Um Retrato da Vida de um Presidente de Missão
S. Dilworth Young
Gostaria de testemunhar da veracidade do que o Bispo Richards acabou de dizer-vos. Se pudéssemos enviar nossos rapazes e moças para os campos missionários com um conhecimento profundo do Livro de Mórmon, jamais lhes faltaria uma testemunha e um testemunho a dar àqueles que, em seus corações, estão prontos para ouvir o evangelho. ¶
Minha experiência viajando pelas missões é que, quando os missionários conhecem essa grande testemunha, não têm dúvida alguma em suas mentes. Têm confiança na verdade do evangelho e possuem um testemunho seguro de sua restauração e da bondade do Salvador para conosco nestes dias. ¶
Uma Homenagem a John H. Taylor ¶
Não é meu propósito falar sobre o Livro de Mórmon neste momento, e, antes de começar o assunto que escolhi, gostaria de fazer um breve desvio e juntar minha voz à de meu colega no Primeiro Conselho dos Setenta, Richard L. Evans, em homenagem ao nosso irmão falecido, John H. Taylor. ¶
Minha primeira introdução ao escotismo como profissão foi pontuada, e destacada entre aspas, pela obra deste homem. Muitos dos homens que viviam na área que servi eram rapazes durante os anos posteriores a 1912, quando o Presidente Taylor dirigia esta, a organização de escotismo da Igreja. Estes homens muitas vezes me falaram de seu amor por este grande líder e do valor que teve para eles o ensino que lhes deu dos princípios do escotismo. ¶
Quando entrei no Primeiro Conselho dos Setenta, ele me tratou como um filho — um filho crescido demais, é verdade — mas fez-me sentir que ele tinha por mim um interesse paternal. Deu-me uma orientação gentil e bem-humorada, pois John H. Taylor tinha um senso de humor muito profundo e constante, que era um deleite ouvir e do qual eu gostava muito. Oferecia seus conselhos de maneira tão bondosa que nunca ofendia, e aplicava os freios à minha natureza impetuosa de tal modo que eu nem percebia que estava sendo contido. ¶
Enquanto ele fazia isso, sua esposa, a Irmã Rachel Grant Taylor, acolheu em seu coração a Irmã Young e a mim. Ela nos recebeu em sua casa e nos fez sentir que pertencíamos ali como ninguém mais nos fizera sentir havia muito tempo. John Taylor possuía grande humanidade, grande humildade e grande gentileza. Ele era um homem gentil. A Irmã Taylor é uma mulher gentil. ¶
Um Retrato da Vida de um Presidente de Missão ¶
Gostaria de falar hoje sobre os presidentes de missão. Muitos de nós nos perguntamos o que estes homens fazem, e quais poderiam ser suas responsabilidades. ¶
Quando um élder ou uma irmã embarca num trem em Salt Lake City, e ele desaparece na curva, Mãe e Pai enxugam as lágrimas dos olhos, voltam para casa e ficam a imaginar que tipo de homem receberá seu ente querido. Tudo o que sabem é que entregaram seu filho por dois anos a um homem que, para eles, é apenas um nome. Perguntam-se se ele compreenderá o temperamento e a disposição de seu missionário, e se fará ressaltar as melhores qualidades que há nele. ¶
Qual é a vida de um presidente de missão? Ninguém duvida que estes servos do Senhor são escolhidos dentre as melhores pessoas que temos na Igreja. Que tipo de vida eles levam, e quais são seus problemas? ¶
O presidente de missão primeiro se preocupa em encontrar alguém para cuidar de sua casa por três ou quatro anos, com alguma esperança de recebê-la de volta em boas condições. Em seguida, tem de decidir quais de seus bens guardará e quais levará consigo. Enquanto está absorto nessas providências, é interrompido muitas vezes por amigos que lhe dizem algo como: "Invejo-o agora que vai ter três anos de férias às custas da Igreja." Isso lhe é repetido tantas vezes que, antes mesmo de partir devidamente, ele começa a se perguntar se, de alguma forma, estaria tirando proveito da Igreja — isto é, até chegar à missão. ¶
No devido tempo, ele chega à casa da missão com sua família. Toca a campainha e é recebido pela equipe do escritório e pela zeladora, se tiver a sorte de ter uma. Todos dão as boas-vindas ao novo presidente e à sua família. Se alguma criança vem junto, é olhada com certa desconfiança pela equipe do escritório. Certamente as crianças ficam igualmente desconfiadas delas. ¶
A primeira refeição é reveladora. Se ele tinha alguma ideia de que algum dia poderia ter sua família só para si, ela se dissipa ali. A mesa é posta para dez a quinze pessoas. Nunca mais o presidente estará livre de estranhos à hora das refeições. O número variará, mas será sempre maior do que se esperava. De alguma forma, seus filhos precisam se ajustar a essa nova condição. Precisam aprender que outras coisas são mais importantes. Novos hábitos à mesa devem ser ensinados. Muitas vezes eles se sentem perdidos na imensidão de tudo isso. A esposa do presidente, enquanto isso, está reorganizando suas ideias sobre as coisas. Ela costumava planejar para três, ou quatro, ou seis pessoas; agora precisa planejar para o dobro ou o triplo desse número. Precisa suprir as necessidades físicas de seis a doze pessoas a mais, o tempo todo. ¶
Os problemas de acomodação são uma pressão constante. Por volta do tempo em que os quartos são designados permanentemente aos moradores habituais, alguém da sede vem visitar, e tudo precisa ser reorganizado. Élderes estão constantemente indo e vindo de seus campos de trabalho. Frequentemente ficam a noite toda, ou duas, ou três noites. Novos missionários chegam e precisam ser acolhidos enquanto aguardam sua designação. ¶
