Pulpit

Os Dons do Evangelho: Discernimento, Sabedoria e Consolo

Stephen L Richards

1950 April General Conference·Third Day Afternoon Session·1950-04-09

Creio nos dons do evangelho. Creio que eles virão àqueles que vivem e se esforçam por eles. Creio que os dons do evangelho abrangem poderes e atributos mais numerosos e mais amplos do que aqueles especificamente mencionados em nossos Artigos de Fé, a saber: ". . .

o dom de línguas, profecia, revelação, visões, cura, interpretação de línguas, etc." (Artigo 7.) Creio que esses dons enumerados, e outros de natureza aparentemente sobrenatural comparável, têm vindo a homens e mulheres de fé, e creio que continuarão a vir de tempos em tempos, conforme as condições e circunstâncias o exigirem.

Não imponho limitação alguma ao poder do Senhor de se manifestar por meio de seus filhos e de seus servos escolhidos, por mais milagrosa que muitos possam considerar a manifestação. Imponho, sim, uma limitação àqueles que exercem tais poderes — que tenham a plena certeza de que a inspiração provém da fonte certa.

Os Dons do Evangelho Há dons do evangelho que geralmente não são considerados milagrosos ou sobrenaturais. Costuma-se falar deles como meros atributos de caráter, mas creio que têm fundamento espiritual. Esta conclusão parece confirmar-se pelas escrituras. O apóstolo Paulo diz a seus irmãos:

Ora, há diversidade de dons, porém o Espírito é o mesmo.

E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo.

E há diversidade de operações, . . .

Mas um só e o mesmo Espírito opera todas essas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer. (I Cor. 12:4-6, 11.) A revelação moderna enfatiza esta diversidade:

A alguns é dado saber, pelo Espírito Santo, que Jesus Cristo é o Filho de Deus, . . .

A outros é dado crer nas palavras deles. (D. & C. 46:13-14.) O Livro de Mórmon, como de costume, traz maior esclarecimento:

Pois a um é dado ensinar, pelo Espírito de Deus, a palavra de sabedoria; e a outro, ensinar a palavra de conhecimento . . .

E a outro, fé extraordinária; e a outro, os dons de cura, ... a outro, poder para operar grandes milagres; ... a outro, profetizar; ... a outro, ver anjos e espíritos ministradores; ... a outro, todos os tipos de línguas; ... a outro, a interpretação de idiomas e de diversos tipos de línguas. (Morôni 10:9-16.) Embora esta ampla diversidade de dons mencionada nas escrituras possa trazer aos filhos de nosso Pai talentos e capacidades bastante variados, sinto-me seguro de que há certos dons do evangelho de grande importância que se destinam a que todos os homens de fé os desfrutem, ao menos em certa medida. São estes preciosos dons, disponíveis a toda a Igreja e a muitos homens e mulheres bons fora da Igreja, para os quais eu gostaria de chamar a atenção.

Dom do Discernimento Primeiramente, menciono o dom do discernimento, que compreende o poder de discriminar, do qual já se falou em nossa presença, particularmente entre o certo e o errado. Creio que este dom, quando altamente desenvolvido, surge em grande parte de uma sensibilidade aguçada a impressões — impressões espirituais, se quiserem —, de modo a ler o que está por baixo da superfície, por assim dizer, a detectar o mal oculto e, mais importante ainda, a encontrar o bem que possa estar encoberto. O mais alto tipo de discernimento é aquele que percebe nos outros e revela para eles a sua melhor natureza, o bem inerente que existe dentro deles. É o dom de que todo missionário precisa quando leva o evangelho aos povos do mundo. Ele precisa fazer uma avaliação de cada personalidade que encontra. Precisa ser capaz de discernir a centelha oculta que pode ser acesa em prol da verdade. O dom do discernimento o salvará de erros e de constrangimentos, e nunca deixará de inspirar confiança naquele que é corretamente avaliado.

O dom do discernimento é essencial à liderança da Igreja. Nunca ordeno um bispo, nem separo para o cargo um presidente de estaca, sem invocar sobre ele esta bênção divina, para que ele possa ler a vida e o coração de seu povo e trazer à tona o melhor que há neles. O dom e o poder do discernimento, neste mundo de contenda entre as forças do bem e o poder do mal, são equipamento essencial para todo filho e toda filha de Deus. Não poderia haver tais dissensões em massa a ameaçar a segurança do mundo, se as suas populações possuíssem este grande dom em maior grau. As pessoas em geral são tão crédulas que às vezes nos leva a nos perguntar se o grande Lincoln não tinha razão, afinal, na conclusão de sua memorável declaração: "Não se pode enganar todo o povo o tempo todo."

