A Herança da Terra
John A. Widtsoe
Meus queridos irmãos e irmãs, confio e oro para que, enquanto falo, eu possa ser guiado pelo Espírito Santo de Deus, para que ao menos algumas de minhas palavras possam tocar o coração de alguns dos que me ouvem. ¶
É bom reunirmo-nos nestas grandes conferências. Milhares de nós somos de uma só mente, de uma só fé, de um só propósito. É sempre bom testemunhar da realidade da restauração do evangelho do Senhor Jesus Cristo. Eu presto esse testemunho por mim mesmo, de que esta é, de fato, a obra de Deus, de que não estamos seguindo um caminho errado, mas de que estamos caminhando na luz da verdade, e de que mais de cem anos de existência desta Igreja da restauração demonstraram a verdade, a integridade e a realidade da obra iniciada sob direção divina pelo Profeta Joseph. ¶
Uma Grande Herança ¶
Nós, Santos dos Últimos Dias, temos uma grande herança, uma herança de doutrina, de prática, de tradição. Não conheço nenhuma outra igual. Assim como estas conferências, que ocorrem a cada seis meses, se destacam como únicas na história do mundo, também aquilo que herdamos daqueles que nos precederam é igualmente único e distinto. É nosso dever respeitar essa herança, honrá-la e usá-la. As coisas que não são usadas estão mortas. Têm pouco ou nenhum valor para a humanidade. É somente pelo uso que o conhecimento e todas as posses da humanidade desabrocham em vida e se tornam de valor real. ¶
Se esta fosse uma reunião de testemunhos, há milhares aqui que testemunhariam do conhecimento que têm da verdade desta obra. Um testemunho é algo vivo. Como todas as coisas vivas, ele precisa ser alimentado, nutrido e cuidado, se realmente há de ser de préstimo e valor na vida humana e na realização dos propósitos do Senhor. Assim, a herança, aquilo que nos foi dado, precisa ser usada para se tornar eficaz na edificação do reino de Deus. ¶
Temos nobres tradições transmitidas do passado. Minha mente tem se preocupado, há algum tempo, com uma dessas tradições. Alguns podem dizer que essa tradição não é espiritual e, portanto, não faz parte do evangelho, mas o próprio Senhor disse a alguns de seus servos, nos primeiros dias, que diante dele todas as coisas são espirituais, desde que, segundo entendo, sejam usadas na edificação do reino de Deus. ¶
Um Povo Amante da Terra ¶
Nós, Santos dos Últimos Dias, somos um povo amante da terra. Acreditamos na terra. Somos um povo que usa a terra. A maioria de nós é de agricultores, direta ou indiretamente. Há alguns anos — não muitos anos — em um recenseamento então realizado, aproximadamente sessenta e cinco por cento, pelo menos, do nosso povo estava dedicado à agricultura, ao cultivo do solo, ou ao aproveitamento das coisas que crescem nas montanhas, nos vales e nos desertos. Isso nos deu força. Espero que, como povo, não nos afastemos dessa tradição. Aqueles que possuem a terra e a usam, no final, determinarão o futuro da humanidade. Isso não virá dos que trabalham nas fábricas ou dos que vivem em cidades apinhadas; dos que têm os pés plantados na terra virão os grandes fatores determinantes na formação do destino humano. Assim foi no passado. Assim será no futuro. Nós, Santos dos Últimos Dias, devemos sempre lembrar a santidade e a sacralidade da terra que nos foi dada pelo Pai. Há segurança na terra. ¶
Nova Era Industrial ¶
A maioria de nós vive na parte ocidental dos Estados Unidos. Em todos esses estados ocidentais, em Utah, a mãe de todos eles, abre-se uma nova era, uma era industrial. A natureza depositou nesses territórios ocidentais grandes quantidades de matérias-primas, muitas, talvez a maioria delas, de caráter não metálico. Esses depósitos serão cada vez mais utilizados no futuro. Haverá um esforço para suprir as necessidades da humanidade pelo uso dessas matérias-primas, das quais a natureza depositou grandes reservas ao longo dos séculos. Temo que muitos de nós sejamos tentados a dizer: "Vou juntar-me ao cortejo industrial. Vou esquecer a terra." Essa era industrial é bem-vinda. Não há dúvida quanto a isso; mas, à medida que ela surge, precisamos manter firmemente em mente a antiga tradição estabelecida de que somos um povo amante da terra e que usa a terra. Precisamos lembrar que a própria indústria prospera melhor no meio de uma comunidade agrícola. Observai as dificuldades sociais de hoje em nossa própria terra. Analisai-as, e logo descobrireis que, se tivéssemos edificado como os Santos, há um século, queriam que edificássemos, teríamos escapado a muitas dessas dificuldades, principalmente dando atenção ao chamado da terra. ¶
