O Missionário do Segundo Século
Stephen L Richards
ÉLDER STEPHEN L. RICHARDS ¶
Agradeço a Deus, meu Pai Celestial, por esta gloriosa ocasião. Meu coração foi tocado pela inspiração das grandes mensagens que nos chegaram e pela contemplação do século de realizações pelo qual a Igreja passou. ¶
Invoco humildemente as bênçãos do Senhor sobre as palavras que hei de proferir, para que sejam, em alguma medida, dignas. ¶
CEM ANOS ATRÁS ¶
O cenário estava montado há cem anos. A América era então mais nova do que hoje. Os Apalaches ficavam a oeste. Illinois e Missouri eram a fronteira extrema. As estradas eram trilhas, e a comunicação era difícil. A vida nas aldeias, e mesmo nas cidades, era altamente provinciana, como sempre há de ser sem meios de transporte adequados. A agricultura era a principal ocupação do povo. A era da máquina e a era industrial ainda não haviam chegado. A nação estava se formando, muito jovem — ainda uma experiência. Uma união havia sido formada, mas não compreendida por todas as partes contratantes. Ainda não havia sido submetida ao terrível teste de sangue e batalha por meio do qual veio seu verdadeiro nascimento. O pioneirismo — a subjugação do solo — era a vocação do povo. A religião e a política eram seus passatempos. A educação era muito limitada. As terras precisavam ser recuperadas antes que se pudessem construir escolas e faculdades. Mas havia igrejas e credos, e alto partidarismo e intensos preconceitos. As diversões não eram tão comuns como agora. As pessoas eram sérias — muito sérias — e a religião ocupava boa parte de seu tempo, e mais ainda de seus pensamentos. ¶
A ORGANIZAÇÃO DA IGREJA PROJETADA ¶
Sobre um cenário como esse, a organização da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias foi dramaticamente projetada. Não foi vista com indiferença, como poderia ter sido nos dias de tolerância em que vivemos. As circunstâncias que a envolveram — a visão celestial do jovem profeta, a descoberta e tradução milagrosas das placas de ouro, a concessão da autoridade divina — foram um desafio para os professores de religião que eles não podiam, e não estavam dispostos, a ignorar. As circunstâncias solapavam os fundamentos de seus credos. A visão revisava a concepção corrente da personalidade de Deus e a doutrina de que a revelação havia se encerrado; o Livro de Mórmon derrubava as teorias arqueológicas então existentes e dava uma nova interpretação ao Evangelho; e, se a autoridade divina havia sido conferida por mensageiros celestiais, então por que os homens, até então, não a possuíam. ¶
INTOLERÂNCIA E AMARGURA ENCONTRADAS ¶
Essas coisas os religiosos pressentiam, ainda que não as expressassem. Assim, não foram tolerantes, não foram indiferentes. Ficaram exaltados, ficaram ressentidos, e com amargura e perseguição tornaram deveras difícil o caminho do jovem profeta e da nova igreja. Cremos que o espírito de oposição foi gerado pelo adversário da luz e da verdade. Ainda assim, ele certamente se intensificou por uma consciência, embora apenas parcialmente compreendida, do amplo alcance do efeito da nova instituição sobre os credos e as instituições da época. ¶
UM NOVO REINO ¶
E os temores e apreensões tinham fundamento, embora a amargura e a perseguição não o tivessem. Em nenhuma terra além da América poderia a jovem Igreja ter criado raízes suficientes para se firmar. Mesmo na liberdade de nosso país, seus primeiros anos correram grande risco. Uma nova dispensação do Evangelho foi inaugurada, novas interpretações foram dadas, irreconciliáveis com as que então se ensinavam, e um novo reino foi estabelecido, um reino que era espiritual em natureza, mas que permeava de tal modo cada fibra e tecido da vida que passou a ser interpretado por muitos como de jurisdição temporal. Tão vital era esse novo reino para seus adeptos, e de tal modo comandava por completo sua afeição, suas energias e devoção, que aqueles que com ele entravam em contato e a ele não pertenciam tornavam-se violentamente ciumentos de sua influência e de seu poder. Viam a liderança magistral de suas autoridades; viam um homem amado e reverenciado como se fosse, de fato, um profeta; viam uma unidade e coesão entre os membros incomparável a qualquer outra que houvessem conhecido; e viam progresso e realizações que, estranhamente, corroíam como absinto seus corações invejosos. ¶
O QUE PROVOCOU A OPOSIÇÃO ¶
