Escolhei Hoje a Quem Sirvais
David O. McKay
Escolhei hoje a quem sirvais: se os deuses a quem serviram vossos pais, que estavam além do rio, ou os deuses dos amorreus, em cuja terra habitais; porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor. (Josué 24:15.) ¶
Sentindo intensamente, irmãos e irmãs, a responsabilidade deste momento, diante desta vasta audiência, vista e não vista, peço a vossa atitude compreensiva e as vossas orações. ¶
Eu estava justamente pensando em quão rapidamente o tempo passou desde que nos reunimos há seis meses em circunstâncias semelhantes. Poderíamos muito apropriadamente cantar nesta manhã aquele velho hino agora eliminado de nossos hinários: ". . . como os meses velozes se foram; é conferência outra vez, e as incontáveis multidões de Sião vêm cantar o hino de alegria." ¶
O Progresso da Igreja ¶
Convosco eu me regozijo pela presença do Presidente Smith nesta conferência. Sou grato convosco pelo progresso da Igreja. Seu crescimento nas estacas organizadas e nas missões é muito satisfatório. Como o Presidente Smith já indicou, entre os homens e mulheres pensantes de todo o mundo, os propósitos da Igreja são agora melhor compreendidos, com o consequente enfraquecimento do preconceito. Seus meios são mais adequados para a promulgação, por todo o mundo, do evangelho restaurado de paz, amor e fraternidade universal. ¶
Mas o inimigo também está ativo. Ele é astuto e sagaz, e busca toda oportunidade de minar os alicerces desta Igreja, e ataca sempre que é possível enfraquecer ou destruir. ¶
Uma Escolha Sábia ¶
A escritura que li como introdução, reconhecereis, é a resolução declarada e inalterável de Josué, cuja nobreza de caráter e liderança notável lhe conquistaram o título de "servo do Senhor." Pouco antes de sua morte, ele convocou Israel "a afastar os deuses estranhos" que havia entre eles, e a ser fiel e obediente ao Deus de Israel. O povo, nos dias de Josué, evidentemente fez uma escolha sábia, pois, diz-se-nos, que Israel ¶
. . . serviu ao Senhor todos os dias de Josué, e todos os dias dos anciãos que ainda viveram muito depois de Josué. . . . (Josué 24:31.) ¶
A toda pessoa normal, Deus deu "a liberdade de escolha." O nosso progresso moral e espiritual depende do uso que fazemos dessa liberdade. ¶
O Verdadeiro Teste ¶
O verdadeiro teste de qualquer igreja ou religião é o tipo de homens que ela produz. Estou muito feliz e profundamente grato pelo elevado tipo de rapazes e moças que estão sendo criados na Igreja, como indicado recentemente por um relatório de 6.556 candidatos a missionário em seus exames médicos, incluindo exames sorológicos, em preparação para irem em missão. ¶
Em 1946, 2.263 foram assim examinados. Em 1947, 2.134; do mesmo modo, em 1948, 2.159, ou um total, como disse, de 6.556; 6.554 apresentaram exames negativos; apenas um em 1946 e um em 1947 foram positivos — um em mais de três mil. ¶
Ideais Falsos ¶
Mas, como disse, há outros relatórios mais inquietantes — relatórios sobre a influência de ideais falsos. Creio ser, de certo modo, o que Josué tinha em mente quando falou dos deuses falsos. Os ideais falsos, se aceitos, são ainda mais destrutivos da espiritualidade do que era a adoração dos deuses amorreus. ¶
Esses relatórios referem-se a festas desenfreadas realizadas por jovens da Igreja, a clubes censuráveis, para não dizer lascivos, organizados entre certo grupo; a atitudes de moças cujos pais lhes permitem vir à cidade sem acompanhante para assistir a competições esportivas. Tais relatórios levam-nos a crer que não poucos pais, e alguns de nossos jovens, precisam ser advertidos contra práticas sedutoras e más, cuja indulgência só termina em desilusão e tristeza. ¶
Não pode haver dúvida de que a guerra e a ciência materialista tiveram um efeito entorpecedor sobre a sensibilidade moral de jovens demais entre nós. Um crítico chega a dizer: "Só o interesse próprio permanece como motivo, e o prazer, como único fim da vida." ¶
Elogio o Presidente Richard L. Evans por seu excelente sermão transmitido pelo rádio nesta manhã, sobre escolher o caminho errado na busca da felicidade. ¶
É dever dos pais e da Igreja não apenas ensinar, mas também demonstrar aos jovens que viver uma vida de verdade e de pureza moral traz alegria e felicidade, ao passo que as violações das leis morais e sociais resultam apenas em insatisfação, tristeza e, quando levadas ao extremo, em degradação. ¶
