A religião e a paz mundial
Albert E. Bowen
Recentemente peguei uma revista nacional na qual um colaborador, depois de observar o estado confuso do pensamento a respeito das necessidades do futuro próximo do mundo, afirma: Nossa necessidade, é claro, se quisermos ter paz após a guerra, é uma paixão pela humanidade e pelos interesses da humanidade como predominantes sobre todos os interesses menores, sejam quais forem. ¶
Muito naturalmente, ele passa dessa premissa para esta conclusão: ¶
A religião, um fator poderoso na paz mundial ¶
Deveria ser óbvio, depois do que vimos na última guerra e do que já estamos vendo nesta guerra, que a paz jamais poderá vir da própria guerra. Se é que ela virá, terá de ser apesar da guerra e não por causa dela, e de uma fonte inteiramente distante de sua influência. Não encontro tal fonte senão na própria religião. Pois a religião tem essa paixão de que falo. ¶
Essa afirmação talvez não fosse tão impressionante se estivesse isolada. Mas não está. É meramente típica de afirmações que vêm ocorrendo quase diariamente. Dificilmente pegamos hoje em dia uma revista de renome sem encontrar nela, em algum lugar, a declaração de que nos preceitos da religião se encontram os princípios, e na própria religião se encontra o espírito de cuja adoção, prática e influência sozinha depende a esperança do mundo pela paz e pela ordem. ¶
Isso coloca para a religião uma tarefa tremenda, e a pergunta surge de imediato: como será realizada essa tarefa? Significa que, de algum modo, a religião deve chegar a ter uma influência dominante na formação das políticas e práticas dos governos, pois, é claro, são os governos civis que controlam a condução da guerra e a formação da paz. Como há de a religião penetrar nisso? ¶
Há outra implicação manifesta na premissa, a saber, que a religião não tem desempenhado seu ofício legítimo, ou as condições que exigem sua intervenção não existiriam. Tem ela o poder de fazer o que se sugere e, se o tem, por que esse poder não foi exercido? ¶
Terei em mente a religião cristã ao prosseguir considerando essas questões. ¶
Em primeiro lugar, se a religião há de ser um fator poderoso na formação das condições de paz, precisa ter um meio pelo qual se expresse — um mecanismo de implementação. Em si mesma, é um ideal espiritual. Mas, como ideal passivo, a religião tem pouco valor. Ela precisa transmitir sua mensagem; precisa fazer-se aceita, pois só chega a dar fruto quando seus preceitos passam a dominar a vida e as ações dos homens, individualmente e em suas relações coletivas. Para ser eficaz, precisa incorporar-se a um corpo organizado. Esse corpo é a Igreja. Esse é o meio pelo qual a religião se implementou em qualquer civilização. E permitam-me acrescentar, de passagem, que, tanto quanto sei, nenhuma civilização jamais se desenvolveu que não se erguesse sobre a religião de seu povo. ¶
Se, então, a influência da religião é, como postulado, a única fonte de esperança para um mundo de paz, e se a religião se torna eficaz por meio do corpo organizado chamado Igreja, então parece indicado que há para a Igreja um lugar de importância transcendente na formação do futuro das nações. Isso pareceria demonstrar a insensatez de afirmar que a Igreja não tem relação com as instituições civis da atualidade. Se ela não tem relação com elas, então não pode levar-lhes a influência que é seu ofício fomentar. Além disso, a Igreja vive e opera dentro do domínio dos governos civis e, em certo grau, sob seu controle. Seus membros estão assim controlados. Tanto o povo quanto as instituições são sempre influenciados, modificados e mais ou menos moldados pelo pensamento e pelo sentimento que dominam a sociedade em que vivem, particularmente pelas determinações dos governos. Somos apanhados e retidos na teia de suas práticas e costumes. Diante de agências tão poderosas na formação de nossas vidas, e que afetam seu próprio destino, a Igreja precisa preocupar-se. Não estou esquecido do fato de que muitas pessoas professam a convicção de que nenhuma Igreja é necessária; que a religião é coisa do espírito, que afeta a vida interior do indivíduo; e que nada tem a ver com os assuntos da sociedade política, comumente chamada de Estado. ¶
A democracia, uma coisa do espírito ¶
