É a verdadeira liberdade apenas quebrar
Orson F. Whitney
"Será a verdadeira liberdade apenas quebrar Grilhões por nosso próprio e caro bem, E, com corações de couro, esquecer Que devemos ao gênero humano uma dívida? ¶
Não! a verdadeira liberdade é partilhar Todas as correntes que nossos irmãos usam, E, de coração e mão, ser Zelosos em libertar os outros! ¶
"São escravos os que temem falar Pelos caídos e pelos fracos; São escravos os que não escolhem O ódio, o escárnio e o abuso, Antes de em silêncio recuar Da verdade que precisam pensar; São escravos os que não ousam estar Do lado certo com dois ou três." ¶
"Então ficar ao lado da Verdade é nobre ¶
quando partilhamos sua crosta miserável, Antes que sua causa traga fama e proveito, ¶
e seja próspero ser justo; Então é o homem corajoso que escolhe, ¶
enquanto o covarde se põe de lado, Duvidando em seu espírito abjeto, até que seu ¶
Senhor seja crucificado, E a multidão faça virtude da ¶
fé que havia negado." ¶
Citei estes versos do poeta a fim de criar uma atmosfera para algumas reflexões que me têm passado pela mente desde o início desta conferência; e talvez eu possa abordar melhor meu tema propriamente dito relatando dois pequenos episódios de minha experiência pessoal. ¶
Não há muito tempo, estive junto ao féretro de uma mulher idosa, uma Santa dos Últimos Dias, discursando em seu funeral. Um dos irmãos então presentes havia lido à congregação um esboço da vida dessa boa mulher. Ela era tão antiga quanto a própria Igreja, faltando dois meses, e nascera, se bem me recordo, na distante Gloucestershire, na Inglaterra. Aos dezenove anos ouviu o evangelho pregado por um élder da Igreja, e sua simpatia foi imediatamente conquistada. Ela creu na mensagem que ele trouxe e de imediato se ofereceu para o batismo. Sua família se opôs fortemente a esse passo, e foi contra o protesto de seu pai e de sua mãe, de seus irmãos e irmãs que ela abraçou a causa impopular, a religião de um povo odiado no mundo inteiro. Tão intenso era o preconceito que ela teve de deixar o lar e sustentar-se pelo trabalho de suas próprias mãos; mas tinha a coragem de suas convicções, e sua fé não falhou. Dez anos depois emigrou para a América e veio para as Montanhas Rochosas, mas não antes que seu exemplo heroico tivesse feito seu efeito sobre os que a cercavam. Seus pais, irmãos e irmãs todos a haviam seguido para dentro da Igreja. Ela se tornara a salvadora da casa de seu pai; essa jovenzinha de apenas dezenove anos. ¶
Contrasto isso com outro episódio, ocorrido há muitos anos, quando eu era um jovem missionário no Estado de Ohio. Na cidade de Cleveland fiz amizade com uma senhora muito estimável, viúva de um oficial da União caído em combate. Ela amava devotadamente seu falecido esposo; reverenciava sua memória, e ficou muito impressionada com as doutrinas que lhe apresentei, particularmente as referentes à salvação dos mortos e ao casamento eterno, tanto pessoalmente quanto por procuração, casamento para toda a eternidade. Ela disse: "Quer dizer-me que, se eu me tornar uma Santa dos Últimos Dias, poderei ser selada a meu falecido esposo e ser sua esposa no porvir?" Respondi: "É exatamente isso que quero dizer, pois é a verdade." Ela exclamou quase em êxtase: "Nunca ouvi nada tão belo; e se tu me convenceres de que é de fato verdade, serei batizada ainda que seja num lago de fogo vivo." Respondi: "Não posso convencer-te; sou apenas um portador da mensagem de Deus. Mas ele pode convencer-te como me convenceu a mim, e eu te faço esta promessa: se te humilhares e pedires ao Senhor, ele te concederá um testemunho de que esse é um princípio verdadeiro." Ela disse: "Vou perguntar a ele." ¶
