A Obra Maravilhosa e um Assombro: Fé, Milagres e Ciência
Orson F. Whitney
É um costume comum, comum demais, penso eu, entre alguns dos élderes de Israel, quando chamados a se dirigir a uma congregação, proclamar logo de início que não têm nada em mente. Muitas vezes já pensei que essa é uma afirmação bastante supérflua; pois, quando verdadeira, a congregação o descobre muito rapidamente, sem qualquer informação prévia. Também já pensei o seguinte a respeito disso: que direito têm os homens de Deus de não ter nada em mente? Que direito têm aqueles que foram ordenados pelo Deus dos céus a se tornarem instruídos, a buscarem conhecimento nos melhores livros, a buscarem instrução pelo estudo e também pela fé, a acumularem continuamente em suas mentes a palavra do Senhor, para que o Espírito Santo tenha materiais dentre os quais escolher, quando chegar o momento apropriado de formular um discurso — que direito têm homens, ou um povo, assim instruídos, de não ter nada em mente? Deixo aqui a questão; é suficientemente sugestiva, sem qualquer comentário adicional de minha parte. ¶
Não posso dizer que não tenho nada em mente. Bem pouco receptiva, de fato, seria a mente que não tivesse recebido alguma boa e duradoura impressão, alguma sugestão de mais ideias e discursos, a partir do que tão bem se disse durante as reuniões desta conferência. Tenho bastante em mente; a dificuldade está em tirar isso da mente, em escolher, entre os muitos temas que passaram por meus pensamentos, aquele mais adequado a esta ocasião. Na esperança de dizer aquilo que deveria ser dito por mim, ponho-me humildemente nas mãos do Senhor. ¶
Setecentos anos antes do nascimento do Salvador, um profeta de Deus, contemplando a distância do futuro, proclamou o surgimento de uma obra maravilhosa, uma obra maravilhosa e um assombro, em cuja ¶
presença a sabedoria dos sábios pereceria, e o entendimento dos prudentes se ocultaria. É crença dos Santos dos Últimos Dias que o cumprimento desta predição, em suas fases mais maravilhosas, começou na primavera do ano de 1820, quando Joseph Smith, o fundador desta Igreja, recebeu sua primeira visitação do Alto. Foi algo mais do que uma resposta à pergunta do menino, dirigida em oração à Divindade, sobre qual, dentre todas as igrejas existentes, deveria ele se filiar; foi o começo de uma obra destinada a trazer "a restauração de todas as coisas", a congregar em um só "todas as coisas em Cristo", e a consumar todas as fases precedentes da obra de Deus pertinentes a este planeta. ¶
Uma obra preparatória, podemos razoavelmente concluir, foi realizada antes do estabelecimento da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Refiro-me à descoberta da América por Colombo, e à fundação, pelos Pais Fundadores, do Governo dos Estados Unidos. Não considereis arrogância supor que estes grandes acontecimentos foram preparatórios para as maravilhas e assombros preditos por Isaías para os últimos dias. Sei que às vezes se fazem comentários zombeteiros quando esta afirmação é apresentada. "A ideia," diz alguém, "de que a Igreja 'mórmon' tenha a audácia de afirmar que teve, como precursores, a fundação desta nação, ou a descoberta do mundo ocidental!" ¶
Em resposta a isto, tenho apenas a dizer que algo mais do que o estabelecimento de uma igreja foi contemplado pelo antigo Profeta, quando fez esta maravilhosa predição. Significava a abertura da última e maior das dispensações do evangelho; significava o recolhimento de toda a casa de Israel, de sua longa dispersão; significava a introdução do reinado milenar, a vinda de Cristo para reger o cetro sobre este planeta; significava a ressurreição, os mil anos de paz, e a eventual glorificação da terra, que ainda há de ser transformada numa esfera celestial, para que seres de ordem celestial a herdem. E, se apenas derdes à bolota a chance de germinar — ao carvalho a oportunidade de crescer — virá um tempo em que até mesmo os Estados Unidos não se envergonharão de reconhecer que foram, de fato, precursores desta obra maravilhosa; e o mesmo se dirá de todos os governos, instituições e acontecimentos, todas as pessoas e potências que foram usadas pelo Todo-Poderoso, desde o princípio, para preparar o caminho diante do glorioso advento do Rei dos Reis. ¶