Tentei, diligente e sinceramente, descobrir os fatores que provocaram a amarga e violenta oposição à Igreja em sua ascensão inicial, e chego à conclusão, a partir dos fatos registrados que conheço, de que ela é atribuível principalmente ao simples e puro ciúme de sua soberba cooperação, unidade e controle, e a um temor de que tais qualidades meritórias a tornassem inatacável e triunfante. Estou certo de que assim tem sido na política e nos negócios. Creio que assim tem sido também no campo eclesiástico. Nenhuma outra razão poderia bem existir. Os líderes ensinavam apenas bons princípios e as virtudes reconhecidas. O Sacerdócio governava pela bondade e pela persuasão, e não pela força. Os objetivos cooperativos do povo eram dignos. Eram cidadãos leais dos governos sob os quais viviam, e suas vidas eram excepcionalmente puras e retas. Concedo que a doutrina do matrimônio plural contrariava o costume estabelecido, mas a inimizade veio antes do anúncio dessa doutrina e há muito sobreviveu ao abandono de sua prática. Não consigo encontrar nenhum caso em que a Igreja, agindo sob orientação oficial, jamais tenha trazido a qualquer pessoa, comunidade, estado ou nação algo que não fosse retidão moral e cívica, elevado idealismo e realizações dignas. ¶
Quando falo daqueles que se opuseram violentamente ao estabelecimento e à obra da Igreja, refiro-me a limitar o número àqueles que tiveram contato com ela e oportunidade de observar seu povo e seus costumes. Não incluo os muitos milhares que nos caluniaram porque nunca nos conheceram e foram, inconscientemente, vítimas de relatos falsos e maldosos. ¶
CRESCIMENTO A DESPEITO DA OPOSIÇÃO ¶
A despeito da oposição, a Igreja cresceu. Cada ano trouxe um aumento; nenhum ano trouxe diminuição. Ela venceu com êxito cada dificuldade. Inimigos, de dentro e de fora, não conseguiram detê-la. Ela sobreviveu, não sem tristeza indizível, mas sem retrocesso, à sua mais grave calamidade — o martírio de seu presidente, profeta e revelador. Suportou tumultos, expulsões, devastações, privações e crueldades inexprimíveis, mas jamais vacilou. Prosseguiu, sem cessar, em seu curso predestinado, até tornar-se aquilo que hoje aclamais — meu orgulho e o vosso — uma benfeitora da humanidade, e creio poder dizer com segurança, uma maravilha aos olhos dos observadores atentos. ¶
A CAUSA DE SEU CRESCIMENTO ¶
Por que cresceu? Porque sempre teve em si as sementes e a essência da vida. É vital para seus membros e para o mundo. Toca de modo tão íntimo cada aspecto da vida que significa tudo, ou nada. É dotada de autoridade. A autoridade é real, não simbólica, para os que a aceitam. Suas ordenanças são eficazes, e sua fé é uma fé viva, atuante, fundada na convicção e no testemunho individuais, o testemunho do Espírito Divino ao espírito do homem. ¶
O testemunho individual traz um senso de responsabilidade pessoal. Todo homem que recebeu sentiu o dever de dar, e esse senso o impeliu a responder à direção do sacerdócio. (Temos sido criticados por nossa propensão ao proselitismo. Seríamos infiéis ao gênio de nossa fé se deixássemos de compartilhar os dons do Evangelho com outros. Enquanto nos considerarmos guardiões da verdade, devemos disseminá-la.) Gostaria de prestar homenagem àqueles que levaram a mensagem. ¶
A REALIZAÇÃO MAIS EXTRAORDINÁRIA ¶
Comparações são odiosas. Amiúde são equivocadas e levam a dificuldades, mas, se me perguntassem qual é a realização organizada mais extraordinária e distintiva da Igreja de Cristo no último século, eu indicaria, sem muita hesitação, sua fenomenal obra e sistema missionários. Nada caracteriza mais verdadeiramente o altruísmo do Evangelho que ela ensina. Nada significa mais profundamente a devoção e a sinceridade de seus membros. ¶
Seria interessante saber o número de missionários que foram enviados, e o valor monetário de sua manutenção e de seu tempo, desde a organização da Igreja. Esses números não estão disponíveis em todos os detalhes, mas, a partir da investigação que pude realizar, apresento-vos as seguintes estimativas. Houve aproximadamente sessenta mil missionários na Igreja. A duração média de uma missão é de vinte meses, ou seiscentos dias. Trinta e seis milhões de dias de serviço missionário foram contribuídos, com um gasto médio de um dólar por dia. Esse dinheiro foi retirado das comunidades dos Santos dos Últimos Dias e gasto longe de casa. Se o valor razoável do tempo produtivo de um missionário puder ser fixado em três dólares por dia, pode-se acrescentar ao item de despesa cento e oito milhões, totalizando o custo monetário geral do serviço missionário em algo como cento e quarenta e quatro milhões de dólares, uma soma quase igual ao custo estimado da represa de Boulder, o maior projeto desse tipo já empreendido pelo governo dos Estados Unidos. ¶