Uma Velha História ¶
Há uma velha história, que creio que muitos de vós lestes em uma revista recente, que contava a experiência de um grande artista contratado para pintar um mural para a catedral de uma cidade siciliana. O tema era a vida de Cristo. Por muitos anos o artista trabalhou diligentemente, e por fim a pintura estava terminada, exceto pelas duas figuras mais importantes: o Menino Cristo e Judas Iscariotes. Ele buscou por toda parte modelos para essas duas figuras. ¶
Um dia, ao caminhar por uma parte antiga da cidade, ele deparou com algumas crianças brincando na rua. Entre elas estava um menino de doze anos cujo rosto tocou o coração do pintor. Era o rosto de um anjo — talvez muito sujo, mas o rosto de que ele precisava. ¶
O artista levou a criança para casa consigo, e, dia após dia, o menino sentou-se pacientemente até que o rosto do Menino Cristo estivesse terminado. ¶
Mas o pintor não conseguiu encontrar um modelo para Judas. Por anos, assombrado pelo temor de que sua obra-prima ficasse inacabada, ele continuou a sua busca. ¶
Certa tarde, numa taverna, o pintor viu uma figura macilenta e esfarrapada cambalear pela soleira e cair ao chão, implorando por um copo de vinho. O pintor o ergueu e olhou para um rosto que o assustou. Parecia trazer as marcas de todos os pecados da humanidade. ¶
"Venha comigo", disse o pintor, "eu lhe darei vinho, comida e roupa." ¶
Ali, enfim, estava o seu modelo para Judas. Por muitos dias e partes de muitas noites, o pintor trabalhou febrilmente para concluir a sua obra-prima. ¶
À medida que o trabalho progredia, uma mudança sobreveio ao modelo. Uma estranha tensão substituiu a letargia estuporosa, e seus olhos injetados de sangue fixaram-se, horrorizados, na semelhança pintada de si mesmo. Um dia, percebendo a agitação de seu modelo, o pintor pausou o trabalho, dizendo: "Meu filho, gostaria de ajudá-lo. O que tanto o aflige?" ¶
O modelo soluçou e escondeu o rosto nas mãos. Depois de um longo momento, ergueu olhos suplicantes para o rosto do velho pintor. ¶
"Não se lembra de mim, então? Anos atrás fui o seu modelo para o Menino Cristo!" ¶
Bem, a história pode ser fato ou ficção, mas a lição que ensina é fiel à vida. ¶
O homem dissoluto fez uma escolha errada em sua juventude, e, buscando gratificação na indulgência, afundou cada vez mais até chafurdar na sarjeta. ¶
Irmãos e irmãs, apenas recentemente encontrei o correspondente desse infeliz homem — um homem de olhos turvos e feições dissolutas, que conheci, anos atrás, como um jovem brilhante, de semblante aberto e futuro promissor. ¶
Natureza Dupla do Homem ¶
O homem tem uma natureza dupla: uma, relacionada à vida terrena ou animal; a outra, afim ao divino. Se um homem permanece satisfeito dentro daquilo que designamos o mundo animal, satisfeito com o que o mundo animal lhe der, cedendo sem esforço ao capricho de seus apetites e paixões, e escorregando cada vez mais para o reino da indulgência, ou se, mediante o autodomínio, ele se eleva rumo aos prazeres intelectuais, morais e espirituais, depende do tipo de escolha que faz todos os dias, aliás, a cada hora de sua vida. ¶
"O homem tem dois criadores", diz William George Jordan, "o seu Deus e ele mesmo. Este primeiro criador lhe fornece a matéria-prima de sua vida — as leis em conformidade com as quais ele pode fazer dessa vida o que quiser. O segundo criador — ele mesmo — possui poderes maravilhosos que raramente percebe. É o que um homem faz de si mesmo que conta." ¶
A Porta Estreita ¶
Não precisamos fechar os olhos ao fato de que jovens demais entre os nossos respondem ao chamado do físico, porque parece a coisa fácil e natural a fazer. Muitos buscam em vão atalhos para a felicidade. Deve-se sempre ter em mente que aquilo que mais vale a pena na vida requer esforço árduo. ¶
Entrai pela porta estreita: porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ele. ¶
Porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que o encontrem. (Mateus 7:13-14.) ¶
Como nos dias antigos, também hoje há alguns que preferem regozijar-se naquilo que ouvi o Presidente George Albert Smith designar como "o território do diabo", em vez de lutar pelas coisas mais elevadas e melhores da vida. As pessoas que condenam a sua vontade ao serviço de seus apetites sofrem as penalidades. Nas palavras de Charles Wagner: ¶