Então, no meio de todos esses problemas, o presidente e sua esposa têm de se ausentar para visitar os ramos e os missionários em seus campos de trabalho. Plenos sessenta por cento de seu tempo são passados longe do lar. ¶
Os problemas se multiplicam. Há de três a seis mil Santos para cuidar, com quem conversar, a quem encorajar. Quando a comitiva presidencial chega a qualquer cidade, parece que todo o acúmulo de problemas desde a última visita lhes é lançado de uma só vez. Além disso, encontram tempo para visitar os missionários, vossos rapazes e moças. Ouvem suas dificuldades e lhes dão nova coragem, extraída da abundante provisão da própria coragem. ¶
Vão de cidade em cidade, visitando pessoas, realizando reuniões, subindo até o último andar de edifícios sombrios de escritórios para encontrar, em corredores escuros e desagradáveis, os Santos que se reúnem lealmente para ouvir a palavra do Senhor, e para receber encorajamento e bom conselho de suas mãos. ¶
As questões que eles resolvem são espinhosas. Uma muito comum é a da jovem membra que quer saber como pode se casar. Ela não pode vir para Utah; não consegue encontrar rapazes Santos dos Últimos Dias — não há nenhum onde ela mora. Deverá casar-se com um não membro? O presidente fica intrigado quanto ao que aconselhar em muitos casos. Eu também ficaria intrigado, se tivesse de responder a essas perguntas. ¶
Se os missionários adoecem, e às vezes adoecem, o presidente tem de zelar para que sejam cuidados. Se precisam de médico e de cuidados hospitalares, ele tem de providenciá-los. Ele sabe, melhor do que ninguém, que tem sob seus cuidados os filhos escolhidos da Igreja, e que não deve poupar esforço algum para assegurar sua segurança e proteção contra qualquer dano. Ninguém pode fazer isso por ele — a responsabilidade é somente sua. Ele deve tomar todas as decisões relativas a todos os missionários e a todos os Santos sem ajuda de um sumo conselho, ou de conselheiros. Sua única ajuda é sua esposa, e é somente a ela que precisa recorrer. ¶
Juntos, enfrentam a doença e a morte. Vão a lugares onde, na falta de forte resistência e da proteção de nosso Pai nos céus, poderiam facilmente contrair enfermidades fatais — e ainda assim fazem tudo isso sem hesitar, sem malícia, com amor no coração pelas pessoas a quem ministram o evangelho. ¶
Durante todo o tempo em que estão visitando a missão, eles dirigem os assuntos da casa da missão por correspondência. A esposa supervisiona o orçamento de alimentos e o controle geral do lar por correspondência, enquanto o presidente, do mesmo modo, instrui aqueles que não podem esperar por sua visita pessoal. Durante todo esse tempo, o programa de bem-estar, o programa da Sociedade de Socorro e as organizações auxiliares precisam continuar em movimento e em atividade. ¶
Retornam à casa da missão depois de uma longa viagem, e, no momento em que chegam, o presidente desaparece em seu escritório e vira a noite pondo em dia os assuntos que aguardavam seu retorno, esforçando-se desesperadamente para dar conta de tudo, de modo que possa partir em dois ou três dias para outra visita. ¶
Quem quer que pense que uma missão é uma temporada de férias às custas da Igreja, por três anos, certamente teria os olhos abertos se acompanhasse o presidente por duas ou três semanas. Vós, presidentes de missão, tendes minha profunda admiração. ¶
Palavras de Encorajamento ¶
Gostaria de acrescentar uma coisa, ao estar aqui olhando para esta grande assembleia. Estão reunidos, neste recinto, aproximadamente um por cento da Igreja. Lamento que vós, presidentes de missão, estejais voltados para este lado. Se pudésseis virar vossas cadeiras e ver os rostos daqueles que vos apoiam, e que oram para que tenhais força para fazer aquilo a que sois chamados, voltaríeis para vossas missões felizes e contentes de saber que tendes o apoio do melhor grupo de homens e mulheres que existe na terra. Eles querem que envieis seus rapazes e moças de volta a eles com segurança; querem que lhes ensineis o evangelho, para que voltem com um testemunho; mas também querem que saibais, se percebo bem o sentimento deste grupo, que tendes o apoio ilimitado deles até o extremo, e sempre o tereis. E eles vos invejam, é verdade, porque gostariam de estar no mesmo barco, e gostariam de remar convosco. Eles vos acompanham, na verdade, por procuração. ¶
Que Deus abençoe estes presidentes de missão que carregam o grande fardo de pregar o evangelho às nações da terra. Os demais podemos ir e inspecionar, e conversar com eles, e dar-lhes conselhos e orientação, mas, depois que voltarmos para casa, são eles que têm de fazer o trabalho. E o fazem com a maior nobreza. Amam o povo de suas missões; dão-lhes coragem; edificam seu espírito; e os trazem para o Sião do Senhor nosso Deus em felicidade e em alegria. Dão seu testemunho às nações da terra e ensinam aos rapazes e moças de nossa comunidade o tipo de coragem que precisam ter para fazer o mesmo. Que o Senhor os sustente em seu elevado e santo chamado, peço, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