O Monte do Senhor nos Últimos Dias
Melvin J. Ballard
(Presidente da Missão dos Estados do Noroeste.) ¶
Para mim, este é um dia memorável na história, não somente do Israel moderno, mas do mundo. Nunca, desde o ano de 1820, quando o Profeta ¶
Joseph recebeu, em resposta à sua pergunta sobre qual, de todas as igrejas, era a verdadeira, a declaração divina do Senhor Jesus de que todas as denominações se haviam desviado da verdade, que tinham "aparência de religiosidade, mas negavam o seu poder", e que ele não deveria filiar-se a nenhuma delas — nunca este dia testemunhou uma jornada mais fértil em evidências da veracidade dessa declaração do que hoje. Um resumo da mudança dos credos das várias denominações religiosas, a partir do ano de 1820, convenceria qualquer pessoa de bom senso de que o Senhor disse a verdade, e que, dentre as várias denominações, houve uma revolução de pensamento e doutrina religiosa, de fé e crença, até que o homem ou a mulher que era ortodoxo no ano de 1820, se sustentasse hoje as mesmas opiniões, seria considerado culpado de heresia. Tais têm sido as maravilhosas mudanças. Mas estas mudanças talvez tenham sido tão lentas que, mesmo às nossas mentes, não apreciamos plenamente o que tudo isso significa. E, para o mundo, as mudanças podem ter sido tão lentas que o mundo não observou mudança alguma. Mas este dia, este ano, é fértil em nova evidência da veracidade daquela declaração. E, ao ouvir as observações de nosso Presidente, esta manhã, a respeito das grandes perturbações que a todos nós interessam, e ao resto do mundo, encontrei, nesta mesma coisa, um cumprimento literal, absoluto e completo das palavras do Mestre quando Ele disse: "Têm aparência de religiosidade, mas negam o seu poder." ¶
Quando percebemos que, de mil altares na Áustria, sobem, neste dia, orações ao mesmo Deus a quem os franceses adoram, os russos, os ingleses, e todos os homens cristãos prestam sua devoção; que destes altares católicos da Áustria (e a Áustria figura como uma das nações fortes do mundo, representando a grande Igreja Católica Romana) sobem orações a Deus por força para que os soldados austríacos repilam seus irmãos da Igreja Católica Grega, que avançam sobre eles com força poderosa desde a Rússia, o forte reduto dessa outra grande facção da religião cristã, a Igreja Católica Grega. E então, na Alemanha, sede do protestantismo, ao menos onde o protestantismo nasceu, onde foi protegido e prosperou, as mesmas orações são oferecidas por poder para destruir os irmãos cristãos de outra nação. Da mesma forma, na França, onde há uma mistura de protestantes e católicos, sobem orações pelo sucesso dos exércitos dos aliados. E, na Inglaterra, sede de outra facção do protestantismo, a poderosa Igreja Episcopal, ou Igreja da Inglaterra, sobem orações semelhantes; de modo que quase todas as facções, ou ao menos a grande maioria, da cristandade está representada nestas poderosas nações que se encontram nesta terrível luta. E tenho pensado no que tenho lido nas últimas semanas, perguntas que têm ressoado por todas as principais revistas, periódicos, e dos púlpitos das grandes denominações religiosas: "Terá então a cristandade fracassado, e falhado? Depois de dois mil anos, é este o fruto do Evangelho de Jesus Cristo?" Descubro que há muitos homens e mulheres que estão perdendo ¶
sua fé. Começam a questionar se há Deus; se há um Deus da religião cristã, onde Ele está? Se há um Deus, por que Ele nos abandonou? Por que Ele não fala? Por que Ele permanece em silêncio e testemunha a chacina e a destruição de incontáveis milhares de homens inocentes, dia após dia? ¶
