A Fidelidade dos Santos Europeus e o Programa de Bem-Estar no Pós-Guerra
Ezra Taft Benson
Ao longo de sete sessões inspiradoras, não perdi a fé de que minha vez chegaria. ¶
Para alguém que passou a maior parte do último ano em meio aos escombros e à destruição da Europa devastada pela guerra, esta conferência tem sido duplamente inspiradora e apreciada. Ao olhar para os rostos desta plateia bem alimentada (em muitos casos, quase demasiado bem alimentada), bem vestida, cercada de todos os confortos e bênçãos da vida, percebi que meus pensamentos muitas vezes atravessaram o Atlântico, indo até aqueles de nossos irmãos e irmãs com quem estive intimamente associado nos últimos meses. Eu os amo, meus irmãos e irmãs, como tenho certeza de que vós também os amais, muitos de vós descendendo, por vossos antepassados, dessas nações. ¶
Ouvimos muito, nesta conferência, a respeito da Europa e dos Santos dos Últimos Dias naqueles países. Ouvistes testemunhos de dois dos antigos presidentes de missão daquelas missões, que contaram sobre o sofrimento dos Santos e que testificaram fervorosamente da fidelidade e da devoção dos Santos dos Últimos Dias na Europa. Ouvistes o Irmão Frederick W. Babbel, meu companheiro e fiel colaborador, a respeito de suas observações na Europa. Se o Senhor me abençoar durante os próximos minutos, gostaria, de acordo com a sugestão do Presidente Smith, de referir-me brevemente a alguns outros aspectos relacionados com observações e viagens na Europa, cobrindo um período de cerca de dez meses e mais de sessenta mil milhas. ¶
Reconhecimento da Mão Diretora de Deus ¶
Apresso-me em dizer, meus irmãos e irmãs, que, ainda que muitos comentários elogiosos tenham sido feitos a respeito de nossa missão lá, asseguro-vos que sei qual é a fonte do sucesso que acompanhou nossos trabalhos. Nunca, em momento algum, senti que seria possível a mim ou a meus colaboradores realizar a missão para a qual fomos designados sem o poder diretor do Todo-Poderoso. Nunca esquecerei o que senti quando li na imprensa o anúncio da Primeira Presidência a respeito de nosso chamado. A magnitude dele parecia esmagadora. Deram-nos uma incumbência em quatro pontos: primeiro, cuidar dos assuntos espirituais da Igreja na Europa; segundo, trabalhar para tornar disponíveis alimentos, roupas e roupas de cama para nossos Santos sofredores em todas as partes da Europa; terceiro, dirigir a reorganização das várias missões da Europa; e, quarto, preparar o retorno dos missionários àqueles países. ¶
Nosso grande desejo era viver de modo que o Senhor nos abençoasse no cumprimento dessas instruções, e testifico a vós esta tarde, meus irmãos e irmãs, que o Senhor de fato nos abençoou em cada situação. Ele foi adiante de nós. Barreiras se desfizeram. Problemas que pareciam impossíveis de resolver foram resolvidos, e a obra, em grande medida, foi realizada por meio das bênçãos do Senhor. ¶
Lembro-me bem de nossa primeira consulta sobre quando poderíamos zarpar, seja de avião, seja de navio. Disseram-nos que levaria três meses, que todas as reservas estavam esgotadas para aquele período. No entanto, em vinte e um dias a partir do momento em que nossa nomeação foi anunciada, pousamos no Aeroporto de Hurn, sessenta milhas ao sul de Londres. E, apesar de uma escassez de moradia agudíssima em Londres, dois dias depois já havíamos estabelecido uma sede adequada; como, não sei, senão pelas bênçãos do Todo-Poderoso; e, se tivéssemos ficado livres para escolher um lugar para nossa sede, como se revelou mais tarde, não poderíamos ter feito melhor para nosso propósito. E assim, hoje, sou grato além de minha capacidade de expressão pelas bênçãos que nos acompanharam em nossa missão na Europa. ¶
A Fidelidade dos Santos Europeus ¶
Sou grato pelo amor dos Santos lá, por sua devoção, por sua fé, pela maneira como nos receberam. São um grande povo. Nunca vi, em lugar algum da Igreja, fé maior do que a que vimos entre os Santos naqueles países devastados pela guerra. ¶