Deixai que as vossas necessidades vos governem, mimai-as — vós as vereis multiplicar-se como insetos ao sol. Quanto mais lhes dais, mais elas exigem. É insensato quem busca a felicidade somente na prosperidade material. ¶
O Lado Inferior ¶
Diz-se que um imperador romano ofereceu uma recompensa a quem inventasse um novo prazer. Nero incendiou Roma pelo simples prazer de uma nova forma de diversão. Roma caiu por causa da extravagância, do luxo e da dissipação. Na vida pessoal, como na vida nacional, esses são sinais infalíveis de declínio e decadência. Em verdade, ¶
. . . o que semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção; mas o que semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna. (Gál. 6:8.) ¶
Em seu anseio por bons momentos, os jovens são frequentemente tentados a se entregar às coisas que apelam apenas ao lado inferior da humanidade, cinco das mais comuns das quais são: primeiro, a vulgaridade e a obscenidade; segundo, as festas de bebida e de intimidades físicas; terceiro, a incastidade; quarto, a deslealdade; e quinto, a irreverência. ¶
Vulgaridade ¶
A vulgaridade é frequentemente o primeiro passo no caminho descendente para a indulgência. Ser vulgar é ofender o bom gosto ou os sentimentos refinados. Um rapaz que contasse uma piada vulgar na presença de senhoras revela uma natureza inclinada àquilo que é baixo e grosseiro. Uma moça que a encorajasse e risse dela estaria dando um passo em direção àquilo que é rude e não refinado. ¶
A maioria de vós já leu a denúncia que David Starr Jordan fez desse vício. Ele a conclui dizendo: ¶
Encontramos a corrosão da vulgaridade em toda parte, e o seu veneno entra em todo lar. Os outdoors de nossas cidades estão cobertos de suas evidências; nossos jornais exalam o seu odor; nossos livros de histórias fedem a ela; nossas escolas estão contaminadas por ela; e não conseguimos mantê-la fora de nossos lares, de nossas igrejas ou de nossas faculdades. ¶
É apenas um passo da vulgaridade à obscenidade. O secretário executivo de um comitê nomeado para reduzir a distribuição de ¶
literatura obscena colocou sobre a minha mesa, apenas recentemente, uma placa das mais vis, secretamente fundida, segundo se relata, aqui mesmo em nossa cidade, e vendida aos nossos jovens por um preço nominal. A melhor maneira de livrar a sociedade dessa baixeza é que os pais, os comerciantes e, especialmente, todo jovem decente se recusem a tolerá-la e denunciem os vendedores às autoridades da lei. ¶
Festas de Bebida e de Intimidades Físicas ¶
É certo, na verdade essencial, para a felicidade dos nossos jovens, que eles se reúnam em festas sociais, mas é sinal de baixa moral quando, para se divertirem, precisam recorrer à estimulação física e à degradação. Tal indulgência enfraquece o vosso caráter; desacredita o nome de vossa família; rouba de vossa futura esposa ou esposo um tesouro inestimável, e semeia sementes que podem amadurecer no fruto amargo da suspeita conjugal, da infelicidade e do divórcio. Uma moça que sacrifica o autorrespeito pela popularidade social degrada a verdadeira feminilidade. ¶
Um caráter imaculado, fundado na capacidade de dizer não na presença daqueles que zombam e escarnecem, conquista o respeito e o amor dos homens e mulheres cuja opinião mais vale a pena. As festas de bebida e de intimidades físicas formam um ambiente em que o senso moral se embota, e a paixão desenfreada reina. Torna-se então fácil dar o passo final rumo à desgraça moral. ¶
Castidade ¶
O teste da verdadeira feminilidade vem quando a mulher se apresenta inocente diante do tribunal da castidade. Todas as qualidades são coroadas por essa virtude preciosíssima da bela feminilidade. É a parte mais vital do alicerce de uma vida conjugal feliz. Há uma ideia geral, por todo o mundo, de que os rapazes podem semear a sua rebeldia juvenil, mas que as moças devem ser acompanhadas e vigiadas. Mas, mesmo nessa questão de acompanhamento, há relaxamento demais por parte dos pais, se se pode confiar em relatórios recentes. ¶
Na Igreja de Jesus Cristo, há apenas um padrão de moralidade. Nenhum rapaz tem mais direito de semear a sua rebeldia juvenil do que uma moça. Aquele que vai ao seu bispo pedir uma recomendação para levar uma moça pura ao altar deve dar a mesma pureza que espera receber. ¶
Uma mulher coroada de virtude é o "dom mais elevado, mais santo, mais precioso ao homem", excetuando-se apenas a salvação oferecida no evangelho, e isso faz parte dela. Mas uma mulher que barganha a sua virtude "não é a menor das vergonhas do homem." ¶
