A Cultura dos Pioneiros Mórmons
Levi Edgar Young
Meus irmãos e minhas irmãs: fiquei profundamente impressionado com o que foi dito deste púlpito durante as sessões desta conferência, e creio, de todo o coração, que vós e eu voltaremos para nossos lares com a resolução em nosso coração de viver mais perto de Deus do que jamais o fizemos. Este é o desejo do meu coração, e confio que poderemos reter, em grande medida, o grande banquete espiritual de que desfrutamos durante os últimos três ou quatro dias. ¶
Ontem à tarde, quando alguns dos irmãos falavam dos pioneiros deste estado, certos pensamentos me vieram, e eu também ¶
fiquei impressionado com uma percepção mais profunda do fato de que os Santos dos Últimos Dias sempre depositaram sua fé em Deus e em seu Filho Jesus Cristo, o Redentor do mundo. Com fé em Deus, em Cristo Jesus e no Espírito Santo, eles enfrentaram sua vida diária, e sua vida ao longo de todos os anos, e mantiveram essa fé implícita até hoje. Se há algo de que o mundo necessita nesta hora, em toda a terra, é a fé simples em Deus e em seu Filho Jesus Cristo. ¶
Não faz muito tempo entrei numa sala de aula no sul de Utah e, enquanto ouvia uma recitação de história do oeste, a professora daquela série fez este comentário aos meninos e meninas da sexta série: "Os pioneiros 'mórmons' que vieram a estes vales antes da ferrovia eram um bom povo, mas incultos e sem progresso; agradecemos que a geração de hoje esteja se tornando culta e percebendo o dia do progresso." ¶
"Os pioneiros 'mórmons' eram um bom povo, mas incultos e sem progresso" — isso vindo de uma pessoa que se apresentava diante daquelas crianças como alguém que sabia algo sobre a história da América e da parte ocidental deste continente. Quero deixar registrado aqui, ocupando, como ocupo, a Cátedra de História do Oeste na Universidade de Utah, que jamais existiu um tipo de povo mais nobre do que os pioneiros "mórmons" que se estabeleceram nestes vales de Utah, e que eram um povo culto e progressista; às vezes penso que eram mais cultos e progressistas do que somos hoje, mas isso não é verdade, se a geração de hoje está percebendo o grande poder e a luz do evangelho de Jesus Cristo. ¶
O povo "mórmon" foi reunido de diferentes nações da terra. Já naqueles primeiros dias, convenceram-se da veracidade do evangelho pela revelação de Deus a cada um individualmente. Tornaram-se um povo inspirado. Deus jamais chamou covardes para fazer sua obra, mas sempre confiou a obra a pessoas de tipo elevado, de mente elevada, um povo profundamente espiritual. Vós, escandinavos que viestes dos países escandinavos, vós, ingleses, vós, alemães, e todos quantos viestes das diferentes nações da Europa, não aceitastes o evangelho de Jesus Cristo por ignorância. Aceitastes o evangelho de Jesus Cristo por vossa inteligência, por vossa elevação de mente; e, embora fôsseis pobres em bens materiais em vossas terras natais, éreis ricos em dotes espirituais. Os povos do mundo que foram reunidos a estes vales, vindos das nações da Europa, são os tipos mais elevados dessas nações, porque é preciso um homem ou uma mulher de tipo elevado para compreender este evangelho de Jesus Cristo e obter um testemunho de sua verdade. ¶
Os Santos dos Últimos Dias vieram a estes vales apenas alguns anos depois da organização da Igreja por alguns poucos homens que não eram instruídos no sentido de terem frequentado as grandes escolas da América, mas eram instruídos nas leis maiores da retidão, homens que ¶
