Pulpit

A Fé Cristã, Raiz da Civilização

Albert E. Bowen

Conferência Geral de Abril de 1945·Sessão da Tarde do Primeiro Dia·1945-04-06

Retrato das Condições do Lar Relatado em Artigo de Revista

Há alguns anos li um artigo, numa revista nacional, escrito por uma mulher evidentemente bem informada e de elevados princípios. Ao que parece, ela nunca se casara e, depois de muitos anos de separação, fez uma visita a uma amiga íntima de seus dias de faculdade, que já então tinha dois filhos crescidos, um menino e uma menina. Sua narrativa trata principalmente do choque que experimentou com o comportamento dessas duas crianças. Ela notou que a mãe delas, sua velha amiga, praticamente não tinha nenhuma influência sobre eles. A atitude da filha para com a mãe era condescendente. As exortações e protestos da mãe eram recebidos com um ar paternalista de tolerância cansada, como que a dizer que essa jovem superior teria de suportar, com a resignação que conseguisse, as noções irremediavelmente antiquadas, ultrapassadas e impossíveis de sua mãe já madura.

A visitante ouviu a mãe preocupada protestar contra as indiscrições pouco delicadas da filha em seu comportamento com os rapazes, sem sequer a precaução da privacidade, e ouviu o escárnio da filha para com o pudor e a falta de refinamento da mãe.

O rapaz da casa ia e vinha praticamente como bem entendia, sem que lhe fizessem ou ele respondesse a perguntas. Para ele, o lar era um lugar para dormir e fazer as refeições, quando conveniente.

Manifestações desse tipo eram, para a hóspede da casa, motivo de profundo espanto e de inquieta

preocupação, bem como de constrangimento. Mas o clímax chegou quando o período de sua visita se aproximava do fim. Ela foi despertada durante a noite por um distúrbio na casa e foi testemunha auditiva involuntária de uma cena familiar. Ao que parece, a moça havia voltado para casa de uma festa noturna bastante embriagada e estava levando seu acompanhante, em condição semelhante, para o quarto dela, quando foram flagrados e interceptados pelos pais, já alarmados. Houve uma cena barulhenta antes que o rapaz fosse finalmente mandado para casa e a moça posta na cama.

A moça não fazia nenhuma questão de esconder da mãe seu hábito de desprezar as convenções no que dizia respeito ao pudor e à pureza de donzela. Assim, a autora encerrou sua visita e foi para casa clarear as ideias e refletir um pouco. O resultado foi o artigo mencionado.

Ao que parece, ela tinha um conhecimento bastante profundo das ideias e atitudes da juventude de então, e empreendeu uma análise minuciosa das condições tal como as conhecia e tal como lhe haviam sido pontualmente destacadas por sua recente visita. Todo o seu senso de decoro, e até mesmo de decência, foi ultrajado pelo que vira na casa de sua amiga.

Aquela amiga, nos dias de sua convivência de meninas, observara as convenções e os bons costumes espontaneamente, por hábito e aceitação. Fora uma menina de saúde robusta e exuberância, alegre, sadia, uma companheira deliciosa de elevados padrões éticos e morais. Tinha um sadio entusiasmo pela vida e gostava de viver. Como explicar seus filhos!

Exame da Causa da Delinquência

A autora examinou a própria vida e o ambiente em que fora criada, bem como a vida da juventude de seu tempo, inclusive a amiga que acabara de visitar. Reconheciam certas restrições próprias que se esperavam das moças de boa criação, e conformavam-se aos padrões estabelecidos de decoro e boa educação. Ainda o faziam, agora que haviam chegado à maturidade da vida, e sofriam com os desvios de hoje. Isso naturalmente conduzia a um exame das influências que haviam moldado seu caráter. E esse exame levava inevitavelmente de volta aos lares em que haviam sido criadas.

A nota religiosa era forte naqueles lares. A Bíblia era lida e nela se cria. As famílias ali oravam. Diariamente, de joelhos, falavam com Deus, que era reverenciado e era uma realidade. Eram pessoas que frequentavam a igreja e reservavam um dia por semana como dia santo, a ser guardado com reverência, para prestar homenagem ao Autor da vida. Os hinos majestosos que cantavam levavam mensagens às suas almas em expansão. Ouviam as palavras simples, diretas, comovedoras e convincentes dos evangelhos, cuja grandeza, de algum modo, silenciosamente penetrava em seus corações e lhes fornecia os ideais para viver. Esses ideais, pela

prática, foram silenciosamente entretecidos no padrão de suas vidas, e delas saíram com caracteres firmados e guias estáveis de conduta, o que as tornou seguras contra as ondas de relaxamento moral que as cercavam com as mudanças dos tempos.