É um bom momento para começarmos a observar se nos permitimos tornar-nos descuidados e indiferentes. Temos lido os sinais dos tempos para observar o que Deus quer dizer, que Ele está falando, que está exercendo controle sobre os destinos das nações? Que significa tudo isto? Não há razão para que os Santos dos Últimos Dias estejam em trevas, tendo em vista a luz, tendo em vista a verdade que veio ao mundo. Tudo isto significa algo para os Santos dos Últimos Dias: o cumprimento da profecia antiga e moderna, e o cumprimento da verdade da declaração feita pelo Senhor Jesus quando disse que todas as religiões do mundo, embora afirmando ser Suas, tinham apenas aparência de religiosidade, mas careciam do seu poder. Que foi feito do poder vital do cristianismo que converteria homens pagãos, que lhes ensinaria a amar a Deus, a amar seus irmãos, a aprender a controlar seus próprios sentimentos e desejos, a dominar seu temperamento e suas paixões, de modo que, ao serem feridos numa face, oferecessem a outra, e, se lhes tomassem a capa, dessem também o manto? Que foi feito da religião que produziria estes frutos? Antigamente era possível descobrir, entre os homens e mulheres cristãos que aceitavam o evangelho de Jesus Cristo, frutos desta natureza: homens que podiam, voluntária e alegremente, enfrentar a própria morte sem murmurar, sem ressentimento, deixando a vingança nas mãos de Deus. Proclamo-vos, meus irmãos e irmãs, que, em tons de trovão, ressoa por todo o mundo a evidência de que o cristianismo não é o evangelho vital, nem possui o poder e a força com que Jesus Cristo o dotou no princípio. Não digo isto para regozijar-me com a fraqueza ou os fracassos de meus irmãos de outras denominações cristãs, que lutam contra grandes dificuldades, tentando tornar a religião, por si mesma, eficaz. Tenho pesar por eles; não me regozijo com seus fracassos. Entristeço-me, porque entre eles há milhares de trabalhadores honestos que estão em desvantagem por não possuírem a verdade; e, a partir de hoje, sua luta será uma luta contra grandes dificuldades, porque se lançará contra todos os apelos para que os homens sejam cristãos o presente fracasso do cristianismo em abrandar os corações dos homens, em suavizá-los para com seus semelhantes. ¶
Talvez não haja, no mundo, guerra alguma de qualquer relevância que tenha tido tão pouca justificativa para sua existência quanto esta guerra; e, no entanto, ela vem depois destas centenas de anos de pregação do evangelho da paz. Há aparência de religiosidade sobre a Bélgica, a Alemanha, a França, a Rússia e outras nações. Há evidências de aparência de religiosidade nos milhares de torres de igrejas que se erguem aos céus, mas lamento dizer que falta a evidência do cristianismo dos homens e mulheres destas nações, como demonstrado por sua avidez em lançar-se à garganta uns dos outros com todo o veneno e a sede de sangue e destruição jamais exibidos por nações pagãs. E assim, meus irmãos e irmãs, vós, homens que estivestes no mundo pregando a restauração do Evangelho Eterno, se levantastes a voz longa e alta proclamando esta verdade, se buscastes e vos esforçastes em vossas vidas para que vossas vidas proclamassem a restauração de todo o poder, de toda a verdade com toda a sua força vital, se fizestes isto no passado, há toda evidência e ainda mais razão para que o façais mais fervorosamente, mais devotadamente hoje do que jamais o fizestes antes. ¶
Há alguns anos, um ministro cristão no Estado de Montana, uma região de nossa missão, teve os olhos abertos, e, estranho dizer, este é um tempo em que tantos homens, tendo olhos, não veem; tendo ouvidos, não ouvem, e de coração não compreendem, e estão embotados para a verdade; mas, aqui e ali, alguns homens vislumbram a situação real e têm coragem suficiente para proclamá-la. E, quando li estas palavras marcantes deste ministro cristão, impressionaram-me, e hoje sua declaração soa mais próxima da verdade, e ressoa de modo mais impressionante do que há alguns anos. Ele pergunta: ¶