haviam se comunicado com Deus, homens que haviam aberto suas almas à luz do céu. Esses homens se reuniram e, pelo dom e poder de Deus, organizaram A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Então começou sua marcha histórica desde a costa do Atlântico até o longínquo Oeste, até estas montanhas, e onde quer que fossem, os Santos dos Últimos Dias eram, antes de tudo, imbuídos do maravilhoso testemunho que tinham de dar ao mundo, a saber, que Deus havia falado dos céus. Poderia haver ideal maior por que trabalhar? Com esse ideal vieram para o longínquo Oeste, desenvolveram as terras; foram um povo progressista. Em 1840, na época da invenção dos implementos agrícolas modernos, do arado moderno, da moderna máquina de trilhar, da ceifadeira e da máquina de costura, tomaram essas máquinas e as adaptaram ao seu trabalho, à sua vida diária; trouxeram essas invenções aos vales de Utah e as usaram para desenvolver o solo. Mas não foram progressistas apenas do ponto de vista econômico; aqueles pioneiros "mórmons" pensaram, antes de tudo, no desenvolvimento intelectual e espiritual. Num estudo de setenta e duas cidades na história da Grande Bacia, verificamos que, invariavelmente, os pioneiros "mórmons", onde quer que fossem, não apenas construíam suas cabanas, mas construíam também suas escolas e capelas; tinham seus professores, e a primeira escola em Utah foi aberta menos de três meses depois da chegada dos pioneiros a este vale. Em 1850, por um ato da primeira assembleia legislativa do Estado de Deseret, foi inaugurada a primeira universidade a oeste do rio Missouri; o corpo docente foi organizado no ano de 1850, e aquela universidade ainda existe na colina que, em 1850, foi escolhida pelo Governador Brigham Young e pela legislatura para uma instituição de ensino superior. Sei que já se fez a crítica de que não era uma verdadeira universidade. Era uma verdadeira universidade para aquela época, pois recordamos que, de 1845 a 1850, as universidades de Harvard, Columbia e Yale eram apenas escolas secundárias; de fato, seus currículos não igualariam os currículos das escolas secundárias da América de hoje. O ideal da formação universitária ficou indelevelmente gravado no coração daqueles pioneiros. Eles desenvolveram as escolas. Tinham suas diversas organizações educacionais, suas sociedades filosóficas — Wilford Woodruff foi presidente da Sociedade Científica, aqui em Salt Lake City. Realizavam reuniões e tinham suas várias reuniões do sacerdócio para formação intelectual. Por fim, formaram-se as diferentes organizações auxiliares, e a juventude dos Santos dos Últimos Dias foi convidada a comparecer às reuniões dessas organizações. ¶
Quando estudardes esse grande movimento educacional na Grande Bacia, vereis que o povo "mórmon" promoveu todos os fatores possíveis para o desenvolvimento da juventude. Construíram um teatro no deserto, com o único propósito de que o povo pudesse ter diversões do tipo apropriado. Depois de construírem esse teatro no deserto, estudou-se o mestre da língua inglesa, Shakespeare, suas peças foram encenadas, e recordo que, não faz muito tempo, tive ¶
a oportunidade de levar Sir Johnston Forbes Robertson ao antigo Social Hall daqui, hoje chamado o "Little Theatre"; entramos ali há três ou quatro anos, num dia de muita tempestade, e, ao descermos pelo corredor, aquele que era o maior ator de todos os povos de língua inglesa olhou para cima do palco e viu o busto de Shakespeare. Tirou o chapéu e disse: "Isso conta toda a história sobre se os vossos pioneiros apreciavam ou não a arte e as coisas mais elevadas da vida." ¶
É verdade que aqueles pioneiros não tinham o que temos hoje, e sei que o Professor Holden, quando esteve neste púlpito ontem e nos falou, reconheceu o fato de que eram essencialmente agricultores. Tiveram de se dedicar ao solo e conquistá-lo para lançar o alicerce das instituições de hoje; mas, ao conquistarem o solo, amavam-no e compreendiam, mais do que qualquer outro povo, que a agricultura é a base de toda a nossa vida civilizada. Muitas foram as vezes em que o agricultor arava, plantava sua semente e ia irrigar a terra seca, semanas depois, mas não havia água. Muitas foram as vezes em que o agricultor pioneiro viu seu trigal secar. Muitas foram as vezes em que saiu para colher, mas não havia colheita. E, no entanto, ele não se mudava para outro clima. Seu profeta havia dito: "Este é o lugar", e naquelas palavras ele tinha fé, e sua fé o sustentava. Desenvolveu-se entre aqueles pioneiros um altruísmo que hoje não encontramos — um altruísmo verdadeiro, um espírito real de cooperação. O altruísmo, o amor ao próximo, que é fundamental para o amor a Deus, jamais foi superado desde aquele dia, se é que já foi igualado. ¶
