A Ressurreição de Cristo e Nosso Dever em Tempo de Guerra
Charles W. Penrose
O Presidente Joseph F. Smith presidiu, e chamou a congregação à ordem às 2 horas da tarde. ¶
O coro e a congregação cantaram: "Sião se ergue cercada de colinas." ¶
A oração foi oferecida pelo Presidente Heber Q. Hale, da Estaca Boise de Sião. ¶
Um solo, "Eu sei que meu Redentor vive", foi cantado pela Sra. Lucile Wells. ¶
Significado da crucificação e ressurreição de Jesus Cristo — Grande privilégio desfrutado pelos Santos dos Últimos Dias em ser, por batismo, membros da verdadeira Igreja de Cristo — Em consequência disso, e por causa do arbítrio individual, sua responsabilidade é grande, e serão chamados a julgamento por suas obras — O caráter de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo quanto à resistência e à não resistência — O que ele exige de nós nesse assunto, e como o verdadeiro cristão deve encarar a guerra — Ele só se justifica quando luta pela liberdade e pelo direito, e mesmo assim isso deve ser feito sem paixão nem desejo de derramar sangue, mas num espírito de justiça, retidão e equidade — A paz há de prevalecer ainda, e o caminho será aberto para que os servos de Deus preguem as boas novas do evangelho às nações que se assentam nas trevas. ¶
É um grande privilégio estendido a todos nós que estamos reunidos nesta assembleia, esta tarde, poder assistir a esta conferência e nos congregarmos neste tabernáculo; e felicito todos os que estiveram presentes esta manhã por terem tido a oportunidade de ouvir o discurso de nosso amado presidente, Joseph F. Smith. Um cavalheiro presente, que não era de nossa fé e que veio do extremo leste a negócios alheios a esta conferência, declarou a um amigo aqui que valeu bem a pena atravessar o continente para ouvir aquele discurso do Presidente Smith; e eu subscrevo sua declaração, pois senti o mesmo, que, ainda que nada mais fosse apresentado a esta conferência de pessoas reunidas de várias partes destes vales montanhosos, e algumas vindas do exterior, seriam bem recompensadas por terem vindo e por terem tido o privilégio de ouvir as palavras de inspiração e instrução que nos foram transmitidas. ¶
Regozijo-me pelo privilégio, esta tarde, de me levantar e dar testemunho da verdade daquelas palavras. Penetraram fundo em minha alma. Foi verdadeiramente um tempo de regozijo, de uma efusão do Espírito de Deus; e, enquanto o mundo lá fora vive uma efusão do espírito de guerra, nós tivemos uma efusão do espírito de paz, o verdadeiro espírito de nosso Senhor Jesus Cristo, que é nossa cabeça espiritual, em cuja Igreja temos filiação. Temos a bênção de fazer parte do corpo de Cristo. Esta é a sua Igreja, nomeada em seu nome e por ele, e ainda está sob sua direção. É a Igreja de Cristo, e é ele quem nos deu as revelações por meio do Profeta Joseph Smith e de seus sucessores, particularmente aquelas coisas contidas na Doutrina e Convênios, dada a nós nestes dias para o benefício desta sua Igreja, a qual ele declarou que prevalecerá sobre todo inimigo, se o seu povo, os Santos do Altíssimo, guardar os convênios e mandamentos que lhes revelou para sua orientação presente e salvação eterna. ¶
O belo poema que acaba de nos ser cantado traz à mente algumas coisas em que eu não havia pensado especialmente hoje. Vivemos num tempo celebrado por toda a cristandade como o dia da crucificação. O próximo domingo é chamado Domingo de Páscoa, celebrado como o dia da ressurreição, e as palavras que nos foram cantadas com tanta clareza esta tarde são as palavras de um santo antigo, um dos mais antigos escritores ou profetas cujos escritos foram preservados. São as palavras de Jó, que chegaram até nós nas escrituras do Velho Testamento: ¶
"Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus" (Jó 19:25,26). ¶
