Pulpit

A Grande Apostasia e a Restauração do Evangelho

Ezra Taft Benson

1949 October General Conference·First Day Morning Session·1949-09-30

Meus amados irmãos e irmãs: Há seis anos, na conferência de outubro da Igreja, fostes sustentar-me como uma das Autoridades Gerais. Apesar de minhas fraquezas e limitações, ponho-me aqui hoje para testificar-vos da alegria e da felicidade que foram minhas durante esses seis anos gloriosos. Por quatro anos e meio dos seis, tive a oportunidade de viajar entre as estacas de Sião, encontrando-me com as presidências de estaca, os sumos conselhos, os bispados e os Santos, e também visitando as missões da Igreja e conhecendo o povo ali. Foi uma experiência inestimável. Em nenhum outro lugar de todo o mundo alguém pode ter o privilégio de desfrutar da companhia de homens e mulheres tão excelentes quanto os que constituem a liderança das estacas e alas de Sião e das missões e ramos da Igreja. Sou profundamente grato por toda a vossa bondade.

Como se isso não bastasse, tive o glorioso privilégio de uma associação estreita e íntima com a liderança da Igreja, as Autoridades Gerais. Sempre os amei, mas nunca os amei tanto quanto os amo hoje. Qualquer um deles daria tudo, inclusive a própria vida, se necessário, pelo estabelecimento desta grande obra e pela edificação do reino. De todo o coração, eu os sustento e os amo, e recomendo a vós, meus irmãos e irmãs, seu exemplo e seu conselho.

Há alguns meses, depois de uma conferência geral da Igreja, recebi uma carta de um jovem desta cidade. Ele ficara impressionado com algo que fora dito a respeito do trabalho missionário. Em sua carta, ele perguntou — depois de indicar que não era membro da Igreja — "Por que o povo da fé mórmon envia missionários pelo mundo, particularmente às nações cristãs? Por que não confinam seu programa aos povos não cristãos?"

Se o Senhor me abençoar, gostaria de tentar responder a essa pergunta, dentro dos limites do tempo disponível e de minhas próprias limitações pessoais.

A Igreja Estabelecida por Cristo

É crença comum de todas as seitas que professam o cristianismo que Jesus, o Cristo, estabeleceu sua Igreja divina aqui na terra durante seu ministério entre os homens. Ele veio num período de paz relativa. O mundo religioso estava dividido em dois campos — os pagãos de várias seitas e os judeus. Somente os judeus adoravam o Deus verdadeiro e vivo. Mesmo eles estavam divididos entre si, sendo os principais grupos os fariseus, os saduceus e os essênios. Havia também uma mistura das filosofias judaica e pagã no grupo samaritano.

Mas Cristo veio com sua mensagem, indicando que a lei de Moisés se cumprira nele. Trouxe uma lei superior, uma lei de amor, o evangelho do amor, e estabeleceu sua Igreja. Escolheu oficiais. Lemos dos apóstolos, dos setenta, dos bispos, dos élderes, dos sacerdotes, dos mestres e dos diáconos, e um dos membros daquele corpo de líderes disse mais tarde que esses oficiais deveriam permanecer na Igreja com a finalidade de

". . . o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo;

Até que todos cheguemos à unidade da fé." (Efésios 4:12-13.)

O Mestre escolheu seus Doze. Nomeou-os; enviou-os com a mensagem: "o reino dos céus está próximo." Foram às ovelhas perdidas da casa de Israel e, mais tarde, por direção divina, também aos gentios. Outros foram chamados, e os setenta, depois de sua primeira missão, voltaram regozijando-se de que até os demônios lhes estavam sujeitos em nome de Jesus Cristo.

Havia um espírito de unidade entre os membros, um espírito de irmandade; havia um espírito de unicidade. Desfrutavam de ricos dons espirituais. Ordenanças simples eram realizadas por homens que tinham autoridade e haviam sido comissionados. O ministério apostólico se caracterizava por toda a evidência de que aqueles que nele se ocupavam tinham autoridade divina para levar a mensagem do evangelho e administrar os assuntos do reino. Iam livremente, sem paga, porque o Mestre havia dito: "de graça recebestes, de graça dai." Pedro, aparentemente o apóstolo mais antigo, dirigia as atividades da Igreja.

No ano 44 d.C., um concílio dos membros da Igreja foi convocado em Jerusalém, com Pedro presidindo. Segundo os registros, certas diferenças foram ajustadas naquela conferência, sob a inspiração do Espírito Santo. Mais tarde os apóstolos se dispersaram; a perseguição se abateu sobre eles; e, até onde sabemos, nunca mais se reuniram numa conferência geral da Igreja. As atividades de Paulo se centraram em Antioquia, mas, no período de 68 d.C. a 100 d.C., parece que a maioria, senão todos, dos apóstolos originais, que detinham a autoridade para dirigir o reino — para dirigir os assuntos da Igreja — haviam partido da terra.

