Apascenta as Minhas Ovelhas
Henry D. Moyle
A Páscoa já passou. Fomos novamente lembrados da vida, da morte e da ressurreição de Cristo, o Senhor, o Redentor da humanidade. Somos novamente lembrados de sua incumbência aos apóstolos antigos, quando lhes apareceu pela terceira vez após sua ressurreição, falando diretamente a Pedro: ¶
Disse-lhe uma terceira vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Simão entristeceu-se por lhe ter dito uma terceira vez: Amas-me? e disse-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas; tu sabes que eu te amo. Jesus disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas. (João 21:17.) ¶
Entende-se geralmente que o Senhor, aqui, ordenou àqueles empenhados em sua obra que ensinassem o evangelho, que transmitissem força espiritual aos que pudessem estar espiritualmente fracos. Como aqueles que professam seguir o Salvador, nenhum de nós pode escapar dessa séria responsabilidade. ¶
E, no entanto, não haveria outra exigência nessa ordem que, embora de natureza temporal, não pode ser desconsiderada? Podemos satisfazer a preocupação do Senhor ressuscitado — "Apascenta as minhas ovelhas" — quando deixamos seus filhos como os encontramos, "famintos", "sedentos", "estrangeiros", "nus", "enfermos" e "presos", sem satisfazer suas necessidades? ¶
O Atributo Cristão da Caridade ¶
Tão importante é o cumprimento literal desta exigência sagrada, feita a todos os discípulos de Cristo, que ele ensinou este princípio fundamental: ¶
... Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. (Mateus 25:40.) ¶
Poderão nossas orações subir ao trono da misericórdia, e ser ouvidas e respondidas, como humildemente desejamos, a menos que pratiquemos a caridade em nossas vidas? Não devemos dar de nós mesmos e de nossos bens para ajudar os outros? As boas intenções sozinhas não bastam. A caridade não é uma virtude a ser esperada apenas nos outros. É o atributo cristão de suprema importância que deve ser encontrado em nós mesmos. ¶
O apóstolo Paulo colocou-a em sua devida posição quando escreveu: ¶
Agora, pois, permanecem estas três: a fé, a esperança e a caridade; porém a maior destas é a caridade. (I Coríntios 13:13.) ¶
De uma forma ou de outra, todas as pessoas cristãs sinceras reconheceram e se esforçaram para pôr em prática este princípio fundamental do evangelho. Por mais miserável que seja o mundo, ele seria muito mais pobre sem os esforços daqueles que sinceramente tentaram seguir esta ordem do Mestre. ¶
E, no entanto, não temos sido negligentes? Não temos tendido a pensar que cumprimos nosso dever integral quando demos alguns dólares para o socorro organizado e nos sentimos satisfeitos por crer que os famintos seriam alimentados e os nus, vestidos? ¶
Não temos perdido de vista o eterno axioma de que "o presente sem quem o dá é vazio"? ¶
Não temos sido culpados de pregar, de um lado, o trabalho e a indústria, enquanto, do outro, destruímos a independência e promovemos a ociosidade? ¶
Não temos, muitos de nós, quebrado a lei dada ao antigo Israel — "Honra a teu pai e a tua mãe" — ao transferir a outros o cuidado daqueles que, em nossos anos de juventude, cuidaram de nós? ¶
Cuidado com os Pobres ¶
Estes assuntos são da própria essência do evangelho. Nós, de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, assim cremos. Aceitamos como pronunciamentos divinos: ¶
... deveis visitar os pobres e os necessitados e ministrar-lhes auxílio. (D. & C. 44:6.) ¶
E, novamente: ¶
... te lembrarás dos pobres e consagrarás de tuas propriedades, para sustento deles, aquilo que tiveres para lhes dar, com um convênio e uma promessa que não poderão ser violados. (Idem, 42:30.) ¶
Sob o que chamamos de nosso programa de bem-estar da Igreja, temo-nos esforçado, a partir das consagrações do povo, para cumprir nossa obrigação tal como a compreendemos. Por ser este um problema comum a todos os homens de boa vontade, penso que vos possa interessar uma breve explicação geral dos princípios sobre os quais temos procurado edificar. ¶
Estabelecimento do Programa de Bem-Estar ¶
Quando este programa foi estabelecido, o presidente Heber J. Grant disse então que seu ¶
... propósito primário era estabelecer, na medida do possível, um sistema sob o qual a maldição da ociosidade pudesse ser eliminada, os males da esmola pública abolidos, e a independência, a indústria, a economia e o autorrespeito estabelecidos entre nosso povo. O objetivo da Igreja é ajudar as pessoas a ajudarem a si mesmas. O trabalho... (deveria tornar-se) o princípio governante da vida dos membros de nossa Igreja. ¶