Sente-se, contudo, às vezes, um sentimento de pena e de compaixão por alguns dos povos do mundo cuja educação, informação e acesso a ideais mais elevados e conceitos mais exaltados foram tão arbitrária e implacavelmente restringidos.

Há uma classe de pessoas, hoje já numerosa no mundo, que deveria possuir este grande dom em alto grau. Elas sabem como este dom é alcançado. Foram instruídas em seus fundamentos espirituais. Foram abençoadas com os conselhos que o promovem.

Sabem como ordenar sua vida para obtê-lo. Vós sabeis quem são elas, meus irmãos e irmãs. Todo membro da Igreja restaurada de Cristo poderia ter este dom se assim o quisesse. Não poderia ser enganado pelas sofisticações do mundo. Não poderia ser desencaminhado por falsos profetas e cultos subversivos. Até mesmo o inexperiente reconheceria os falsos ensinamentos, ao menos em certa medida. Com este dom, seria capaz de detectar algo das influências desleais, rebeldes e sinistras que não raro impelem aqueles que aparentemente se orgulham de destruir a fé e a lealdade da juventude. Os pais discernentes farão bem em proteger seus filhos contra tais influências, tais personalidades e tais ensinamentos, antes que se cause dano irreparável. O verdadeiro dom do discernimento é frequentemente premonitório. Um pressentimento de perigo deve ser atendido para que tenha valor. Somos gratos por um conjunto de circunstâncias providenciais que evitam um acidente. Devíamos ser gratos todos os dias de nossa vida por este senso que mantém viva uma consciência que constantemente nos alerta para os perigos inerentes aos malfeitores e ao pecado.

Dom da Sabedoria O próximo dom do evangelho que apresento é o da sabedoria.

A sabedoria não pode ser dissociada do discernimento, mas envolve outros fatores, e suas aplicações são mais específicas.

A sabedoria é por vezes definida como bom senso e alto grau de conhecimento. Defino a sabedoria como a aplicação benéfica do conhecimento na decisão. Penso na sabedoria não em abstrato, mas como algo funcional. A vida é em grande parte constituída de escolhas e decisões, e não consigo conceber sabedoria alguma que não contemple o bem do homem e da sociedade. A sabedoria é o verdadeiro entendimento, e nos é dito em Provérbios que mais preciosa é ela do que os rubis, e tudo o que mais podes desejar não se pode comparar a ela.

Longos dias há na sua mão direita; na sua esquerda, riquezas e honra.

Os caminhos dela são caminhos de deleites, e todas as suas veredas são de paz. . . .

Bem-aventurado o homem que acha sabedoria. (Provérbios 3:15-17, 13.) Não creio que a verdadeira sabedoria possa ser adquirida ou exercida na vida sem um conhecimento fundamental sólido da verdade sobre a vida e o viver. O clamor do mundo é por sabedoria e por homens sábios. Isto é assim particularmente no campo das relações humanas. Por que não se encontram? É porque os homens estão tão cegos à verdade.

Quase metade do mundo está endurecida contra ela, e a outra metade não está suficientemente fortalecida, no desempenho passado e presente, para promovê-la. Temos, há séculos, uma fórmula para a paz. A sabedoria para a composição dos problemas do mundo está disponível, mas as mentes e os corações dos homens não estão preparados para recebê-la. É a missão da Igreja de Cristo ensinar-lhes como. Precisamos de sabedoria para fazê-lo, e precisamos manter nossa sociedade divinamente designada na sabedoria que vem de Deus.

As coisas realmente vitais na vida são relativamente poucas, meus irmãos e irmãs — o corpo, a família, os bens e o relacionamento com o homem e com Deus. Podeis ter sabedoria sobre saúde, moradia, casamento, filhos, economia, educação, e até mesmo governo, se verdadeiramente a buscardes e por ela viverdes. O conhecimento fundamental que a Igreja vos traz vos dará entendimento. Vosso testemunho, vosso espírito e vosso serviço dirigirão a aplicação de vosso conhecimento; isso é sabedoria. Todo homem precisa dela cem vezes por dia. Toda mulher precisa dela. Todo jovem precisa dela. Os tolos e os sábios são os antípodas da humanidade, assim como os dois polos da terra. Os tolos edificam sobre a areia; os sábios, sobre a rocha. Um perece; o outro permanece. Graças a Deus pelo dom da sabedoria.