"Será a igreja algo mais do que uma mera organização social? É o cristianismo de hoje a verdadeira doutrina do Cristo da Bíblia? Tem o assim chamado cristianismo de hoje algo que deva atrair mais do que qualquer outro credo que se suponha ajudar a humanidade? A comunidade cristã do presente é ruidosa em suas alegações de vasta conquista e notáveis vitórias. Somos convidados a ver sua riqueza adquirida, sua tremenda expansão, e a ouvir o estrépito de sua enorme e intrincada maquinaria. Mas, com tudo isto, sustento que o cristianismo do presente está face a face com uma lamentável perda. O cristianismo de hoje adquiriu muito, mas, ao adquiri-lo, perdeu a própria alma. Há períodos da era cristã que contemplamos com admiração e assombro. Naqueles dias, os homens eram convencidos do pecado e de um juízo vindouro. Então, o elemento mais que humano era visível em nosso credo. Homens santos tinham visões celestiais. A enfermidade era curada pelo poder espiritual. Os mortos eram ressuscitados. Homens santos falavam em outras línguas conforme o Espírito lhes concedia que falassem. As portas da prisão se abriam, e Ananias e Safira caíram sem vida aos pés dos apóstolos por brincarem com este poder. Será o elemento espiritual que tanto caracterizou aqueles dias uma relíquia antiga de algo já gasto, como uma veste? A incumbência dada aos primeiros mestres cristãos era que deviam estar imbuídos de poder do alto, e então ir e batizar todas as nações em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e aquele poder sempre se manifestava quando realizavam o ato. ¶
A religião cristã do presente é meramente um código social, e não há nela nada pelo qual possa reivindicar origem divina. É deveras lamentável contemplar a religião eclesiástica de hoje tentando salvar este mundo pecaminoso. Perdemos nosso ímã. O Cristo que disse que atrairia todos os homens a Si, se fosse levantado, é desobedecido e ignorado na multiplicidade de nossa vida eclesiástica atual. Uma vez que apresentamos ao mundo tantos substitutos do genuíno poder espiritual, estes não têm mais valor para a salvação do pecador do que teria um coração artificial para bombear sangue pelas artérias. Somos como homens tentando fazer funcionar uma máquina sem vapor. ¶
A igreja de hoje é a igreja do homem, não a igreja de Deus. Prevejo que se despedaçará como um navio contra os rochedos diante de um mar tempestuoso, nos próximos anos, a menos que haja um poderoso retorno a Deus em nossas fileiras." ¶
Creio que estes trechos deste ministro da Igreja Metodista são uma das evidências vindas de fora, de que o Senhor Jesus disse a verdade ao Profeta Joseph Smith no ano de 1820, e digo que este ano está trazendo a melhor evidência já produzida para prová-lo. Quando desejo julgar o mundo, como agora digo que deve ser julgado, por seus frutos, para demonstrar se de fato possuem, ou não, o evangelho do Senhor Jesus Cristo, sinto que o assim chamado "mormonismo", ou o evangelho do Senhor Jesus Cristo, tal como proclamado pelos Santos dos Últimos Dias, deve suportar a mesma prova. Aplicando essa prova, pergunto-vos: será possível que se tenha produzido uma comunidade de pessoas, reunida de todas as nações da terra, uma raça de homens e mulheres que, em suas vidas, estão demonstrando produzir os frutos do evangelho da paz e da boa vontade para com seus semelhantes, e que não sejam acusáveis das coisas de que acusamos as denominações cristãs? Olhando, num breve e rápido relance, para a história do passado, vêm distintamente à nossa mente as severas provações pelas quais passaram os Santos dos Últimos Dias, dando-lhes a oportunidade de demonstrar se podiam, ou não, resistir às inclinações naturais da carne de lutar e retaliar, olho por olho, dente por dente. Voltai aos dias de Illinois, aos dias do Missouri, quando foram expulsos do Condado de Jackson, quando foram por fim expulsos do Estado do Missouri, ou ao período em que o profeta foi levado e injustamente aprisionado e vilmente assassinado na prisão de Carthage, no Estado de Illinois. Não obstante os Santos dos Últimos Dias estivessem em grande número em Nauvoo, e Carthage tivesse apenas duas mil almas, havia em seus corações espírito de assassinato ou de retaliação? ¶