Essa objeção não é tão formidável quanto parece. Também a democracia é uma coisa do espírito. Não consiste em estruturas como constituições, presidentes, legislaturas, estatutos, órgãos judiciais e agentes de aplicação da lei. Podeis ter tudo isso completamente democrático em sua forma e, ainda assim, não ter democracia alguma. Mas ninguém argumentaria, a partir disso, que se poderia ter uma democracia viva sem essas coisas. A essência da democracia — seu espírito — é, por si mesma, um ideal intangível, inerte e infrutífero, mesmo que arda no coração de homens individuais. Ponde esse espírito flamejante, esse ideal pulsante e vibrante, numa organização mecânica que compreenda uma constituição que defina os limites dos poderes do governo; escrevei nela uma declaração de direitos que proteja o indivíduo contra a invasão de seus privilégios garantidos pela autoridade governamental; fazei que ela preveja a elaboração de leis às quais todos concordem em obedecer; dai-lhe uma autoridade executiva para pôr essas leis em prática; estabelecei um tribunal para interpretar as leis e resolver disputas entre um homem e outro, e entre o cidadão e o governo, e ela levará uma nação, triunfante, de uma estreita faixa à beira-mar através de seis mil milhas de continente, plantando vilas e cidades pelo caminho, estabelecendo nelas governos locais por consentimento, fundando escolas, erguendo indústrias, subjugando a terra e dando a cem milhões de pessoas mais conforto material, mais respeito próprio individual, mais reconhecimento da dignidade humana, mais independência de ação e a consequente autoconfiança, mais liberdade de pensamento e de ação do que jamais conheceu qualquer povo em todo o período da história registrada. ¶
Assim como a estrutura política está para o espírito que é a democracia, assim a Igreja está para a religião. ¶
Isso é o quanto basta sobre os meios pelos quais a religião há de penetrar nos governos. Observai, por favor, que não disse, nem creio, que a Igreja deva tentar governar o governo. ¶
O poder da Igreja exercido na história do mundo ¶
Estou agora preparado, por mera conveniência, a usar a palavra igreja de modo intercambiável com o termo religião, ao prosseguir perguntando: Tem a religião em si o poder de fazer o que se sugere que somente ela deve fazer? ¶
A melhor resposta que conheço a essa pergunta é que, em tempos passados, ela já o fez. Dadas as mesmas condições, não há razão para supor que não possa fazê-lo novamente. É preciso, é claro, admitir desde já que a Igreja, como a agência por meio da qual a religião se torna eficaz, está grandemente enfraquecida para sua tarefa pela falta de unidade dentro de si mesma. ¶
Jesus, a fonte primordial da religião de que falamos, escolheu alguns discípulos e lhes ensinou Sua mensagem. Depois lhes disse que saíssem e a espalhassem por toda parte. Pouco depois de Ele os deixar, num só dia, pelo zelo e fervor de sua convicção, acrescentaram ao seu corpo, por batismo, três mil almas. Ignorando as ordens dos principais governantes, continuaram seu ensino, enchendo Jerusalém, segundo se alegou, com sua doutrina. A todas as proibições, Pedro respondeu: "Antes é necessário obedecer a Deus do que aos homens." ¶
Desafiando as proscrições dos imperadores, a Igreja projetou-se até o próprio coração do império, e, por volta do terceiro século, havia se erguido de uma posição de ignomínia desprezada até o ponto em que seu culto fora aceito pela maioria do povo do império, e havia conquistado para seus membros a tolerância religiosa, o direito de ocupar cargos públicos, e para si mesma a restituição de suas propriedades antes confiscadas. Esteve sempre na vanguarda da luta contra a tirania e a opressão. Através da longa noite escura da Idade das Trevas, a Igreja Cristã manteve acesa a tocha vacilante e travou a longa e árdua batalha pelos direitos do homem. A religião cristã, corporificada numa organização física, conduziu certos dissidentes até a Holanda; levou-os através do Atlântico e deu forte liderança na formação das instituições que aqui se desenvolveram. O que ultimamente ouvimos tanto chamar de sistema americano jamais poderia ter sido concebido no materialismo. Foi a solução do problema da época e nasceu do labor do espírito, fomentado e mantido vivo pela Igreja Cristã. ¶
Causas do declínio da influência religiosa ¶