Cremos que é o mandato do Deus Todo-Poderoso, tão vinculante hoje quanto quando dado antigamente, que ¶
No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que retornes à terra, porque dela foste tomado; porquanto és pó, e ao pó retornarás. (Gênesis 3:19.) ¶
Responsabilidade dos Capazes ¶
Também aceitamos como a palavra do Senhor: ¶
Não serás ocioso; porque o ocioso não comerá o pão nem usará as vestes do trabalhador. (D. & C. 42:42.) ¶
Este grande princípio não nega aos necessitados nem aos pobres a assistência que devem ter. Os totalmente incapacitados, os idosos, os enfermos são cuidados com toda ternura, mas toda pessoa capaz é instada a fazer o máximo por si mesma para evitar a dependência, se seus próprios esforços puderem tornar isso possível; a considerar a adversidade como temporária; a combinar sua fé em sua própria capacidade com o trabalho honesto; a reabilitar a si mesma e a sua família a uma posição de independência; a minimizar, em todo caso, a necessidade de ajuda, e a complementar qualquer ajuda recebida com seus próprios e melhores esforços. ¶
Cremos que raramente há homens de fé rigorosa, coragem genuína e determinação inabalável, com o amor à independência ardendo em seus corações, e orgulho de suas próprias realizações, que não consigam superar os obstáculos que se encontram em seu caminho. ¶
Sabemos que, por meio de vidas humildes, dadas à oração, laboriosas e tementes a Deus, pode desenvolver-se em nós uma fé pela cuja força podemos invocar as bênçãos de um Pai Celestial bondoso e misericordioso e literalmente ver nossas limitações desaparecerem, e nossa independência e liberdade estabelecidas e mantidas. ¶
É claro que aqueles em circunstâncias infelizes precisam de ajuda. Precisam de alimento, roupas e aquecimento ministrados por mão amiga. E também precisam de oportunidade, encorajamento e orientação. ¶
Necessidades Atendidas por Meio de Esforços Consagrados ¶
Pelos esforços consagrados dos membros da Igreja, ambas as necessidades podem ser efetivamente atendidas. O cuidado dos necessitados é preocupação de cada membro. Programas cuidadosamente planejados de produção e conservação são elaborados para atender à primeira necessidade. É comum vermos, entre nós, homens de várias profissões e condições econômicas trabalhando juntos, cedo pela manhã ou tarde da noite, no campo, ou na fábrica de conservas, sem pensamento de recompensa material. ¶
Os produtos de seu trabalho são recolhidos aos armazéns locais dos bispos e, ali, sob liderança sábia e inspirada, faz-se o melhor uso possível desses suprimentos, sem os custos habituais de distribuição. ¶
Procuramos constantemente estar prontos, dia após dia, para atender pronta e eficientemente a qualquer emergência entre nosso povo. Esperamos nunca ter em mãos muito pouco, nem chegar tarde demais em sua distribuição. ¶
O mandamento fundamental é "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." Nosso trabalho de bem-estar tem sido caracterizado por um de nossos líderes como um "plano de vizinho para vizinho." Cito suas palavras: ¶
Todo o trabalho de bem-estar é realizado com equidade e justiça, e sem discriminação, temor ou favorecimento. Não há política, eclesiástica ou de outra natureza, na administração do plano da Igreja. Ninguém tem algo a ganhar ou a perder, materialmente, por qualquer socorro que possa prestar sob o plano. Os que o executam não têm amigos a recompensar nem inimigos a punir. ¶
Isso confere ao socorro uma simpatia pessoal salutar para todos, e tende a evitar a imposição e o abuso. Há uma diferença infinita entre o saco de farinha que vem por cima da cerca dos fundos, do vosso vizinho, e um saco enviado a vós de Washington. Um santifica quem o dá, e ergue e inspira, pelo amor humano e pela simpatia que o acompanham, aquele que agradecido o come; o outro corrompe a mão que reparte o que não lhe pertence, e amargura e escraviza quem, com maldições, o devora. (Presidente J. Reuben Clark Jr., Estes Park Discussion.) ¶
Princípios Norteadores do Trabalho de Bem-Estar ¶
Em todas as fases do trabalho, procuramos dar aos que recebem assistência a oportunidade de ajudar, de administrar e de distribuir entre os necessitados aquilo que é deles. O princípio coroador é que cada homem dê à Igreja aquilo de que é capaz e, em troca, tenha a garantia da assistência de que necessita. ¶
