Pulpit

A Tragédia da Guerra

David O. McKay

Conferência Geral de Outubro de 1945·Sessão da Manhã de Domingo·1945-10-07

E converterão as suas espadas em enxadas, e as suas lanças, em foices; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra.

Mas assentar-se-ão, cada um debaixo da sua videira, e debaixo da sua figueira, e não haverá quem os espante, porque a boca do Senhor dos Exércitos o falou. (Miqueias 4:3-4.)

A Tragédia da Guerra

Assim escreveu o profeta Miqueias, provavelmente citando Isaías, setecentos e cinquenta anos antes de Cristo. Quase vinte e sete séculos se passaram desde que o olho da profecia vislumbrou um tempo em que "a guerra não mais existirá." Durante os séculos intermediários, muitas nações levantaram a espada contra nações; e a guerra continuou a ser um dos maiores males da humanidade. Verdadeiramente, parece que os seres humanos são mais propensos à guerra do que à paz.

A mais recente (gostaria de poder dizer com confiança a última) foi uma das mais devastadoras da história do mundo. Que destruição, tristeza e sofrimento ela causou. Segundo estimativas confiáveis, seu custo direto ultrapassa um trilhão e trinta bilhões de dólares, sem contar a destruição e os danos materiais. Houve mais de um milhão de baixas nos Estados Unidos. Outro milhão e meio na Grã-Bretanha, perfazendo, somente nesses dois países, uma perda combinada de mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros de dois milhões e meio. As bombas voadoras custaram aos civis britânicos cento e quarenta e sete mil setecentas e sessenta baixas. Destas, quinze mil trezentas e cinquenta e nove eram crianças com menos de dezesseis anos. (Meio milhar de corpos jamais foram identificados.) As perdas russas e chinesas excedem esses números em milhões. Somem-se os milhões de mortos, feridos e desaparecidos dos alemães, dos japoneses, e dos países esmagados da Europa, e o custo em riqueza e em vidas humanas torna-se assombroso. Estamos perto o bastante da tragédia para perceber que a guerra é "a maior maldição que pode recair sobre a humanidade." "Sob seus estandartes reúnem-se a violência, a malignidade, a fúria, a fraude, a perfídia, a rapacidade e a luxúria."

Perguntamo-nos quantos anos mais hão de passar antes que "cada um se assente debaixo da sua videira e debaixo da sua figueira, e não haja quem os espante", quando, nas palavras de Alfred Lord Tennyson:

Os tambores de guerra não mais ressoarão, e as bandeiras de batalha serão recolhidas, No Parlamento do homem, na Federação do mundo.

A Segurança Futura do Mundo Depende da Mudança dos Corações Humanos

As restrições decorrentes do grande conflito foram, em grande parte, revogadas, e mais uma vez nos reunimos numa conferência geral da Igreja sem temer o assédio de um inimigo assassino. Unimo-nos às Nações Aliadas em agradecer que os facínoras que, por meio de manipulações perversas e estratégias astutas, se apoderaram de nações, foram derrotados; que sua tentativa de estabelecer um governo ditatorial foi frustrada; que a liberdade foi preservada, e mantida ao alcance daqueles que prezam o direito ao autogoverno.

No desfecho deste grande conflito, o poder soberano de Deus se manifestou. Que as nações não se esqueçam dele na hora da vitória.

Por causa de forças terríveis, recém-descobertas, cientistas e peritos militares afirmam agora que todos os meios de defesa presentes são inadequados, de fato já antiquados, e devem ser mudados, se o mundo há de ser protegido de uma futura devastação.

Gostaria que estes homens de reputada sabedoria e previdência dessem igual ênfase ao fato de que a segurança futura do mundo depende não tanto da mudança das defesas quanto da mudança do modo de pensar e de agir dos homens. Homens e nações precisam de uma mudança de coração. O ódio e a inveja, a suspeita e a ganância precisam ser substituídos pela compaixão, pela paciência, pela tolerância e pela justiça, antes que chegue o tempo esperado em que "uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra."