Então a autora fez o que a mim me pareceu algo verdadeiramente espantoso. Passou a explicar que, é claro, ela, sua amiga e as companheiras haviam, em seus anos de faculdade, abandonado a fé simples de sua juventude, deixado de dar crédito às crenças que as haviam sustentado, abandonado a leitura da Bíblia, a frequência à igreja, a observância do sábado e as orações. Descobriram que esses apoios artificiais não eram necessários para viverem a vida boa. Não precisavam da igreja — a prática coletiva da religião — tinham sua própria religião, que era bastante suficiente, embora, na verdade, fosse apenas certo código de ética originalmente enraizado em sua religião, mas agora desligado de suas raízes e a morrer por já não ser nutrido por elas. Com uma simplicidade espantosamente ingênua, ela deplorava e ficava perplexa com a rudeza dos filhos de sua amiga, sem aparente consciência de sua própria incrível incapacidade de reconhecer a relação de causa e efeito. A atitude de sua amiga para com a religião e as práticas religiosas era semelhante à sua própria. No entanto, ali estava ela, intrigada com a bancarrota moral dos filhos de sua amiga, que haviam sido privados exatamente das influências formadoras de caráter das quais a força de seu próprio caráter, do caráter de sua amiga e do caráter de toda a sua geração haviam dependido para se formar e crescer.

Que direito têm os pais, ou outros, de se queixar de que os padrões dos filhos não estão à altura dos seus próprios, quando privaram esses filhos exatamente da fé e das práticas sobre as quais seus padrões foram estabelecidos? Por confissão própria, a autora cuja análise estamos considerando, bem como a mãe das crianças cujo comportamento provocara seu estudo, haviam elas mesmas vivido dos frutos colhidos cedo de uma fé agora abandonada.

Isso poderia bastar para sustentá-las pela força do hábito já estabelecido. Mas, com essa fé abandonada, nada restava para produzir novo fruto que alimentasse a geração seguinte. Ela e suas amigas haviam vivido de seu capital espiritual, e o haviam consumido, e não restava herança alguma para os filhos.

Parece incrível que essa mulher altamente intelectual, cuja percepção penetrante a levara tão certeiramente a apontar os fatores mais poderosos na estabilização de si mesma e de suas amigas, pudesse estar tão completamente alheia à necessidade dessas mesmas influências na vida das novas gerações.

Por terem ela e suas amigas conseguido manter a integridade de vida depois de abandonarem as crenças de sua juventude, ela aparentemente pensava que tais crenças, e as práticas a que conduziam, não eram necessárias à estabilidade, deixando de perceber que os princípios éticos perdem sua força convincente e motivadora quando separados da fé religiosa que lhes deu origem. É um erro comum. Todos nós,

com certeza, podemos lembrar-nos de amigos dos mais elevados padrões de caráter que se afastaram das convicções religiosas em que foram criados e que se entristeceram ao ver o caráter de seus filhos tão tristemente deteriorado. É difícil que os padrões de caráter se transmitam por mais de uma geração além daquela que testemunhou o abandono da fé em que esses padrões foram formados.

A senhora de quem falamos deplorava a degenerescência que se via obrigada a admitir, mas nunca sequer deu a entender que o remédio estava em reviver, nos lares do país, as influências sob as quais ela própria se fortalecera.