A segunda necessidade, a de encorajamento, oportunidade e orientação, apresenta outro problema. Mas, geralmente, há em cada grupo da Igreja treinamento, experiência e educação suficientes para encorajar e orientar rumo a uma solução mais permanente do que aquela oferecida pelo simples fornecimento de alimento, vestuário e moradia em base emergencial. ¶
Nunca podemos afastar-nos das diferenças fundamentais que existem nas disposições e necessidades das pessoas. E, porque todos os casos são tratados por autoridades eclesiásticas locais em bases de compreensão, uma solução permanente para os males que causaram a necessidade pode, muitas vezes, ser alcançada. ¶
Há normalmente uma margem muito estreita entre o êxito e o fracasso. Frequentemente, uma mão amiga, uma palavra bondosa, um ato de caridade evita o pior e produz o melhor. Ninguém, assim ajudado, perde o autorrespeito nem o desejo de progredir. Conserva sua ambição e logo está a caminho de auxiliar outros, tal como foi ajudado. ¶
Há outro problema importante nesse sentido, um problema de profundo significado religioso. Pode-se dizer, com verdade, tanto de homens quanto de mulheres em A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que não cumprem seu dever integral enquanto não compartilharem todos os seus meios com a mãe ou o pai, o irmão ou a irmã, o filho ou a filha necessitados. ¶
Cuidado com os Pais Idosos ¶
Muito poderia e deveria ser dito sobre este assunto, em um tempo em que parece popular por toda a nação fazer o que for possível, por parte de filhos e filhas, para qualificar os pais idosos ao socorro público. Alguns chegam ao ponto de encorajar os pais a transferir a seus filhos a propriedade que adquiriram em seus anos produtivos, para proteção e segurança em sua velhice — tudo para melhor preparar os pais a satisfazer as exigências legais para pensões e assistência máximas na velhice. ¶
Os filhos nem sempre estão conscientes de que, nisso, incorreram em um duplo erro: primeiro, em enriquecer-se injustamente à custa da poupança de toda a vida de seus pais; e, segundo, em furtar-se à sagrada obrigação de cuidar deles. A magnitude da ofensa aumenta quando se percebe que recebemos do Senhor um mandamento divino de cuidar dos nossos. Disse Paulo: ¶
Porém, se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel. (I Timóteo 5:8.) ¶
A Caridade Começa em Casa ¶
Cremos que a caridade deve começar em casa. Podemos esperar ser caridosos com o estranho, se o amor não abundar na família? Um passo seguro na direção do aprimoramento e do progresso em nossas próprias vidas ocorre quando compartilhamos com a mãe ou o pai em sua dependência, assim como eles compartilharam conosco em seus anos produtivos. ¶
Jesus, em sua vida, não desconsiderou este verdadeiro princípio. Praticamente seu último ato em sua existência mortal foi prover para sua mãe: ¶
E junto à cruz de Jesus estava sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cleofas, e Maria Madalena. ¶
Ora, Jesus, vendo ali a sua mãe, e o discípulo a quem ele amava estando presente, disse a sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho. ¶
Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa. (João 19:25-27.) ¶
Não podemos, como filhos, ignorar nossas obrigações para com nossos pais, transferindo a outros a responsabilidade por seu cuidado. Inerente ao programa de bem-estar da Igreja está este ensinamento fundamental. E, por meio de suas facilidades, provê-se para que nenhum filho precise ignorar sua sagrada obrigação, e nenhum pai idoso precise ser posto de lado ou entregue à assistência pública. ¶
Procuramos evitar a necessidade de caridade pública para aqueles a quem amamos e a quem estamos profundamente obrigados. Esforçamo-nos por evitar dívidas e obrigações que não possamos cumprir. Buscamos honrar plenamente todo compromisso assumido. Por meio da consagração de nosso trabalho, da iniciativa e do esforço individuais, da consideração mútua e da disposição de ajudar, motivados pelo espírito de Cristo, temos procurado auxiliar uns aos outros. Os frutos têm sido a fé, a independência, a autossuficiência, o orgulho da própria realização, a solidariedade familiar, o amor e a estima recíproca. ¶
Certamente há necessidade disso no mundo de hoje. Certamente sua necessidade está determinada na ordem do Mestre: "Apascenta as minhas ovelhas." De nenhuma outra forma podemos esperar realizar os propósitos de Deus aqui na terra e inaugurar um reinado de paz e boa vontade entre os homens. ¶