A Santidade do Casamento Ensinada por Jesus
David O. McKay
E aproximando-se dele os fariseus, perguntaram-lhe, tentando-o: É lícito ao homem repudiar sua mulher? ¶
Mas ele, respondendo, disse-lhes: Que vos mandou ¶
Moisés? ¶
E eles disseram: Moisés permitiu escrever-lhe carta de divórcio, e repudiá-la. ¶
E Jesus, respondendo, disse-lhes: Pela dureza do vosso coração vos escreveu ele esse mandamento. (Marcos 10:2-5.) ¶
A Santidade do Casamento Ensinada por Jesus
Recentemente, ouvi o Presidente Grant manifestar grave preocupação com o aparente aumento do número de pedidos de rompimento de vínculos matrimoniais. Sua preocupação e seus temores de que haja um relaxamento crescente na mente dos jovens quanto à importância e à santidade do convênio do casamento sugerem o tema "Casamento e Divórcio", ao qual convido agora vossa atenção. ¶
Os ajustes que os casais recém-casados terão de fazer quando os jovens maridos hoje nas forças armadas retornarem à vida civil sugerem outra condição que torna essa consideração de todo oportuna. ¶
Em todos os problemas e perplexidades da existência humana, Jesus Cristo é o único guia seguro a quem podemos recorrer em busca de orientação e conforto. O relato de Marcos sobre a resposta de Jesus aos fariseus a respeito do divórcio expõe a atitude do Salvador para com essa questão vital. ¶
Um estudo cuidadoso deste texto, e de outras referências que ele fez ao casamento e ao divórcio, deixa pouca dúvida de que Jesus expôs o elevado ideal de que o casamento é de origem divina e de que o vínculo matrimonial deve ser tido como sagrado. ¶
Esse elevado ideal do casamento é confirmado pela revelação moderna e está registrado em Doutrina e Convênios da seguinte forma: ¶
E também, em verdade vos digo que aquele que proíbe o casamento não é aprovado por Deus, porque o casamento foi instituído por Deus para o homem. ¶
Portanto, é legítimo que ele tenha uma esposa e os dois serão uma só carne; e tudo isto para que a Terra cumpra o fim de sua criação; ¶
E para que se encha com a medida do homem, de acordo com sua criação antes que o mundo fosse feito. (D&C 49:15-17.) ¶
Quando os fariseus, procurando justificar a concessão do divórcio, citaram o fato de que "Moisés permitiu escrever carta de divórcio e repudiar a mulher" por causa de "alguma impureza", Jesus respondeu: ¶
... Pela dureza do vosso coração vos escreveu ele esse mandamento. Porém, desde o princípio da criação, Deus os fez macho e fêmea. Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e unir-se-á a sua mulher; e serão os dois uma só carne; assim já não serão dois, mas uma só carne. O que Deus ajuntou não o separe o homem. (Marcos 10:5-9.) ¶
À luz das escrituras, antigas e modernas, temos justificativa para concluir que o ideal de Cristo quanto ao casamento é o lar não desfeito, e que as condições que causam o divórcio são violações de Seus ensinamentos divinos. Algumas delas são: ¶
A infidelidade de um ou de ambos, a embriaguez habitual, a violência física, a prisão prolongada que desonra a esposa e a família, a união de uma moça inocente a um réprobo — nesses e talvez em outros casos, pode haver circunstâncias que tornem a continuação do estado matrimonial um mal maior do que o divórcio. Mas esses são casos extremos — são os erros, as calamidades no âmbito do casamento. ¶
Por outro lado, encarar o casamento como um mero contrato, que se pode firmar por prazer, em resposta a um capricho romântico, ou por motivos egoístas, e romper à primeira dificuldade ou mal-entendido que surja, é um mal que merece severa condenação, especialmente nos casos em que os filhos são levados a sofrer por causa dessa separação. ¶
Perigos que Ameaçam o Relacionamento Conjugal
O casamento é um relacionamento sagrado, contraído para propósitos bem reconhecidos — principalmente para a criação de uma família. Alguns observadores atentos afirmam que nossa vida moderna atual tende a frustrar esses propósitos. Escreve um deles: ¶