Tenho-me perguntado muitas vezes como é que nossos amigos das várias seitas da cristandade moderna não perceberam a plenitude da verdade contida nessas palavras de Jó. Eles professam crer na vida após a morte; creem que, quando as pessoas morrem, vão para o céu ou para o inferno, e que Jesus Cristo morreu e depois apareceu a seus apóstolos, mas não creem que ele lhes apareceu na carne. Isso é muito estranho, quando as descrições que temos, escritas pelos apóstolos que o viram, declaram que eles contemplaram as marcas dos cravos que lhe foram pregados nas mãos sobre a cruz, e a marca da lança romana em seu lado, e ele lhes declarou que não era um mero espírito. Ele não veio a eles apenas para fazê-los crer na vida após a morte, pois já criam nisso; até os fariseus e outras seitas na Judeia criam nisso; mas ele disse: "Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho." E, não crendo eles ainda por causa da alegria, e maravilhados, disse-lhes: "Tendes aqui alguma coisa que comer?" Então eles apresentaram-lhe parte de um peixe assado, e um favo de mel; o que ele tomou, e comeu diante deles (Lucas 24:39; 24:41-43). Para que foi isso? Evidentemente para lhes demonstrar a verdade da doutrina da ressurreição dos mortos. Não meramente a verdade da doutrina da continuação da vida após a morte, a vida do espírito enquanto o corpo está na sepultura, mas a doutrina da ressurreição, o levantar-se novamente do corpo do pó. Isso deve ficar bem claro para quem lê e não tenta deturpar o sentido. ¶
Temos os testemunhos de muitos dos apóstolos no Novo Testamento; e o apóstolo Paulo, no décimo quinto capítulo do que se chama a Primeira Epístola aos Coríntios, relata as circunstâncias da morte de Cristo, de seu sepultamento e de sua ressurreição dentre os mortos, e de suas várias aparições a seus apóstolos e, depois, a quinhentos irmãos de uma só vez, e de sua ascensão ao céu. E Paulo acrescenta seu próprio testemunho pessoal de tê-lo visto, Jesus de Nazaré, ressuscitado dos mortos, e o argumento que ele apresenta a respeito da ressurreição dos mortos baseia-se nessas afirmações a que brevemente me referi. "Mas agora Cristo ressuscitou dos mortos, e foi feito as primícias dos que dormem." Ele prossegue então argumentando que, se Cristo ressuscitou dos mortos, também nós ressuscitaremos, e que, se Cristo não ressuscitou dos mortos, então estamos mortos para todos os efeitos quando deixamos nossos corpos; "mas agora Cristo ressuscitou dos mortos", foi o seu testemunho. ¶
Além dessas coisas contidas no Novo Testamento, incluindo o que o Senhor mostrou a João naquela grande visão na ilha de Patmos, temos o testemunho do Livro de Mórmon, de que Jesus Cristo apareceu neste continente aos nefitas, e lhes mostrou também as marcas dos cravos em suas mãos e a marca da lança em seu lado, para que compreendessem que a doutrina da ressurreição real dos mortos é uma doutrina verdadeira, e que, por ter sido ressuscitado, ele se tornou aquilo que a si mesmo proclamou ser, "a ressurreição e a vida", declarando com isso a doutrina de que viria o tempo em que "todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz, e sairão: os que fizeram o bem, para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal, para a ressurreição da condenação" (João 5:28,29). Ora, nestes últimos dias, temos o testemunho de Joseph Smith e Sidney Rigdon, na 76ª seção da Doutrina e Convênios, de que eles também contemplaram Cristo à destra de Deus, o Redentor ressuscitado, tendo poder para trazer outros do sepulcro, e que por ele e por meio dele, segundo sua devida ordem, toda a raça humana será ressuscitada. Todos os filhos e filhas de Adão e Eva hão de ser ressuscitados dentre os mortos na ordem preparada, para entrarem em algum grau de glória, se para isso forem dignos, enquanto poucos habitantes da terra, tendo recebido a luz e depois lutado contra ela, tendo obtido o espírito que vem daquele maligno que tem o poder da morte; tendo em suas almas o desejo de derramar sangue e tendo realizado esse desejo, pecando contra o Espírito Santo, pecando contra os mais sagrados convênios que os homens podem fazer, não podem entrar na glória, mas ainda assim também eles hão de ser ressuscitados e ir para seu devido lugar, conforme relatado na octogésima oitava seção da Doutrina e Convênios. Temos o testemunho de outros, alguns ainda vivos, que viram o Senhor, o Salvador, o Cristo ressuscitado dentre os mortos; em visão o viram. Todos esses testemunhos, somados, constituem um maravilhoso corpo de evidências a respeito da realidade da ressurreição dos mortos. ¶