Não muito depois ela me escreveu informando que Deus havia respondido sua oração, e que estava pronta para ser batizada. Fiquei radiante de alegria. Não há alegria que se compare à de um missionário que foi feito instrumento para a salvação de uma alma. Escrevi de imediato que reuniria um pequeno grupo e a encontraria em certo ponto na margem do Lago Erie, ali para batizá-la; e eu estava prestes a partir para o local combinado quando recebi outro bilhete dela, dizendo algo assim: "Eu não imaginava que fosse uma criatura tão pobre, fraca e frágil quanto sou. Creio no que me disseste, sinto que é verdade, e pensei que fosse suficientemente forte para dar este passo; mas não sou. Não tenho o vigor, a força para suportar o que se seguiria. Ora, se eu me tornasse uma 'mórmon' seria odiada pelas pessoas que agora me amam, meus amigos se afastariam de mim, meu nome seria lançado fora como mau; eu perderia minha posição social. Não posso fazê-lo. Espero que chegue o dia em que terei a força necessária, mas hoje não a possuo." ¶
Estas são algumas das experiências que acompanham a pregação do evangelho nesta dispensação — uma dispensação destinada a reunir em seu vasto seio todas as dispensações do passado, e que representa a cena final da grande obra de Deus referente à salvação do homem neste planeta. O pensamento dominante na mente do Profeta Joseph Smith durante seus últimos dias na terra foi por ele expresso na seguinte linguagem enérgica: ¶
"É necessário, na introdução da dispensação da plenitude dos tempos, que se realize e se revele, desde os dias de Adão até o tempo presente, uma união e uma soldadura inteiras, completas e perfeitas de dispensações, chaves, poderes e glórias; e não só isso, mas também que as coisas que jamais foram reveladas desde a fundação do mundo, e que têm sido ocultadas dos sábios e prudentes, sejam reveladas às criancinhas e aos que mamam, nesta a dispensação da plenitude dos tempos." O apóstolo Paulo também se referiu a esse grande e derradeiro período como aquele em que Deus reuniria todas as coisas em Cristo, tanto no céu quanto na terra. ¶
Envolvida nesse poderoso desígnio de reunir todas as coisas que são de Cristo está a reunião da dispersa casa de Israel, os filhos de Abraão, Isaque e Jacó, o povo escolhido, por meio do qual Deus tem operado desde o princípio para a salvação e o aperfeiçoamento da humanidade; e Joseph Smith, descendente daquele José que foi vendido para o Egito, foi o instrumento divinamente designado para erguer o estandarte da coligação de Israel nos últimos dias. ¶
E qual é o objetivo em vista? Por que todo esse trabalho e sacrifício estupendos? Por que a casa de Israel deve ser reunida? Por que as dispensações do evangelho — elos de uma poderosa corrente que se estende desde a criação até o fim dos tempos — devem ser unidas em uma só? É porque Deus está descendo sobre a terra, e o caminho deve ser preparado diante dele. Jesus Cristo está vindo para reinar como Rei dos reis, para inaugurar a era milenar de liberdade, retidão e paz universais; e para que sua vinda, que é destinada a ser uma bênção, não se torne uma maldição, uma calamidade, por causa do despreparo de seu povo e do mundo em geral, ele pôs sua mão nestes dias para realizar a obra maravilhosa e o prodígio que o Profeta Isaías predisse. Israel deve ser reunido porque esse Deus que está vindo é o Deus de Israel, e nenhum outro povo tem o direito de recebê-lo. Ele virá aos seus, como veio antigamente, mas os seus não o rejeitarão como fizeram antes. Tampouco virá novamente como um cordeiro levado ao matadouro; virá como o Leão da tribo de Judá, para sentar-se sobre o trono de Davi e reinar por mil anos, santificando a terra e preparando-a para a glória futura, quando ela se tornará um céu, uma morada celestial para os justos. Deus levantou Joseph Smith e lhe revelou de novo o evangelho eterno, e lhe conferiu os poderes do Sacerdócio eterno, para que erguesse o estandarte como ponto de reunião para as tribos de Israel, a fim de que um povo estivesse pronto para receber o Senhor quando ele viesse. E, por mais de oitenta anos, esta tem sido a mensagem proclamada por A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. ¶
Poder-se-ia supor, olhando as coisas naturalmente, que o mundo acolheria com alegria tal mensagem: que se regozijaria ao ouvir estas boas novas. Pensai bem! Aquele mesmo Jesus que ascendeu ao céu há dois mil anos está vindo novamente para abençoar a terra com sua presença divina! O mundo deveria alegrar-se com isso, e gostar de ouvi-lo. Mas não é assim. Eles não creem nisso. Pensam que estamos iludidos, e que estamos tentando enganá-los. Consideram essas coisas como os devaneios de mentes exaltadas pelo fanatismo. Mas temos um testemunho pelo Espírito Santo de que são verdadeiras. ¶
