou qual é o grande mandamento na lei, Jesus lhe disse: "Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento." ¶
"Este é o primeiro e grande mandamento." ¶
"E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo." (Mateus 22:37-39.) Aceitamos outra declaração de Jesus como sendo outra versão do segundo mandamento. É a seguinte: ¶
". . . tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles, porque esta é a lei e os profetas." (Idem, 7:12.) Nesta época simplificada, chamamos essa formulação da lei de A Regra de Ouro. Essa regra também está claramente implícita no décimo terceiro artigo de nossa fé. ¶
Em que medida vivemos a Regra de Ouro em todas as nossas relações com o próximo? ¶
Imediatamente após a eclosão da guerra da Coreia, em junho de 1950, o preço dos alimentos e de muitas outras coisas começou a subir — não que o custo de produção tivesse subido tão depressa. Então, por quê? ¶
Quase simultaneamente, ou mesmo antes disso em alguns casos, os líderes de alguns grupos de trabalhadores organizados exigiram um aumento de salários. Por quê? Terá a Regra de Ouro motivado os responsáveis pelo aumento no preço das mercadorias, ou aqueles que clamavam por salários mais altos? ¶
Cobiça e Egoísmo
Ah, mas se diz que a lei da oferta e da procura governa essas coisas. Dizer que isso é verdade é um ultraje ao significado geralmente aceito da palavra lei, tal como aplicada aos fenômenos da natureza ou às leis promulgadas por grupos humanos legalmente constituídos e autorizados a promulgá-las. Para ser claro e franco, não significará a lei da oferta e da procura, tal como praticada nos negócios comerciais, "Obtenha tudo o que puder por aquilo que tem para vender, seja mercadorias, mão de obra ou serviços"? E não estarão a cobiça e o egoísmo entre as verdadeiras forças motivadoras e dominantes que operam em todos os nossos negócios comerciais, sejam grandes ou pequenos, sejam os participantes homens de negócios, profissionais liberais ou trabalhadores? ¶
Reclamamos da inflação — o aumento dos custos que desvaloriza ou diminui o poder de compra do dólar. Em última análise, não serão o egoísmo e a cobiça responsáveis pela inflação? Quem, nos Estados Unidos, é prejudicado pela inflação? Todos os que compraram um título do governo (cerca de oitenta milhões de pessoas), todos os que têm uma caderneta de poupança, uma apólice de seguro ou uma pensão (pelo menos cem milhões de pessoas), todos os que trabalham por um salário ou ordenado que não sobe, proporcionalmente, tão depressa quanto o custo de vida (cerca de sessenta e dois milhões de pessoas), e todas as demais pessoas, exceto os poucos que estão quitando dívidas contraídas anos atrás. Então, para evitar prejudicar as pessoas, não deveríamos, mais de noventa e nove por cento de nós, mesmo por interesse próprio, e o que é mais importante, todos nós que desejamos ser honestos e cremos na Regra de Ouro, fazer tudo o que pudermos para deter a inflação? ¶
Nosso país está enfrentando um dos períodos mais críticos de sua história. O egoísmo e a cobiça o estão despedaçando. O diabo cavalga em triunfo, gritando em satânico deleite diante da total insensatez exibida em todos os níveis, em todas as classes e categorias da sociedade humana. ¶
Neste país, estamos rapidamente nos preparando para a guerra (defender-nos talvez seja a melhor expressão), armando-nos com os meios e instrumentos mais destrutivos que a engenhosidade humana pode conceber. Os surpreendentes avanços realizados na descoberta e no aproveitamento das forças da natureza são maravilhas milagrosas do mundo moderno. Devem-se às realizações de cientistas pesquisadores e inventores engenhosos. Que avanços fizemos nos campos da ciência social? A arte de viver de modo agradável uns com os outros — com o nosso próximo — a mais fina de todas as artes humanas, ainda está em sua infância. ¶
A Regra de Ouro
Como podem os perigos que ameaçam a América, interna e externamente, e todo o mundo, aliás, ser superados, e a paz reinar suprema em toda parte? A resposta é curta; é simples. Que todo ser humano se arrependa e viva a Regra de Ouro. Isso significa guardar os dois grandes mandamentos. Então a ameaça de guerra desapareceria, as aflições cessariam; a maldade terminaria, e a retidão prevaleceria. Não há em todo o mundo uma pessoa sã que possa contestar com êxito essa verdade. Então, por que não nos arrependemos e deixamos que a Regra de Ouro governe nossa vida? Quem tem a resposta? O mormonismo a tem; vós a tendes; Satanás a tem, e ele não se arrependerá. E miríades de nosso próximo também não se arrependerão, porque Satanás os tem em seu poder. Assim, a paz não virá à terra nem será mundial até que Satanás seja acorrentado. Mas o milênio está vindo — o Senhor o disse. Mas quando virá, nenhum homem o sabe, pois nem o dia nem a hora ainda foram revelados. ¶