Deslealdade ¶
Quando, em lugar de altos princípios morais, escolhe-se uma vida de indulgência imoral, e o homem ou a mulher desce muito na escala da ¶
degeneração, a deslealdade é uma parte inevitável de sua natureza. A lealdade aos pais se apaga; a obediência aos seus ensinamentos e ideais é abandonada; a lealdade à esposa e aos filhos sufoca-se em gratificação vil; a lealdade à Igreja torna-se impossível, e é frequentemente substituída por escárnio aos seus ensinamentos, o que significa que o culpado é "deixado por si mesmo a dar coices contra os aguilhões e a lutar contra Deus." ¶
Nesse estágio, a irreverência é uma consequência inevitável, sinal bastante seguro de fraqueza moral. Nenhum homem se elevará muito zombando das coisas sagradas. Diz-se que, quando o Sr. Melville D. Landon (Eli Perkins) estava preparando o seu volume Kings of the Platform and Pulpit, escreveu ao Coronel Robert G. Ingersoll pedindo uma cópia de sua palestra mais famosa. Numa carta que acompanhava o manuscrito, o Sr. Ingersoll disse: ¶
Faça o que fizer, não coloque nada no livro contra Cristo. Posso ter dito coisas tolas a respeito dele quando menino em Peoria, Illinois, mas hoje o considero o único Homem Perfeito. ¶
Importância da Espiritualidade ¶
Disse, no princípio, que o homem é um ser duplo — uma entidade física e espiritual —, mas o seu lado espiritual é a parte mais importante de todas. A verdadeira tragédia de seguir ideais falsos é que, ao fazê-lo, sufocamos e, às vezes, extinguimos completamente a espiritualidade. Rudolph Eucken afirma com verdade que, sem a consciência de uma relação espiritual com o Infinito — notai bem isto — que, sem a consciência de uma relação espiritual, ¶
nenhuma verdadeira civilização é possível. Uma civilização que rejeita todo contato com uma vida sobrenatural e se recusa a estabelecer aquelas misteriosas relações interiores degenera gradualmente numa mera civilização humana, e se torna uma paródia de civilização. ¶
O corpo, com os seus cinco ou mais sentidos, com os seus apetites e paixões, é essencial à vida e à felicidade, mas, em última análise, é apenas um meio para um fim mais elevado. Quando o homem faz de sua gratificação um fim em si mesmo, frustra o propósito e desce à sensualidade. "Escolhei hoje a quem sirvais." ¶
John P. Altgeld expressa mais do que mera imaginação quando diz: ¶
Jovem, a vida está diante de ti. Duas vozes te chamam — uma vinda dos pântanos do egoísmo e da força, onde o sucesso significa morte; e a outra, dos cumes da justiça e do progresso, onde até o fracasso traz glória. . . . Dois caminhos se abrem diante de ti — um levando a uma planície cada vez mais baixa, onde se ouvem os gritos de desespero e as maldições dos pobres, onde a virilidade murcha e a posse apodrece o possuidor; e o outro levando às terras altas da manhã, onde se ouvem os alegres brados da humanidade e onde o esforço honesto é recompensado com a imortalidade. ¶
Expandindo a Alma ¶
Irmãos e irmãs, a espiritualidade é a consciência da vitória sobre si mesmo, e da comunhão com o Infinito. A espiritualidade impele a pessoa a vencer dificuldades e a adquirir cada vez mais força. Sentir as próprias faculdades se desdobrando e a verdade expandindo a alma é uma das experiências mais sublimes da vida. ¶
Ser "honesto, verdadeiro, casto, benevolente, virtuoso, e fazer o bem a todos os homens" são atributos que contribuem para a espiritualidade, a mais elevada aquisição da alma. É "o divino no homem, o supremo dom que o coroa rei de todas as coisas criadas, a qualidade final que o faz elevar-se acima de todos os outros animais." ¶
Divina é aquela admoestação e promessa dada ao Profeta Joseph Smith: ¶
". . . que a virtude adorne teus pensamentos incessantemente;" — uma declaração maravilhosa — ¶
. . . então tua confiança se fortalecerá na presença de Deus; e a doutrina do sacerdócio destilar-se-á sobre tua alma como o orvalho do céu. ¶
O Espírito Santo será teu companheiro constante, e teu cetro, um cetro imutável de retidão e verdade; e teu domínio será um domínio eterno e, sem medidas coercivas, fluirá para ti eternamente. (D. & C. 121:45-46.) ¶
Que Deus nos ajude a guardar essa admoestação e a seguir os ideais da Igreja de Jesus Cristo, estabelecida por revelação direta nestes dias, eu oro, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