O primeiro requisito num servo
Orson F. Whitney
"Eu irei aonde queiras que eu vá, querido Senhor, sobre montanha, planície ou mar, direi o que queiras que eu diga, querido Senhor, serei o que queiras que eu seja." ¶
Este pequeno verso encerra, a meu ver, o verdadeiro espírito de um Santo dos Últimos Dias, o espírito que deveria mover todo homem e toda mulher na Igreja de Deus. É o espírito do evangelho, cujo divino Autor não veio para fazer a sua própria vontade, mas a vontade do Pai que o enviou. Eu costumava pensar que o primeiro requisito num servo do Senhor — digamos, um bispo — era que fosse um homem de negócios capaz, e ainda creio que a capacidade para os negócios é um trunfo muito valioso num bispo desta Igreja. ¶
Mas aprendi que esse não é o primeiro requisito. O primeiro requisito num bispo sempre foi, e sempre será, que ele manifeste disposição para servir a Deus. Eu costumava pensar que o primeiro requisito num apóstolo era que fosse um pregador e um escritor, e que fosse a algum lugar; mas também revi minha opinião nesse ponto. O primeiro requisito num apóstolo é que seja um trabalhador disposto para Deus, que vá aonde for enviado, que permaneça onde for colocado, que diga o que o Senhor quer que diga, que seja o que o Senhor quer que seja, que vá e venha conforme dirigido pela autoridade própria, e que faça tudo o que o Senhor exigir de suas mãos. Este é o espírito que deveria animar e inspirar todo membro da Igreja de Cristo. ¶
Um dos principais propósitos pelos quais o homem foi colocado sobre a terra foi demonstrar se faria, ou não, tudo o que o Senhor lhe exigisse. Em confirmação dessa afirmação, ler-vos-ei uma passagem das escrituras, uma das mais abrangentes que se podem encontrar em quaisquer escritos sagrados, antigos ou modernos: ¶
"Ora, o Senhor mostrara a mim, Abraão, as inteligências que foram organizadas antes de o mundo existir; e entre todas essas havia muitas das nobres e grandes; e Deus viu que essas almas eram boas; e ele estava no meio delas e disse: A estes farei meus governantes; pois ele se encontrava entre aqueles que eram espíritos, e viu que eles eram bons; e disse-me: Abraão, tu és um deles; foste escolhido antes de nasceres. ¶
"E estava entre eles um que era semelhante a Deus; e ele disse aos que se achavam com ele: Desceremos, pois há espaço lá, e tomaremos destes materiais, e faremos uma terra onde estes possam habitar; ¶
"E assim os provaremos para ver se farão todas as coisas que o Senhor seu Deus lhes ordenar; ¶
"E os que guardarem seu primeiro estado receberão um acréscimo; e os que não guardarem seu primeiro estado não terão glória no mesmo reino que aqueles que guardarem seu primeiro estado; e os que guardarem seu segundo estado terão um acréscimo de glória sobre sua cabeça para todo o sempre." ¶
A passagem que li é do Livro de Abraão, traduzido pelo Profeta Joseph Smith a partir de papiros encontrados sobre múmias exumadas das catacumbas do Egito. Este livro foi, há alguns anos, objeto de um ataque polêmico bastante acirrado, tendo sua autenticidade sido posta em dúvida por um erudito cavalheiro que então residia entre nós. Suas críticas foram respondidas por vários de nossos irmãos, e as respostas foram publicadas na imprensa diária. ¶
Posteriormente, conversei com esse cavalheiro, e ele me perguntou por que eu não lhe havia respondido. Eu lhe disse que vinha lhe respondendo por todo o país onde havia viajado, mas que minha resposta não chegara a sair nos jornais. "Ah, é mesmo?", disse ele, "e o que o senhor tem estado a dizer?" ¶