O Início da Apostasia

Ondas de perseguição continuaram, a dissensão se infiltrou, a influência política se fez evidente. Segundo os escritores do segundo século, os quais geralmente são silenciados por muitos dos líderes religiosos do mundo hoje, os ensinamentos foram bastante ortodoxos durante o primeiro século e no início do segundo século após o advento do Mestre. Mas, mesmo nesse período, havia evidência de que uma apostasia começava. Quando Constantino ascendeu ao trono do império romano, houve um espírito de tolerância demonstrado a todos os grupos religiosos. Finalmente, a tolerância aumentou em relação aos cristãos até que o próprio Constantino mais ou menos abraçasse sua causa.

Grandes mudanças agora se faziam evidentes. Alguns nos fariam crer que o bispo de Roma, por essa época, se tornou o chefe da Igreja. Havia muitos bispos que presidiam congregações locais — igrejas, como eram chamadas — mas nenhum deles tinha a autoridade que fora dada aos Doze para dirigir os assuntos da Igreja. De fato, os registros indicam que pelo menos dois dos bispos de Roma morreram enquanto João, o Apóstolo, ainda era conhecido entre os homens. Evidentemente, um deles ainda vivia quando João recebeu sua última grande revelação, registrada no Livro de Apocalipse. Nenhum destes tinha a autoridade, nem assumiu autoridade, para dirigir a igreja estabelecida por Cristo e seus apóstolos.

No concílio convocado por Constantino, o imperador, em 325 d.C. (Concílio de Niceia), que aparentemente foi a primeira conferência convocada depois daquela realizada em Jerusalém em 44 d.C., diz-se que apenas cerca de um sexto dos bispos estava presente, e que o bispo de Roma esteve ausente daquela importante reunião. O imperador dirigiu o concílio, embora nem sequer fosse batizado. Segundo os registros que temos, evidentemente não havia unidade nem inspiração do Espírito presentes naquela reunião, mas força e intriga foram usadas num esforço para trazer unidade política com propósitos políticos. De fato, nossas melhores autoridades parecem indicar que deve ter sido aproximadamente no ano 354 d.C. que Pedro, o Apóstolo, foi mencionado pela primeira vez como bispo.

Princípios e Ordenanças Alterados

Mas, muito antes disso, evidências de apostasia já se haviam instalado. A corrupção dos princípios simples do evangelho, a introdução de filosofias pagãs, o acréscimo não autorizado e injustificado de certas cerimônias feitas pelo homem, mudanças na organização e no governo — tudo isso, e mais, se fazia evidente.

Não há tempo para uma discussão detalhada das mudanças feitas, mas podemos tomar como exemplo a simples ordenança do batismo, realizada por imersão, por aqueles que tinham autoridade, após o que as mãos do sacerdócio eram impostas sobre a cabeça dos membros batizados, e o Espírito Santo era conferido. Pouco depois da partida dos apóstolos, essa ordenança foi bastante modificada. O modo de batismo foi alterado. Chegou um tempo em que o batismo era reconhecido, quer os homens possuíssem, quer nem sequer reivindicassem autoridade. Chegaram ao ponto de indicar que a autoridade não era necessária. Introduziu-se o batismo de crianças pequenas. Adultos que eram batizados eram tratados como crianças pequenas e alimentados com leite e mel por um período. O uso do óleo foi introduzido na ordenança.

A sagrada ordenança do sacramento foi alterada, essa ordenança simples e impressionante que o Mestre introduzira. A doutrina da transubstanciação foi ensinada, e a verdadeira idolatria, e a adoração dos emblemas, foi introduzida. Fez-se uma mudança na escolha dos oficiais. As indicações haviam sido feitas pelos Apóstolos que detinham aquela autoridade. Não mais se praticava e seguia o princípio do comum acordo, que fora parte da Igreja primitiva. Proibia-se aos membros da Igreja de ler as escrituras, embora o Mestre houvesse dito: "Examinais as escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam." (João 5:39.)

