Recorrência aos Princípios Fundamentais
Charles H. Hart
Tenho-me regozijado grandemente com os testemunhos, os ensinamentos e o espírito desta conferência, e confio que, pelas bênçãos do Senhor, o banquete possa continuar. ¶
A Convenção Constitucional, sobre a qual presidiu o saudoso Presidente John Henry Smith, declarou que "uma frequente recorrência aos princípios fundamentais é essencial para a segurança dos direitos individuais e a perpetuidade de um governo livre." Penso que essa verdade se aplica igualmente na Igreja, e que foi de todo oportuno e apropriado que a Presidência da Igreja se referisse aos princípios fundamentais subjacentes à organização da Igreja e à prática do sacerdócio, para que o excepcional, justificável em circunstâncias excepcionais, não tendesse a cristalizar-se como regra estabelecida de prática. Como outros dos oradores, não temo que a terceira, a quarta e as gerações subsequentes na Igreja abandonem o evangelho, se forem devidamente doutrinadas nos princípios da Igreja. O perigo está quando não conhecem a verdade. ¶
Conheci, há algum tempo, um jovem estudante do Leste, de ascendência "mórmon", que estava um tanto à deriva e tinha suas dúvidas, por causa do assim chamado mal que existe no mundo. Sua atenção não havia sido chamada para as doutrinas da Igreja a respeito desse assunto, com o qual poetas e filósofos têm lutado. O poeta Pope discutiu a questão quando chegou à conclusão de que, ¶
"Toda a natureza não é senão arte que desconheces, ¶
Todo acaso, direção que não podes ver; ¶
Toda discórdia, harmonia não compreendida, ¶
Todo mal parcial, bem universal." ¶
Uma canção conhecida declara que, "Não há canção cantando em nosso coração alegre que não tenha o eco de algum tom menor." Que em meio às folhas da mais bela rosa se encontra um espinho; que o dia mais brilhante se encerra em sombras e em escuridão, etc. ¶
O poeta Holland, em seu belo poema intitulado "Bitter Sweet" (Agridoce), considerou a questão de maneira muito profunda e ponderada, e, quando a fé lhe veio, conclui, por fim: ¶
"O mal é apenas o escravo do bem; ¶
A tristeza, a serva da alegria, ¶
E louca é a alma que recusa o alimento ¶
Do mais humilde a serviço de Deus. ¶
A fonte da alegria é alimentada por lágrimas, ¶
E o amor é aceso pelo sopro dos suspiros, ¶
As mais profundas dores e os mais selvagens temores ¶
Têm os mais sagrados ofícios. ¶
Forte cresce o carvalho na tempestade varredora ¶
Em segurança a flor dorme sob a neve; ¶
E a lareira do fazendeiro nunca está quente ¶
Até que o vento frio comece a soprar." ¶
O poeta Tennyson também considera a questão, e conclui, ou exclama: ¶
"Ó, ainda confiamos que, de algum modo, o bem ¶
Será a meta final do mal, Que nada caminha com passos sem rumo, ¶
Que nenhuma vida será destruída ¶
Ou lançada como refugo ao vazio, ¶
Quando Deus tiver completado a obra; ¶
Que nenhum verme é fendido em vão; ¶
Que nenhuma mariposa com desejo vão ¶
É consumida num fogo infrutífero, ¶
Mas serve ao proveito de outrem. ¶
Só posso confiar que o bem há de cair ¶
Por fim — bem longe — por fim, sobre todos, ¶
E todo inverno se transformará em primavera." ¶
Mas não conheço nenhuma literatura que discuta a questão de maneira mais inteligente ou filosófica do que é discutida no Livro de Mórmon. Leí, falando a seu filho Jacó, diz: ¶
"Porque é necessário que haja uma oposição em todas as coisas. Se assim não fosse, meu primogênito no deserto, não haveria retidão nem iniquidade, nem santidade nem miséria, nem bem nem mal. Portanto, é preciso que todas as coisas sejam compostas em uma; pois se fossem um só corpo, deveriam permanecer como mortas, não tendo vida nem morte, nem corrupção nem incorrupção, nem felicidade nem miséria, nem sensibilidade nem insensibilidade. Portanto, teriam sido criadas em vão; portanto, não haveria propósito na sua criação. Portanto, isso destruiria a sabedoria de Deus e seus eternos propósitos, assim como o poder e a misericórdia e a justiça de Deus. E se disserdes que não há lei, direis também que não há pecado. E se disserdes que não há