"Tenho dito o seguinte, em substância: que não importa onde a verdade seja encontrada, seja nas catacumbas do Egito, seja nos montículos da América do Norte; seja que venha pelos lábios de um sábio antigo ou de um vidente moderno; que não importa quem a traduz, nem quantas imperfeições a tradução possa apresentar; que a verdade é verdade; e que o melhor critério de julgamento, ao se avaliar a autenticidade de qualquer obra literária, é o espírito e o caráter de seus ensinamentos." Disse ele: "Concordo com o senhor; esse é o melhor padrão pelo qual julgar a autenticidade de tal obra." "Então", afirmei eu, "o Livro de Abraão não precisa de defesa. Ele fala por si mesmo. Manifesta sua própria divindade; pois ninguém senão Deus poderia ter transmitido ensinamentos tão esplêndidos, num espírito tão majestoso e sublime, como os que este livro contém." ¶
Há algo em todo grande autor que se imprime em seus escritos e os torna peculiares, ou característicos de si mesmo. Há uma ressonância shakespeariana nos escritos de Shakespeare; há uma ressonância byroniana na poesia de Lord Byron; e uma ressonância miltoniana nas obras de Milton; e qualquer especialista em literatura sabe distingui-las. Muitos poetas descreveram o nascer do sol, mas quando um deles diz: ¶
"As velas da noite se apagaram, e o dia jovial fica na ponta dos pés sobre os cimos brumosos das montanhas," ¶
sabemos que foi Shakespeare quem falou; e nenhum outro poeta poderia tê-lo expresso exatamente dessa maneira. Outro invoca a Deus por inspiração, ¶
"Para que, à altura deste grande tema, eu possa afirmar a providência eterna, e justificar os caminhos de Deus para os homens." ¶
Os versos são de Milton, e o estilo é peculiar àquele poderoso filho do canto. O mesmo se dá com todos os grandes escritores. A criação testifica do criador. Será, então, de surpreender que, quando Deus fala, haja algum traço distintivo que caracterize a expressão e a torne diferente de qualquer expressão de homem mortal? Há um espírito, uma qualidade indescritível, um poder divino na palavra de Deus que não pode ser falsificado com êxito. Os homens têm tentado falsificá-la, mas têm fracassado ignominiosamente. ¶
Nos primeiros dias desta Igreja, certos membros que julgavam ter feito o Profeta Joseph, por terem tido um pouco mais de instrução do que ele, presumiram sentar-se em juízo sobre as revelações que ele havia recebido do Senhor Jesus Cristo. O Senhor, por meio do Profeta, lhes revelou os pensamentos de seus corações nestas palavras penetrantes: ¶
"Vossos olhos têm estado sobre meu servo Joseph Smith Júnior, e sua linguagem e suas imperfeições vós conheceis e em vosso coração tendes procurado conhecimento para exprimir-vos em melhor linguagem do que ele; isto também sabeis. ¶
"Ora, no Livro de Mandamentos procurai o menor deles e escolhei o mais sábio dentre vós; ¶
"Ou, se houver entre vós alguém que produza um semelhante, então sereis justificados em dizer que não sabeis se são verdadeiros; ¶
"Mas se não conseguirdes produzir um semelhante, estareis sob condenação se não testificardes serem eles verdadeiros." — Doutrina e Convênios, 67:5-8. ¶
Pois bem, um deles, que se julgava o mais sábio e possuía alguma instrução, aceitou o desafio e de fato tentou formular uma revelação; mas foi um fracasso completo. Pôde, é claro, proferir certas palavras e desfiar uma massa de retórica; mas faltava-lhe o espírito divino, e teve de reconhecer-se derrotado. ¶
Não é tão fácil infundir o espírito de vida nas coisas. O homem pode fazer o corpo, mas só Deus pode criar o espírito. Já ouvistes falar, não é verdade, daquele cientista que tomou um grão de trigo e procurou fazer outro exatamente igual? Primeiro separou o grão de trigo em seus componentes, e descobriu que continha tanto de cal, tanto de sílica, tanto deste elemento e daquele; e então tomou outras substâncias correspondentes, reuniu-as por meio de sua perícia química, e produziu um grão de trigo tão exatamente semelhante ao outro que o olho natural não conseguia detectar diferença alguma entre eles. ¶
