O Espírito de Fraternidade e a Redenção dos Mortos
John A. Widtsoe
Meus caros irmãos e irmãs, estou muito feliz por ter esta oportunidade de unir o meu testemunho ao vosso quanto à verdade desta grande obra dos últimos dias. ¶
Sempre me maravilho, no tempo de conferência, ao ver estas grandes multidões se reunirem no Tabernáculo e nos terrenos que o circundam. ¶
Contudo, não tenho razão verdadeira para me maravilhar. A verdade está sempre viva e vital. Temos a verdade. Graças a Deus pelo dom da verdade! ¶
Centenário da Missão Europeia Cem anos atrás, nesta mesma conferência, os irmãos então em autoridade, Brigham Young e aqueles que o auxiliavam, enviaram um pequeno exército de homens ao mundo para pregar o evangelho. Estes se espalharam para longe e para perto. Alguns foram para as partes da Europa onde não se falava inglês, e ali fundaram missões que celebram este ano o centésimo aniversário de seu início. ¶
Ricas colheitas foram reunidas. Ao longo dos anos, desde então, uma corrente de homens e mulheres, amantes da verdade, tem fluído desses países até nós, aqui. Ainda hoje centenas e milhares vêm desses países para partilhar conosco as bênçãos desta terra e o nosso convívio. Os frutos que vieram dessa obra ficaram ainda mais ilustrados ontem, quando tivemos o prazer e o deleite de ouvir o esplêndido canto do Coro Suíço-Alemão. A Igreja mantém, em Salt Lake City e além dos limites da cidade, organizações que conduzem reuniões em vários idiomas. De fato, há sete diferentes organizações linguísticas em Salt Lake City. São mantidas para auxiliar esses recém-chegados de terras estrangeiras. ¶
Não é fácil, irmãos e irmãs, para homens e mulheres, por mais que amem o evangelho, chegar a uma idade madura — e a maioria deles é madura — a uma nova terra, aprender um novo idioma, e acostumar-se a novos costumes. Mas não lhes leva muito tempo para se adaptarem às condições daqui. Tornam-se cidadãos muito valiosos, tanto da Igreja quanto da terra que os adotou. ¶
Nossos corações se voltam para esses irmãos e irmãs. Queremos ajudá-los o quanto pudermos. A resposta deles é imensamente generosa. ¶
Meu coração frequentemente transborda de emoção quando leio as cartas que chegam desses recém-chegados, não apenas dos países de língua estrangeira, mas também da Inglaterra — cartas que testificam de sua alegria por possuírem o evangelho do Senhor Jesus Cristo, e de sua alegria por estarem com um grupo de Santos maior do que podem encontrar em suas terras natais. ¶
A Ressurreição Nesta conferência falamos muito a respeito de Jesus Cristo e de sua ressurreição. Jesus, o Cristo, é a figura central do evangelho. Sua ressurreição do túmulo é parte integrante do plano do Pai para a progressão eterna do homem. ¶
Nunca podemos dizer o bastante sobre Jesus, o Cristo, e sua obra. É sempre reconfortante ouvir a velha história ser contada, como foi contada nesta manhã pelo presidente Clark, e as palavras de Jesus repetidas depois para nós pelo presidente Evans. É sempre um deleite ouvir esta antiga história sagrada. É a mais importante história sobre a face da terra para a bênção dos filhos dos homens. ¶
A ressurreição é uma certeza, não uma ilusão. Isso nos tem sido dito repetidas vezes nestes últimos dias. Penso que, à medida que o conhecimento moderno avançou, à medida que os homens aprenderam a olhar mais claramente para os mistérios das coisas, mais do que nunca a ressurreição parece lógica, racional e necessária. Não há tantas pessoas pensantes hoje como havia ontem que questionem a possibilidade de uma ressurreição. Multidões sabem, graças ao céu, que Cristo ressuscitou do túmulo, e ainda assim há muitos que precisam de nosso ensino e de nossa ajuda. ¶
Medo e Incerteza Apesar de essa certeza do conhecimento nos trazer conforto a todos, há muito medo e incerteza no coração dos homens hoje. Até onde me lembro, em toda a minha vida nunca houve época em que homens e mulheres estivessem tão ansiosos quanto ao futuro. Há medo do futuro em seus corações. O medo é a primeira e principal ferramenta do diabo. Com o medo ele destrói a humanidade. Os homens aprenderam a soltar as forças que mantêm unido o próprio solo sob nossos pés. Naturalmente, sem o poder estabilizador da fé, os homens têm medo. Às vezes dizem que o tipo de reação em cadeia de que falam os físicos poderia ser posto em tal movimento que toda a terra desapareceria num relâmpago. Isso, é claro, é um sonho vão. ¶