pecado, direis também que não há retidão. E não havendo retidão, não há felicidade. E não havendo retidão nem felicidade, não haverá castigo nem miséria. E se estas coisas não existem, não existe Deus. E se não existe Deus, nós também não existimos nem a Terra; pois não poderia ter havido criação nem para agir nem para receber a ação; portanto, todas as coisas inevitavelmente teriam desaparecido. E agora, meus filhos, digo-vos estas coisas para vosso proveito e instrução; pois existe um Deus e ele criou todas as coisas, tanto os céus como a Terra e tudo o que neles há, tanto as coisas que agem como as que recebem a ação. E para conseguir seus eternos propósitos com relação ao homem, depois de haver criado nossos primeiros pais e os animais do campo e as aves do ar, enfim, todas as coisas criadas, era necessária uma oposição; até mesmo o fruto proibido em oposição à árvore da vida, sendo um doce e outro amargo. O Senhor Deus concedeu, portanto, que o homem agisse por si mesmo; e o homem não poderia agir por si mesmo a menos que fosse atraído por um ou por outro." ¶
Meu jovem amigo teria, na verdade, eliminado o livre-arbítrio do homem, se o universo tivesse sido planejado segundo sua ordem. Tudo estaria no nível morto da uniformidade; nenhum extremo de frio, nenhum extremo de calor, sendo a temperatura sempre média; nenhuma escuridão em contraste com a luz, nenhum mal em contraste com o bem, nenhuma tristeza em oposição à alegria, etc. Esses opostos, como somos claramente informados no Livro de Mórmon, dizem respeito, na verdade, à questão do livre-arbítrio neste nosso mundo. ¶
Alguns dos oradores comentaram o fato de que poderíamos esperar, ou que era um tanto estranho não haver, maiores números no mundo acorrendo ao estandarte do "mormonismo", em vista de seus gloriosos princípios. Uma razão para não haver maior número de convertidos é que o povo "mórmon" tem sido incompreendido, e suas doutrinas mal compreendidas. Temos sido para o mundo como "navios que se cruzam na noite", como Longfellow nos dá a figura em seus Tales of a Wayside Inn (Contos de uma Estalagem à Beira do Caminho): ¶
"Navios que se cruzam na noite, ¶
Falam uns com os outros ao passar, ¶
Apenas um sinal mostrado ¶
E uma voz distante na escuridão ¶
Assim, no oceano da vida, ¶
Cruzamo-nos e falamos uns com os outros. ¶
Apenas uma voz e um olhar, ¶
Depois a escuridão novamente e um silêncio." ¶
Indivíduos que vivem até mesmo sob o mesmo teto não se compreendem uns aos outros em todos os aspectos. Algumas das mais sérias tragédias que chegaram ao meu conhecimento aconteceram por causa de mal-entendidos, mesmo entre aqueles que eram muito próximos uns dos outros pelos laços de parentesco e afeição. Se aqueles sob o mesmo teto não conseguem compreender-se corretamente uns aos outros, seria de esperar que aqueles que vivem longe de nós não tivessem uma concepção equivocada de nossos ideais e doutrinas? Aqueles irmãos que responderam ontem, e que deram testemunhos tão fortes da verdade do evangelho, eram homens que provavelmente não tiveram o chamado direto de um mensageiro celestial. A voz não vem a todos como veio a Moisés na sarça ardente; nem sempre como veio no Monte, em meio a trovões e relâmpagos; nem sempre com línguas repartidas de fogo; e, no entanto, o chamado silencioso da voz mansa e delicada, o chamado do divino, conduziu esses homens e dezenas de milhares de outros à Igreja, em muitos casos diante de desprezo, escárnio, sarcasmo e deserdação; mas o chamado foi tão poderoso para eles, o chamado do divino em suas almas, que estavam dispostos a suportar o ostracismo da sociedade, a deserdação de seus pais, para dedicar suas vidas à verdade, ainda que isso pudesse significar, em certo sentido, uma vida de dificuldades, labuta e aflição. Ainda assim, alegria indizível lhes veio, a suprema alegria de saber que suas vidas estavam em harmonia com o Infinito, e que estavam respondendo ao chamado silencioso da voz divina. ¶
Não devo ocupar mais o vosso tempo. Que o Senhor vos abençoe, oro em nome de Jesus. Amém. ¶