Contudo, irmãos e irmãs, é dever vosso e meu, dever de todos os que creem em Deus e em seus justos propósitos, tentar, tentar, tentar trazer a Regra de Ouro para nossa vida. Isso podemos fazer razoavelmente bem, com a ajuda do Senhor, que ele prontamente dará a cada um de nós, se a buscarmos dignamente. ¶
Permiti-me relatar dois fatos reais relacionados com a Regra de Ouro. ¶
Anos atrás, o inverno no Vale de Cache foi longo, e houve grande escassez de feno. Um oficial da Igreja foi informado por seu administrador da fazenda de que poderiam ceder várias toneladas de feno, e que o preço corrente era de quinze dólares a tonelada. Disseram ao administrador para pedir apenas oito dólares a tonelada, esse sendo o custo razoável de produção. Relatei essa ocorrência na última conferência de outubro. ¶
Outro caso: anos atrás, uma casa de oito cômodos em Salt Lake City foi vendida em plano de prestações mensais. Cerca de dois anos depois, o comprador disse que teria de desistir do contrato, não podendo, devido a reveses financeiros, continuar a pagá-lo, e que estava se mudando para um barracão de três cômodos. O vendedor pediu ao homem que estimasse o valor que os pagamentos de seus dois anos haviam constituído na casa, dizendo-lhe que o excesso pago lhe seria devolvido de bom grado. O homem insistiu que suas prestações mensais haviam sido apenas um aluguel razoável. Recusou-se a aceitar qualquer devolução. Apesar das cláusulas do contrato em contrário, ambas as partes do acordo foram movidas pelo espírito da Regra de Ouro. ¶
Necessidade de Arrepender-se
Eu disse que temos vários ensinamentos e doutrinas característicos. ¶
A eles nos convertemos, e os aceitamos prontamente. Mas colocá-los em prática em nossa vida é outra questão. Somos seres humanos e herdamos, mais ou menos, as fraquezas da carne, entre as quais estão a indignidade, o egoísmo e a cobiça. Além disso, estamos tão enredados nos modos mundanos de conduzir nossos negócios e nossas formas de ganhar a vida, que descobrimos que o caminho mais fácil para nos sairmos bem é fazer como o mundo faz. Ao fazê-lo, podemos pecar gravemente, afastando-nos mais ou menos amplamente dos padrões da Regra de Ouro. Na medida em que fazemos isso, precisamos nos arrepender. ¶
O que têm feito o egoísmo e a cobiça? Trouxeram todas as grandes guerras da história, resultando na miséria, no sofrimento e na morte de incontáveis milhões de seres humanos, e na perda de bilhões de dólares em bens. Trouxeram maldade, crime, depravação, perda da liberdade e escravidão a todas as partes da terra. ¶
A Necessidade do Momento
Por causa das coisas que mencionei, e de várias outras, este país está enfrentando uma situação muito crítica. Qual é a grande necessidade do momento? A resposta, é claro, como já afirmei, é o arrependimento. E o arrependimento é um apelo que se tem feito deste púlpito muitas e muitas vezes. As atuais condições ameaçadoras dificilmente melhorarão, a menos que ocorra um arrependimento maior ou menor. ¶
E, embora não se possa esperar um arrependimento completo até que Satanás seja acorrentado, há uma fonte de problemas que penso poder ser removida, e todos os que amam a América deveriam exigir sua remoção — a disputa mais ou menos contínua entre patrões e trabalhadores a respeito de salários, condições de trabalho, etc. Lockouts, greves e piquetes em massa deveriam ser proibidos por lei. Em todas as disputas do tipo indicado, o público tem um interesse vital que a lei deveria proteger. Como se pode fazer isso? Minha resposta é: por meio da arbitragem obrigatória. É ilegal que indivíduos resolvam suas diferenças lutando com os punhos, facas ou pistolas. Existem tribunais aos quais podem recorrer para um acordo pacífico, e isso mesmo que o público não tenha interesse no acordo. Mas o público sempre tem interesse em como são resolvidas as disputas entre patrões e trabalhadores. Para resolver pacificamente tais disputas com base no que é justo, correto e reto para todos os envolvidos, poderá encontrar-se melhor instrumento do que um tribunal de arbitragem qualificado e competente? ¶
Sim, o público deveria exigir que tais tribunais fossem instituídos. ¶
A meu ver, se tribunais de arbitragem obrigatória, sábios, tivessem estado sempre em funcionamento durante a última dúzia de anos, mais ou menos, teria havido pouca ou nenhuma inflação. Este país teria prosperado em maior grau do que prosperou, e as perspectivas para a América seriam muito mais brilhantes do que são hoje. ¶
Irmãos e irmãs, nós que fizemos convênio nas águas do batismo e à mesa sacramental de guardar os mandamentos de Deus estamos, por honra, obrigados a sermos fiéis a essas obrigações. Rogo que, com a ajuda do Senhor, tenhamos sempre o desejo, a força e a coragem de sermos fiéis à nossa fé. Isso rogo em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