Isso não acontecerá. Somente quando o Senhor falar virá o fim. ¶
Mas a incerteza permanece. Os homens estão infelizes. Algumas pessoas, contudo, declaram que temos conhecimento demais; que seria melhor para nós se não tivéssemos tanto; que se soubéssemos um pouco menos, seríamos mais felizes e mais fortes. Isso, também, sabemos ser um engano. ¶
O Uso do Conhecimento Deus nos disse que devemos obter, na medida de nossa capacidade, todo o conhecimento. O poço da verdade jamais se esgotará. ¶
O problema não é quanto conhecimento possuímos, mas quão sábios somos ao usá-lo devidamente para nosso próprio bem, de acordo com os mandamentos de Deus. O uso e o abuso estão no alicerce de tudo o que há de bom que vem à humanidade. Nisso reside o direito do livre-arbítrio. ¶
Assim, podemos deixar de lado a doutrina de que temos conhecimento demais. Precisamos, contudo, obter domínio sobre nós mesmos. Isso está no alicerce da vida no evangelho do Senhor Jesus Cristo. Tem-se falado disso aqui repetidas vezes. ¶
Conquistar um exército, dizia-se nos tempos antigos, é uma grande realização, mas conquistar a si mesmo é ainda maior. É dever dos Santos dos Últimos Dias aprender, pouco a pouco, a conquistar a si mesmos. O autodomínio é o grande anseio de todos os Santos dos Últimos Dias que compreendem o evangelho do Senhor Jesus Cristo. Sob o poder do autodomínio, o conhecimento se torna precioso para o homem. O Senhor nos deu uma abundância de verdade. ¶
Pergunto-me se, nas escrituras que nos foram dadas pelo Senhor, não haverá alguma solução fundamental e básica para as dificuldades do mundo, aquelas que foram discutidas com tanta eloquência nesta conferência. ¶
A Visita de Morôni Há uma história em nossa história, quase reverenciada, tão querida a nós. Cerca de três anos após sua primeira grande visão, o Profeta Joseph Smith, um rapaz de cerca de dezoito anos de idade, jazia em sua cama, meditando sobre a vida e seus mistérios, seu relacionamento e deveres para com Deus, e também lamentando seus erros na vida. Enquanto assim meditava, um ser celestial ressuscitado apareceu diante dele. Seu nome era Morôni, um nome bem conhecido, uma figura bem conhecida dos Santos dos Últimos Dias. Nós, Santos dos Últimos Dias, não paramos apenas no fato da ressurreição, pois declaramos solenemente que em nossos dias apareceram homens que provaram a morte, desceram à sepultura e voltaram ressuscitados pelo poder onipotente de nosso Pai celestial. Um desses seres ficou ao lado da cama do jovem e falou a Joseph sobre seu chamado, as coisas que ele deveria fazer e as consequências que se seguiriam. Seus deveres e obrigações, as condições sob as quais ele deveria trabalhar, foram-lhe apresentados. ¶
Morôni citou livremente da Bíblia, em grande parte como as citações se encontram na versão do Rei Jaime das escrituras, a Bíblia de uso comum naquela época, exceto em uma instância. Quando usou as palavras de Malaquias, ele mudou um versículo de Malaquias tão completamente que hoje é considerado a primeira grande revelação escrita do Senhor ao Profeta Joseph Smith por meio dos lábios de Morôni. Está registrado em nosso livro, Doutrina e Convênios, como a Seção Dois: ¶
"Eis que vos revelarei o Sacerdócio pela mão de Elias, o profeta, antes da vinda do grande e terrível dia do Senhor. ¶
E ele plantará no coração dos filhos as promessas feitas aos pais, e o coração dos filhos voltar-se-á para seus pais. ¶
Se assim não fosse, toda a Terra seria completamente devastada na sua vinda." ¶
O Senhor aqui ensina como a terra poderá ser devastada. Não será por meio de uma das bombas atômicas. Se eu ler corretamente esta revelação (e ela é uma de nossas maiores posses, por meio do ministério do Profeta Joseph Smith), ela mostra que a humanidade não conquistará paz, nem harmonia, nem salvação, no sentido em que usamos a palavra, a não ser que aprendamos a amar uns aos outros. ¶
Espírito de Fraternidade É uma mensagem que nos diz que somente no espírito de fraternidade está o futuro seguro da humanidade. Isso nos impõe uma pesada responsabilidade. Não somos seguidores; somos líderes, ou então estamos muito desencaminhados. Somos nós que devemos desenvolver e incutir o espírito de fraternidade no mundo. Entre nós deve estar o espírito de fraternidade que todo o mundo notará. ¶