Cada povoado do Utah dos primeiros dias era uma unidade eclesiástica, com tendências sociais e políticas. A unidade eclesiástica baseava-se na ideia do poder individual e do autodesenvolvimento por meio de princípios religiosos. Cada indivíduo era responsável, nesse esquema religioso, perante seu Deus; cada um era livre para crescer intelectual e moralmente, no sentido de que o homem é feito à imagem de Deus. É necessário dizer isso para que compreendamos a democracia do governo municipal do Utah dos primeiros dias. Política e socialmente, todos os direitos eram inerentes ao povo. ¶
O poder que mantinha o povo unido era o sentimento religioso; e, com ele, os interesses econômicos comuns a todos. Nesses grupos sociais, o desejo era viver e deixar viver. O povo era intensamente prático; as condições físicas do país os tornavam assim. Eram obrigados a aplicar seu idealismo religioso aos problemas imediatos que tinham em mãos. ¶
Os dois ideais fundamentais no pensamento tradicional americano são o ideal da liberdade individual de competir sem restrições pelos recursos do país, e o ideal da democracia, em que o governo é de todo o povo e por todo o povo. A democracia americana sempre se baseou em terras livres. Tais ideais estiveram sempre presentes na colonização dos vales de Utah. Mas não devemos ¶
esquecer que os colonos "mórmons" foram sempre religiosos em sua organização, tanto na forma quanto no propósito. ¶
Tenho o prazer de dizer que o Dr. Turner, da Universidade de Harvard, disse recentemente, numa palestra perante os estudantes daquela instituição: "O povo 'mórmon', no longínquo Oeste, desenvolveu o mais fino tipo de governo municipal da Nova Inglaterra jamais desenvolvido fora da Nova Inglaterra." Só isso já marca o povo "mórmon" como um belo exemplo de americanos, e, quando vieram para cá, lançaram-se ao deserto tendo a Constituição dos Estados Unidos como sua lei orgânica fundamental. ¶
Eram cultos? Sim; porque eram homens e mulheres de ideais, porque tinham fé implícita em Deus; a fé de que o mundo necessita hoje. Eram cultos? Sim; porque aqueles pioneiros "mórmons" plantaram aqui, creio, como nenhum outro povo plantou na história da América, as cinco grandes instituições de toda civilização; a saber, a agricultura, o lar, a igreja, o estado e a escola; e, num estudo dessas cinco instituições da civilização, encontrareis a esplêndida história dos pioneiros "mórmons" que aqui se estabeleceram naqueles primeiros dias. A professora que falou como falou, falou por ignorância. ¶
Rogo a Deus que possamos conservar aquela fé antiga e implícita em Deus que nossos pais e nossas mães tinham. ¶
Eis o que foi escrito sobre aqueles pioneiros e que saiu deste estado para algumas das universidades, não só da América, mas do mundo, e foi o parágrafo que encerrou uma palestra recente na Universidade da Califórnia: ¶
"Lado a lado com o desenvolvimento dos recursos naturais de Utah," [nossa história temporal] "Utah tem cultivado constantemente aquilo que produz cultura. O crescimento da Igreja foi promovido pela vitalidade e pela visão de seus líderes, e ela tem sido capaz de resolver os novos problemas da civilização. No processo de expansão, o povo 'mórmon' conquistou distinção não somente no empreendimento industrial, mas também nas belas-artes; de fato, mais do que nas belas-artes, mais do que na indústria, o povo 'mórmon' conquistou distinção como o mais fino tipo de povo religioso vivo hoje. O vínculo de afinidade entre o prático e o estético, entre a realidade e a visão, entre o temporal e o espiritual, os Santos dos Últimos Dias sempre consideraram, desde o início, o segredo da força presente e a medida da realização duradoura." ¶
O falecido Juiz C. C. Goodwin certa vez prestou a seguinte homenagem aos pioneiros "mórmons" nas colunas do Salt Lake Tribune: ¶