A Fé Cristã, Raiz da Civilização

Ora, se a religião entrar em decadência em lares suficientes, ela se apagará na nação, que, afinal, não é senão o conjunto das unidades familiares individuais. Isso seria uma mudança de consequências fundamentais e de largo alcance. Pois a verdade é que toda a civilização ocidental foi edificada sobre a base da religião cristã. A própria terminologia revela quão completamente isso é assim. Cristandade é a palavra empregada para designar aquela vasta área do mundo em que a religião cristã se tornou dominante. Com seu estabelecimento e aceitação no Império Romano, ela se tornou a influência mais poderosa na formação do curso das nações ocidentais onde Roma havia dominado, e das novas nações que vieram a existir. Tão importante foi essa influência que o advento de Cristo se tornou a nova base para a contagem do tempo. Todos os acontecimentos na Cristandade são datados como tendo ocorrido antes ou depois daquele marco. Assinalou o início de uma nova era, ainda hoje chamada de era cristã. Toda a nova civilização teve suas raízes na fé cristã. É claro que seus ideais de perfeição não puderam ser de imediato assimilados, nem sequer compreendidos, pelos povos que os receberam. Cometeram muitos erros, incorreram em muitos excessos e enxertaram muitas falsas interpretações. Não obstante, a fé cristã permaneceu a ideia central que dominava tudo o mais. Assim tem permanecido através de muitos séculos, e não se pode desligar dela agora sem provocar uma mudança revolucionária. Enquanto a ideia abstrata for mantida como noção orientadora, por mais imperfeitamente que seja vivida na prática, sempre se pode esperar melhoria, um afastamento das concepções erradas em direção ao ideal. Mas, quando o próprio ideal, como força central controladora, desaparece, então sobreveio uma mudança fundamental. As convicções cristãs tornaram o Ocidente dominante através dos séculos. Um afastamento delas é sumamente ameaçador.

Não Há Paz Senão Sobre uma Base Espiritual

Onde se encontra hoje o mundo da Cristandade? Foi bem no seu coração, não em alguma terra pagã, que irrompeu o atual cataclismo. Reconheceu-se livremente que havia um antagonismo irreconciliável entre a antiga base cristã e os ideais da nova

ordem. Tivemos não apenas uma guerra física, mas também uma guerra de crenças fundamentais. Enquanto os contendores professam as mesmas crenças e propósitos básicos, mas discordam quanto aos meios de realizá-los, há apenas uma luta pelo controle. Mas, quando as crenças fundamentais estão em guerra, tem-se o início de uma revolução. Já não é uma mera luta pelo controle, mas uma luta que penetra até as profundezas espirituais. Qualquer pessoa madura que queira lançar um olhar retrospectivo há de ver que, entre 1914 e 1939, algo muito fundamental aconteceu. Aquele primeiro ano citado assinalou o início de uma grande guerra. Nela entramos com uma fanfarra de grande euforia nacional. Nossos soldados marcharam ao som de trombetas e às vibrantes melodias marciais, enquanto as bandas os conduziam. Todos tinham fé inabalável na solidez de nossas instituições e nos méritos incontestáveis de nosso sistema. A guerra não passava de uma interrupção incômoda no curso de uma vida que retomaria seu rumo quando aquele assunto desagradável terminasse. Hoje não é assim. Não há fanfarra, não há entusiasmo brilhante, mas uma resignação sóbria e sombria diante de uma tarefa feia e indesejada que precisa ser cumprida. Não estou dizendo que haja menos determinação ou eficiência do que havia antes. Mas o espírito da abordagem é diferente. As pessoas tampouco estão tão certas do que acontecerá depois, nem do que tudo isso significa. Há uma grave ansiedade e inquietação, evidenciada pela volumosa conversa a respeito do mundo pós-guerra. Parece até haver alguns que pensam que nosso sistema está errado — o conceito básico sobre o qual nossas instituições repousam — e estão dispostos a vê-lo morrer todo. Outros pensam que os males se agarraram a nós como cracas, e que precisam ser raspados. Há divergência de opinião quanto ao que vale a pena salvar e ao que deveria ser relegado, sem luta ou pesar, ao limbo do esquecimento. Novas concepções estão se impondo. A fé forte de meio século atrás está desmoronando; estamos perdendo nossa base espiritual. O Dr. Sproul, da Universidade da Califórnia, disse que estamos numa corrida contra a catástrofe. Mas o povo não parece acreditar nisso, nem sabe que o problema espiritual está no âmago de nossa dificuldade e exige solução, se quisermos recuperar nossa saúde nacional.

Observai os países libertados da Europa. Mal se ergue o calcanhar do opressor, e uma disputa amarga já os envolve novamente. Egoísmo, ganância pelo poder, alicerces para uma nova supremacia, diferenças irreconciliáveis quanto à base espiritual do governo, suas funções e suas relações com os que vivem sob ele — tudo isso clamando por reconhecimento e controle. A menos que possam ser reconciliados com base num fim espiritual subjacente, não pode haver contentamento, e, portanto, não pode haver paz.