O que desejo, especialmente, chamar a atenção neste momento, é o caráter maravilhoso da obra de Deus. O evento inicial desta dispensação foi o aparecimento pessoal do Pai e do Filho, e a proclamação, por Eles, de outros acontecimentos maravilhosos que haviam de seguir-se. Certamente foi maravilhoso, quando o próprio Deus rompeu o silêncio dos séculos, falou novamente ao homem, e anunciou a aproximação da grande consumação! Tão maravilhoso, de fato, que muitas mentes não conseguem compreendê-lo, e são tentadas a duvidar, a negar, ou a dar-lhe uma explicação indigna de seu caráter e significado extraordinários. Sustentam que Joseph Smith não viu realmente o Pai e o Filho, mas imaginou que os via; que foi um mero conceito ou ideia, e não uma visitação real. Alguns vão tão longe a ponto de declarar que ¶
um ataque epilético foi responsável pela gloriosa manifestação. ¶
Eu, por minha parte, creio que Joseph Smith viu o que disse ter visto; que foi uma visitação real, e não um mero conceito, ou voo de fantasia. A teoria que procuraria explicar suas visões atribuindo-as, a elas e a seus maravilhosos resultados, a um ataque epilético, é ridícula demais para consideração séria. Creio que Joseph viu o Pai e o Filho — de que modo exato, não sei; provavelmente não foi com o olho natural — muito provavelmente com a visão interior ou espiritual; mas ele os viu, não obstante, e Eles estavam ali em pessoa, falando com ele, enquanto os contemplava. Aceito seu testemunho a respeito daquilo que o ministro metodista lhe disse ser "tudo obra do diabo"; aceito-o como sendo tudo de Deus. Não há nada mais comovente na história "mórmon", em minha opinião, do que aquelas simples palavras nas quais o Profeta reafirma sua alegação de ter visto, realmente visto, o Pai e o Filho. Homens podiam caluniá-lo, podiam ameaçá-lo, podiam tirar-lhe a vida, como afinal fizeram; mas seu testemunho seria, e sempre foi, o mesmo: "Eu sabia-o e sabia que Deus o sabia e não podia negá-la, nem ousaria fazê-lo; pelo menos eu tinha consciência de que, se o fizesse, ofenderia a Deus e estaria sob condenação." ¶
Posteriormente, como Joseph declara, um anjo lhe apareceu, dando seu nome como Morôni, e revelando a existência das placas das quais foi traduzido o Livro de Mórmon, um registro da América antiga, "a terra de Sião." Aceito isso literalmente. Creio que o Profeta realmente viu o Anjo Morôni, que conversou com ele, e dele recebeu as placas contendo o registro nefita. Joseph também afirma que João Batista, como mensageiro do céu, impôs suas mãos sobre ele — sobre Joseph Smith e Oliver Cowdery — e os ordenou ao sacerdócio Aarônico, dando-lhes poder para pregar o evangelho do arrependimento, e para batizar por imersão para a remissão dos pecados; prometendo-lhes também um sacerdócio maior, que os capacitaria a impor as mãos e conferir o Espírito Santo. Esse sacerdócio maior — o Melquisedeque — foi posteriormente conferido a estes dois jovens pelos Apóstolos Pedro, Tiago e João, e, sob a autoridade assim conferida, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias foi organizada em 6 de abril de 1830. ¶