Agora que outra terrível guerra terminou, a questão primordial é: estarão as mentes humanas à altura dos problemas que devem enfrentar; estarão os corações suficientemente repletos das virtudes necessárias na presente crise? Faço eco ao clamor de alguém que suplica —

Ó corações humanos, pulsando através do medo, através do ciúme, através do orgulho, através da avareza, através da amargura, através da agonia, através da morte; pulsando vergonha e perdão, perplexidade e amor.

Ó meu próprio país, meu novo mundo, prepara-te, prepara-te — não para vingar o mal, mas para exaltar o bem. Não para ostentar honra, mas para provar humildade. Não para trazer ira, mas visão; não para vencer a guerra, mas um povo. E não somente um povo, mas todos os povos. Não para exigir justiça apenas de teus inimigos, e não apenas de teus amigos, mas de ti mesmo!

Verdadeiramente,

O mundo está no Vale da Decisão.

E dele não há senão um caminho seguro; Olhos desvendados ainda podem antever a poderosa visão

De um mundo em travalho, voltando-se para Deus.

Sim, a Segunda Guerra Mundial terminou, mas velhas batalhas ainda hão de ser travadas; novas vitórias ainda hão de ser conquistadas, antes que a paz por que oramos possa ser alcançada.

Uma delas é a suspeita e a falta de confiança do homem em seu semelhante.

A suspeita e a falta de confiança do homem são um dos maiores inimigos da paz. As nações desconfiam umas das outras. A Rússia teme que a Grã-Bretanha trame ganhar a Alemanha como aliada. A Grã-Bretanha e os Estados Unidos olham a Rússia com suspeita e temem sua possível aliança com a China ou o Japão. A Argentina põe em dúvida os motivos dos Estados Unidos, e os Estados Unidos suspeitam da Argentina. Assim se semeiam as sementes da inveja e da inimizade.

Essa falta de confiança no semelhante é ainda mais um vício individual do que nacional. Somos propensos a ampliar fraquezas e a imaginar vícios nos outros que não existem. Mastigamos o bagaço da calúnia com satisfação — a calúnia, "cujo sussurro, atravessando o diâmetro do mundo, tão certeiro quanto o canhão em seu alvo, transporta seu tiro envenenado." Falem em batalhas ainda por travar! A maledicência e o falar mal encabeçam a lista!

Third DaS

Se alguém entre vós supõe ser religioso, e não refreia a sua língua,... a religião desse é vã. (Tiago 1:26.)

O Evangelho Ensinado pelo Salvador, um Guia Seguro

A batalha contra a impiedade ainda precisa ser travada. Nietzsche, já antes da primeira Guerra Mundial, denunciou o cristianismo como um sistema engenhosamente concebido que "corrompeu, minou e esgotou o vigor do mundo europeu moderno, e é o mais poderoso instrumento de degeneração racial já concebido pelo vulgo."

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Nietzsche está morto, mas as sementes venenosas que ele e outros como ele semearam na cegueira e na amargura ainda produzem frutos de ceticismo e incredulidade. Por caridade, podemos dizer que o cristianismo que Nietzsche condena não é o evangelho de Jesus Cristo tal como ensinado pelo Redentor da humanidade. Mas egoístas e pessoas enganadas, que não conseguem discernir entre a verdade e o erro, ainda se veem vacilantes quanto à missão divina de Jesus Cristo. Todo cristão verdadeiro, e especialmente todo membro fiel da Igreja de Cristo, deveria ser militante na defesa dos princípios do evangelho, tais como dados por nosso Senhor e Salvador, pois, nas palavras de Mark Hopkins, o verdadeiro cristianismo "promove a laboriosidade, a honestidade, a verdade, a pureza, a bondade. Humilha o soberbo, exalta o humilde, sustenta a lei, favorece a liberdade, é essencial a ela, e uniria os homens numa grande fraternidade. É o sopro de vida para o bem-estar social e civil aqui, e espalha o azul daquele céu, em cujas profundezas insondáveis os olhos da fé amam contemplar."

Houve apenas um caráter perfeito neste mundo — a personalidade sem igual de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, o Redentor do mundo. Nenhum homem pode fazer melhor do que aceitar Cristo como o grande Exemplo e o mais seguro Guia.