Estamos agora preparados para perguntar por que a Igreja perdeu sua antiga posição de influência e liderança. Seria necessário um volume inteiro para responder a essa pergunta. Não tenho nem o tempo nem a amplitude de conhecimento necessários para a tarefa. Só posso arriscar uma conclusão que, para meu conforto, encontro fortalecida pelas opiniões de outros, mais capazes do que eu, que já se dedicaram a considerar o assunto. Os limites do tempo me obrigam a uma simplificação excessiva. ¶
A conclusão é que os mestres da religião, a própria Igreja, enfraqueceram em sua própria convicção quanto à verdade última das doutrinas que seus credos professavam. Sem convicção, não ensinaram com voz de autoridade, e seus seguidores se debateram na incerteza. As causas são muitas e complexas, entre elas, sem dúvida, as profundas mudanças resultantes da expansão das fronteiras do saber e as consequentes mudanças nos hábitos de vida e nos padrões de valor. No cenário externo, provavelmente houve maior transformação numa geração do que em mil ou dois mil anos anteriores. Isso se deu, em grande parte, pelos avanços tremendos nas ciências físicas, que deram ao homem um domínio sobre a natureza jamais sonhado. Isso pavimentou o caminho para a deslumbrante era industrial, a era da invenção, da mecanização e da produção, que literalmente revolucionou as condições da existência física. Ferramentas, engenhocas e mecanismos assumiram um lugar dominante na vida da nação, e passamos a considerá-los de primeira importância para o nosso bem-estar. Ficamos tão obcecados com a importância das aquisições materiais que nossa visão dos valores espirituais quase se obscureceu por completo. O próprio homem se inflou fora de toda proporção em suas presunções de autossuficiência. Olhou para a obra de suas próprias mãos e a chamou de boa. Acreditou que possuía a chave para o domínio do mundo, e que, por seu próprio poder, poderia criar um estado de coisas segundo o desejo de seu próprio coração. Maior, melhor, mais grandioso e mais eram os alvos de sua ambição. Por meio das descobertas da ciência e de seus métodos de investigação, muitas noções antigas se revelaram insustentáveis; erros antigos foram expostos, teorias explodidas; e passou-se a crer que tudo o que reivindicasse respeitabilidade intelectual deveria ser capaz de resistir ao teste do método científico. A ciência e a indústria lidam com objetos e materiais. Seus frutos são materialistas, e as coisas idealistas e intangíveis do espírito caíram em baixa estima. Os mestres religiosos, esquecendo o ensinamento do Mestre de que a vida é "...mais do que o mantimento, e o corpo, mais do que o vestuário" (Mateus 6:25); esquecendo que sua missão era discernir e preservar os valores espirituais; tentaram acomodar seus ensinamentos ao clima da época e dar-lhes validade submetendo-os não apenas ao teste científico, mas, de modo ainda mais baixo, ao teste dos hábitos, das práticas e das preferências de seus seguidores. Desenvolveram, ou tentaram desenvolver, o que se poderia chamar uma teologia da carne, em vez de uma teologia do espírito. Assim, a ciência e a prática do mercado passaram a prescrever as condições dos ensinamentos religiosos, e os próprios mestres, em vez de serem intérpretes inspirados dos valores espirituais, tornaram-se meros ecos dos homens da ciência e de seus contemporâneos industriais. Como o expressou um articulista: A liderança cristã passou das mãos da Igreja para as mãos dos leigos ativos e práticos — os estadistas e educadores, os colunistas e sábios, os cientistas e os grandes homens de ação. E isso é apenas outra maneira de dizer que não existe, de fato, verdadeira liderança cristã alguma. ¶
E, como advertência final, ele declara: Pelo que se pode constatar, o povo americano faria tão bem por suas almas seguindo o conselho dos líderes industriais quanto seguindo o conselho dos líderes espirituais. ¶
Assim, é o rebanho que conduz o Pastor. * * * Enquanto a Igreja pretende, ou finge, pregar valores absolutos, mas na verdade prega valores relativos e secundários, apenas apressará o processo de desintegração. Somos convidados a recorrer à Igreja em busca de esclarecimento, mas, ao fazê-lo, descobrimos que a voz da Igreja não é inspirada. A voz da Igreja hoje, descobrimos, é o eco de nossas próprias vozes. E o resultado dessa experiência é o desencanto. ... Este é um desencanto espiritual profundo e absoluto, decorrente do fato de que, quando consultamos a Igreja, ouvimos apenas o que nós mesmos dissemos. O efeito dessa experiência sobre a geração atual tem sido profundo. É o efeito de uma espiral viciosa, como aquela de que falam os economistas e que leva às depressões. Mas, nesta espiral, o que está em jogo não é apenas a prosperidade, mas a civilização. ¶