"É bom ver os Santos trazerem seus filhos à conferência. Perguntamo-nos se muitos deles param para contar a seus filhos a bela história da evolução que a história completa retrata, desde o dia em que a primeira companhia exausta desceu das montanhas orientais e ali fez alto. ¶
"Aquele foi o primeiro filme de Salt Lake; nunca houve outro igual desde então. Contemplando-o, o templo, os hotéis, os teatros, as igrejas, os hospitais, as grandes casas comerciais e as mansões, os templos à religião, ao ensino, à indústria, à justiça e à misericórdia, tudo desaparece; o rumor dos negócios se aquieta; volta o silêncio que o deserto choca; os jardins desaparecem, todas as flores murcham; não há nada, como se vê agora, senão as montanhas ao redor, o lago cintilando à distância, o sol brilhando lá do alto e a desolação que envolvia toda esta região como um manto fúnebre. Até os galhos das poucas árvores raquíticas pendiam curvados como plumas funerárias, enquanto o sussurro da brisa que descia das colinas, ou subia do lago, era tão pesaroso quanto o réquiem entoado às margens do Estige. ¶
"A maneira como um estado é talhado de um deserto e moldado em forma definida é sempre um tema interessante. A maneira como as primeiras estacas da civilização foram fincadas em Utah foi dramática o bastante para ser posta em palavras para o palco. Em sua penúria e aflição, o primeiro ato dos pioneiros de Utah foi prostrar-se sobre a terra; não em oração por socorro, não em lamentação e desespero, mas num alegre culto de louvor, em ação de graças ao poder que os havia conduzido através dos ermos e sobre os bilhões imóveis das colinas eternas até um lugar de descanso. ¶
"Então começou o seu trabalho. Não sonhavam com fortunas. ¶
"A luta diante deles era para viver, e essa luta continuou quase sem trégua até o fim. Muitas vezes lhes eram concedidas apenas as necessidades mais essenciais; poucos confortos, nenhum luxo. Nesse rude atrito, sua juventude se consumiu; os homens renunciaram às suas ambições, as mulheres guardaram sonhos queridos e mil anseios inocentes no coração e sobre eles estenderam para sempre o silêncio da abnegação. ¶
"Mas então o milagre começou. O deserto passou a transferir as rugas e a tristeza de seu semblante sombrio para o rosto deles, ao mesmo tempo que passou a absorver o esplendor de sua juventude, fazendo-o refletir-se em flores, frutos, cereais dourados e videiras, em que as aves faziam seus ninhos e enchiam todo o ar suave com seus cantos. ¶
"Mais tarde ainda, como que tocadas de compaixão, as montanhas insensíveis começaram a abrir de volta suas portas de diamante, revelando os tesouros ali dentro, onde haviam permanecido ocultos, à espera de que chegasse o tempo propício para a vinda do progresso e da luz. Os olhos exaustos daqueles pioneiros já em sua maioria se fecharam; suas mãos, endurecidas pelo trabalho, já quase todas se dobraram, mas o milagre continua a se realizar. Cada ano mais campos são resgatados do deserto; cada vez mais flores desabrocham; cada vez mais aves cantam; campos cada vez mais amplos douram-se sob o sol da colheita, recordando a velha lenda de que anjos artistas, num passado distante, vieram aqui da Terra do Verão e, com pincéis divinos molhados nos tons onde a luz é preparada, deixaram tudo isso como moldura para uma cidade bela que o homem haveria de construir; podemos crer que a construção dessa cidade já começou e caminha rumo à perfeição. ¶
"Esta é a história que deveria ser contada às crianças quando são trazidas à conferência, e então deveriam ser instadas a escutar e notar se ainda não conseguem ouvir os ecos daquele primeiro culto de louvor, com o qual os pais dedicaram este solo à luz que vem pela devoção ao dever, pela onipotência do trabalho paciente e pela fé em Deus." ¶
Deus permita que possamos ver essas grandes coisas em nossa história, e que a verdade da fé e do desenvolvimento dos Santos dos Últimos Dias e sua grande mensagem venham a ser conhecidas pelos íntegros de coração e por todo o mundo. Peço isso em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