Mas todos parecem ainda depositar sua fé em reconstruções econômicas e tecnológicas. Ouvimos muito a respeito de elevar o padrão de vida dos povos. Mas, quase exclusivamente, essas melhorias parecem ser concebidas como o fornecimento de mais coisas — maiores satisfações físicas, maior conforto, mais lazer, menos trabalho, mais garantias

de segurança física. Há muito tempo Jesus ensinou que "a vida... não consiste na abundância dos bens que possui" e que "mais é a vida do que o sustento, e o corpo, mais do que o vestuário." Os princípios são postos de lado em favor do ganho imediato. Quando as colônias americanas tinham suas disputas com a metrópole, esta providenciou que pudessem comprar seu chá e pagar o imposto mais barato do que lhes custaria contrabandeá-lo sem pagar imposto. Pensou-se que isso as seduziria a ceder e pagar o imposto insignificante. Mas os colonos defendiam um princípio. Se pudessem ser submetidos a um pequeno imposto, poderiam, uma vez firmemente estabelecido o costume, ser submetidos a um imposto maior. Resistiram e arcaram com as consequências. Essa é a essência da supremacia espiritual. O que se necessita hoje na Cristandade é uma fé renovada na base espiritual sobre a qual foi edificada, e não mais máquinas e coisas. Devoção ao princípio, e não vítimas do suborno da satisfação fácil por meio do ganho imediato!

A guerra não é a causa do sofrimento do mundo; é apenas a manifestação externa de uma decadência interior. Quando a guerra terminar, o sofrimento não terá terminado, e é essa a razão da grande preocupação com o mundo pós-guerra. O mundo ainda terá de lidar com a enfermidade espiritual, que é a verdadeira causa da guerra. As disposições e noções que permearam a mente dos homens não podem ser mortas a bala. Ainda estarão em pleno vigor quando cessarem os combates. Não nos iludamos pensando que estão confinadas aos países agressores. Em maior ou menor grau, penetraram em todas as terras. Estão realizando sua obra de corroer, corromper, minar, destruir.

Não se pode pegar a paz e impô-la ao povo; ela é um estado do espírito. Não se pode entregar a liberdade como um presente a um povo que não está espiritualmente preparado para recebê-la. Disputas sobre os meios de alcançar fins já acordados têm pouca importância, mas, quando os próprios fins estão em disputa, tem-se uma diferença que penetra bem no coração e no espírito das coisas.

E as disputas que hoje dividem os povos do mundo são disputas sobre fins, sobre todo o espírito que rege as relações humanas. Nada, senão a unidade espiritual, operará a cura.

E essa essência espiritual deve repousar num poder que esteja acima de todos, capaz de exigir sua lealdade. Deve repousar em Deus.

O Evangelho, Fundamento da Paz

Vós que aqui estais reunidos podeis, com razão, ter vivo interesse em planos para a cura dos males do mundo, mas podeis ficar certos, desde já, de que não há valores que formem um guia tão seguro quanto o evangelho, que formou a base sobre a qual as nações da Cristandade foram fundadas e que atingiu sua mais alta expressão sob a Constituição de nossa própria terra. As forças desagregadoras são tais que nenhuma piedade passiva ou mero louvor de lábios bastará. Deve ser uma fé ativa, motivadora e assertiva, cultivada, fomentada e mantida nos lares e entre as famílias do povo. Isso exige uma revivificação da adoração a Deus nos lares, onde nele se creia, seja reverenciado e a ele se ore — onde se reserve um dia à reverência, em que o povo se reúna em adoração e volte a ouvir as majestosas palavras do Mestre e obtenha um renascimento do espírito. Ide para casa e ensinai isso ao vosso povo, e estareis ministrando tanto à sua salvação quanto ao bem do mundo. Para que todos nós assim o façamos, oro em nome de Jesus. Amém.

Como citar este discursoAlbert E. Bowen, “A Fé Cristã, Raiz da Civilização”, Conferência Geral de Abril de 1945, Sessão da Tarde do Primeiro Dia (1945-04-06). Pulpit Vault, 1945-04-albert-e-bowen-christian-faith-the-root-of-civilization. Tradução desta edição, por método de glossário, archive.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).