Força Vinda do Solo ¶
Quando Joseph Smith planejou sua cidade ideal, muitos anos atrás, projetou-a de modo que, embora as fazendas ficassem todas ao redor da cidade, cada lar tivesse uma horta nos fundos da casa e um jardim de flores na frente. Havia tremenda sabedoria nisso. Os homens, seja qual for o seu trabalho, ou o que os seus afazeres diários possam exigir deles, se tocarem o solo com constância e vigor, por menor ou pequena que seja a área, talvez um quintal, receberão desse contato força espiritual. Há algo no solo e na mãe terra que dá força a todos os que fazem as coisas crescerem na terra. ¶
Um grande homem em nossa história, Henry Ford, percebendo isso, empreendeu, há alguns anos, providenciar arranjos pelos quais todos os empregados de uma de suas fábricas pudessem ter casas cercadas por um pequeno terreno, no qual os proprietários pudessem labutar ou entreter-se ao longo do ano, afastando assim a monotonia que se segue ao trabalho em uma fábrica. O plano só foi parcialmente realizado até agora, mas homens ponderados o buscam como caminho para a segurança social. ¶
Alguns anos atrás, na época da primeira grande guerra, empreendemos em Salt Lake City, em comum com outras cidades, cultivar todo o alimento que pudéssemos em terrenos baldios e nos quintais da cidade. Não conseguimos converter todos eles em pequenas plantações, mas um bom número foi assim convertido. Quando a estação terminou e fizemos um levantamento do que havíamos realizado, descobrimos que seiscentos mil dólares em alimentos haviam sido produzidos nos quintais e terrenos baldios de Salt Lake City. Aquilo foi uma contribuição real para as nossas necessidades de guerra naqueles dias. ¶
Recuperação da Terra ¶
Nossos jovens frequentemente dizem: "Não há mais terra, nenhuma para nós." Ao meu escritório vêm com bastante regularidade homens, geralmente jovens, que querem saber onde ir para encontrar terra nova. Ainda há muita terra disponível no oeste. Podemos fazer mais, se assim o quisermos, pois quase todos esses estados ocidentais estão sob irrigação. Confio que vós, de Utah, não vos sentireis constrangidos quando vos digo que a água hoje usada no estado de Utah poderia servir a duas vezes a área hoje servida. Está em nosso próprio poder, com os canais e reservatórios e condições que existem hoje, dobrar a área de terra cultivada somente neste estado. O mesmo se aplica a quase todos os estados ocidentais. Além disso, é lamentável que as centenas de projetos pioneiros de irrigação, neste e nos estados vizinhos, construídos pelos pioneiros em sua pobreza, com seus meios escassos e ferramentas pobres, permaneçam inacabados. Somente no estado de Utah, temos centenas de projetos pioneiros de irrigação à espera de pioneiros modernos que os terminem com equipamentos modernos, meios modernos. Esse é o desafio do espírito pioneiro para jovens e velhos. Estamos fixando os olhos demais nos grandes projetos. Eles virão, mas, entretanto, os pequenos projetos espalhados por todo este país ocidental deveriam ser nossa primeira obrigação, como indivíduos, como comunidades. Os estados e o governo federal se ocuparão, e devem se ocupar, dos maiores. ¶
Fertilidade do Solo ¶
Também tenho notado, para minha tristeza, ao longo de uma vida já bastante longa, que a fertilidade de nossos solos parece estar diminuindo. Nossas colheitas não são o que eram há alguns anos, usando os mesmos métodos que usávamos então. Parece haver uma diminuição. Não é assim que devemos preservar nossa herança. Quando os pioneiros chegaram ao oeste, encontraram grandes áreas de terra fertilizadas por séculos de sol, vento e chuva, geada e calor de verão. O alimento das plantas jazia, por assim dizer, sobre a superfície do solo. Nós o usamos, mas não devolvemos o que tomamos da terra. Nas questões espirituais e temporais, a lei de pagar por aquilo que se recebe está sempre presente. ¶