Ora, nós que aqui nos reunimos, nós, Santos dos Últimos Dias, como já disse, pertencemos à sua Igreja. Ele a fez, ele a estabeleceu, ele a controla, seu Espírito está nela, e é por esse Espírito que todas as revelações registradas em seu nome foram dadas; e agradeço a Deus que também é por esse Espírito que ainda somos guiados, não apenas pela inspiração dada a nossos líderes, mas pela inspiração dada a cada um de nós em nossa própria alma, se de fato recebemos a verdade e caminhamos em sua luz. Pois o Espírito de Jesus Cristo repousa sobre o corpo da Igreja, e, conforme sua fidelidade e sua obediência aos mandamentos dele, são iluminados por ele através do poder do Espírito Santo, que procede da presença de Deus por toda a imensidão do espaço, pelo qual ele os compreende, pelo qual seus olhos podem penetrá-los a todos; sendo ele mesmo, no seio da eternidade, uma personalidade, conforme testificado pelo Presidente Smith esta manhã, um ser à cuja semelhança fomos formados, que é o pai literal, assim como o Pai espiritual, de Jesus de Nazaré, que é nossa cabeça viva, que é a cabeça desta Igreja, e cujo Espírito nela habita e ilumina todos os que estão dispostos a receber a luz. ¶
Que privilégio abençoado é o que desfrutamos como Santos dos Últimos Dias, o de sermos batizados nele, não apenas nascidos da água por sermos batizados na água, mas envolvidos, batizados, revigorados, iluminados pelo poder daquele Espírito Santo que vivifica todas as coisas por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor! E é a ele que reconhecemos como nosso Salvador e nosso Redentor, e é para ele que olhamos, esperando nossa ressurreição, no tempo devido, dentre os mortos, para comparecermos diante de Deus e prestarmos contas dos atos praticados no corpo mortal. Isto é algo que merece reflexão. Somos seres responsáveis, e por isso o Senhor nos fará prestar contas de nós mesmos e comparecer para sermos julgados por nosso registro. Somos responsáveis porque a responsabilidade nasceu em nós em nosso primeiro estado espiritual, em nossa pré-existência — o poder da volição, o poder do arbítrio. Aquele que possui arbítrio próprio tem em seu ser, nascido do Pai Eterno, o poder, não apenas de volição, mas o poder de escolha, o poder de escolher entre o bem e o mal, o poder de rejeitar o bem ou o mal, e, no exercício disso, é responsável por tudo o que faz, e dessa responsabilidade decorre a doutrina do juízo eterno, de modo que toda a humanidade será julgada "segundo as suas obras, pelas coisas escritas nos livros." Que tipo de livros sejam não importa muito, apenas serão livros que conterão nosso registro, e nosso registro será trazido à luz, e conforme forem nossos feitos, assim seremos; conforme forem nossos atos, assim somos. Se fazemos o mal, impressões más vêm naturalmente, e se amamos fazer o bem, uma boa influência, um bom espírito, está conosco, ao nosso redor e em nosso ser, e por eles somos sustentados e amparados; e se somos corruptos, ímpios, abomináveis e rebeldes, os efeitos de nossos atos estão bem ali em nossa própria natureza, e essas coisas serão reveladas tão naturalmente quanto se abrissem livros feitos de papel e escritos com tinta. ¶
Estes são pensamentos sérios que devem vir-nos nesta época do ano. Se as datas que as pessoas fixaram são exatamente corretas ou não, pouco importa. Este é o tempo da crucificação, do sepultamento e da ressurreição dentre os mortos do maior Ser que já andou sobre esta terra, o primogênito de Deus em espírito, o Filho Unigênito na carne, o Redentor do mundo, o Salvador da humanidade, a quem adoramos e em cujo nome adoramos o Deus verdadeiro e vivo. Jesus Cristo, nosso Redentor, teve a bondade de revelar grande número de verdades esplêndidas e gloriosas, e de nos dar muitas instruções para nossa conduta, sobre o que devemos fazer como membros de sua Igreja, e temos oportunidades de aprender essas coisas. Muitas delas estão escritas nos livros que são impressos, e poderíamos lê-las se as tivéssemos à mão. Devíamos tê-las em nossos lares — a Bíblia, o Livro de Mórmon, a Doutrina e Convênios, a Pérola de Grande Valor e as diferentes publicações que nos são dadas para nossa orientação e direção. Nelas podemos aprender a respeito de nosso Pai nos céus e a respeito de Jesus Cristo, nosso Redentor, e todas as revelações que temos para nossa orientação e direção vieram dele. Isto é o que lemos nas revelações da Doutrina e Convênios: "Dai ouvidos à voz de Jesus Cristo, o Grande Eu Sou." ¶