Não tomarei tempo hoje para descrever os horrores da guerra, o pior dos quais não é o combate físico, mas o que se segue a ele: o abandono das restrições morais e religiosas, o aumento do pecado, da doença; o aumento da mortalidade infantil; e todo o sofrimento que acompanha a fome, a doença e a imoralidade. Vimos essas coisas por toda parte. Vimos nações prostradas, completamente derrubadas economicamente. Achamos difícil sequer conseguir completar uma chamada telefônica de Londres para muitas de nossas missões no continente, quando chegamos. Não conseguíamos sequer fazer uma chamada telefônica para a Holanda, quanto mais para países como a Polônia e a Tchecoslováquia, e outras nações. Quase o único tipo de transporte disponível era o que estava sob controle militar. Mas, por meio das bênçãos do Senhor, conseguimos, em oito dias, fazer nossa primeira viagem ao continente, e, de Paris, seguimos viagem pelas várias nações da Europa. ¶
Creio que nunca esquecerei aquelas primeiras reuniões com os Santos. Eles sofreram muito, meus irmãos e irmãs. Perguntávamo-nos justamente como nos receberiam, qual seria a reação. Estariam seus corações cheios de amargura? Haveria ódio ali? Teriam se afastado da Igreja? Lembro-me bem de nossa primeira reunião em Karlsruhe. Depois de termos feito visitas pela Bélgica, Holanda e países escandinavos, entramos na Alemanha ocupada. Finalmente encontramos o caminho para o local da reunião, um edifício parcialmente bombardeado, localizado no interior de um quarteirão. Os Santos estavam reunidos havia cerca de duas horas, esperando por nós, na esperança de que viéssemos, porque a notícia lhes chegara de que talvez estivéssemos lá para a conferência. E então, pela primeira vez em minha vida, vi quase toda uma plateia em lágrimas, quando subimos à plataforma, e eles perceberam que, finalmente, depois de seis ou sete longos anos, representantes de Sião, como diziam, finalmente haviam voltado até eles. Então, quando a reunião terminou, prolongada a seu pedido, eles insistiram para que fôssemos até a porta e apertássemos a mão de cada um deles ao saírem do edifício bombardeado. E notamos que muitos deles, depois de passarem pela fila, voltavam e passavam pela segunda e pela terceira vez, tão felizes estavam por apertarem nossas mãos. Ao olhar para seus rostos erguidos, pálidos, magros, muitos daqueles Santos vestidos de trapos, alguns descalços, pude ver a luz da fé em seus olhos, enquanto testificavam da divindade desta grande obra dos últimos dias, e expressavam sua gratidão pelas bênçãos do Senhor. ¶
É isso que um testemunho faz. Vimos isso em muitos países. Digo que não há fé maior, que eu saiba, em lugar algum da Igreja, do que a que encontramos entre aquele bom povo na Europa. ¶
O Espírito de Companheirismo Predomina ¶
Muitas coisas interessantes aconteceram, como bem podeis imaginar. Muitas vezes nossas salas de reunião ficavam quase em completa escuridão, pois éramos obrigados a fechar as janelas, cobertas de papelão em vez de vidro, por causa de uma tempestade. Mas os Santos insistiam para que continuássemos com a reunião. Outras vezes encerrávamos uma reunião, e então eles perguntavam se não poderíamos realizar outra antes de os mandarmos para casa — estavam tão felizes por terem a oportunidade de se reunir conosco. Lembro-me de que, em Nuremberg, o povo havia esperado duas horas por nós — fomos atrasados por causa de desvios em torno de pontes bombardeadas e outras coisas. Pouco depois de chegarmos, soou o toque de recolher; mas eles pediram que os deixássemos ficar; e, terminada a reunião, foram obrigados a passar a noite toda na velha escola parcialmente bombardeada, por causa das restrições do toque de recolher. Palavras não conseguem expressar adequadamente a alegria dos Santos pela primeira conferência de toda a missão, após a guerra, na Inglaterra, na Holanda, na Suécia e em outros países. ¶