Mas havia uma diferença, uma vasta diferença, e ela se manifestou quando ele plantou os dois grãos. O que Deus fizera germinou, e o que o homem fizera permaneceu embaixo da terra. Por quê? Porque o grão de trigo feito pelo homem não tinha espírito — apenas um corpo, e o corpo sem o espírito está morto. O homem não pode soprar nas coisas o fôlego da vida; essa é função e prerrogativa da Divindade. Não é tão fácil formular revelações de Deus. Certo fanfarrão vaidoso, ridicularizando os provérbios de Salomão, disse: "Qualquer um pode fazer provérbios." Seu amigo respondeu: "Experimente alguns", e a conversa terminou ali. ¶
Voltemos agora ao tema da disposição, mencionado no Livro de Abraão. Repito que a disposição para servir a Deus é, manifestamente, o primeiro e principal requisito de um Santo dos Últimos Dias. ¶
Certo espirituoso declarou que o automóvel está rapidamente dividindo a raça humana em duas grandes classes — "os vivos e os mortos" (Risos). Mas, muito antes de se pensar no automóvel, já havia uma influência em ação separando as ovelhas dos bodes, dividindo a humanidade em duas grandes classes — os dispostos a fazer o bem, e os decididos a fazer o mal. Mesmo na Igreja de Deus esse espírito se manifesta. O evangelho nos torna dispostos a fazer tudo o que o Senhor exige; e nesse espírito se pode confiar. Quando somos dominados pela influência oposta, é sinal certo de que estamos patinando onde o gelo é fino, e é melhor passarmos para o outro lado do lago. O espírito do evangelho é otimista; confia em Deus e vê o lado bom das coisas. ¶
O espírito oposto, ou pessimista, arrasta os homens para baixo e para longe de Deus, vê o lado sombrio, murmura, se queixa, e é lento em render obediência. Conta-se a história de dois baldes que pendiam num poço, cada um numa extremidade de uma longa corrente, de modo que, quando um subia, o outro descia, e vice-versa. Ambos tiravam água do poço, ambos faziam precisamente o mesmo tipo de trabalho, mas um dos baldes era otimista, e o outro pessimista. O balde pessimista queixava-se de sua sorte, dizendo: "Não importa quão cheio eu suba, sempre volto vazio." O balde otimista, com um sorriso radiante, retrucava: "Não importa quão vazio eu desça, sempre volto cheio" (Risos). Vede, pois, quanto depende do espírito com que se encara uma coisa. ¶
Se algo alcancei em todo o curso de minha vida que mereça ser chamado de êxito, foi porque estive disposto a fazer as coisas que a autoridade legítima exigiu de mim. Nem sempre as fiz perfeitamente — admito isso francamente; mas Deus tem sido misericordioso comigo, e, apesar de minhas falhas, fiz o bastante para mostrar-lhe que ao menos estava disposto a fazer o que ele exigia, e certa medida de êxito se seguiu. Quando fui chamado para minha primeira missão, eu tinha pouca experiência religiosa, mas possuía aquele primeiro requisito num servo de Deus — estava disposto a ir; e quando voltei e me pediram para servir como mestre de bloco, estive disposto a servir assim. Poucas semanas depois tornei-me bispo da ala — não porque eu quisesse, mas porque o Senhor quis, e eu estava disposto a responder ao chamado que me foi feito. Fui bispo de ala por quase vinte e oito anos; e o mais alto elogio que jamais recebi de nosso amado Presidente Joseph F. Smith, e quase o único, como bispo, foi quando ele disse ao povo de minha ala que devia haver algo de bom num homem para que pudessem "aguentá-lo" por vinte e oito anos como seu bispo (Risos). Pois bem, eles me "aguentaram" porque tiveram de fazê-lo; pois eu estava ali para ficar até que fosse chamado para outro lugar. Nunca pensei que tivesse o direito de renunciar ao meu bispado, do mesmo modo que não tinha o direito de desobrigar-me de minha missão. Minha mãe me escreveu dizendo: "Por que não voltas para casa? Todos os missionários que partiram quando tu partiste já voltaram, todos menos tu. Por que não vens?" Respondi-lhe: "Porque ainda não fui desobrigado, e ficarei até que seja desobrigado, ainda que sejam dez anos ou mais. Nunca pedirei desobrigação; jamais voltarei até que os servos de Deus digam: 'É o bastante; volta para casa.'" E eu falava sério. ¶