Foi, de fato, uma obra maravilhosa. As palavras de Isaías foram justificadas logo no início de seu cumprimento; e em nada mais impressionantemente do que na realização daquela parte de sua profecia que declara que a sabedoria dos sábios pereceria, e o entendimento dos prudentes se ocultaria — perplexos, confundidos, na presença da maravilhosa obra de Deus. Mais do que nunca, ela é "uma pedra de tropeço" — para os judeus, escândalo, e para os gentios, loucura. Mas hão de mudar de opinião a esse respeito. Dai à bolota — ao carvalho — tempo para crescer. O "mormonismo" ainda está em sua infância, e, diz-se, "só crianças e tolos criticam uma obra a meio caminho de sua conclusão." ¶
Há dezenas de milhares de pessoas que declaram solenemente que Deus lhes deu um testemunho de que estas coisas são verdadeiras; mas há milhões que não têm tal testemunho, e nunca tiveram, a maioria delas, a oportunidade de recebê-lo. E mesmo aqueles a quem chegou a oportunidade, que tiveram ¶
sua atenção voltada para esta obra, nem todos a veem da mesma forma. Há muitas pessoas boas e honestas em todas as igrejas, em todos os países, que não veem como nós vemos; e eu, por mim, não espero que um gentio tenha uma visão "mórmon" de nosso assunto. O espírito desta obra é necessário para sua devida compreensão, e somente aqueles que receberam esse espírito podem, de fato, compreender as maravilhas que ela manifesta. Isso não é, tampouco, nenhuma reflexão sobre a inteligência natural; é simplesmente a afirmação de um princípio divino, de que as coisas de Deus só podem ser discernidas pelo Espírito de Deus. Na ausência desse Espírito, que só é concedido àqueles que se curvaram em obediência ao evangelho, a sabedoria dos sábios perece. A menos que os homens e as mulheres se humilhem, e venham como crianças pequenas, crendo em Deus e arrependendo-se de seus pecados, e tenham as mãos impostas sobre si para o dom do Espírito Santo, não podem compreender esta obra, por mais inteligentes que sejam. ¶
Um homem não é um mau homem por não ser aquilo que chamamos de mentalidade espiritual, rápido a crer no maravilhoso, nos mistérios e manifestações espirituais. O mundo é composto de duas grandes classes de pessoas — as de mentalidade espiritual, e as de mentalidade mundana; e mesmo entre a primeira classe, alguns creem mais prontamente do que outros. Alguns são naturalmente crentes, outros naturalmente céticos, ou tão intensamente práticos que exigem demonstração antes de crer. Temos um exemplo brilhante em um dos Doze Apóstolos originais — não um mau homem — um bom homem, e, além disso, alguém que tinha o direito de saber, não apenas crer, que seu Senhor havia ressuscitado. Essa era a prerrogativa especial daqueles Apóstolos; para eles, tinha de ser mais do que crença. Não podiam ir ao mundo apenas com uma mensagem de que acreditavam que Cristo havia ressuscitado dos mortos; tinham de sabê-lo; era seu privilégio sabê-lo; mas ao resto do mundo se exigia crer em seu testemunho. Essa é, em minha opinião, a razão pela qual o Salvador foi até Tomé, depois que este disse: "Não crerei, a menos que possa sentir as marcas dos cravos em Suas mãos," etc. O Salvador, dignando-Se a reaparecer, disse-lhe: "Chega aqui o teu dedo, sente as marcas dos cravos, e não sejas incrédulo, mas crente." Então Tomé, já não duvidando, prostrou-se a Seus pés, exclamando: "Senhor meu, e Deus meu!" Jesus então lhe transmitiu esta lição: "Tomé, creste porque Me viste; mas bem-aventurados são os que creram e não viram." Porque, afinal, quaisquer que fossem as dispensações especiais de Deus para com indivíduos, esta vida foi concebida para o exercício da fé. Para o bem de seu próprio desenvolvimento espiritual, exige-se dos homens que creiam sem ver, sem ouvir, sem sentir, a menos que o Senhor escolha torná-los testemunhas especiais, como fez com os Apóstolos. O conhecimento perfeito absorve a fé, e elimina a oportunidade de seu exercício; ao passo que, por meio do exercício da fé, manifesto por boas obras, obtemos o desenvolvimento espiritual para o qual entramos neste nosso segundo estado. ¶