As condições modernas de vida contribuem para essas frustrações. Antigamente, a mulher casada tinha um lar para cuidar, muitas vezes vários filhos. Hoje, em muitas partes de nosso país, a mulher casada continua a exercer sua profissão ou a passar o tempo em busca de novos estímulos — sem filhos para cuidar, sem casa para limpar, sem refeições para preparar. Nessas condições, suas atividades de lazer tornam-se seu interesse absorvente — interesses que frequentemente a afastam do marido em vez de aproximá-la dele. ¶
Vinte e quatro anos atrás, quando o vapor Marama lançou âncora do lado de fora do recife de coral que cerca a ilha de Rarotonga, um passageiro que desejava desembarcar perguntou ao capitão por que não navegava mais perto do cais. Em resposta, o experiente marinheiro mencionou as águas traiçoeiras e apontou para o motor de um navio, o Maitai, e para a proa de outro, ainda projetando-se para fora da água — ambos mudas evidências do perigo de ancorar perto demais da costa dessa ilha cercada de corais. "Ancoramos aqui," disse o capitão, "porque é mais seguro do que correr o risco de sermos despedaçados, como esses dois navios, contra esses recifes perigosos." ¶
Uma atitude leviana para com o casamento, a sugestão insensata do "casamento por companheirismo", a vil e diabólica teoria da "livre experimentação sexual", e os tribunais de divórcio prontos a servir são recifes perigosos nos quais muitas barcas de família naufragam. ¶
Uma taxa de natalidade cada vez menor e uma taxa de divórcio crescente são sinais ominosos que ameaçam a estabilidade do lar americano e a perpetuidade de nossa atual forma de governo constitucional. Um ¶
editorial de uma revista semanal, publicada na capital da nação, diz: ¶
Desde 1890, a taxa nacional de natalidade dos Estados Unidos da América caiu de 32,9 por 1.000 habitantes para 17,4 por 1.000 habitantes. ¶
Nesses mesmos anos, a média nacional de divórcios saltou de 5,7 por 100 casamentos para 19,3 por 100 casamentos. ¶
Uma taxa de natalidade em queda somada a uma taxa de divórcio em ascensão fala mal da fé individual no futuro. Por conseguinte, fala mal do futuro da nação. ¶
Que sentido têm, a longo prazo, os vastos novos programas públicos, se o indivíduo, continuamente temeroso do amanhã, voa de um cônjuge a outro e deliberadamente rouba da nação suas próprias boas qualidades na geração seguinte? A permanência de uma nação depende inteiramente da permanência de seus lares individuais, do orgulho familiar de seus cidadãos e da reprodução dessas famílias, geração após geração. ¶
O ex-presidente Taft disse, certa vez: ¶
Nosso Estado repousa sobre nossos lares. E se não pudermos impedir que nossos lares sofram essa constante e desmoralizadora desagregação, seria melhor abandonarmos de vez o negócio de governar. ¶
Em alguns estados da união, é quase tão fácil conseguir o divórcio quanto casar-se. Em resultado desse relaxamento, um em cada cinco casamentos termina em divórcio ou anulação. ¶
O Divórcio Aumentando nos Casamentos Civis e na Igreja
Embora as estatísticas indiquem que a taxa de divórcio é muito mais baixa na Igreja do que na nação, ainda assim há motivo de preocupação com o número de casamentos anulados anualmente nos tribunais de divórcio. ¶
Com o auxílio do escritório do Bispado Presidente e do Professor Roy A. West, tenho diante de mim uma comparação de casamentos e divórcios na Igreja, de 1920 a 1944. Ela expõe o fato de que, embora haja menos divórcios entre casais casados nos templos e por autoridades de estaca e ala do que entre os casados por oficiais civis e outras igrejas, os divórcios estão aumentando até mesmo na Igreja. ¶
Por exemplo, durante o período de 1920 a 1922, houve um divórcio para cada 38,24 casamentos entre casais casados nos templos e por autoridades de estaca e ala, mas houve, durante esses mesmos anos, um divórcio para cada 13,20 casamentos entre casados por oficiais civis. Comparativamente, essa proporção continua ao longo dos vinte anos, como podeis notar pelos exemplos a seguir, tomados ao acaso: (O primeiro número será o casamento na Igreja; o segundo, o casamento civil.) De 1923 a 1925 — um divórcio para cada 33 casamentos; um divórcio para cada 15 casamentos. De 1935 a 1937 — um divórcio para cada 28 casamentos; um divórcio para cada 12,52 casamentos. De 1938 a 1940 — um divórcio para cada 26,61 casamentos; um divórcio para cada 10,13 casamentos. ¶