Há apenas uma saída da espiral. A saída é o som de uma voz — não a nossa voz, mas uma voz que vem de algo que não somos nós mesmos, em cuja existência não podemos deixar de crer. É a tarefa terrena dos pastores ouvir essa voz, fazer com que a ouçamos, e dizer-nos o que ela diz. Se não conseguem ouvi-la, ou se deixam de nos dizê-la, nós, como leigos, estamos completamente perdidos. Sem ela, não somos mais capazes de salvar o mundo do que fomos capazes de criá-lo, em primeiro lugar. ¶
Esta é uma acusação abrasadora. Mas as palavras não são minhas. São as palavras de alguém profundamente comovido pela confusão e pelo desnorteamento da época, e que clama em voz alta por ajuda, alguém que reconhece que a Igreja não deve seguir e retransmitir o que outros dizem, sejam eles grandes ou pequenos, mas deve liderar declarando a voz de Deus. Não usei essas palavras com o propósito de trazer sob repreensão nenhuma igreja ou nenhum mestre de religião. Tampouco nada do que disse foi com essa intenção. Ficará claro para vós que usei o termo Igreja em seu sentido mais amplo, e não em referência a nenhuma igreja em particular. Nem meu propósito foi levantar qualquer disputa com o valor das gloriosas descobertas da ciência, ou dos benefícios industriais que delas nasceram, ou depreciá-lo. ¶
De fato, a própria ciência tornou-se bastante humilde, se é que nem sempre o foi. Seus grandes expoentes parecem reconhecer, de modo bastante geral, como mostra a recente transmissão do Sr. Longmuir à Academia Americana para o Progresso da Ciência, que, no campo do comportamento humano — que é, afinal, o fator principal no governo —, a ciência tem limitações muito estreitas. Para orientação nesse campo, devemos buscar em outro lugar. ¶
Não digo que a Igreja pudesse ter impedido a onda de autossuficiência, orgulho arrogante e materialismo grosseiro que varreu a terra. Penso que isso provavelmente surgiu de forças além de seu controle. Mas o erro da igreja esteve em abandonar suas próprias convicções e em sua dócil aquiescência diante do desprezo pelas realidades espirituais, e em não se manter firme em sua fé na realidade de um Deus vivo, a fonte de toda religião, e sem o qual não pode haver religião. ¶
Tentamos viver sem Deus e sem religião, e vemos onde isso nos trouxe. Tentamos seguir mais ou menos cegamente os eruditos, os escritores, os homens de negócios e os líderes políticos, e contemplamos com consternação a triste situação a que nos trouxeram. O clamor universal por uma regeneração espiritual dá à Igreja outra oportunidade de salvar o mundo e a humanidade, e oferece uma base para a esperança. ¶
A verdadeira fé, o caminho da paz ¶
A Igreja primitiva alcançou seu avanço fenomenal e sua grande influência porque aqueles que levavam sua mensagem nela criam devotamente. Meu propósito, ao falar destas coisas, é exortar-vos, que aqui estais reunidos — os membros de nossa própria fé — os líderes em vossas respectivas posições, a ensinar sem vacilação a fé implícita no Deus vivo que molda o curso e os destinos das nações e que revelou, e continua a revelar, o caminho de vida que sozinho pode levar à paz na terra e à boa vontade entre os homens. Não haverá paz duradoura, a menos e até que os homens aceitem o caminho do Legislador do universo. Cabe a nós tentar, com todo o poder de persuasão de que dispomos, levar os homens e as nações a adotar esse caminho, e a resistir resolutamente a toda influência e poder que tendam a afastar-nos dele. Não cedo a homem algum em amor à pátria e em devoção a ela. Passei grande parte de minha vida estudando sua história e suas instituições. E digo que as exigências do patriotismo jamais nos obrigam a endossar o que não é moralmente correto. ¶
Cabe a nós não nos deixarmos enganar por slogans e ditos espertos, mas colocar os ensinamentos do Salvador do mundo acima de todos os outros ensinamentos, e fazer deles o padrão pelo qual medimos todos os atos e todos os planos de ação, para que Sua retidão possa dar fruto na terra. ¶
Que Deus nos conceda o poder e a sabedoria para fazê-lo, é minha oração, em nome de Jesus. Amém. ¶