Tristezas e Alegrias Misturadas
John A. Widtsoe
É meu desejo, se o Senhor aprovar, discutir um dos princípios mais conhecidos do Evangelho. É bom, às vezes, revisar aquilo que conhecemos bem. Tenho em mente a doutrina de que somente quando o conhecimento é devidamente usado é que ele se torna útil para promover o bem-estar humano. ¶
Tristezas e Alegrias Misturadas
Cem anos atrás, a Igreja, que então operava em Ohio e no Missouri, estava, por assim dizer, sendo julgada por sua própria sobrevivência. O ano de 1838 foi um ano fatídico. A perseguição grassou até que o coração dos homens desfalecesse; membros de confiança da Igreja, ocupando posições elevadas, afastaram-se da Igreja e, em alguns casos, traíram seus irmãos. Mas, ao mesmo tempo, encontraram-se espíritos nobres para ocupar os lugares vagos; dois homens foram então chamados ao apostolado, e mais tarde chamados à Presidência da Igreja; atos sem precedentes de coragem foram realizados pelo Sacerdócio; revelações de valor maravilhoso foram recebidas pela Igreja. Foi um ano de tristeza e também de alegria. ¶
Oliver Cowdery e David Whitmer
Talvez o acontecimento daquele ano conturbado que causou a mais aguda tristeza tenha sido a perda de Oliver Cowdery e David Whitmer do registro de membros da Igreja — dois das três testemunhas originais do Livro de Mórmon, homens tidos em alta estima pela Igreja. Oliver Cowdery foi excomungado, e por muitos anos permaneceu fora da Igreja, em vez de confessar seu erro e se arrepender. David Whitmer retirou-se da Igreja em vez de enfrentar julgamento pelas acusações feitas contra ele. A ausência, nos conselhos da Igreja, desses excelentes homens que haviam sido tão gloriosamente abençoados pelo céu foi motivo de pesar para toda a membresia da Igreja. ¶
Embora esses homens não fossem mais membros da Igreja, sempre mantiveram a veracidade de seu testemunho, tal como registrado no Livro de Mórmon, e sua crença na divindade das revelações dadas a Joseph Smith, o Profeta. Além disso, Oliver Cowdery, depois de alguns anos, humildemente entrou novamente nas águas do batismo, e estava a caminho de suplicar a David Whitmer que voltasse para a Igreja, quando a morte o alcançou. Ambos afirmaram, com seu último suspiro, a veracidade de seu testemunho a respeito da obra dos últimos dias do Senhor. O seu conhecimento da verdade do Evangelho restaurado não os abandonou. ¶
Naturalmente surge a pergunta: Como puderam esses homens, ambos os quais haviam visto o anjo guardião das placas das quais o Livro de Mórmon foi traduzido, e as próprias placas, e um dos quais, além disso, teve o privilégio de conversar com seres celestiais, João Batista, Pedro, Tiago e João — como puderam tais homens comportar-se de modo a pôr em risco sua condição de membros da Igreja, ou contentar-se em permanecer fora dela? Eles tinham conhecimento, além do de outros homens, da realidade e da divindade dos acontecimentos que levaram à organização d'A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. ¶
A resposta à pergunta é simples, bem compreendida por todos. Esses irmãos não usaram o seu conhecimento em conformidade com a ordem da Igreja, tal como estabelecida nas revelações do Senhor. Isto é, entraram em caminhos proibidos; não obedeceram aos mandamentos de Deus. As práticas de suas vidas não correspondiam ao seu conhecimento. ¶
O Conhecimento Não É Tudo-Suficiente
Este acontecimento histórico dentro da Igreja é evidência do fato de que o conhecimento sozinho não garante, nem pode garantir, a felicidade humana, nem conduz uma pessoa em direção à salvação. Se for necessária mais evidência da insuficiência do conhecimento, podemos observar o grande número de homens de elevada realização intelectual que, por causa de seus atos criminosos, se encontram nas prisões do mundo. O conhecimento pode se tornar o caminho para o mal quando não é aplicado conforme orientado pelo plano do Evangelho. ¶
É verdade que fomos ordenados a buscar todo o conhecimento; o Senhor também disse que "é impossível ao homem ser salvo em ignorância", e que "se nesta vida uma pessoa, por sua diligência e obediência, adquirir mais conhecimento e inteligência do que outra, ela terá tanto mais vantagem no mundo futuro." Contudo, é igualmente verdade que a aquisição de conhecimento é apenas um primeiro passo necessário em uma vida progressiva. O conhecimento deve ser vivificado e tornado vivo pelo seu uso adequado. ¶
A Inteligência Vivifica o Conhecimento
Esta doutrina é claramente exposta nas escrituras sagradas. Entre as muitas grandes verdades reveladas ao Profeta Joseph Smith, nenhuma é mais amada pela Igreja do que "A glória de Deus é inteligência." A palavra inteligência, tal como usada na linguagem comum, significa presteza para aprender, agilidade de mente. Seu significado evangélico superior é mais profundo. O homem inteligente é aquele que busca o conhecimento e o usa de acordo com o plano do Senhor para o bem da humanidade. Isso está implícito na revelação da qual se extrai a citação, pois a sentença completa diz: "A glória de Deus é inteligência ou, em outras palavras, luz e verdade." Quando os homens seguem a luz, o seu conhecimento sempre será bem usado. ¶