Descobrimos que nossos membros haviam perseverado de maneira maravilhosa. Sua fé era forte, sua devoção maior, sua lealdade insuperável. Encontramos muito pouca amargura ou desespero, quando muito. Havia um espírito de companheirismo e fraternidade que se estendia de uma missão para outra, e, à medida que viajávamos, os Santos nos pediam que levássemos suas saudações a seus irmãos e irmãs em outros países, embora suas nações tivessem estado em guerra apenas alguns meses antes. Os missionários locais haviam prosseguido durante o período da guerra. Em alguns distritos, houve mais batismos do que num período comparável antes da guerra. ¶
Eles haviam vivido os padrões da Igreja. A Palavra de Sabedoria tem sido uma grande bênção para eles. Enquanto muitas pessoas, impelidas pelas dores da fome, tiveram seu desejo por tabaco intensificado e trocavam sua escassa ração de comida por mais tabaco, os Santos trocavam suas rações de tabaco por mais comida. Verdadeiramente esta revelação de mais de cem anos atrás é uma grande bênção para eles. ¶
Os Sofrimentos dos Santos ¶
Eles sofreram muito, meus irmãos e irmãs. Ouvistes o Presidente Clark ler aqui, na sexta-feira, uma carta do Presidente Walter Stover, em Berlim. Podeis pensar que se trata de um caso isolado. É apenas um entre centenas, muitos dos quais muito piores do que o que ele mencionou, porque nossos Santos, em alguns casos, sofreram mais do que a morte. É pior do que a morte para uma mãe ou um pai ter de ficar sob a mira de uma arma enquanto testemunham suas filhinhas de treze e catorze anos sendo violentadas por monstros em forma humana. Alguns de nossos Santos foram obrigados a passar por isso. ¶
Sim, sentiram fome; sentiram frio. Vimos muitas famílias assim, muito antes de os suprimentos de bem-estar chegarem à Europa. Graças a Deus que os suprimentos de bem-estar já estão lá agora! ¶
Nossos presidentes de missão locais realizaram um trabalho maravilhoso. Os líderes locais, presidentes de distrito e de ramo, prestaram um serviço exemplar pelo qual lhes somos profundamente gratos. O povo local se uniu e os apoiou de todas as formas. ¶
Provavelmente a parte mais triste de nossa missão foi com nossos refugiados. Essas pobres almas indesejadas foram expulsas de seus lares antes felizes, para destinos desconhecidos. Chegavam com todos os seus bens terrenos nas costas, mas, depois de organizá-los em ramos, chamando-os para reuniões, eles cantavam os cânticos de Sião com um fervor que tenho certeza de que nunca foi superado. Visitamos algumas de suas casas — seus barracos — onde havia até vinte e duas pessoas vivendo num só cômodo — quatro famílias inteiras! E, ainda assim, ajoelhavam-se juntos em oração, à noite e pela manhã, e testificavam a nós a respeito das bênçãos do evangelho. ¶
A Obra do Programa de Bem-Estar na Europa ¶
Agora, apenas uma palavra sobre o programa de bem-estar. Trago a vós, meus irmãos e irmãs, a profunda gratidão e o agradecimento dos Santos na Europa. O espírito do programa de bem-estar já estava lá muito antes de nossa chegada. Os Santos de vários países haviam enviado ajuda a seus irmãos e irmãs menos afortunados em outras nações. Hortas de bem-estar haviam sido plantadas. Encontramo-las entre os edifícios bombardeados. Deparamo-nos com muitos casos em que, após bombardeios, os ramos haviam se unido e reunido todos os seus suprimentos remanescentes, comida, roupas e utensílios domésticos, e os entregado ao sacerdócio para distribuição de acordo com a necessidade. ¶
Foi uma grande alegria quando os suprimentos de bem-estar chegaram. Foi também uma grande surpresa para as autoridades militares e outros saber com que rapidez os suprimentos chegaram de Sião, depois que os arranjos foram feitos e o telegrama enviado de volta a Sião, em 14 de março de 1946, para iniciar os embarques. Mal podiam acreditar que existia uma Igreja com uma centena de armazéns bem abastecidos, prontos para despachar suprimentos ao povo sofredor da Europa. Ouvistes números a respeito das quantidades que chegaram — cerca de cinquenta e um vagões. Isso equivale a mais de duzentos vagões europeus, ou aproximadamente duas mil toneladas, e tenho certeza de que, se fosse considerado o custo do transporte na parte europeia, o total ultrapassaria bem os setecentos e cinquenta mil dólares. A maior parte disso, é claro, foi para os países em maior aflição, Alemanha e Áustria, Holanda, Noruega, Bélgica, com quantidades enviadas a muitos outros países, de acordo com a necessidade. ¶