Práticas Abomináveis Introduzidas

Muitas outras práticas foram introduzidas, uma das mais graves, e tenho certeza de que uma das mais abomináveis aos olhos de Deus, foi a venda de indulgências. Essa prática se baseava na falsa teoria de que havia um tesouro de mérito — que certos santos e outros, por suas obras, haviam realizado mais do que era exigido para sua salvação — e, portanto, havia um tesouro disponível do qual outros poderiam valer-se, os quais, por suas vidas injustas, pudessem ficar aquém dos requisitos para a salvação. A doutrina da infalibilidade, a adoração de relíquias, a introdução de pompa, cerimônia e mistérios, o uso de incenso, a adoração de mártires, aplausos para demonstrar a popularidade relativa dos oradores na Igreja, e até mesmo a compra de cargos, foram aprovados e praticados. Rivalidade, contenda e desunião eram desenfreadas, atingindo provavelmente seu clímax quando o bispo de Roma excomungou o patriarca de Constantinopla, e o patriarca, por sua vez, excomungou o bispo.

Restaram, então, apenas igrejas humanas, sem autoridade, que se haviam excomungado umas às outras. Certamente a apostasia estava agora completa.

A Apostasia Predita

Como a Igreja restaurada, afirmamos que, com a passagem da era apostólica, a Igreja caiu numa condição de apostasia, que a sucessão no sacerdócio se rompeu, e que a Igreja, como organização terrena operando sob direção divina e tendo autoridade para oficiar em ordenanças espirituais, deixou de existir. Isso é atestado pela história. Afirmamos também que tudo isso foi previsto e predito pelos apóstolos enquanto viviam, sim, e pelo Mestre em seus dias. A apostasia começara nos dias dos Apóstolos, e por eles foi frequentemente mencionada.

Estais familiarizados com a citação da referência de Paulo à situação, quando se encontrou pela última vez com os anciãos de Éfeso, quando disse:

"Porque eu sei isto: que, depois da minha partida, entrarão entre vós lobos cruéis, que não pouparão o rebanho." (Atos 20:29.)

Depois, em sua carta aos Tessalonicenses:

"Ninguém de maneira alguma vos engane; porque aquele dia não virá"

— a Segunda Vinda do Mestre — "sem que antes venha a apostasia." (2 Tessalonicenses 2:3.)

Aos Gálatas, Paulo se referiu à apostasia já em curso, e maravilhou-se de que tão depressa se afastassem daquele que os chamara para outro evangelho. Repreendeu-os por isso, e assinalou que havia apenas um plano do evangelho. (Gálatas 1:6-8.)

Pedro falou de

". . . falsos profetas também entre o povo, como entre vós haverá também falsos mestres, que introduzirão encobertamente heresias destruidoras . . . trazendo sobre si mesmos repentina destruição." (2 Pedro 2:1.)

De fato, na grande visão dada a João, na Ilha de Patmos, ele se refere às poucas igrejas dignas de sua nota como "nem frias, nem quentes." (Apocalipse 3:15.) No que se refere à restauração do evangelho, a passagem frequentemente citada (Apocalipse 14:6-7) é uma clara evidência de que a apostasia estaria completa, pois, quando João recebeu essa revelação, indicando uma condição futura, viu um anjo voar pelo meio do céu, "e tinha o evangelho eterno, para proclamá-lo aos que habitam sobre a terra."

Mesmo no Antigo Testamento, os profetas haviam profetizado de modo semelhante. Isaías indicou que a terra estaria contaminada por causa de seus habitantes, porque transgrediram as leis, mudaram os estatutos, quebraram o convênio eterno. (Isaías 24:5.)

Em parte alguma a lei de Moisés é chamada de convênio eterno. O convênio eterno é o evangelho de Jesus Cristo. Amós havia falado de uma fome que viria à terra por "ouvir as palavras do Senhor", e que o povo "correria de um lado para o outro, buscando a palavra do Senhor, mas não a acharia." (Amós 8:11.)

Não apenas pela história, que é bastante conclusiva, mas também pela profecia, fomos informados definitivamente de que houve, e haveria, uma completa apostasia da verdade. Muitos dos primeiros reformadores reconheceram esse fato ao se insurgirem contra os falsos ensinamentos e as práticas de seus dias. Wesley, o fundador do Metodismo, lamentou que "os cristãos haviam voltado a ser pagãos e só lhes restara uma forma morta." Mesmo aqui na América, Roger Williams, chefe da mais antiga congregação batista do país, reconheceu, ao deixar o ministério, que não havia sobre a face da terra igreja ou autoridade divinamente constituída, nem haveria tal igreja até que surgisse uma que tivesse apóstolos e outros oficiais como os encontrados na igreja estabelecida no Meridiano dos Tempos.

Apostasia: Fato Atestado

É fato atestado que, quando Joseph Smith, um humilde rapaz, entrou no bosque para orar naquela bela manhã de primavera de 1820, o mundo — cristão e de outra forma — estava num triste estado de apostasia. A resposta que lhe foi dada é, para mim, a maior evidência que temos em todo o mundo de que houve uma apostasia da verdade. Ao contemplar aqueles dois seres gloriosos, um apontou para o outro e disse: "Este é Meu Filho Amado. Ouve-O!" E, depois que Joseph fez a pergunta de qual, entre todas as seitas, era a verdadeira, qual foi a resposta que recebeu? Estas são suas palavras:

"Foi-me respondido que não me unisse a qualquer delas, pois estavam todas erradas: . . . ensinam como doutrina os mandamentos de homens, tendo aparência de religiosidade, mas negam o seu poder.

