O Reino de Deus e o Reino de
James E. Talmage
«Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome. Venha o teu reino. Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.» ¶
Assim ensinou nosso Senhor e Mestre os Santos dos tempos antigos a orar. O modelo que ele deu para a oração jamais foi substituído nem revogado. Assim professa orar hoje o mundo cristão: «Venha o teu reino. Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.» Se jamais houve necessidade racional e imperiosa de uma oração como esta, o dia de hoje testemunha essa necessidade. Quem ousará afirmar que ¶
já não precisamos orar para que venha o reino dos céus, ou que a vontade de Deus está sendo cumprida na terra como no céu? ¶
Credes que o reino dos céus já foi estabelecido sobre a terra? Eu não creio. Sei que o reino de Deus foi estabelecido sobre a terra, mas o reino de Deus é uma preparação para o reino dos céus, que ainda há de vir. As expressões «Reino de Deus» e «Reino dos Céus» são muitas vezes usadas de modo sinônimo e intercambiável em nossa imperfeita tradução inglesa da Bíblia Sagrada, particularmente no Evangelho segundo Mateus, onde a expressão «Reino dos Céus» é a mais comumente usada. Mas nesses casos, como em tantos outros, a luz da revelação moderna esclarece a escuridão das passagens antigas; e o Senhor, nesta época, tornou evidente, sem sombra de dúvida, que há uma distinção entre o reino de Deus e o reino dos céus. O reino de Deus é a Igreja de Cristo; o reino dos céus é aquele sistema de governo e administração que opera no céu, e que oramos para que um dia prevaleça na terra. O reino dos céus será estabelecido quando vier o Rei, como há de vir, em poder, majestade e glória, para tomar domínio dentro, sobre e por toda a terra. ¶
Assim falou o Senhor no ano de 1831, chamando a atenção para o dever iminente da Igreja e dos Santos: ¶
«Escutai e ouvi uma voz como a de alguém enviado do alto, que é forte e poderoso, cujas idas chegam aos confins da terra, sim, cuja voz ¶
se dirige aos homens — Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas. ¶
«As chaves do reino de Deus foram confiadas ao homem na terra, e dali rolará o evangelho até os confins da terra, como a pedra cortada da montanha, sem mãos, rolará até encher toda a terra; ¶
«Sim, uma voz clamando — Preparai o caminho do Senhor, preparai a ceia do Cordeiro, aprontai-vos para o Esposo; ¶
«Orai ao Senhor, invocai o seu santo nome, divulgai as suas obras maravilhosas entre o povo; ¶
«Invocai o Senhor, para que o seu reino siga pela terra e os seus habitantes o recebam e estejam preparados para os dias que virão, nos quais o Filho do Homem descerá no céu, revestido do esplendor de sua glória, para encontrar o reino de Deus que está estabelecido na terra; ¶
«Portanto, que o reino de Deus vá avante, para que venha o reino dos céus, a fim de que tu, ó Deus, sejas glorificado no céu e também na terra, que os teus inimigos sejam subjugados; pois tua é a honra, o poder e a glória, para todo o sempre. Amém.» ¶
Assim se lê a revelação que conhecemos como Seção 65 de Doutrina e Convênios. O reino dos céus há de vir, e então a justiça reinará na terra. Nunca mais os homens se levantarão em domínio injusto sobre seus semelhantes. Nunca mais os homens se exaltarão em tronos, nem se adornarão com coroas e cetros. A melhor forma de governo possível ao homem é uma monarquia com o tipo certo de monarca, que fará somente justiça, justiça plena, e com a devida consideração pelas exigências da misericórdia, dará a cada homem o que lhe é devido. Tal governo será a democracia e a monarquia combinadas, e tal é o governo do reino dos céus. ¶
A obra da Igreja de Jesus ¶
Cristo dos Santos dos Últimos Dias pode ser resumida como a preparação da terra para a vinda de seu Senhor e Rei. Assim como, no meridiano do tempo, a voz do Batista foi ouvida no deserto — «Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus» — também se ouviu, nestes dias, a voz desse mesmo João Batista, restaurando a autoridade do Sacerdócio necessária para a administração da ordenança do batismo, pela qual se pode obter a remissão dos pecados; e agora se faz a proclamação: «É chegado o reino dos céus.» Essa proclamação ressoa com autoridade por todo o mundo; e a obra da Igreja, que é verdadeiramente o reino de Deus, é preparar a terra para a vinda do Rei da terra e do céu, e para o estabelecimento do reino dos céus sobre a terra. ¶