Não é coisa fácil, neste velho mundo, fazer de Deus o centro do nosso ser. Para tanto, precisamos decidir-nos a guardar os seus mandamentos. A realização espiritual, e não as posses materiais, nem a indulgência e a satisfação do corpo, deve tornar-se o objetivo principal.

Somente na completa entrega de nossa vida interior podemos elevar-nos acima do impulso egoísta e sórdido da natureza. Devemos buscar primeiro o reino de Deus e a sua justiça. O que o espírito é para o corpo, Deus é para o espírito. Assim como o corpo morre quando o espírito o deixa, também o espírito morre quando dele excluímos Deus. Não consigo imaginar paz num mundo do qual Deus e a religião são banidos.

O Egoísmo, Causa dos Males do Mundo

Outra velha batalha ainda em curso, e uma que precisamos vencer antes que a paz permanente se estabeleça na terra, é a batalha contra o egoísmo.

O egoísmo é a raiz de onde brotam a maioria dos males e sofrimentos humanos. O egoísmo promete satisfação, mas seu fruto é decepcionante, e produz apenas malquerença e infelicidade. O egoísmo e a inimizade causaram o primeiro assassinato registrado e a primeira rejeição implícita da grande verdade de que o homem é guardião de seu irmão.

Foi o egoísmo que causou a violação do Pacto de Munique, o que levou, em setembro de 1939, à invasão assassina da Polônia, e à subsequente destruição das nações europeias, com todos os seus horrores e sofrimentos humanos correlatos. Foi o egoísmo e a ambição desmedida que causaram a tragédia de Pearl Harbor.

A menos que a batalha contra o egoísmo seja vencida à mesa de negociações da paz, nossas esperanças de uma paz permanente poderão ser destroçadas, e o mundo novamente flagelado pela guerra.

A lei da natureza exige que façamos tudo tendo o eu em vista. A autopreservação é a primeira lei da vida mortal. Mas Jesus diz:

Quem achar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a sua vida por minha causa, achá-la-á. (Mateus 10:39.)

Jesus, no Monte da Tentação, triunfou sobre todos os apelos ao egoísmo, e assim estabeleceu um exemplo para todos os homens que se esforçarem pela realização espiritual. Assim como Jesus resistiu ao tentador, também o egoísmo deve ser vencido pela subjugação e pela resistência. Não há desenvolvimento de caráter sem resistência; não há crescimento de espiritualidade sem superação.

E ao que vencer, e guardar até o fim as minhas obras, eu lhe darei poder sobre as nações. (Apocalipse 2:26.)

A Intemperança, Inimiga da Paz

Uma quarta batalha ainda em curso, e na qual a oposição parece estar ganhando terreno, é a batalha contra a intemperança. A atitude da Igreja de Jesus Cristo em relação à temperança é inequívoca. Em 27 de fevereiro de 1833, o Profeta Joseph Smith recebeu o que se conhece como a Palavra de Sabedoria, para benefício do conselho dos sumos sacerdotes reunidos em Kirtland, e da Igreja, e também dos santos em Sião, dada por revelação que expõe a ordem e a vontade de Deus quanto à salvação temporal de todos os santos nos últimos dias. O vinho e as "bebidas fortes" são condenados como bebidas, e seu uso desaconselhado em todos os casos, exceto no uso do vinho para fins sacramentais, e mesmo este deveria ser "vinho puro da uva da videira, de vossa própria fabricação."

O tabaco também é condenado, por "não ser bom para o homem."

Na época em que a Igreja assumiu essa posição decidida contra o uísque e o tabaco, nenhum estado da União havia aprovado lei alguma contra o comércio de bebidas alcoólicas. É verdade que já haviam sido organizadas sociedades de temperança, e a causa da temperança ganhava impulso, mas não foi senão em 1851 — dezoito anos após a revelação sobre a Palavra de Sabedoria — que a primeira lei permanente de proibição foi aprovada no Maine. Mais tarde, outras denominações religiosas começaram a organizar sociedades de temperança. Parece, portanto, que a Igreja Mórmon esteve entre as primeiríssimas organizações, senão a primeira organização ou igreja nos Estados

Unidos a legislar, como corpo organizado, contra o uso de bebidas alcoólicas e de tabaco.