Lembro-me de, numa visita à cidade de Carthage, ter encontrado um homem, já então um senhor idoso, que fora testemunha do martírio do profeta. Disse ele que, ao regressar de transportar para fora da cidade de Carthage os registros do condado, por temor de que os "mórmons" descessem a Carthage e os destruíssem, encontrou homens, mulheres e crianças fugindo em todas as direções, temendo a ira dos "mórmons". Disse que, quando chegou a Carthage, restavam ali apenas cerca de seis famílias; todos os demais haviam fugido. ("Fogem os ímpios, sem que ninguém os persiga.") Temia-se que os "mórmons" viessem. Sabia-se que se dera justa provocação, e que, se de fato tomassem a vingança em suas próprias mãos e descessem para fazer justiça, isso teria sido apenas o curso normal dos acontecimentos. E então, na noite seguinte, foi-lhe permitido ir com seu pai e outros, em direção a Nauvoo, com os corpos do Profeta Joseph e de Hyrum Smith, e ele disse: "Encontramos os 'mórmons', mas eles não portavam armas. Encontramo-los, vinte mil deles, alinhados na rua que sai de Nauvoo para Carthage, com as cabeças descobertas, chorando a perda de seus mortos, e murmurando ao longo de todo o caminho as palavras: 'Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor'." ¶
Afirmo que, ao longo de toda a nossa existência, temos dito: "Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor." E tem nascido e se formado em nosso espírito, quando rapazes e moças, a disposição de disciplinar nossas almas impulsivas. Quando vamos ao campo missionário e nos batem a porta na cara, somos insultados e maltratados, temos sido ensinados, pelo espírito do evangelho, a retirar-nos a sós e dizer: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." Temos sido levados a amá-los, ainda que nos odeiem. ¶
Nunca vi, entre o clero, ou entre os homens do mundo, evidência do poder do Senhor Jesus Cristo de amar os inimigos, como exibido na vida dos Santos dos Últimos Dias. Nossos pais e mães têm dado um esplêndido exemplo aos rapazes e moças desta Igreja; e, uma vez que a luta não terminou, e a batalha ainda está em curso, apelo a vós, que o dia está vindo em que se vos dará uma grande oportunidade de exibir e mostrar diante do mundo a fortaleza e o poder que há no evangelho restaurado de Jesus Cristo. Não de vossos sermões públicos, não da publicação de vossa palavra e mensagem, mas de vossas vidas surgirão as evidências para convencer os homens da verdade. E, quando olharem o mundo e virem o naufrágio e a ruína que se operou nos próprios centros do cristianismo moderno, buscarão algo mais poderoso para efetuar a salvação e a paz dos homens. Quando seus olhos pousarem sobre esta comunidade, estabelecida como uma cidade sobre um monte, cuja luz brilhará e dirigirá a atenção do mundo, dirão: "Que é isto?" "Vinde, subamos ao monte da casa do Deus de Jacó, para que aprendamos os Seus caminhos e andemos em Suas veredas." Tal será a declaração dos retos de coração, nos anos ainda por vir, e apelo a vós, meus irmãos e irmãs, para que, a partir de hoje, vivais mais de acordo com o padrão que foi estabelecido, e vivais à altura do que o evangelho ensina. ¶
Os melhores de nós jamais obtiveram do evangelho o que o evangelho daria, e digo que haverá uma oportunidade como nunca antes foi dada, para demonstrar de modo prático o que é o evangelho. Há numerosas evidências que deveriam inspirar e influenciar todo rapaz e toda moça, e todo homem e mulher, de que aqui está a verdade. Não importa quais desânimos encontremos — e às vezes nos desanimamos, e às vezes nos ofendemos, e às vezes nos afastamos como alguns Santos de outrora se afastaram de Jesus. Ele os contemplou com ternura, ao se afastarem, e disse aos apóstolos: "Quereis vós também retirar-vos?" Ele lhes ensinara doutrina difícil de observar; exigia sacrifício pessoal e abnegação. Se assim tentados, espero que digamos como disse Pedro: "Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna." E desejo perguntar a todo rapaz e toda moça, e a todo membro da Igreja, se chegar o dia da provação, e vos sentirdes ofendidos, magoados, e sentirdes que alguém não vos tratou como deveria — quero que pergunteis: "Para onde ireis?" Perguntai a vós mesmos: "Há um porto de descanso para vós fora da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias?" E não deveríamos estar dispostos a ser fiéis, ainda que venham provações? Ella Wheeler Wilcox disse: "Era fácil ser agradável quando o mundo corria como uma canção, mas o homem que vale a pena é o homem que sorri quando tudo corre terrivelmente mal." Parafraseio suas palavras. É bastante fácil sermos membros da Igreja quando tudo o que pedimos, cobiçamos e desejamos nos vem; quando, se pedimos prosperidade, ela vem; quando nossos enfermos jazem à beira da morte e oramos por eles e apelamos a Deus, e são curados. Estamos então bem dispostos a ser membros da Igreja. É fácil para nós quando nossos irmãos são todos muito agradáveis, e não há perturbação, e temos nossa própria vontade e caminho; é fácil, então, sermos membros da Igreja. ¶
