O Que os Pioneiros Trouxeram
Stephen L Richards
Penso, meus irmãos, irmãs e amigos, que nenhuma desculpa por repetição é necessária durante esta conferência. O tema dos pioneiros domina tanto a ocasião e nossos pensamentos que dificilmente se poderia esperar de nós outra coisa senão falar sobre ele. Assim, proponho-me a tratar do assunto: "O que os pioneiros trouxeram?" ¶
O Propósito dos Pioneiros Mórmons ao Colonizar o Oeste
Movimentos pioneiros para a conquista de novos territórios não eram incomuns na América há cem anos. A terra era a forma de riqueza mais comumente aceita, e a disponibilidade de novas terras fazia de sua busca uma ocupação dominante do povo. A colonização havia construído a América, e a extensão de suas fronteiras era um empreendimento geral. ¶
Houve, é verdade, muitas circunstâncias incomuns que acompanharam a colonização pioneira que agora comemoramos. A distância percorrida da migração, a partir de comunidades já estabelecidas, e a penetração em território inexplorado e hostil foram muito maiores do que as de avanços comuns. O número de pessoas transportadas e colonizadas foi excepcionalmente grande; o território que se buscava incluir no projeto era vasto; a expulsão do povo de seus lares e o tratamento cruel e intolerante que sofreram num país livre e democrático dariam caráter a essa migração. A contínua perseguição ao povo após seu estabelecimento aqui e a atitude adversa de seu governo foram fatores incomuns. Todas essas circunstâncias bem poderiam servir para concentrar a atenção sobre o movimento pioneiro de 1847 como algo incomum e distinto entre empreendimentos comparáveis dos povos de fronteira de nosso país; mas, em minha opinião, essas condições, por si só, não explicam adequadamente a posição histórica que a colonização mórmon do Oeste ocupa como a primeira entre todos os movimentos e conquistas pioneiras na América, certamente do ponto de vista dos recursos disponíveis e dos resultados alcançados. ¶
Para compreender os pioneiros e suas realizações, precisamos examinar seus motivos. Nisso encontraremos a diferença entre eles e os demais pioneiros e desbravadores de nosso país. Vieram em busca de liberdade e paz, como outros fizeram. Vieram para construir lares para si, como outros fizeram. Vieram para adorar a Deus e praticar sua religião conforme a satisfação de sua consciência, como outros fizeram; mas há uma coisa pela qual vieram que, até onde sei, não tem equivalente em nenhum outro movimento pioneiro: vieram com o propósito declarado de estabelecer uma sociedade que lhes permitisse levar de volta à civilização da qual haviam fugido — sim, até mesmo a seus perseguidores — os princípios de vida e conduta que eram a fonte de sua própria inspiração, coesão, sucesso e felicidade. Não pretendo dizer que esforços missionários não tenham sido empreendidos por outros grupos, mas, em termos de puro altruísmo cristão no propósito e na obra, coloco os fundadores desta comunidade no ápice de todo empreendimento cristão. ¶
Estava arraigado em seu próprio ser que suas maiores bênçãos viriam de abençoar os outros. Sabiam que tinham uma mensagem que era uma dádiva para a humanidade; sabiam que estavam sob a obrigação de propagar essa mensagem entre os povos do mundo; e nunca, por um único momento, perderam de vista essa obrigação nem o esforço de cumpri-la. No processo de subjugar uma terra das mais obstinadas, com todos os seus desalentos, decepções e exigências de tempo, energia, paciência e coragem, nunca deixaram de dar liberalmente de seus bens duramente ganhos e de sua força de trabalho limitada para levar ao exterior os princípios sagrados que dominavam suas vidas. As primeiras companhias de imigrantes, em suas longas marchas pelas pradarias, encontravam contramarchas de missionários regressando penosamente pela mesma estrada difícil que haviam trilhado tão recentemente, com a mesma determinação, igual expectativa e esperança, e muitas vezes sacrifício comparável ao que tiveram ao empreender a longa jornada para o Oeste. Assim os pioneiros iam e voltavam como nenhum outro povo jamais fez, e seus descendentes mantiveram esse processo por um século. ¶
A Crença em Profecia Antiga