Em 1908, o Presidente Joseph F. Smith, em seu discurso de abertura na septuagésima oitava conferência anual, disse:

Há um movimento geral por toda a terra, visando à opção local pela temperança entre o povo de nosso estado e dos estados vizinhos. Espero sinceramente que todo Santo dos Últimos Dias coopere com esse movimento, a fim de que possamos reduzir os monstruosos males que existem especialmente em nossas cidades. Desejo dizer que simpatizo com esse movimento, e sei que meus irmãos estão unidos comigo, e em harmonia com os esforços que se fazem para estabelecer a temperança por toda a terra.

Muitos de vós vos lembrareis de como o Presidente Grant suplicou ao povo de Utah que mantivesse a Décima Oitava Emenda. Até o dia de sua morte, ele lamentou que Utah estivesse entre os estados que revogaram a lei da proibição.

As estatísticas de hoje parecem indicar que nossa luta pela temperança está fazendo pouco progresso. Por exemplo, gastou-se em Utah, durante o exercício fiscal encerrado em 30 de junho de 1945, com

Cigarros

Cerveja

Licor..

Total

$ 4,978,196 11,197,806 10,862,677

$27,038,679

A intemperança anda de mãos dadas com a ilegalidade, e a ilegalidade é inimiga da paz.

Somente a Verdadeira Religião Traz a Paz

Não conheço força tão potente para erradicar estes e todos os outros inimigos da paz do coração humano quanto o evangelho de Jesus Cristo. A verdadeira religião é, hoje, a maior necessidade do mundo — num certo sentido, a necessidade, por parte do indivíduo, de um relacionamento com Deus — aquele algo indefinível que penetra na alma do homem e o une ao seu Criador.

O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; porém não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito. (João 3:8.)

Um célebre estadista britânico, Edmund Burke, na segunda metade do século dezoito, escreveu: "A verdadeira religião é o fundamento da sociedade. Uma vez abalada pelo desprezo, toda a estrutura não pode ser estável nem duradoura."

"Já dispus de todos os meus bens em favor de meus filhos", disse Patrick Henry; "há mais uma coisa que gostaria de poder dar-lhes, e essa é a religião cristã. Se a tivessem, e eu não lhes tivesse dado um centavo sequer, seriam ricos. Se não a tiverem, e eu lhes tivesse dado o mundo inteiro, seriam pobres."

Somente por meio da aplicação de princípios justos, tanto pelos indivíduos quanto pelos governos, podem as nações deixar de aprender a guerra, e estabelecer uma paz permanente.

Ó Irmão Homem! aconchega ao teu coração o teu irmão;

Onde habita a compaixão, ali está a paz de Deus; Adorar corretamente é amar-se uns aos outros,

Cada sorriso, um hino; cada gesto bondoso, uma oração.

Segue com passos reverentes o grande exemplo

Daquele cuja obra sagrada foi "fazer o bem"; Assim a vasta terra parecerá o templo de nosso Pai,

Cada vida amorosa, um salmo de gratidão.

Então cairão todos os grilhões; o estrondo tempestuoso

Da música guerreira selvagem cessará sobre a terra; O amor pisoteará o funesto fogo da ira,

E em suas cinzas plantará a árvore da paz.

Depois de passados os séculos, Deus deu à humanidade outra oportunidade de acabar com a guerra. A mais momentosa decisão de todos os tempos deve agora ser tomada pelos povos do mundo.

Que Deus conceda que jamais voltem à lei da selva, mas que "convertam as suas espadas em enxadas, e as suas lanças em foices, e não aprendam mais a guerra", é o que rogo fervorosamente convosco, em nome do Príncipe da Paz, nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo.

Como citar este discursoDavid O. McKay, “A Tragédia da Guerra”, Conferência Geral de Outubro de 1945, Sessão da Manhã de Domingo (1945-10-07). Pulpit Vault, 1945-10-david-o-mckay-the-tragedy-of-war. Tradução desta edição, por método de glossário, archive.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).