Nem todos os homens e mulheres bons creem rapidamente; e nem todos os que desejam demonstração são maus. Os "buscadores de sinais" hipócritas e corruptos são uma classe totalmente diferente. Se apenas os que creem rapidamente fossem aceitáveis a Deus, isso excluiria milhões de almas sinceras e honestas, dignas do reino dos céus. Condenaria alguns de meus próprios antepassados. Se me é natural crer — se meu primeiro impulso, ao ouvir o testemunho de um homem de Deus, é aceitá-lo, devo-o mais à minha mãe do que ao meu pai; e, no entanto, ele era um homem tão bom quanto ela era uma mulher, ainda que não conseguisse ver as coisas espirituais tão rapidamente. O mesmo se deu com os pais dele; seu pai era um homem de negócios, um homem prático; enquanto sua mãe quase vivia em outro mundo, de tão espiritual que era; mas Newel K. Whitney era um homem tão bom quanto Elizabeth Ann Whitney era uma mulher, tão fiel e verdadeiro quanto ela em tudo. No caso dos pais de minha mãe, a ordem se inverteu. Heber C. Kimball era um gigante de espiritualidade; ele bebeu o evangelho como o leite materno; enquanto sua esposa, Vilate, era mais lenta para compreender e receber; contudo, não há nome mais nobre entre as mulheres deste povo do que Vilate Murray Kimball. Ela não estava tão pronta a crer quanto seu marido, mas, uma vez convencida, era firme como o diamante, inabalável. Portanto, não encontro defeito naqueles que não têm mentalidade espiritual, que não conseguem crer tão prontamente quanto outros. É, em grande parte, uma questão de temperamento, e a obra do Senhor tem necessidade de ambos os tipos. ¶
O que lamento é uma disposição prevalecente por todo o mundo, de despojar Deus de Sua divindade; de retirar de Jesus Cristo tudo o que pertence à Sua condição de Deus; de eliminar Seus milagres, Suas obras maravilhosas, de questioná-los e até ridicularizá-los; de negar que jamais existiram; de sustentar que Cristo foi apenas um bom homem, um sábio mestre; que Seus princípios são apenas preceitos humanos, e que não há virtude em Seu sangue expiatório; que Ele não é o Filho de Deus mais do que qualquer outro homem, e que não veio com uma missão mais divina do que qualquer bom e grande mestre antes ou depois dEle. Penso que isso é levar o prático longe demais. Sugere um desenvolvimento anormal do prático, resultante, talvez, da negligência do espiritual. Ainda assim, não podemos ignorar o fato de que alguns nascem assim. Algumas mentes não conseguem apreender o maravilhoso, o miraculoso, e não estão dispostas a conceder sua possibilidade. ¶
Na Ala Dezoito, certo domingo à noite, realizou-se uma Conferência da Primária, na qual uma das irmãs, reunindo uma classe de criancinhas ao seu redor, relatou-lhes como o Salvador alimentou a multidão — alimentou cinco mil pessoas com cinco pães e dois peixes. Ao chegar em casa, uma mãe perguntou a seu filhinho o que ele havia ouvido, e ele repetiu, o melhor que pôde, as instruções da professora. A mãe, ansiosa por fixar a lição na mente de seu filho, perguntou: "Como suponho que o Salvador tenha alimentado cinco mil pessoas com cinco pães e dois peixes?" O menino pensou por um instante, e então disse: "Bem, não acho que os do meio receberam nada." (Risos). Pergunto-me se São Tomé não era esse tipo de criança. Parece-me uma retratação muito boa da disposição do "apóstolo incrédulo". ¶
Lembro-me de outra história, contada pelo famoso orador da temperança, John B. Gough, numa palestra proferida no Teatro Salt Lake, muitos anos atrás. Ele condenava a prática de simplificar a Bíblia para o estudo das crianças. "As crianças", disse ele, "compreendem ¶