Qual foi a força impulsionadora que os levou a tal esforço sobre-humano e a sacrifícios tão amplos? Por estranho que pareça, foi a aceitação literal de uma antiga profecia revivificada pela revelação moderna: ¶
. . . E acontecerá nos últimos dias que o monte da casa do Senhor se firmará no cume dos montes, e se exalçará por cima dos outeiros; e concorrerão a ele todas as nações. E irão muitos povos, e dirão: Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine acerca dos seus caminhos, e andemos nas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém, a palavra do Senhor. (Isaías 2:2, 3.) ¶
Todo pioneiro acreditava nessa profecia de todo o coração. Via a visão de seu cumprimento em todos os seus trabalhos, provações e privações. Ele queria, é claro, um lar confortável para sua família. Queria uma boa sociedade e prosperidade, mas tudo isso era subordinado ao cumprimento dessa profecia — o estabelecimento de Sião. ¶
Todos nos regozijamos com a alta estima geral conferida a Brigham Young como mestre colonizador, estadista e construtor de um império. Ele merece plenamente esse reconhecimento de seus semelhantes, mas nem muitos fora de seus próprios seguidores compreenderam o verdadeiro segredo de seu sucesso. É verdade que ele era prático, previdente e hábil na organização, mas aqueles que conhecem as forças internas por trás de suas realizações lhes dirão que seu poder era espiritual, e não temporal. A unidade tão essencial ao esforço cooperativo do povo era uma unidade espiritual, nascida de uma convicção universal da natureza sagrada da causa que abraçavam e de uma aceitação comum das responsabilidades que ela acarretava. Em toda a obra e ministério de Brigham Young havia, sempre a seu lado, um outro em espírito, sempre a apoiá-lo e a inspirá-lo, cuja orientação e direção ele sempre reconheceu. Esse era seu predecessor, Joseph Smith, o fundador terreno da causa que ele representava, o inspirador do povo por meio de quem seu destino fora revelado. Brigham nunca esqueceu nem nunca ignorou Joseph; tampouco o fez o povo. Lutaram com todas as suas forças para cumprir a missão que ele lhes havia confiado. Essa missão era ao mesmo tempo temporal e espiritual, mas predominantemente espiritual. ¶
Diligência, Educação e Lealdade Trazidas pelos Pioneiros
O que, então, os pioneiros trouxeram? Trouxeram diligência numa medida raramente igualada. Ensinaram e praticaram o evangelho do trabalho como o fundamento do sucesso e da felicidade. Esse evangelho era, talvez, mais amplamente aceito em seus dias do que é hoje, infelizmente. Demonstraram sua eficácia, e sua demonstração permanece hoje como exemplo e incentivo para o mundo. ¶
Trouxeram educação e um amor pelo artístico e pelo belo. Nem muitos deles eram eruditos. Suas oportunidades de instrução haviam sido muito escassas, mas traziam em si um anseio inato pela verdade, que, afinal, é a verdadeira base da educação. Era parte integral de sua concepção do propósito da vida desenvolver a inteligência e adquirir conhecimento. A inteligência era investida dos mais elevados atributos possíveis, proclamada como a própria glória de Deus. Era, portanto, apenas natural que a educação e suas influências culturais e civilizadoras recebessem seu fervoroso apoio. A educação que fomentavam não era estreita e restrita como é parte da educação de hoje. Era voltada para a aquisição de conhecimento em todas as fases da vida e do universo; e fazia uma coisa que, infelizmente, a educação moderna nem sempre faz — não subordinava a qualidade de inteligência essencial para compreender as coisas do espírito à ordem de inteligência necessária para a aquisição de outros fatos. A esse elevado conceito de inteligência somava-se um profundo amor pelo belo, que é o fundamento tanto da arte criativa quanto da apreciação artística. Esse amor pela beleza nem sempre encontrava expressão tangível, mas impulsionou muitos empreendimentos valiosos e, por vezes, notáveis na arquitetura, na música, no teatro e em outros projetos culturais. Foi, sem dúvida, esse profundo amor pelo saber e pela verdade que, nas gerações seguintes, foi responsável pela posição elevada que nosso estado alcançou no campo da alfabetização e da educação, e pela porcentagem de sua população que obteve reconhecimento nos campos científicos e em outros campos do saber. Creio que Utah esteve entre os primeiros, senão o primeiro, de todos os estados da União nesses aspectos. ¶