Já me encontrei diante de congregações de mais de mil Santos dos Últimos Dias, onde o presidente de missão estimou que mais de oitenta por cento de toda a roupa usada era roupa vinda de Sião, enviada por meio do programa de bem-estar. Meus irmãos e irmãs, precisais de mais alguma prova da necessidade deste programa e da inspiração por trás dele? Gostaria que pudésseis ter passado alguns dias comigo na Europa durante o último ano. Digo-vos que Deus está dirigindo este programa. Ele é inspirado! Se não fosse assim, teria havido muitas, muitas centenas a mais de nossos Santos dos Últimos Dias perecendo de fome e morrendo de frio, por falta de simples gêneros alimentícios e roupas. ¶
A Obra da Igreja Progride ¶
Agora a obra avança na Europa. Novos edifícios estão sendo providenciados. Sob a direção da Primeira Presidência, foram feitas compras, na Suécia, na Inglaterra e na Holanda, de edifícios e lotes. Novas sedes foram estabelecidas, e a obra do Senhor está progredindo. Temos ótima cooperação das autoridades militares, das pessoas cívicas, comerciais e profissionais. Nossas embaixadas dos Estados Unidos cooperaram plenamente. O rádio e a imprensa têm sido amigáveis. E, de modo geral, com presidentes de missão agora de volta em todas as missões, exceto a da Alemanha Ocidental, e com permissão concedida para que um presidente vá para lá, com quatrocentos e cinquenta missionários já chamados e designados, e cem outros aguardando vistos, as perspectivas são encorajadoras. Mesmo na Alemanha e na Áustria, onde os missionários não têm sido autorizados a ir em grande número, cerca de setenta missionários locais servem em tempo integral para prosseguir a grande obra. ¶
Duas distribuições de suprimentos de bem-estar já foram feitas em todos os distritos da Alemanha e na Missão da Alemanha Oriental; uma terceira distribuição foi feita por meio de compras no mercado suíço, antes de os suprimentos de bem-estar chegarem. Uma terceira distribuição está sendo feita agora nas zonas ocidentais, que compreendem a Missão da Alemanha Ocidental. Na Holanda e na Noruega, a obra progride igualmente bem. ¶
A Europa num Estado de Desesperança ¶
Embora as perspectivas para a Igreja sejam favoráveis na Europa, se a paz puder ser mantida, certamente as perspectivas para o mundo em geral são tudo, menos encorajadoras. Depois de dois anos, seguindo-se à segunda guerra mundial em vinte e cinco anos, o mundo está, de fato, num estado lastimável. Nações outrora poderosas, na Europa, na Ásia e no Oriente, estão completamente derrubadas, suas indústrias quebradas, suas economias despedaçadas, e seu povo, antes feliz, vivendo sob rações de fome. Grande parte do mundo tem frio, fome e está desesperada. Milhões, sem o evangelho, estão sem esperança. A Europa está hoje em meio a um dos maiores conflitos ideológicos da história registrada da humanidade — se o governo existe para o indivíduo, ou o indivíduo para o governo. Sentimos isso apenas vagamente aqui, mas é real. Para mim, a ameaça do comunismo ateu é uma realidade severa, não apenas na Europa, mas também na abençoada América. ¶
O Evangelho, a Única Esperança do Mundo ¶
As perspectivas para o mundo não são encorajadoras, mas sabemos qual é a resposta. Há apenas uma resposta, e essa é o evangelho de Jesus Cristo. A paz deve vir do coração. Os corações dos homens devem mudar, e a retidão deve reinar na vida do povo do mundo, antes que a paz possa vir. Que Deus apresse esse dia. Que a mensagem do evangelho restaurado avance com grande força, em número crescente, para que os filhos de Deus possam escapar das calamidades que estão por vir, é o que humildemente peço em oração, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