O enorme custo do serviço foi amplamente distribuído — partilhado por quase todas as famílias da Igreja. Muitas famílias enviaram mais de um missionário, e não raro um lar manteve um ou mais missionários no campo continuamente, por dez ou doze anos, e às vezes por um quarto de século. ¶
Não conheço nenhuma forma de obter dados comparáveis de outras entidades religiosas, mas arrisco afirmar que nenhuma outra igreja, em qualquer período da história, dedicou por um século uma proporção tão grande de seus membros e de seus recursos disponíveis ao serviço missionário. ¶
DOIS GRANDES EXÉRCITOS ¶
Por cem anos, dois exércitos estiveram constantemente em marcha — um exército de missionários partindo de Sião, carregando o estandarte da paz e da liberdade do Evangelho; um exército de entrada, de pessoas libertas e felizes, com fé e esperança brilhando em todos os rostos, buscando o abrigo, a inspiração e as gloriosas oportunidades de uma bela terra e de uma sociedade divinamente designada. Contingentes desses exércitos passaram por quase todas as estradas do mundo; nos estados; das Américas, do Norte e do Sul; para cima e para baixo pelas águas sinuosas do Mississippi, onde os missionários dos primeiros dias, como Brigham, e Heber, e Willard, e Parley, e Erastus, embarcavam em jangadas para tomar navios de vela lentos em suas longas e tediosas viagens até seus campos na Grã-Bretanha, na Escandinávia e no continente; através da Europa, até as terras do árabe e do turco, e adentrando a longínqua Índia; sobre a vasta extensão do Pacífico, indo e vindo do Havaí e das distantes ilhas dos Mares do Sul. À medida que os missionários cruzavam com os imigrantes nessas grandes contramarchas do século, quer em seus navios no mar, quer ao pararem para apertar as mãos em sua fatigada jornada pelas pradarias, pode-se imaginar sua saudação, nem sempre pronunciada, talvez, mas sempre presente em seus corações. O missionário diz: "Vamos levar o Evangelho." "Graças a Deus, já o temos!", responde o convertido, e depois acrescenta: "Vamos seguir-vos depois." E, de fato, assim têm feito, em um heroico ciclo. Missionário torna-se convertido, convertido torna-se missionário. Grande tem sido seu dom. Generosamente têm dado. ¶
DONS VITAIS ¶
O que se tem dado? Ora, a cada homem o que lhe era necessário. Aos pobres, que são tantos, o evangelho da economia; aos ricos, que são tão poucos, o evangelho de doar; aos intemperantes, o evangelho do autodomínio; aos indolentes, o evangelho do trabalho; aos abatidos, o evangelho da esperança; aos belicosos, o evangelho da paz; aos ignorantes, a liberdade da superstição; aos céticos e vacilantes, uma filosofia vital e satisfatória; aos pecadores, o evangelho do arrependimento; e a todos, fé, pureza, idealismo, felicidade e exaltação. ¶
Será, então, difícil descobrir o impulso que tornou possível essa notável realização missionária? Creio que não. Tais dons, tal fé, tais dádivas vitais são altamente estimados pelo homem. Enriquecem sua vida, dilatam seu coração e o enchem de gratidão. Ele agradece a Deus e busca expressar sua gratidão em termos de devoção e serviço. Não vê serviço comparável ao de dar aos outros a bênção de que desfruta, e assim ele sai, não a contragosto, não apenas por um doloroso senso de dever, mas alegremente, ansiosamente, para retribuir a bênção suprema de sua vida e obter uma alegria nova e insuperável ao partilhar de sua alegria. ¶
O INTERESSE NO SERVIÇO MISSIONÁRIO NÃO DIMINUIU ¶
Agradeço ao Senhor porque o ardor pelo serviço não se embotou com a passagem do tempo. Por toda parte vejo evidências que me convencem de que os membros da Igreja amam proclamar o Evangelho. Se os homens não podem ir eles mesmos, enviam seus filhos e filhas. Viúvas se esforçam e economizam para manter um missionário. Moças trabalham para custear irmãos e jovens maridos. Quóruns, alas e sociedades contribuem, e ocasionalmente um homem rico abre um coração generoso e sustenta meia dúzia deles no campo. ¶
Os que vão são abençoados, e também os lares e comunidades que os enviam. Rapazes rudes do campo e do sertão foram expostos à educação e à cultura de viagens extensas e à vida cosmopolita das grandes cidades. Jovens da cidade foram submetidos aos rigores da vida rural mais primitiva. O conhecimento, a tolerância, a aventura, o refinamento e a experiência que as viagens ao redor do mundo trazem têm sido, ao longo de toda a história da Igreja, um produto de nosso sistema missionário. Tenho certeza de que, em nenhuma outra comunidade sobre a terra, a porcentagem daqueles que "viram o mundo" é tão grande quanto nas aldeias, vilas e cidades dos Santos dos Últimos Dias. ¶