Trouxeram consigo uma lealdade da mais alta ordem e uma grande capacidade de devoção firme à causa que abraçaram. Dificilmente podemos avaliar o que isso significou para o sucesso de seus empreendimentos. Em sua maioria, eram indivíduos robustos, homens livres, muitos de cujos antepassados imediatos haviam lutado pela liberdade; ainda assim, estavam dispostos e ansiosos por consagrar a si mesmos e tudo o que tinham à causa que os trouxe até aqui — a causa que amavam. A deles era o tipo de devoção altruísta que assegura o sucesso das grandes causas no mundo. Sem essa devoção, nenhuma liderança, por mais competente que fosse, poderia ter tido êxito. ¶
A Sabedoria, Qualidade Marcante dos Pioneiros
Chego agora à maior de todas as coisas que os pioneiros trouxeram consigo, e que caracterizo como sabedoria — sabedoria sobre as coisas importantes da vida. Os aspectos verdadeiramente vitais e fundamentais de nossas vidas podem ser classificados sob bem poucos títulos. Penso que uns quatro seriam suficientes — o corpo, o caráter, a família e a ordem social. Se tudo estivesse bem quanto a esses quatro itens, o mundo estaria em boa ordem, e a sabedoria sobre essas coisas é, e sempre foi, a maior necessidade da humanidade. Os pioneiros trouxeram consigo essa sabedoria tão necessária. Ela não era de sua própria feitura. Foi-lhes dada antes de virem para cá. Na verdade, não era feitura de homem algum, pois era a sabedoria dos séculos, legada a eles pela Divina Providência. ¶
Primeiro, consideremos o corpo do homem. Todos desejam um corpo saudável. Nem todos estão dispostos a tomar as medidas para obtê-lo. Os pioneiros trouxeram um novo conceito do corpo, que o investiu de significado sagrado. Ensinaram que o corpo é o tabernáculo terreno onde habita o espírito do homem, filho literal de Deus, e que o corpo não pode ser contaminado, poluído ou de outra forma maltratado ao se ingerir venenos e substâncias nocivas sem que isso constitua uma ofensa a Deus, cujo espírito nele habita. Nesse conceito, as infrações às leis da saúde acarretam não apenas penalidades físicas, mas também consequências espirituais. Há um duplo dever de preservar a integridade do corpo; e, como orientação para esse dever, trouxeram consigo um código de regras de saúde que, embora dado há mais de cem anos, tem recebido a sanção e a corroboração de pesquisas científicas sequer imaginadas na época de sua origem. Eis aqui a sabedoria a respeito do corpo, e as contribuições que dela vieram para o povo são incalculáveis. ¶
Segundo — o caráter, ou a personalidade, se preferirdes. Vejo pouca diferença entre os dois. Defino o caráter como a soma total de todos os atributos incorporados à estrutura da vida de um homem, e o colorido de seu caráter é determinado pela predominância de boas ou más qualidades. Ora, a sabedoria que veio a respeito do caráter não era nova. Era muito antiga, mas trazia uma ênfase nova e muito especial. Ensinava não apenas que o homem é filho de Deus, da mais nobre linhagem, mas também que ele está destinado, se assim viver, a associar-se ao Pai Celestial na continuação de Suas obras eternas por todo o tempo vindouro. Poderia haver incentivo mais elevado para uma vida e um caráter dignos, sem incerteza alguma quanto aos critérios sobre os quais todas as decisões e escolhas devem ser feitas? Não conheço nada mais estimulante para a obtenção de um caráter elevado em homens e mulheres do que um conceito claro de sua origem divina e destino eterno. ¶