Ora, o caráter de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é por vezes mal compreendido e mal interpretado, mesmo por aqueles que leem a seu respeito no Novo Testamento. Sei que, quando eu era menino e ia à Escola Dominical, costumávamos cantar: "Manso Jesus, brando e suave, olha para mim, uma criancinha." Isso era muito bom, até certo ponto. Ele era manso e humilde de coração. Era bondoso e afetuoso e cheio de amor e caridade, de desejo de abençoar, de erguer, de exaltar. Essa era sua natureza e seu espírito, e ele é chamado o Príncipe da Paz e o Cordeiro morto desde a fundação do mundo, semelhante a um cordeiro em seu caráter, semelhante a um cordeiro quando foi levado ao matadouro, e "como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim não abriu a sua boca" quando foi falsamente acusado; manso de caráter, disposto a perdoar seus mais amargos inimigos, como manifestou quando esteve na cruz. Mas havia outro lado em seu caráter. Ele ensinou que, sob certas condições, as pessoas deveriam estar dispostas a perdoar, e que, ao serem feridas numa face, oferecessem a outra. ¶
Isso me faz lembrar de um episódio ocorrido quando eu servia numa missão em Londres, há muitos e muitos anos: tínhamos ali um velho cavalheiro que fora soldado. Era veterano de guerra e pregava o evangelho de Jesus Cristo nas ruas. Um homem se aproximou e lhe deu um tapa no rosto. "Ora", disse ele, "se sois cristão, oferecei a outra face." Então o velho ofereceu a outra face, mas disse: "Bata de novo e cairá ao chão." E teria caído, de fato, se o outro batesse novamente. É verdade que Jesus Cristo ensinou que a não resistência era certa, louvável e um dever sob certas circunstâncias e condições; mas basta olhar para ele quando entrou no templo, quando fez aquele açoite de cordas, quando expulsou os cambistas e virou suas mesas, e lhes disse que saíssem da casa do Senhor! "A minha casa será chamada casa de oração", disse ele, "mas vós a tendes convertido em covil de ladrões." Saí daqui! Ouvi-o clamar: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito, e depois de o terdes feito, o fazeis dez vezes mais filho do inferno do que era antes." Esse era o outro lado do espírito de Jesus. Jesus não era nenhum fracote. Não era homem para ser pisado aos pés. Estava pronto a submeter-se quando chegasse a hora de seu martírio, e havia de ser pregado na cruz como sacrifício pelos pecados do mundo, mas estava pronto, a qualquer momento, para defender seus direitos como homem. Ele não é chamado apenas "o Cordeiro morto desde a fundação do mundo", mas também "o Leão da Tribo de Judá", e será visto, com o tempo, como terrível para com seus inimigos. ¶
Ora, embora não sejamos particularmente obrigados a seguir o padrão do lado "leão" de seu caráter, a menos que se torne necessário, o Senhor não espera que nos submetamos a ser pisados por nossos inimigos e nunca resistamos. O Senhor não quer que incutamos o espírito de guerra nem o espírito de derramamento de sangue. Na verdade, ele nos ordenou que não derramássemos sangue, mas há tempos e ocasiões, como podemos encontrar na história do mundo, na Bíblia e no Livro de Mórmon, em que é justificável, correto, apropriado e dever dos homens saírem em defesa de seus lares e de suas famílias, e manterem seus privilégios e direitos pela força das armas. Sobre este assunto eu poderia ler-vos algo, se houvesse tempo suficiente, mas podereis lê-lo vós mesmos quando chegardes em casa. Lede a 101ª seção da Doutrina e Convênios, depois lede a 98ª seção. ¶