Nós, Santos dos Últimos Dias, somos peculiarmente literais na aceitação da escritura simples. Cremos que as Escrituras são muito simples de entender, se apenas conseguirmos que os teólogos as deixem em paz e não nos confundam com explicações. O Espírito do Senhor iluminará a mente do leitor sincero e interpretará as Escrituras, pois esse é o espírito em que as Escrituras foram escritas. Quando lemos a profecia, antiga e moderna, e encontramos em todas as predições referentes a este assunto uma estrita unanimidade, sem sombra de contradição ou inconsistência, consideramos ser um fato fora de questão que o Cristo, Jesus de Nazaré, que viveu na carne, que foi de fato crucificado, e que tornou a tomar esse mesmo corpo de carne e ossos que jazera no sepulcro de José de Arimateia, virá nesse mesmo corpo e permanecerá sobre a terra e conviverá com o seu povo, e governará e reinará. ¶
Quarenta dias depois do dia em cuja comemoração se celebra este Domingo de Páscoa por toda a cristandade, Cristo conduziu seus fiéis servos — aqueles que haviam sido comissionados para administrar sob a autoridade do santo Sacerdócio depois que ele os deixasse — conduziu-os até o histórico pequeno monte, o Olivete; e ali, depois de conversar com eles e dar-lhes as instruções finais, respondendo a algumas de suas ávidas perguntas e deixando outras de lado com resposta apenas parcial, porque os irmãos não estavam preparados para compreendê-las plenamente, ele ascendeu do meio deles. Eles o viram ascender; não houve deposição de corpo nem de veste; e, ao observá-lo desaparecer nas alturas, perceberam a presença de dois anjos vestidos de branco, que lhes disseram: «Homens galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir.» ¶
Admito que nós, Santos dos Últimos Dias, estamos atrasados em relação aos tempos, em muitos aspectos. Somos ainda suficientemente simples para crer no que dizem as Escrituras, o que é a verdade, e o que não pode ser contestado. O tempo não me permite citar sequer as mais importantes e mais notáveis das profecias antigas referentes à vinda do Filho de Deus na dispensação da plenitude, conhecida como o dia da vingança. Isso, porém, foi mostrado aos profetas, mesmo nos tempos mais antigos. Adão soube disso. Enoque, o sétimo a partir de Adão, profetizou a esse respeito, declarando que, nos últimos dias, Jesus, o Cristo, viria com dez mil de seus santos para reinar em ¶
pessoa sobre a terra por mil anos. Não encontro nada de ambíguo nisso, nada que exija intérprete. Se entendo minimamente o inglês, se sou mais que uma criança em entendimento, posso compreender o que essa declaração significa; e creio nela em toda a sua impressionante literalidade e em toda a sua grandiosa e gloriosa simplicidade. ¶
Ao preparar o mundo para a vinda do Senhor, há um dever imposto à Igreja como organização, e a cada membro da Igreja individualmente; e esse dever, ou obrigação, é levar a palavra a nossos vizinhos, a todos com quem possamos entrar em contato. Lembrai-vos de que a missão da Igreja não é inteira e unicamente converter os homens à aceitação de seus princípios e trazê-los para dentro de seus quadros. O dever que nos é imposto é também o de advertir o mundo a respeito dos juízos que hão de vir. Podeis duvidar que as atuais e temíveis cenas de conflito e matança em terra e mar, no ar e debaixo das águas, sejam insignificantes como sinais dos tempos? ¶
Naquela entrevista solene que Cristo teve com seus apóstolos logo após a última vez que deixaram o templo, no decorrer da caminhada da tarde de volta a Betânia, ele descansou nas encostas do Olivete, e os apóstolos vieram a ele em particular para lhe fazer certas perguntas a respeito do tempo de sua vinda, o que ele já lhes havia em parte explicado. Lede vós mesmos o vigésimo quarto capítulo de Mateus e o vigésimo primeiro capítulo de Lucas. O teor das instruções do Senhor foi este: Vigiai, pois não sabeis nem o dia nem a hora. Ele foi ao ponto de lhes dizer que nem mesmo os anjos no céu, nem naquele tempo, sabia o próprio Filho ¶