No ano passado, houve um divórcio para cada dezessete casamentos entre casais casados nos templos e por autoridades de estaca e ala, e um divórcio para cada 6,9 (digamos, sete) casamentos entre os casados por oficiais civis. Há motivo de preocupação com o aumento dos divórcios neste país e até mesmo em nossa Igreja. ¶
A Taxa de Divórcio na Igreja e nos Estados Unidos
A proporção de divórcios em relação a casamentos nos Estados Unidos é três vezes maior do que na Igreja. Em 1920, havia 7,5 casamentos para cada divórcio nos Estados Unidos; ao passo que, na Igreja, havia 24,8 casamentos para cada divórcio. Em 1935, os Estados Unidos tinham uma proporção de 6,1 casamentos para cada divórcio; no mesmo ano, a Igreja tinha uma proporção de 17,9 casamentos para cada divórcio. ¶
A verdadeira fonte de segurança de nossa nação repousa nos lares bem ordenados e devidamente conduzidos. O caráter de uma criança forma-se, em grande parte, durante os primeiros doze anos de sua vida. Calcula-se que, nesse período, a criança passa aproximadamente 3.240 horas na escola; 416 horas na Escola Dominical e na igreja, mas 52.560 horas no lar, sem contar doze horas por dia de sono. Em outras palavras, ela passa dezesseis vezes mais horas acordada no lar do que na escola, e cento e vinte e seis vezes mais horas no lar do que na Igreja. ¶
Nos lares da América nascem os filhos da América, e deles saem para a vida americana os homens e as mulheres americanos. Eles saem com a marca desses lares impressa sobre si, e só quando esses lares forem o que deveriam ser é que os filhos serão o que deveriam ser. ¶
Luther Burbank, o grande mago das plantas, realça de modo muito impressivo a necessidade de atenção constante na formação de uma criança. Ele diz: ¶
Ensinai a criança a ter amor-próprio. Treinai-a no amor-próprio, assim como se treina uma planta em métodos melhores. Nenhum homem que se respeita jamais foi um trapaceiro. Acima de tudo, tende em mente a repetição — o uso de uma influência repetidamente, insistindo nela sem cessar. É isso que fixa as características nas plantas, a constante repetição de uma influência, até que, por fim, ela se torne irrevogavelmente fixada e não mude mais. Não podeis vos dar ao luxo de desanimar. Estais lidando com algo muito mais precioso do que qualquer planta — a preciosa alma de uma criança! ¶
Há três coisas fundamentais às quais toda criança tem direito: (1) um nome respeitado, (2) um senso de segurança, (3) oportunidades de desenvolvimento. ¶
A família dá à criança seu nome e sua posição na comunidade. Uma criança quer que sua família seja tão boa quanto a de seus amigos. Ela quer poder apontar com orgulho para o pai, e sentir sempre uma inspiração ao pensar na mãe. É dever da mãe viver de tal modo que seus filhos associem a ela tudo o que é belo, doce e puro. E o pai deve viver de tal modo que o filho, seguindo seu exemplo, venha a ser um bom cidadão e, na Igreja, um verdadeiro Santo dos Últimos Dias, ¶
Segurança
Uma criança tem o direito de sentir que, em seu lar, tem um lugar de refúgio, um lugar de proteção contra os perigos e males do mundo exterior. A unidade e a integridade familiares são necessárias para suprir essa necessidade. ¶
Ela precisa de pais felizes em seu ajuste mútuo, que trabalhem esperançosamente na realização de um ideal de vida, que amem seus filhos com amor sincero e desinteressado; em suma, indivíduos bem equilibrados, dotados de certa perspicácia, capazes de proporcionar à criança um ambiente emocional saudável, que contribuirá mais para seu desenvolvimento do que as vantagens materiais. ¶
O divórcio quase invariavelmente priva os filhos dessas vantagens. ¶