Tenho apreciado muito meus labores como apóstolo. Não busquei esta elevada posição, mas estive disposto a aceitar o chamado quando veio; e estou aqui hoje pronto para fazer tudo o que o Senhor exigir de mim. Nunca prometi fazer tudo o que os homens querem que eu faça; mas essa não é a exigência divina. Estamos aqui para que se veja se faremos tudo o que o Senhor exigir de nossas mãos. Estou pronto para isso, e meus irmãos também estão prontos. ¶
Há muita conversa a respeito dos deveres do Conselho dos Doze. Algumas pessoas pensam que deveríamos estar sempre "em movimento". Pois bem, estamos, sim, quase sempre "em movimento". Como o Presidente Lyman costumava observar, em seu jeito bem-humorado, "estamos em algum lugar todo domingo". Mas o problema é que não vamos suficientemente longe para satisfazer a algumas pessoas. ¶
Isso me lembra aquela história contada por Mark Twain sobre o governador de Nevada, nos primeiros tempos. Os parentes do governador acorreram a ele em grande número, e, como ele não tinha nada para lhes dar de fazer e queria livrar-se deles, colocou-os a trabalhar fazendo o levantamento topográfico de uma ferrovia "até certo ponto a leste". Saíram a fazer o levantamento e, na primeira noite, voltaram ao ponto de onde haviam partido. Fizeram o mesmo na segunda noite, e na terceira. Mas depois disso já estavam longe demais para voltar à noite, e, ficando ansiosos, mandaram avisar: "Até onde o senhor quer que vá esta ferrovia?" O governador respondeu: "Até o oceano Atlântico, danem-se vocês, depois construam uma ponte sobre ele e continuem" (Risos). Essa mensagem trouxe de volta todo o grupo. ¶
Até mesmo pessoas de fora da Igreja às vezes se preocupam com a possibilidade de nossos apóstolos não estarem sempre em algum lugar. Há dois verões, encontrei-me em Kirtland, Ohio, outrora sede da Igreja, terra natal de meu pai, e o lugar onde meus avós receberam o evangelho. Ohio foi também um dos estados onde trabalhei durante minha primeira missão. O templo de Kirtland está na posse do que se conhece como a Igreja Reorganizada, e um jovem da Virgínia Ocidental tinha a seu cargo o edifício quando lá estive pela última vez. Ele era um convertido recente àquela fé, parte da qual é crer que "a Igreja de Utah", como nos chamam, está em condição de apostasia. Estava cheio de informações e de um desejo excessivo de transmiti-las. Não sabendo quem eu era nem de onde vinha, começou a falar comigo, dizendo: "Um dos traços distintivos entre nossa igreja e a Igreja de Utah é que nossos apóstolos estão sempre em campo, enquanto os deles estão sempre em casa." Percebi que o tinha em minhas mãos (Risos). Respondi: "É mesmo? Pois eu acabo de vir de Utah, e por acaso sei que Hyrum M. Smith, um dos apóstolos da Igreja de Utah, como o senhor a chama, está agora em Liverpool, presidindo a missão europeia; e por acaso sei que Reed Smoot, outro de seus apóstolos, está em Washington, D.C., membro do Senado dos Estados Unidos; e por acaso sei que ainda outro, a saber, este seu humilde servo, está aqui a falar com o senhor no estado de Ohio." "Ah", disse ele, e mudou de assunto (Risos). ¶
Irmãos e irmãs, dou meu testemunho de que os membros do Conselho dos Doze estão hoje tão prontos como sempre estiveram para ir aonde forem enviados. Mas não viajam de um lado para outro por conta própria, independentemente da autoridade que está acima deles; e não recebem instruções de qualquer um que pense entender seus deveres melhor do que eles próprios. Estão prontos para ir e vir sob a direção da Primeira Presidência da Igreja — os servos de Deus, os únicos autorizados a dirigir seus labores. Para concluir, permiti-me ler-vos uma pequena paráfrase que compus sobre o belo verso que citei no início. Ela expressa meu espírito, minha atitude, e o espírito e a atitude de meus irmãos: ¶
"Eu irei aonde queiras que eu vá, querido Senhor, irei sempre que assim o disseres; mas até ser enviado, não hei de ir, ficarei onde queiras que eu fique." ¶