Na seção 101 o Senhor fala sobre a constituição desta terra. Diz que foi elaborada por homens sábios que ele levantou justamente para esse propósito. Para quê? Para manter os direitos e privilégios "de toda a carne". Não somente do povo desta terra. Os princípios daquele grande instrumento hão de estender-se às nações, e virá o tempo em que hão de prevalecer, tão certo quanto o sol brilha, ainda que pareça estar nas trevas e cercado de nuvens. E o Senhor diz, a respeito da obra daqueles grandes homens: "E redimi a terra pelo derramamento de sangue." Derramamento de sangue! Permite o Senhor o derramamento de sangue, e o justifica? Sim, às vezes o faz. Não foi justificável a guerra de independência deste país? Não foram os direitos e privilégios do povo desta terra pisoteados, e não se levantaram eles com seu vigor, e o Deus das batalhas não fortaleceu seus braços, e não saíram eles rumo à vitória, trazendo a liberdade não apenas para si e para suas famílias imediatas, mas para multidões vindas da Europa oprimida, que hoje se regozijam sob as Barras e Estrelas com liberdade de consciência, liberdade de expressão e liberdade de ação, dentro da devida orientação e direção de uma lei justa? Estes princípios hão de estender-se a toda a carne. Não vos esqueçais disso. Virá o tempo em que serão levados a todas as nações da terra, e elas serão libertadas dos tiranos e opressores. ¶
Na seção 98 o Senhor dá a lei que deu em tempos antigos a seu povo, quando este devia sair à batalha: é, em substância: "Se teu inimigo vier contra ti, tu o perdoarás; se vier de novo pela segunda vez, tu o perdoarás; e, se ele vier ainda pela terceira vez e tu o perdoares, isso te será reputado para glória, mas, se ele vier de novo, eu, o Senhor, te justifico em sair à batalha, e eu te fortalecerei, e eu pelejarei tuas batalhas." Ora, a grande distinção que devemos compreender é que podem surgir circunstâncias que exijam um preceito diferente daquele dado num tempo, quando chega outro tempo. No capítulo 22 de Lucas, lereis que Jesus, pouco antes de ser levado pelos homens que vieram trazê-lo perante o tribunal, clamou a seus apóstolos: "Quando vos mandei sem bolsa, sem alforje, e sem sandálias, faltou-vos porventura alguma coisa? E disseram: Nada." Disse-lhes, pois, mas agora, "aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e o que não tem espada, venda a sua capa e compre-a" (versículos 35, 36). Pois bem, alguns talvez digam, então, que o Senhor é um ser mutável. De modo nenhum. O Senhor sempre foi assim. Desde as eternidades passadas até o presente, quando as circunstâncias mudam, ele adapta suas leis a essas condições e dá a seu povo conselho e instruções adequados aos tempos e às circunstâncias. ¶
Ora, nesta 98ª seção de que falei, o Senhor diz que esta foi a palavra de orientação a seus servos nos tempos antigos, quando lhes disse que saíssem à batalha pelo direito, e lhes deu mandamentos para assim fazerem, e podemos ler a respeito disso no Velho Testamento, e ele diz: "esta é uma lei para todo o povo, para toda a carne", de modo que as circunstâncias alteram os casos, como diz o velho provérbio. Ora, se uma nação se dispõe a sair contra outra nação com o propósito de conquista, para obter território, para apoderar-se de algo que não lhe pertence, então a nação assim atacada tem o direito de resistir, até ao derramamento de sangue, como sucedeu nesta terra na guerra de independência. Mas devemos ter cuidado quanto a que espírito nos guia. Se quisermos sair à batalha para usurpar as liberdades e os direitos de outros povos, para obter suas terras, para destruir sua propriedade sem qualquer direito ou razão, isso é uma coisa; mas se alguém vier contra nós para nos destruir, e a nossa propriedade, e nossos lares, e nossos direitos e privilégios, seja em terra ou em mar, então temos o direito, sob a lei divina, de nos levantar por nossa própria proteção e de tomar as medidas que forem necessárias. Mas, como fomos exortados esta manhã por nosso Presidente, nós, Santos dos Últimos Dias, devemos vigiar-nos e não ceder à paixão e ao desejo de derramar sangue e de destruir, pois isso é o poder do maligno. Não queremos imitar nenhuma nação empenhada numa política de destruição, de destruir onde não pode governar, de derrubar e pisotear onde não pode dominar. Se tivermos esse desejo, é o espírito do maligno. ¶