Vós, agricultores aqui presentes, vós, filhos de agricultores, entendeis o que quero dizer. O solo é um servo disposto. Ele cede ao agricultor se o agricultor o trata bem. Há quarenta e nove ou cinquenta anos, neste último mês de junho, visitei a grande Estação Experimental Agrícola de Rothhamsted, a mãe das centenas de estações experimentais do mundo. O diretor da estação gentilmente passou um dia comigo. Ele me levou a uma colina ondulada, ou melhor, duas colinas com um vale entre elas, e me mostrou cerca de dez faixas da mesma cultura, originalmente, então em plena floração. Uma era vermelha, outra azul, e ainda outra amarela, cada uma exibindo uma cor diferente. Enquanto admirávamos a cena sob o belo sol de junho inglês, ele disse: "Tudo isso veio porque pedimos ao solo que fizesse certas coisas de certa maneira, e o solo respondeu. Aquilo com que começamos desapareceu sob a influência do nosso cultivo." Perto dali, havia outro campo onde o trigo tinha sido cultivado continuamente por cinquenta anos. O solo ainda tentava, o melhor que podia, cumprir seu dever, mas a colheita era pequena. Em um campo vizinho, devidamente tratado, o trigo se erguia alto, comparável ao melhor. ¶
O homem tem domínio sobre a terra. O Senhor nos deu esse domínio. Não somos servos sobre a face da terra. Devemos usar esse domínio para preservar nossa herança. Este tema pode não ser diretamente espiritual, mas é importante para nos ajudar em nossa vida espiritual, talvez tão importante quanto qualquer outra coisa a que dediquemos nossa atenção como povo. ¶
Princípios Orientadores ¶
Regozijo-me com os testemunhos prestados aqui hoje e ontem. Apreciei-os muito. Fiquei emocionado com eles. Pude ver, permeando os discursos, os princípios antigos que nos fizeram o que somos hoje, um grande povo, novas testemunhas de Cristo. Vi nos discursos as pedras fundamentais desta obra, mencionadas uma após outra por aqueles que falaram ontem. A fé sempre foi a pedra angular mais importante de nossa vida no evangelho de Jesus Cristo. É essencial saber que Deus vive, que a história de Joseph Smith é verdadeira, que o Senhor nos ama e tem um grande destino reservado para nós. Todo orador tocou nesse ponto. Outra pedra fundamental é que devemos buscar inteligência, educação, aprendizado, conhecimento. Fiquei emocionado com a citação feita ontem pelo Presidente [Levi Edgar] Young, mostrando como os primeiros agricultores de mãos calejadas, de meia-idade ou mais velhos, se reuniam após o labor do dia para estudar latim, grego e assuntos da mente. Não devemos abandonar a tradição da educação. Nossos pais também estabeleceram a doutrina da diligência. Não há lugar para a ociosidade. O ocioso, o ocioso deliberado, não tem lugar real no reino de Deus. Todos esses princípios foram unidos por outra pedra fundamental, o ajudar-se mutuamente, a que chamamos, em linguagem moderna, "cooperação." Não podemos ser membros individuais da Igreja bastando-nos a nós mesmos. O próprio fato de sermos membros da Igreja e nossos testemunhos nos obrigam a pensar em nosso próximo enquanto seguimos pela vida. Com estes princípios orientadores — fé, educação, diligência e cooperação — com os pés firmemente plantados na terra, estamos seguros. O desastre não poderá nos alcançar. ¶
Ora, esses princípios e outros foram mencionados ontem. São sempre mencionados. Não há nada de novo no evangelho antigo que o Senhor ensinou ao Pai Adão quando a história do homem sobre esta terra começou. ¶
Sou grato por ser membro desta Igreja, por ser um convosco. Confio que sou um convosco. Sou grato pelas bênçãos que fluem para os que são fiéis nesta grande obra. Que todos nós sejamos fiéis e dignos das bênçãos de que precisamos e desejamos, oro em nome do Senhor Jesus Cristo. Amém. ¶