RESULTADOS MAIS VITAIS ¶
Tais benefícios, contudo, embora importantes, são apenas incidentais. Os resultados mais vitais são mais profundos do que informação ampliada e refinamento. O caráter fundamental de nossa masculinidade e feminilidade tem sido aprimorado. O sacrifício ensinou o autodomínio; o doar gerou generosidade, como sempre gera; o ensino das virtudes trouxe-as à aplicação prática, e a elevada espiritualidade arraigou o testemunho e o desenvolvimento da alma. A elevação geral em todos os padrões de vida que a Igreja trouxe a seus adeptos deve-se, em não pequena medida, diretamente ao seu sistema missionário. Como isso tem abençoado o lar! Pais que pagaram e oraram, mães, esposas, irmãs e noivas que estiveram ansiosas, preocupadas e fiéis, pequeninos cujas primeiras orações balbuciadas foram: "Por favor, Deus, guarda nosso missionário!" — tudo isso tornou o lar, de fato, um santuário, o alicerce de nossa vida religiosa. ¶
POR HOMENS E MULHERES HUMILDES ¶
Essa notável obra missionária foi realizada por homens e mulheres humildes. Seu preparo, na maior parte, não foi o treinamento das escolas. Foi a influência e a disciplina de bons lares, a organização da Igreja e o testemunho individual. A influência de seus testemunhos e de suas vidas foi mais poderosa do que sua pregação. A única eloquência de que precisaram para transmitir sua mensagem foi a eloquência da própria mensagem, retratada na devoção e na pureza de suas vidas. Nunca precisaram vociferar e gritar, nem entoar cânticos e suspirar, para fazer um convertido. Levaram a mensagem natural, simples e alegre de Cristo de maneira natural e alegre. Não era esse o modo do Salvador? Não ajustava ele sempre a lição ao povo, à sua linguagem e compreensão? Temos alguma evidência de que ele empregasse rituais, vestes ministeriais e frases sonoras para torná-la impressionante? Creio que não temos, e apresento, como argumento digno da autenticidade divina do Evangelho que trazemos, a maneira como ele é apresentado pelos missionários de nossa Igreja. ¶
O que esses embaixadores do Senhor fizeram por indivíduos, famílias, comunidades e nações encheria livros. Meio milhão de corações, hoje, transbordam de gratidão por seu abençoado serviço. Um homem contempla seu lar, a família amorosa que o cerca, seus negócios prósperos, a estima de seus semelhantes, a fraternidade de seus irmãos no sacerdócio, sua fé, seu contentamento, suas gloriosas esperanças; e, das profundezas de sua alma, clama: "Deus abençoe o missionário que me trouxe isto!" ¶
DEPOIS DE CEM ANOS ¶
Pois bem, o cenário está montado novamente, cem anos depois. O mundo está mais velho do que estava, não tão provinciano, mais instruído, mais tolerante, talvez mais indiferente aos usos da religião, certamente mais livre de superstição, e infinitamente mais bem equipado para levar adiante a obra do mundo. Muitas coisas passaram para a história e para o grande além. As dificuldades e crueldades, graças ao Senhor, perderam seu ferrão e o ressentimento que outrora provocavam. Homens morreram, mas não morreram em vão. Joseph não está aqui, mas seu sucessor está. O poder que o sustentou está aqui. Aqui e agora estão o povo e a verdade, as necessidades e as oportunidades. Sou grato por a mensagem não ter mudado. Ela resistiu à prova de um século. Não mudou porque é verdadeira. A verdade perdura. ¶
UMA REDEDICAÇÃO A UMA CAUSA DIGNA ¶
Por essas coisas celebramos. Nossos corações clamam louvores a Deus. Sentimo-nos humildes diante de uma realização maravilhosa — realização dele, não nossa. Mas o triunfo não é um fim, é um começo. A única celebração digna da causa é uma rededicação a ela. Seu progresso foi feito pelo serviço. Nunca precisou tanto de serviço como agora. Se o Profeta Joseph aqui estivesse, e não posso crer que esteja longe, ele falaria como fala nosso Presidente, incumbindo-nos de nos prepararmos para avançar rumo a um novo século de oportunidades ampliadas e levar as boas novas de grande alegria a uma nova geração dos filhos de Deus. ¶
Assim, é o missionário quem há de servir ao próximo século, como serviu ao passado. Que Deus o proveja e Deus o guarde, oro humildemente em nome de Jesus. Amém. ¶