Mas o homem que vale a pena, o homem que sobreviverá, é o homem que suportará as decepções da vida, o homem ou a mulher que permanecerá firme diante de desastres pavorosos. A morte vem, e não a vida, quando buscais a vida; quando desejais prosperidade, somos provados com pobreza, com aflição e com as tentações do mundo. É então que vem a prova, e a força deve ser demonstrada; é então que se precisa de verdadeira coragem, amor e fidelidade para crer na verdade e vivê-la. E assim, não obstante tenhamos dificuldades e obstáculos, aqui está a verdade. Devemos aprender cedo a saber que é a verdade, que podemos confiar em Deus, aconteça o que acontecer, para que possamos permanecer inabaláveis, não importam quais pequenas dificuldades pessoais, obstáculos, censuras ou queixas possamos ter. Devemos ter tal confiança e fé perseverante que, se não formos feitos bispo da ala, ou conselheiro do bispado, ou presidente de estaca, ainda assim seremos fiéis, tão fiéis e leais quanto um membro comum da Igreja. Minha glória, meu céu, virá por meio de meu trabalho individual, e devo estar disposto a confiar nEle, quer eu tenha minha própria vontade, quer não. ¶
Tenho pensado que o amor demonstrado por nosso Pai Celestial para com Seu povo, para com o mundo, e especialmente para com os Santos dos Últimos Dias, era suficiente para nos sustentar, aconteça o que acontecer. E, ao olhar para trás, sobre a experiência desta Igreja, suas provações e dificuldades têm sido muitas, e, no entanto, destas muitas dificuldades, nosso Pai tem trazido bondade e bênçãos aos Santos dos Últimos Dias. Tenho pensado em nossa própria grande Guerra Civil, e nas expulsões, tumultos e pilhagens sofridos pelos Santos dos Últimos Dias; não tenho dúvida de com quão grande pesar e grande dificuldade nossos pais e mães deixaram seus lares, abandonaram aquelas boas terras e fizeram aquela maravilhosa peregrinação até esta terra, crendo que era a provação de suas vidas. E foi uma severa provação, mas tiveram de esperar apenas pouco tempo para ver, brilhando por detrás daquelas nuvens escuras, o rosto sorridente de seu Pai Celestial, pois Ele os conduziu ao único lugar, em toda esta boa terra, onde havia paz; e o próprio lugar onde quiseram permanecer tornou-se o campo de batalha entre o Norte e o Sul; e, se a Igreja ali tivesse permanecido, teria sofrido em meio ao conflito. Pela misericórdia do Senhor, fomos retirados da zona de guerra dos Estados Unidos, e trazidos a esta terra de paz. Não que tenhamos fugido de nossas responsabilidades, pois a primeira mensagem que foi transmitida ao Presidente Lincoln pelo Presidente Young, que era então o governador deste território, foi: "Utah não se separou, mas permanece firme pela Constituição e pela União", e ofereceu os serviços de nossos homens. Os serviços foram aceitos, centenas deles se alistaram, e então, pela benigna providência de nosso Pai, não fomos colocados na linha de frente da batalha, mas nos foi dado o privilégio de cumprir o dever militar na parte ocidental do país; e os soldados regulares daqui foram retirados para prestar serviço na frente de batalha. ¶
Agora, olho para trás, para a maravilhosa reunião do Israel moderno; um de uma cidade, e dois de uma família, têm sido reunidos a esta terra. "Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados, e para que não recebas das suas pragas" tem, para nós, um significado claro agora. Devemos ser gratos por estarmos aqui, irmãos vindos da Grã-Bretanha, da Áustria, e de todas aquelas nações que agora estão cheias de tribulação e conflito. Poderíamos estar nos exércitos europeus, lutando, não fosse o evangelho que alcançou nossos pais e nossas mães, e os trouxe a esta terra. Mais uma vez, a maravilhosa manifestação da bondade e da misericórdia do Senhor se indica no assentamento pacífico dos Santos dos Últimos Dias nesta gloriosa América, a terra de paz, a terra de Sião. ¶