A seguir — a família. Que mundo de alegria, tristeza, tragédia e felicidade essa palavra representa para nós! Ela preenche as páginas de inúmeros livros. É o tema de artigos, discursos, debates e controvérsias legislativas e de decisões judiciais, e ainda hoje observo um redator de revista que questiona a necessidade dessa instituição e prediz, com brandura, sua extinção num futuro não muito distante. Qual foi a sabedoria que os pioneiros trouxeram a respeito da família? Ora, eles a investiram dos atributos mais nobres e mais exaltados que já lhe couberam em toda a história do mundo. Ensinaram que ela não é apenas uma unidade básica para uma vida feliz e para o progresso aqui nesta terra, mas que constitui também o próprio fundamento de nossa esperança de suprema exaltação no reino celestial de nosso Deus. De fato, o céu que buscamos é pouco mais do que a projeção de nossos lares na eternidade. Quão discordantes desses elevados conceitos de lar e família são os males trágicos da vida doméstica de hoje — o divórcio, os lares desfeitos, as crianças negligenciadas e rebeldes, mais dignas de pena do que de censura, por causa da desintegração da vida familiar. A meu ver, é essa própria desintegração que tem sido responsável, em não pequena medida, pelo crescimento dos distúrbios e dos "-ismos" no governo e na sociedade que tanto têm afligido o mundo e que hoje constituem nossa maior ameaça. Ah, se a sabedoria que esses humildes pioneiros trouxeram pudesse ao menos encontrar aplicação nas famílias do mundo, que benção seria para o conforto, a felicidade e o progresso da humanidade. ¶
Por fim, a ordem social, pela qual entendo incluir a arte de os homens conviverem confortavelmente e em paz. A sábia contribuição que os pioneiros trouxeram nesse aspecto de importância absoluta pode ser resumida numa única palavra — irmandade. Ensinaram, da maneira mais realista, o conceito de que todas as nações, parentelas, línguas e povos pertencem à família de Deus. Ensinaram a fraternidade, mas não sem a paternidade. Toda a doutrina do relacionamento cristão, do altruísmo e do serviço pode ser resumida na designação "meu irmão", "minha irmã". Acreditavam, há cem anos, que a única esperança substancial de paz universal residia na extensão dessa doutrina de irmandade por todo o mundo. Muitos outros, em tempos passados e no presente, têm proclamado essa doutrina. Sou grato por isso. Espero que sua proclamação ajude, mas confesso certo ceticismo ao ver a recepção que essa doutrina recebe. Há alguns meses, ouvi pelo rádio um discurso de um eminente eclesiástico, o Arcebispo de Cantuária, falando desde Filadélfia. Irmandade e paz eram seu tema. Fiquei satisfeito ao ouvi-lo declarar que havia pouca chance de se estabelecer a irmandade sem o reconhecimento da Paternidade de Deus. Li um relato de seu discurso na imprensa pública no dia seguinte à sua pronúncia, e algumas semanas depois li outro relato dele numa revista. Em nenhum dos dois relatos havia qualquer menção a essa declaração, que considerei a coisa mais importante e vital de seu discurso. O que o mundo precisa para a resolução de suas dificuldades e o estabelecimento de uma paz duradoura não é apenas uma chamada irmandade espiritual, que soa bem como frase, mas também uma irmandade dos filhos de Deus nesta terra, traduzida em termos de auxílio mútuo e prático. ¶
Essa foi a sabedoria sobre a ordem social e a paz que os pioneiros trouxeram e demonstraram quando vieram para esta terra. ¶
Todos os meus irmãos membros da Igreja compreenderão facilmente que essas sábias contribuições de que falo, e muitas outras, não passavam de princípios do evangelho do Senhor Jesus Cristo, que havia sido restaurado por meio do Profeta Joseph Smith pouco tempo antes do evento que comemoramos este ano. Foi por causa da fé implícita dos pioneiros nesta transcendente mensagem de vida e verdade que estabeleceram a casa do Senhor "no cume dos montes". Foi algo grandioso estabelecer uma comunidade e transformar um deserto em cidades, vilas e povoados, com os lares, as escolas e as instalações de que agora desfrutamos. Foi uma realização muito maior ainda estabelecer o reino de Deus e enviar de Sião essa mensagem salutar de esperança, fé e sabedoria divina e eterna a toda a humanidade. Esta foi a verdadeira herança que nossos nobres pioneiros trouxeram consigo e nos deixaram, a nós e a nossos amigos que vieram se juntar a nós nesta encantadora terra que chamamos de Sião do nosso Senhor. É o mais precioso dom da vida. Que Deus nos ajude a estimá-lo, a vivê-lo e a difundi-lo, oro humildemente, em nome de Jesus. Amém. ¶