Mas quando chegar o tempo em que nós, como parte desta grande nação, formos chamados pelos governantes e líderes dos negócios do país, e eles estiverem justificados no rumo que seguem, então, penso, seremos obrigados a permanecer ao lado deles pelos direitos da nação de que fazemos parte, e a cumprir nosso dever, mas a fazê-lo no espírito que o Presidente nos mostrou esta manhã, o verdadeiro espírito de Jesus Cristo, desejando que a humanidade se arrependa, desejando que se afaste de seus maus caminhos, desejando que seja trazida a uma condição em que deseje a paz. Mas, enquanto se levantarem contra nós e buscarem nossa destruição, não é nosso direito, nosso privilégio, como cristãos, sim, como Santos dos Últimos Dias, defender esses direitos, defender nossos lares, nossas esposas, nossos filhos, nossos bens, tudo o que adquirimos licitamente? Mas não sair mesmo contra nossos inimigos desejando sua destruição, e encharcar a terra com mais sangue, devastar e trazer miséria e aflição por meio de conquista em outras terras; de modo nenhum; e podemos diferenciar entre as duas condições. Há uma diferença muito grande entre levantar-se para sair em conquista, por sangue, por saque, para obter território e poder na terra, e lutar para defender nossos próprios bens no espírito de justiça, retidão e equidade, defendendo, como homens, aquilo pelo qual temos o direito de contender. ¶
Ora, creio que esse é o espírito de Jesus Cristo, ao considerá-lo pessoalmente sob os dois lados de seu caráter. Ele era um homem poderoso. Era homem, para todos os efeitos, em todo particular, o Filho do Deus vivo, a própria imagem expressa de seu Pai e nosso Pai, seu Deus e nosso Deus, que algum dia governará este mundo, e Jesus, o Cristo, o Filho do Deus vivo, será nosso Rei, e o seguiremos aonde quer que nos conduza. Esse tempo há de vir. Como Isaías predisse: "Eis que reinará um Rei em justiça, e os príncipes governarão segundo o juízo" (Capítulo 32). Irmãos e irmãs, esse tempo está para vir, e a obra em que vós e eu estamos empenhados é preparar o caminho, e o espírito que deve estar em nossos corações é o espírito de retidão, pois é isso que trará a paz. Nunca haverá paz a reinar no mundo até que a retidão se estabeleça; conhecimento reto, vida reta, atos retos, objetivos retos, união reta, fé unida. Quando esse dia raiar, Cristo virá e será nosso rei, e lemos que "o efeito da retidão será a paz." ¶
É isso. O efeito da retidão será a paz, mas, enquanto a iniquidade, o despotismo, a tirania e a desigualdade quanto aos direitos dos homens persistirem no mundo, haverá guerras e rumores de guerras, e haverá destruição, tristeza e dor, e nação se levantará contra nação, e reino contra reino, e haverá aflição, como o Senhor predisse, como nunca houve antes na terra. Se não estivermos nos aproximando muito daquele tempo, muito me engano, mas minha crença pessoal é que o Senhor há de sobrepujar. O Senhor não mata as pessoas, o Senhor não diz às nações que se levantem e façam conquistas, mas o Senhor está entronizado acima, e, enquanto muitos dos habitantes da terra fazem seus planos, "aquele que habita nos céus", como diz o salmista, "se rirá", e virá o tempo em que ele há de reverter todos os seus planos e artifícios, e voltá-los para cumprir seus próprios propósitos divinos, e a guerra será vencida, ainda que apenas por um tempo, e a paz há de prevalecer, e o caminho se abrirá para que os servos de Jesus Cristo saiam no poder e no espírito do santo sacerdócio, e publiquem as boas novas de grande alegria, reveladas do céu nestes últimos dias a todo o povo, e milhares e milhares se converterão ao Senhor, e se arrependerão, e se curvarão em humilde submissão à sua vontade. E o caminho será preparado para o estabelecimento de Sião, em toda a sua força, beleza e glória, e ela será revestida de tudo o que é adorável, e Cristo, nosso Redentor e seu rei, virá e "reinará no monte Sião, e em Jerusalém, e perante os seus anciãos em glória." Que Deus nos ajude a todos a cumprir nosso dever, e a realizá-lo conforme o Senhor houver de dirigir por meio de Jesus Cristo. Amém. ¶
O coro e a congregação cantaram o hino: "No alto do monte." ¶