"Aquele que espalhou Israel o congregará e o guardará, como o pastor, o seu rebanho." Esta é a mensagem do "mormonismo". Mas, quando nossos élderes saem para proclamá-la, encontram toda sorte de experiências, toda espécie de oposição. As leis dos homens estão em conflito com as leis de Deus; suas tradições e superstições se opõem à revelação divina. Indiferença, preconceito, egoísmo, ciúme, paixão, orgulho, riqueza, política, religião — tudo isso se interpõe à difusão da verdade e à realização do sublime propósito de Deus. Poucos recebem o evangelho com alegria; alguns creem nele, mas temem obedecer-lhe, por causa dos sacrifícios que isso acarreta; enquanto a grande massa ignora a mensagem salvadora, ou se arma contra ela, julga-a, aprisiona, desterra ou mata os mensageiros, e se opõe ao progresso da obra de Deus, cujo único objetivo é a felicidade e a salvação da humanidade. ¶
O que fará o Senhor a esse respeito? Permitirá ele ser frustrado? Não. Ele pôs sua mão para realizar certa obra, e essa obra será feita, ainda que todas as obras dos homens se desfaçam no processo. O Salvador, numa de suas parábolas (Lucas 14:15-24), indica os meios que serão usados para induzir os homens a receber o evangelho e "comer pão" no reino dos céus. "Um certo homem fez uma grande ceia, e convidou muitos, e à hora da ceia mandou o seu servo dizer aos convidados: Vinde, que já tudo está preparado." Modernizarei um pouco a linguagem, mas esta é a substância: Um dos convidados disse: "Comprei um campo, e preciso ir vê-lo, portanto rogo-te que me hajas por escusado"; outro se escusou dizendo: "Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-los"; e um terceiro apresentou este pretexto: "Casei, e, portanto, não posso ir." O senhor da casa se indignou com essas escusas, e disse a seu servo: "Sai depressa pelas ruas e bairros da cidade, e traze aqui os pobres, e aleijados, e coxos e cegos." Assim foi feito, e os pobres afluíram de bom grado ao banquete: não tinham posição social, nem riqueza, nem política, nem interesses materiais ou de outra espécie que os retivessem, que os impedissem de aceitar o convite. Vieram, mas ainda havia lugar. O Senhor então proferiu uma ordem muito estranha. Disse ele a seu servo: "Sai agora pelos caminhos e valados, e força-os a entrar, para que a minha casa se encha." ¶
Sei quais são vossos pensamentos. Estais a perguntar-vos: Será possível que Deus obrigue os homens a serem salvos? Não. A compulsão é a doutrina de Lúcifer; é a doutrina do Kaiser alemão, que se apoia no terreno do diabo, obrigando os homens a fazer sua vontade. A doutrina de Jesus Cristo é a liberdade, o livre-arbítrio, o direito de escolha. Ele é o Deus da liberdade, seu evangelho é "a lei perfeita da liberdade"; ele é o Deus desta terra, a terra da liberdade, e o único Rei que jamais reinará sobre ela. Não precisais temer que algum kaiser alemão venha a estabelecer seu trono nesta terra. Lede o Livro de Mórmon e convencei-vos. ¶
Mas estais a perguntar-vos o que quis dizer o Senhor da Ceia quando enviou seu servo para "obrigá-los a entrar". Creio que esta seja a solução: Deus jamais coagirá a mente humana — jamais tolherá a vontade humana. Ele não forçará ninguém a entrar no céu; ninguém a entrar no inferno. Mas ele nunca disse que não criaria situações compelidoras, e assim moldaria os assuntos humanos de maneira a induzir homens e mulheres a fazer, por sua própria vontade, coisas que não fariam se as circunstâncias permanecessem inalteradas. ¶