Como Diminuir a Desagregação dos Lares
Substituir a tendência atual de encarar o casamento com uma visão inferior pela visão elevada que Jesus, o Cristo, lhe dá. Consideremos o casamento como uma obrigação sagrada e um convênio que é eterno, ou que pode ser tornado eterno. ¶
Ensinar aos jovens de ambos os sexos as responsabilidades e os ideais do casamento, para que compreendam que o casamento envolve obrigação, e não é um acordo a ser terminado por prazer. Ensinar-lhes que o amor puro entre os sexos é uma das coisas mais nobres da terra, e que gerar e criar filhos é o mais elevado de todos os deveres humanos. Nesse sentido, é dever dos pais dar o exemplo no lar, para que os filhos vejam e absorvam, por assim dizer, a santidade da vida familiar e a responsabilidade a ela associada. ¶
O número de casamentos desfeitos pode ser reduzido se os casais compreenderem, ainda antes de se aproximarem do altar, que o casamento é um estado de serviço mútuo, um estado de dar tanto quanto de receber, e que cada um deve dar de si mesmo ao máximo. Harriet Beecher Stowe escreve sabiamente: ¶
Nenhum homem ou mulher pode criar um verdadeiro lar se não estiver disposto, desde o início, a abraçar a vida heroicamente, a enfrentar o trabalho e o sacrifício. Somente a esses pode ser dado esse poder diviníssimo de criar na terra aquilo que é a mais próxima imagem do céu. ¶
Outra condição que contribui para a permanência do convênio do casamento é o casamento no templo. Antes que tal casamento se realize, é necessário que o jovem e a jovem primeiro obtenham uma recomendação do bispo. Devem ir a ele pessoalmente, e o bispo que cumpre seu dever instruirá o casal sobre a santidade da obrigação que, como jovens, estão prestes a assumir, ressaltando todas as salvaguardas já mencionadas. Ali, na presença do sacerdócio, os jovens recebem, antes de tomarem sobre si a obrigação, instrução sobre a santidade do dever que têm diante de si; e, além disso, se estão ou não preparados para ir com santidade e pureza ao altar de Deus e ali selar seus votos e seu amor. ¶
Finalmente, há um princípio que me parece atingir bem a base da felicidade do relacionamento conjugal, que é o padrão de pureza ensinado e praticado entre os Santos dos Últimos Dias. É um dito comum, em todo o mundo, que os rapazes podem semear sua aveia selvagem, mas que as moças devem ser acompanhadas e protegidas. Na Igreja de Cristo há apenas um padrão de moralidade. Nenhum rapaz tem mais direito de semear sua aveia selvagem do que uma moça. Ensina-se a ela que, logo depois do crime de tirar a vida humana, o maior é o de perder sua virtude. E esse é também o ideal entre os rapazes. Espera-se que o rapaz que vai ao bispo pedir uma recomendação para levar uma moça pura ao altar dê exatamente a mesma pureza que espera receber. ¶
Conclusão
Para a devida solução deste grande problema, podemos voltar-nos com segurança para Jesus como nosso guia. Ele declarou que o relacionamento conjugal é de origem divina, que "o casamento é instituído por Deus", e que somente sob as condições mais excepcionais deve ser desfeito. No ensino da Igreja de Cristo, a família assume importância suprema no desenvolvimento do indivíduo e da sociedade. "Felizes, e três vezes felizes, são os que gozam de uma união ininterrupta, e cujo amor, não quebrado por queixa alguma, não se dissolverá até o último dia." ¶
A cerimônia do casamento, quando selada pela autoridade do Santo Sacerdócio, perdura, assim como os relacionamentos familiares, através do tempo e de toda a eternidade. ¶
Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. ¶
Que Deus abençoe esses jovens casais que precisam fazer novos ajustes, alguns sob circunstâncias difíceis, quando os rapazes e maridos voltarem da guerra para casa, e que Deus nos abençoe a todos para que consideremos mais seriamente, mais orantemente e mais sinceramente a santidade do lar e do convênio do casamento; oro em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