Ele [o Filho] novamente me proibiu de unir-me a qualquer delas." (P. de G. P., Joseph Smith 2:19-20.)

A Verdadeira Igreja Restabelecida

Mais tarde, o Profeta Joseph foi comandado a ir como instrumento nas mãos de Deus e organizar a Igreja, para publicar ao mundo, como testemunho adicional da divindade de Jesus Cristo, o Livro de Mórmon, que fora extraído dos registros sagrados. A Igreja foi organizada, e, por revelação, seu nome, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, foi dado, como já mencionado anteriormente pelo Presidente Smith. Então, decorridos alguns meses, enquanto os élderes estavam reunidos em conferência especial, considerando o assunto da publicação das revelações que até então haviam sido recebidas, o Senhor falou por intermédio do Profeta e deu uma revelação muito significativa, indicando que ela deveria ser o prefácio do Livro de Mandamentos do Senhor. Nessa revelação encontramos estas palavras significativas, referindo-se aos servos do Senhor que teriam a responsabilidade de levar a mensagem ao mundo e estabelecer o reino. Disse o Senhor:

"E também para que aqueles a quem foram dados estes mandamentos tivessem poder para estabelecer o alicerce desta igreja e tirá-la da obscuridade e das trevas, a única igreja verdadeira e viva na face de toda a Terra, com a qual eu, o Senhor, me deleito, falando à igreja coletiva e não individualmente —" (D. & C. 1:30; itálico do autor.)

Estas não são as nossas palavras. São palavras daquele que estabeleceu sua Igreja antigamente, e por cujo ministério ela foi restabelecida e restaurada nos dias e na era em que vivemos.

Uma Mensagem para o Mundo

Ora, meus irmãos e irmãs, é por isso que enviamos missionários pelo mundo, porque esta mensagem é uma mensagem mundial. É a verdade restaurada. O Senhor indicou esse fato naquela mesma revelação, em seu verso inicial, no qual disse:

"Escutai, ó povo da minha igreja, diz a voz daquele que habita no alto e cujos olhos estão sobre todos os homens; sim, em verdade vos digo: Escutai, ó povos distantes e vós, que estais nas ilhas do mar, escutai juntamente.

Pois em verdade a voz do Senhor dirige-se a todos os homens e ninguém há de escapar; . . ." (D. & C. 1:1-2.)

Esta restauração do evangelho, este trazer de volta a luz e a verdade, é destinado ao benefício e à bênção de todos os filhos de Deus. E assim, humilde e agradecidamente, nossos missionários saem pelo mundo para proclamar que houve uma apostasia da verdade, mas que, pela bondade de Deus, os céus foram novamente abertos, e o evangelho revelado ao homem por meio de Joseph Smith, o Profeta.

Sou grato por este conhecimento. Para mim, é a coisa mais preciosa em todo o mundo. Rogaria a Deus que todos os que estão ao alcance de minha voz, e todos os filhos de Deus em toda parte, pudessem conhecer a doçura do evangelho, e o que significa deter o sacerdócio e sentir a fraternidade e a irmandade que temos na Igreja — sim, conhecer a segurança que vem ao coração do homem quando o testemunho da verdade é derramado sobre sua alma.

Testemunho

Testifico-vos hoje que estas coisas são verdadeiras, que esta é a obra de Deus. Dou este testemunho sabendo muito bem que, por fim, terei de comparecer diante do tribunal de Deus, como vós, meus irmãos e irmãs, também tereis de fazer. Testifico com toda a humildade que Deus tornou a falar dos céus, depois de um longo período de apostasia, que ele levantou um profeta, que Joseph Smith foi o instrumento em suas mãos para restaurar novamente à terra o Santo Sacerdócio, a verdadeira organização da Igreja com todas as bênçãos desfrutadas em dias antigos, e ainda mais, porque esta é a Dispensação da Plenitude dos Tempos. Dou este testemunho a vós com toda a humildade e com gratidão em meu coração, em nome do Senhor Jesus Cristo. Amém.

Como citar este discursoEzra Taft Benson, “A Grande Apostasia e a Restauração do Evangelho”, 1949 October General Conference, First Day Morning Session (1949-09-30). Pulpit Vault, 1949-10-ezra-taft-benson-conference-address. Tradução desta edição, por método de glossário, catalog.churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).