Permiti-me ilustrar com outro episódio de minha experiência. Quando eu era menino, costumava estudar minha lição de ortografia num velho livro azul, o "Webster's Spelling Book". Alguns de vós, homens de cabelos grisalhos, talvez tenham feito o mesmo. Nenhuma das irmãs, é claro, recordará de tão longe (Risos). Naquele velho livro havia várias gravuras rudimentares em madeira, uma delas representando um fazendeiro em altercação com um menino travesso em cima de uma macieira. O menino agia mal — tomando os frutos do fazendeiro sem permissão. Com voz gentil e persuasiva, o dono da árvore pediu ao pequeno ladrão que descesse, mas ele apenas riu; estava satisfeito com as coisas como estavam; queria ficar ali e se divertir, e educadamente recusou o convite para descer. O fazendeiro então ficou mais sério. Assumindo um tom severo, apanhou um pouco de grama ou torrão e o atirou no menino, exigindo asperamente que ele descesse. Mas um pouco de grama não o feriu; ele apenas riu e zombou ainda mais. Então o fazendeiro ficou terrivelmente sério. Apanhando algumas pedras, deu ao menino uma boa surra de pedradas, e ele desceu correndo apressadamente — por sua própria vontade (Risos). Sua mente, vede bem, permanecera livre; ele tinha seu arbítrio; poderia ter ficado ali indefinidamente se quisesse; mas por alguma razão não quis (Risos). Sua mente mudara, e ele desceu por sua própria e livre vontade. Essa é minha ideia de uma situação compelidora. ¶
Deus não será frustrado. O Criador não será desconcertado pela criatura. Tendo posto sua mão para a reunião de seus eleitos, ele derrubará toda barreira à difusão da verdade e à libertação da casa de Israel. Ele espalhou por muitas nações o sangue de Abraão, Isaque e Jacó, o sangue que crê, e enviou a essas nações espíritos correspondentes a esse sangue. Como resultado, quando o evangelho se espalha e os filhos de Israel são ordenados a se reunir, a fé se encontra entre todos os povos, e o progresso da obra de Deus é assim facilitado. Como as chuvas do céu sobre o solo ressequido e sedento, esse sangue escolhido, tendo cumprido seu objetivo, tendo tornado o mundo — o mundo incrédulo, espiritualmente estéril — frutífero em coisas boas, é chamado de volta ao oceano de sua origem. Este é o significado, o simbolismo da dispersão e da coligação de Israel. ¶
Depois do testemunho virão os juízos — medidas severas, se as brandas se mostrarem ineficazes. Em dezembro de 1832, Joseph Smith profetizou que a guerra seria "derramada sobre todas as nações", e que a fome e outras pragas se seguiriam. No mesmo mês, Deus ordenou aos élderes da Igreja que saíssem a proclamar o aviso do evangelho. Todo homem avisado deveria avisar a seu próximo, e esta era a substância da declaração divina: "Pois depois de vosso testemunho vem o testemunho de terremotos, que farão gemer a Terra em seu âmago" — a voz das tempestades, a voz dos trovões e dos relâmpagos, a voz das ondas do mar arremessando-se além de seus limites. O sol se escurecerá, a lua se tornará em sangue, as estrelas cairão do céu como figos que caem de uma figueira. A terra cambaleará de um lado para outro como um homem embriagado; todas as coisas estarão em tumulto; o coração dos homens desfalecerá de temor, e eles cairão por terra e não poderão ficar de pé. ¶
Eis o programa — o programa profético traçado para consideração daqueles que se põem no caminho da Onipotência, erguendo seus braços insignificantes para impedir que o povo de Deus cumpra sua ordem de preparar o caminho diante de sua gloriosa vinda. ¶
Oh, quão grato sou por nossa nação, nossa amada América, estar onde sempre deveria estar, e sem dúvida sempre estará — defendendo a liberdade e os direitos do homem, ameaçados pela ambição egoísta de um tirano sanguinário empenhado em dominar o mundo; por estar defendendo aqueles princípios de liberdade e igualdade que são parte integrante do evangelho de Jesus Cristo. ¶
Este evangelho há de abrir seu caminho por todos os recantos do mundo, e ai daquela nação que tentar impedi-lo. Quero que meu filho, que se alistou na causa de nossa pátria, sinta — não que é um mártir — quero que sinta que é um soldado de Jesus Cristo, e que sobre ele recai, em parte, o dever de difundir o conhecimento desses princípios, os princípios da verdade e da liberdade. Os grilhões da tirania não foram arrancados da América apenas em benefício dos americanos. Deus ama o mundo inteiro; ele deu seu Filho para salvá-lo; ele está usando a América e seus aliados como instrumentos para a difusão do Evangelho da Liberdade, e em seu rastro, depois de terem aberto o caminho, seguirão os missionários do Senhor Jesus Cristo. Amém. ¶