Proclamo-vos que há, se observarmos e estudarmos, evidência suficiente para satisfazer a todos nós, não obstante nossos inimigos tenham sido numerosos, nossas expulsões e tumultos tenham sido muitos; e, embora hoje sejamos mal representados e mal compreendidos, o favor do Todo-Poderoso está sobre este povo. Se Deus jamais teve Sua mão sobre um povo na história deste mundo, esse povo são os Santos dos Últimos Dias. ¶
Tenho pensado, ao ter tido a oportunidade de viajar pelas regiões onde nosso povo outrora se estabeleceu, e ter visto a desolação que caiu sobre elas, e raramente descobri alguma delas tão grande quanto era quando os Santos a deixaram. Algumas estão sem ferrovias e tristemente negligenciadas; que cego seria o homem que não pudesse ver que o desfavor do Senhor repousou sobre aqueles que maltrataram e expulsaram os Santos dos Últimos Dias de seus lares no Missouri e em Illinois. E Seu favor está com eles nos refúgios das montanhas; os desertos ermos sorriem e florescem como a rosa; as geadas tardias e prematuras foram detidas, as fontes se abriram, a terra se tornou produtiva; e as bênçãos de Deus têm estado onde quer que os Santos dos Últimos Dias se tenham estabelecido, até que me parece que é deveras cego o homem ou a mulher que não pode ver esta evidência da bondade e misericórdia de Deus para conosco. ¶
Tenho sentido que o Senhor quis que compreendêssemos que Ele nos ama; Ele nos ensinava isto quando deu a Abraão a prova de sua vida, de oferecer seu filho, Isaque, a quem amava com todo o coração, o filho da promessa, para entregá-lo em sacrifício; Ele nos falava de Seu amor por meio da prova do Pai Abraão. Ele procurava fazer-nos sentir o quanto nos amava, que daria Seu Filho Unigênito por nós. ¶
Numerosas evidências têm sido dadas ao mundo, desde o próprio princípio, de que nosso Pai Celestial amava Seus filhos, na bênção concedida ao povo do mundo, de saúde, vida e força, dada a cada um de nós; e, se há algo maior e mais grandioso do que Ele ter dado Seu precioso Filho, como evidência de Seu amor pelos homens do mundo, então não sei o que mais o Pai poderia fazer para manifestar Seu amor. ¶
Tomai o caso de Abraão: ele deveria ser o exemplo e o padrão, ou ilustração, do amor e afeto que o Pai tinha por Seus filhos. "Toma teu filho unigênito e oferece-o em sacrifício." Tenho pensado no pobre ancião juntando a lenha, subindo o monte com o filho da promessa. Caminharam três dias até chegarem ao lugar onde o sacrifício se realizaria, e então seu único filho, o filho da promessa, disse a seu pai: "Esquecemo-nos de algo, meu pai. Onde está o sacrifício?" Ah, como deve ter dilacerado o pai, feito seu coração sangrar, ouvir dos lábios inocentes de seu filho, a quem amava mais do que a própria vida, a lembrança de que deveria tirar a vida de seu filho! Não pôde falar; seu coração deve ter-se inchado quase a ponto de romper-se. E, ainda assim, prosseguiu, dia após dia, até chegar ao lugar. O altar foi erguido, a lenha colocada sobre ele, o filho amarrado, o aço desembainhado, o braço erguido para desferir o golpe. "Basta", disse o anjo que deteve a mão. Eis o sacrifício. Foi para vos fazer sentir o que nosso Pai sentiu, quando Ele, que amava Seu Filho mais do que é possível aos mortais amar sua própria carne e sangue, deu Seu Filho ao mundo, para a redenção do mundo, para a paz do mundo, e para a salvação do mundo. Não pensais que, enquanto o Pai, que tinha o poder de salvar Seu Filho do abuso, da coroa de espinhos, dos açoites e maus-tratos; não pensais que foi uma provação para Ele, que tinha o poder de salvar Seu Filho, permanecer ao lado e testemunhar a súplica do Filho, em agonia, até que grandes gotas de sangue Lhe saíssem do corpo? "Se é possível, salva-me, ó Pai!" Pensai em vosso próprio filho. Se vosso filho estivesse em