Dom do Consolo Terei tempo para mencionar apenas mais um dom do evangelho — o do consolo. Falo do consolo no sentido espiritual e escriturístico, que traz consolação, paz de mente e de alma, resignação, tranquilidade e serenidade em tempos de luto, sofrimento, medo, dúvida e incerteza. Poucos estão livres de algum tipo de aflição, e muitos consideram suas próprias aflições as mais severas. Lembro-me, anos atrás, numa de minhas primeiras visitas à bela igreja memorial da Universidade de Stanford, de ter lido uma inscrição gravada em pedra numa das paredes. Em essência, dizia o seguinte: se cada pessoa no mundo embrulhasse suas aflições numa sacola e depois a lançasse num monte com todos os embrulhos de aflições de todas as pessoas, e se então a cada uma se dissesse que poderia ir até o monte e escolher o embrulho de aflições que carregaria, cada uma iria até o monte e traria de volta o seu próprio embrulho. Assim pode muito bem ser, na providência das coisas, que cada um tenha aflições de um tipo adequado à sua capacidade e experiência na vida. Seja como for, todos precisamos de consolo, e talvez os autossuficientes, que não reconhecem essa necessidade, precisem dele mais do que quaisquer outros.

A dor física é atormentadora, difícil de suportar. Sou testemunha de que ela pode ser aliviada pela bênção e pelo consolo espirituais.

Há milhares que testificam da eficácia da oração e da cura e do consolo do sacerdócio, mas mesmo a tortura da dor não é mais excruciante do que a humilhação e o estigma da desonra, ou a consciência da culpa. Graças ao Senhor pelo dom do arrependimento, que foi tão lindamente retratado, para o transgressor; mas frequentemente acontece que a maior dor recai sobre os inocentes. Um filho rebelde traz tragédia a uma família, destruindo uma reputação e um bom nome que levaram gerações para se construir. Um marido ou uma esposa bêbados ou de outra forma pervertidos destroem um bom lar. Um filho ou filha rebelde crava um punhal no coração de pais amorosos, ao descartar as lealdades de uma vida inteira. Estes são casos que exigem um consolo além do mero toque humano, que clamam por profundo entendimento, por fortalecimento espiritual, por uma resignação que é divina.

E depois há os solitários. Aqueles que foram privados da companhia de entes queridos, às vezes deixados totalmente sós, sem parentes ao seu redor. Li outro dia que há mais de seis milhões de viúvas nos Estados Unidos, muitas delas viúvas desde idade tão precoce quanto quarenta anos, com uma expectativa de aproximadamente trinta anos de vida sem seus cônjuges. Algumas estão sem a companhia dos filhos. No círculo imediato de meus próprios amigos e associados, muitas separações tristes ocorreram. Décadas de amor e de associação belíssima foram tristemente interrompidas justamente quando parecia, aos olhos mortais, que os anos mais maduros e mais ricos do sagrado matrimônio estavam por vir. Conheço muitos amigos que precisam de consolo. Sou profundamente grato por, na maior parte, meus amigos mais próximos terem esta consolação do espírito. Eles são sustentados por uma confiança inabalável de que as tristes separações são apenas temporárias. Eles se dedicam, a si mesmos e a seu grande serviço, ao mestre, para retribuir, em parte ao menos, aquilo que ele lhes dá — consolo e paz para a alma.

Ricas Bênçãos Estou ciente de que, no mundo cristão, e talvez fora dele também, há incontáveis milhares dos filhos de nosso Pai que são beneficiários dos dons do evangelho. Há muitos de todas as fés e condições de vida que amam o Senhor; e, em retribuição a este amor e a esta obediência aos seus mandamentos, ele os abençoa com o seu espírito. Sou verdadeiramente grato por que assim seja; mas, meus queridos irmãos e irmãs, com o conhecimento superior que o Senhor nos trouxe, com um entendimento mais perfeito de seu santo evangelho, com o dom do Espírito Santo, quanto mais deveríamos nós, assim favorecidos, desfrutar de seus preciosos dons! Se outros dos filhos de nosso Pai, em todo o mundo, observarem estas manifestações de suas bênçãos especiais a seu povo escolhido, serão levados a investigar e a buscar a verdade.

Parece-me que, ao nos aproximarmos da conclusão desta grande conferência, com seus ensinamentos e testemunhos edificantes e inspiradores, nada melhor poderíamos fazer do que resolver firmemente que, doravante e sempre, nossa lealdade, nossa vida e nosso amor sejam tais que nosso Pai possa derramar sobre nós suas ricas bênçãos, nos dons do evangelho eterno, com discernimento, sabedoria e consolo para todos. Sei que ele vive. Sei que recompensará os fiéis. Rogo que, em sua misericórdia, ele traga luz e verdade a todo o mundo, em nome de Jesus Cristo. Amém.

Como citar este discursoStephen L Richards, “Os Dons do Evangelho: Discernimento, Sabedoria e Consolo”, 1950 April General Conference, Third Day Afternoon Session (1950-04-09). Pulpit Vault, 1950-04-richards-i-believe-in-the-gifts-of-the. Tradução desta edição, por método de glossário, catalog.churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).