o tempo estabelecido para o seu retorno em glória, para exercer domínio sobre a terra. Esse conhecimento, disse ele, pertencia somente ao Pai. Assim, em nossa segurança de que o Senhor há de vir, e de que sua vinda está muito próxima, acautelemo-nos daqueles que se aventuram a marcar datas, a designar meses e anos; pois o Senhor declarou positivamente que isso não seria dado ao homem saber, nem sequer aos anjos que estão na presença de Deus. Mas certos sinais foram especificados, e esses sinais estão hoje amadurecendo como o fruto no outono, quando já passou a plenitude do verão. Quem pode duvidar da iminência deste acontecimento, que há de ser conhecido como a consumação dos tempos? ¶
Fazemos bem em ter em mente o fato de que a vinda do Cristo não é o acontecimento a que as Escrituras se referem pela expressão figurada «o fim do mundo». Essa não há de ser a ocasião do juízo final. Contudo, quando Cristo vier, ele executará o juízo; e os deliberadamente sem esperança, os ímpios não regenerados, serão destruídos. Então haverá uma ressurreição geral dos justos mortos, e uma mudança da mortalidade para a imortalidade no caso de muitos que estiverem vivos na carne no momento de sua vinda. Mas, depois do milênio, mil anos de paz, virá a ressurreição final, na qual os homens permanecerão em seus corpos de carne e ossos perante o tribunal de Deus. ¶
Peço-vos que atentai cuidadosamente a uma das muitas declarações do Senhor a respeito de sua vinda, dadas a nós nestes dias modernos, conforme registrado na Seção 88 de Doutrina e Convênios. Em 1832, o Senhor disse a seus élderes ¶
e à Igreja em geral, por boca do Profeta Joseph: ¶
«E vos dou um mandamento, de que ensineis uns aos outros a doutrina do reino; ¶
«Ensinai diligentemente, e minha graça vos acompanhará, para que sejais instruídos mais perfeitamente em teoria, em princípio, em doutrina, na lei do evangelho, em todas as coisas pertinentes ao reino de Deus, que vos convém compreender; ¶
«Eis que vos enviei para testificar e advertir o povo, e todo aquele que for advertido deverá advertir seu próximo. ¶
«Portanto, eles não têm desculpa, e seus pecados estão sobre sua própria cabeça. ¶
«Aquele que cedo me buscar achar-me-á, e não será abandonado. ¶
«Permanecei na liberdade que vos faz livres; não vos embaraceis no pecado, mas que se conservem limpas as vossas mãos, até que venha o Senhor; ¶
«Pois em pouco tempo a terra estremecerá e cambaleará de um lado para outro, como um homem embriagado; e o sol esconderá sua face e recusará dar luz, e a lua será banhada em sangue, e as estrelas tornar-se-ão sobremodo zangadas, e se lançarão para baixo como o figo que cai da figueira. ¶
«E depois de vosso testemunho vem a ira e a indignação sobre o povo; o testemunho dos terremotos, que causará gemidos no meio dela, e os homens cairão por terra e não poderão ficar de pé. ¶
«E vem também o testemunho da voz dos trovões, e da voz dos relâmpagos, e da voz das tempestades, e da voz das ondas do mar, arremessando-se além de seus limites. ¶
«E todas as coisas estarão em tumulto; e certamente o coração dos homens lhes falhará, pois o temor virá sobre todo o povo; ¶
«E os anjos voarão pelo meio do céu, clamando em alta voz, soando a trombeta de Deus, dizendo: Preparai-vos, preparai-vos, ó habitantes da terra; pois é chegado o julgamento do nosso Deus; eis que vem o Esposo, saí ao seu encontro. ¶
«E os santos que estiverem sobre a terra, que estiverem vivos, serão vivificados e arrebatados ao seu encontro. ¶
«E os que tiverem dormido em suas sepulturas sairão; pois serão arrebatados ao seu encontro no meio do pilar do céu.» ¶
Creio em tudo isso sem questionamento nem reserva mental. E agora, sabendo que posso ser criticado por alguns, que se orgulham de sua erudição, pela ingênua simplicidade de minha aceitação e por minha crença na literalidade destes acontecimentos, digo-vos, em paráfrase das palavras de Paulo: Irmãos, não venho a vós com excelência de linguagem ou de sabedoria, anunciando-vos o testemunho de Deus. Pois estou determinado a nada saber entre vós, senão Jesus Cristo, e ele crucificado — o Cristo que há de vir. E estou convosco em fraqueza, e em temor, e em muito tremor. E minha palavra e minha pregação para convosco não são com as palavras persuasivas da sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder; para que a vossa fé não se apoie na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus. Assim seja, em nome de Cristo. Amém. ¶