Tudo isso já foi dito por oradores anteriores, mas convém repeti-lo. Convém chamar a atenção para esta revelação básica desta dispensação. Nela está a doutrina de que, a menos que tenhamos o espírito de fraternidade desenvolvido em nós, se permanecermos egoístas, encerrados em nós mesmos, relutantes em ajudar nossos semelhantes, não haverá salvação. ¶
A terra poderá então ser completamente devastada. ¶
A fraternidade desta revelação é mais do que a fraternidade existente entre pessoas vivas. É relativamente fácil amar os vivos. Mas há um tipo mais elevado de fraternidade imposto a nós nesta revelação, que devemos levar a sério se a terra não há de ser completamente devastada. Devemos estabelecer um espírito de fraternidade entre nós e aqueles que já partiram, a maioria dos quais conhecemos apenas de nome. A raça humana é uma grande família — todos filhos de Deus. Cristo saiu do túmulo por todos nós — os do passado, do presente e do futuro. A bênção da ressurreição é para todos, não para um punhado. Não há aristocracia no céu, exceto conforme obedecemos ou desobedecemos aos mandamentos de Deus. ¶
Assim o Senhor nos impôs o grande dever da fraternidade universal, para salvar o mundo, para dar àqueles que partiram antes de nós as oportunidades de que gozamos aqui, nesta vida, de receber as bênçãos que conduzem à vida eterna, e que muitos deixaram de receber enquanto estavam na terra. Este é um dos maiores encargos colocados sobre o homem. ¶
A Redenção dos Mortos O Profeta Joseph Smith, antes de sua morte, preocupou-se grandemente com esta obra. Pensou e escreveu a respeito dela, falou a respeito dela, exortou seu povo a não esquecer a redenção dos mortos, pois nessa redenção reside, como já disse, talvez em grande parte, a solução final para as coisas que afligem a humanidade. ¶
Em obediência a este dever, nós, como Igreja, temos templos. ¶
Somente nos templos pode ser feita a obra pelos mortos. Somos um povo que constrói e usa templos. Começamos em 1836 e temos construído templos desde então. Somos um povo que constrói templos justamente com o propósito de obedecer à ordem que nos foi dada na Seção Dois de nossa Doutrina e Convênios. ¶
Minha mensagem a vós hoje, seguindo em geral o espírito da ressurreição do Cristo, é que voltemos nosso coração de modo constante e enérgico para este dever, o dever de trabalhar pelos mortos. Não podemos ser salvos sem fazê-lo. A terra não pode continuar até seu fim destinado a menos que assim façamos. Há muita obra a ser feita, pois os que já partiram são muitos. O grande número de pessoas que nos precederam e que não ouviram o evangelho não tiveram a oportunidade de participar das ordenanças necessárias do evangelho. A estes devemos servir em espírito e em ação. Alguns dirão, ao eu concluir: "Bem, eu vivo longe do templo, não posso fazer a obra exigida." Bem, podeis pagar a outra pessoa para fazê-la. Não é a melhor maneira, mas pode ser feito, e penso que o Senhor a aceitará. Mas há obra que podemos fazer em casa. Há o campo da genealogia; podemos manter correspondência com nossa sociedade genealógica aqui em Salt Lake City, uma das maiores, melhores e mais excelentes da terra, do mundo, aliás. Virão oportunidades se as buscarmos. É maravilhoso como os problemas da vida se desvanecem na presença de tal obra, e como os problemas da vida encontram suas soluções em tal obra. ¶
O Senhor é poderoso; ele tem controle sobre todos os mistérios. Ele abre a porta sempre que for necessário. ¶
A Necessidade da Obra do Templo Senti que, como um de vós nesta manhã, gostaria de dizer-vos isto, meus irmãos e irmãs, e chamar novamente a vossa atenção para a necessidade da obra nos templos. Não temos templos suficientes. Somos um milhão de fortes, disseram-nos há dois dias, pelo Presidente de nossa Igreja. Os templos da Igreja não seriam suficientes para nós se cumpríssemos nosso dever em prol da salvação universal. Cumpramos nosso dever para conosco e para o futuro desta terra em que vivemos e que tanto prezamos. E lembremo-nos sempre de que as forças espirituais centralizadas em nossos templos são mais poderosas do que os raios atômicos ou qualquer força terrena descoberta pelo homem. ¶
Agradeço ao Senhor por suas muitas mensagens de verdade a nós e por esta grande mensagem fundamental. Que o Senhor nos dê força para aceitá-la e obedecê-la. Que ela encontre lugar em nosso coração, bem como em nossos atos, e nos abençoe segundo nossas necessidades. Que esta Igreja de Deus e de seu Filho Jesus, o Cristo, continue a crescer e prosperar, como o fará se fizermos a nossa obra, oro em nome do Senhor Jesus Cristo. Amém. ¶