aflição, há entre nós algum homem, tendo o poder de salvá-lo, que não o usaria? Deus sabe que somos tão humanos que, se Ele nos desse o poder de salvar os nossos, os salvaríamos sempre. E, no entanto, Ele tinha o poder de salvar, e não salvou. Que mãe não atravessaria o fogo e a água ao ouvir a súplica de seu filho em aflição? Como deve ter provado o Pai ouvir o clamor e o lamento do Filho: "Se é possível, Pai, passe de mim isto!" Digo que o Pai ficou tomado de dor ao ouvir o escárnio dos que ali estavam: "Salvou a outros, por que Ele não Se salva a Si mesmo?" Depois das horas de dor e agonia, veio o momento em que Jesus clamou: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" Se Jesus de fato disse isto, não foi porque o Pai O tivesse abandonado, mas porque chegara a hora, que muitas vezes chega em nossa própria experiência humana, uma hora em que a mãe, por exemplo, que não pode mais suportar a visão de seu filho moribundo, depois de dada a despedida, é retirada do quarto, para não testemunhar as últimas lutas agonizantes de seu ente querido. E assim, o Pai, levado ao extremo, Se retirara, e em algum lugar chorava por Seu Filho amado. Até mesmo Ele não pôde suportar a visão por mais tempo. Mas, ao pensar nisto, em meu coração tenho agradecido a Deus por, naquele momento crítico, quando Ele poderia ter salvo Seu Filho, ter-nos visto, perecendo na sepultura, perdidos para Ele, e perdidos para aquela salvação que há de vir; Ele viu isto de um lado, e as súplicas e o sofrimento de Seu Filho do outro; e, graças a Deus, Ele decidiu a nosso favor, e permitiu o sofrimento e a morte de Seu Filho. E nisto, sustento que Ele manifestou Seu amor por nós, o que deveria fazer-nos confiar nEle, ainda que se ajuntem nuvens e venha a escuridão, ainda que, como o Jó de outrora, "ainda que ele me matasse, nele esperarei", porque sei que Ele me ama, e sei que Ele não está ansioso por ver minhas lágrimas de tristeza e aflição. Sei que Ele pretende purgar-me e purificar-me, e que, por trás desta escuridão e nuvem aparentes, há um rosto sorridente. ¶
Assim, digo-vos, meus irmãos e irmãs, se algum dia a dúvida e o desânimo vierem a vosso coração com referência à verdade desta obra estabelecida, olhai de novo para estas evidências da maravilhosa providência, misericórdia e amor de nosso Pai, e lede de novo a verdade de que Deus nos ama, de que esta é Sua obra, de que Seu Filho Jesus vive, e é o Salvador do mundo, e de que os élderes desta Igreja são os servos do Pai Celestial. Somos seres humanos com fraquezas humanas, e, no entanto, confesso-vos que tive a oportunidade de conhecer homens de destaque de outras comunidades, e digo, com toda a seriedade — e também não desejo ser um adorador de heróis —, mas afirmo-vos, sem medo de contradição, que nunca conheci, em todo o mundo, homens de coração tão limpo, tão puro e tão imaculado quanto os líderes desta Igreja. Testifico-vos que eles são os servos de Deus, que a luz está no navio, e Deus está ao leme. Que Ele nos dê a força de permanecer no navio até que ele suporte as tempestades e chegue àquele porto de descanso, depois que a grande batalha que Deus lhe designou tenha terminado, e a emancipação, a redenção e a salvação humanas — e, por fim, o reinado da paz seja alcançado. Que, desta tribulação e deste conflito, emerja a paz. O mundo talvez tenha de alcançá-la pelos portões da guerra, mas há de vir uma era de paz, quando a iniquidade cessará, quando os poderes que têm oprimido os homens serão eliminados, e as liberdades e os direitos serão dados a toda nação, os mesmos que desfrutamos nesta terra favorecida. ¶
Não há engano algum. Embora a morte e a destruição ainda possam ser numerosas e abundantes por toda parte, posso ver, brilhando por entre as nuvens escuras do presente, uma era de paz, um dia de descanso e salvação. Posso ver um povo conduzindo a esse caminho, apontando o caminho para os incontáveis milhares que hão de permanecer: a missão de fazer isto foi delegada aos Santos dos Últimos Dias. Que Deus os abençoe, para que cumpram sua missão e destino divinos, peço em nome de Jesus. Amém. ¶