A inteligência, então, torna-se apenas outro nome para a sabedoria. Na linguagem da matemática, podemos dizer que o conhecimento, mais o uso adequado do conhecimento, equivale à inteligência, ou sabedoria. Nesse sentido, a inteligência se torna o objetivo da vida bem-sucedida. O conhecimento é um dos meios pelos quais tal inteligência é alcançada; o uso do conhecimento é igualmente importante, pois dá vida e direção ao conhecimento. Todo o assunto é muito semelhante à fé e ao arrependimento — nenhum dos dois está completo sem o outro. Quando a fé se torna ativa por meio do arrependimento, o homem se eleva em direção ao seu destino semelhante a Deus. A própria fé, edificada sobre a experiência humana, em conformidade com a vontade de Deus, é apenas um tipo de inteligência superior. Assim, acontece frequentemente que uma pessoa de conhecimento limitado, mas que obedece à lei com fervor e em oração, eleva-se a uma inteligência ou sabedoria mais elevada do que alguém de vasto conhecimento evangélico que não cumpre, em sua vida diária, as exigências do Evangelho. A obediência à lei é uma marca de inteligência. ¶
A Sabedoria, a Grande Necessidade do Homem
A preeminência da sabedoria para suprir as necessidades urgentes dos homens e das nações tem sido reconhecida ao longo dos tempos. Foi Salomão, o jovem rei de Israel, quem escolheu a sabedoria e o conhecimento entre todos os dons que o Senhor lhe ofereceu, e em troca foi abençoado além da medida. Foi a declaração do Apóstolo Tiago a respeito da falta de sabedoria que levou o jovem Joseph Smith ao bosque onde recebeu a sua primeira grande visão. A grande necessidade do mundo hoje, em meio à confusão e ao horror criados pelo próprio homem, é a sabedoria. O homem é rico em conhecimento, superando toda época anterior sobre a terra. Ele dominou as forças da natureza até torná-las submissas a todo o seu desejo e capricho. Mas usa esse poder recém-descoberto tão prontamente para destruir quanto para fazer o bem. Isso não é inteligência, isso é insensatez. Se o mundo resolvesse buscar a sabedoria à medida que adquire conhecimento, o alvorecer da tão esperada e almejada era de paz surgiria no Oriente. ¶
Este pensamento pode ser aplicado a cada um dos nossos deveres e tarefas. Aquele que conhece a necessidade e o valor da oração e, mesmo assim, não se comunica com Deus em oração, é insensato e, nessa medida, não é inteligente. Quem aprende a Palavra de Sabedoria e não a pratica pertence à mesma classe. O homem que não consegue separar um décimo de sua renda para o Senhor é insensato e, no sentido evangélico, não é inteligente. Um grande programa de segurança da igreja foi anunciado sob inspiração divina. Deixar de apoiar esse notável movimento, que veio para permanecer conosco, implica em falhar em colocar o conhecimento em ação — isso é insensatez. O mesmo se aplica a toda outra exigência do Evangelho. Este princípio impele a Igreja, com grande sacrifício, a manter o seu sistema educacional, suas organizações auxiliares, suas organizações do Sacerdócio, para que o conhecimento secular ensinado nas escolas do país possa ser encaixado ativamente, mediante uso propositado nas vidas humanas, no grande plano de salvação do Senhor, o único plano que conduz à alegria humana duradoura. ¶
A Desobediência É Pecado
Um pensamento sombrio acompanha esta doutrina. Possuir conhecimento e não usá-lo, ou não usá-lo adequadamente, é pecado. A falha da vontade humana em prestar obediência à lei de Deus não é apenas falta de inteligência e de sabedoria, é pecaminosa. Em certa ocasião, o Senhor disse à Igreja, por meio do Profeta dos últimos dias: "Há muitos entre vós que chamei e foram ordenados, mas poucos deles são escolhidos. Os que não são escolhidos pecaram gravemente, pois andam em trevas ao meio-dia." Oliver Cowdery e David Whitmer estavam no meio-dia do conhecimento, e, no entanto, andavam em trevas. A sabedoria os havia abandonado. Portanto, estavam em pecado. Assim também pode qualquer homem fechar os olhos em plena luz do sol e andar em trevas, cometendo pecado diante de Deus. As nações da terra, saciadas de conhecimento, na plena luz de uma dispensação do Evangelho, andam em trevas. Portanto, o salário do pecado lhes pertence. Suas guerras e contendas são pecaminosas diante do Senhor, e o castigo virá até que abram os olhos para a luz. ¶
O aviso divino foi dado: "Se não guardardes meus mandamentos, o amor do Pai não continuará convosco; portanto, andareis em trevas." A obediência à lei conduz à inteligência e à sabedoria, e liberta os homens das trevas e da acusação de pecado. ¶
A Responsabilidade Vem com o Conhecimento
Os Santos dos Últimos Dias, que receberam o maior conhecimento, estão sob a mais pesada condenação, se deixarem de conformar sua vida à lei revelada. Além disso, a nossa responsabilidade não é apenas por nós mesmos, mas por toda a raça humana. A inteligência deve adornar tudo o que fazemos, pois de outra forma como poderíamos cumprir o nosso destino, tão bem expresso em dias antigos: "Eu te levantarei para seres uma bênção entre muitos povos." ¶
A luta alegre da vida deve ser, se realmente esperamos pela felicidade, viver vidas de conhecimento, usado como o Senhor deseja, com inteligência e sabedoria. Toda pessoa sábia perguntará a si mesma, antes de cada ato: Isto está em conformidade com a lei do Senhor? e, ao final de cada dia: Vivi com inteligência e tendo a sabedoria como meu guia? Então, em plena luz, veremos claramente o caminho e a meta, e evitaremos os perigos e os terrores das trevas. ¶
Que o Senhor nos ajude a viver de tal maneira que, no pleno meio-dia da luz do Evangelho, nunca andemos em trevas, mas cumpramos com sabedoria os deveres de nossa vida. ¶