muito melhor do que lhes damos crédito por fazer. Deixai-as ler a Bíblia exatamente como é; elas a compreenderão." Para ilustrar o ponto, ele contou a história de dois meninos, Johnny e Billy, que conversavam. Johnny estava sentado na soleira da porta de sua mãe, talhando um graveto, e Billy acabara de pegar uma mosca. Ele a trouxe a Johnny, e disse: "Que coisa engraçada é uma mosca — vê quantas pernas ela tem; e cada vez que sopro nela, ela zumbe." Então soprava na mosca, e a levava ao ouvido, para ouvi-la zumbir, sorrindo de contentamento com o som. Por fim, comentou: "Fico pensando como Deus a fez." E o grande orador fez uma pausa longa o bastante para observar: "Muitos homens instruídos já fizeram a mesma pergunta, e não puderam respondê-la." Mas Johnny tinha uma ideia de como Deus fizera a mosca. "Bem, Billy," disse ele, continuando a talhar seu graveto. "Deus não faz moscas como os homens fazem casas. Quando Ele quer moscas, diz: Haja moscas; e então há moscas." (Risos.) ¶
Ora, este menino, Johnny, teria compreendido como o Salvador pôde alimentar a multidão da maneira maravilhosa descrita; ele havia lido, na Bíblia, como a luz foi feita, e conseguia apreender a ideia de que o poder de Deus é maior do que o poder do homem. Ele não teria insistido em rebaixar o miraculoso ao nível do lugar-comum, negando a verdade ou a existência das coisas, simplesmente porque estavam fora do alcance da experiência humana comum. Johnny era um crente em milagres, que, afinal de contas, são apenas os resultados da lei natural — lei superior, talvez, do que a mente finita pode plenamente compreender. O homem, quando quer luz, precisa riscar um fósforo, ou apertar um botão, e acender o gás ou a eletricidade; mas Deus, quando quer luz, diz: Haja luz. No entanto, não é a mesma luz em ¶
ambos os casos? ¶
As duas anedotas que relatei ilustram as duas classes de pessoas às quais me referi — aquelas que questionam ou ignoram as "manifestações miraculosas", e aquelas que creem nelas, e cuja fé é igual à aceitação da "obra maravilhosa e assombro" de Deus, predita como tal por Seus profetas, e realizada como tal por dezenas de milhares de testemunhas. Que espanto haveria em que a predição tivesse cumprimento? E, no entanto, mesmo entre os Santos dos Últimos Dias, há alguns que acham difícil crer que Deus trate diretamente com o homem; que os céus de fato se abriram no princípio desta dispensação; que o Pai e o Filho apareceram em pessoa ao Profeta Joseph Smith; e que anjos ordenaram a ele e a Oliver Cowdery ao Sacerdócio. Mas o grande corpo deste povo tem aceitado estas coisas como verdadeiras, tem recebido um testemunho de que são verdadeiras. Não tentam despojar Cristo de Sua divindade; não duvidam das fases miraculosas do "mormonismo". É claro para eles que as profecias a esse respeito teriam sido proferidas em vão, teriam sido invalidadas, se não houvesse nada de maravilhoso associado à grande obra dos últimos dias do Senhor. ¶
Há, nestes tempos modernos, uma disposição para testar os fundamentos das coisas; e isso não é de todo mau em seu significado. O Senhor decretou que tudo o que pode ser abalado será abalado; e penso que tudo o que pode ser abalado deveria sê-lo. O evangelho, saindo de Sião, está abalando as nações; o Senhor as está debulhando pelo poder de Seu Espírito. Mas o mundo há de retaliar; virão contra nós, e nos abalarão, se puderem. Tudo o que não estiver edificado sobre a rocha há de desmoronar e cair. Mesmo os princípios mais sagrados, e os fatos mais solidamente estabelecidos da história, são postos em questão pela crítica científica e filosófica moderna. O iconoclasta está à solta. Cuidai de vossos ídolos; pois tudo o que pode ser quebrado será quebrado, e os destroços removidos para dar lugar a uma ordem de coisas melhor e mais elevada. Mas a verdade há de perdurar, e resistir com êxito a todo ataque feito contra ela. ¶
Peguei uma revista, outro dia, um periódico científico, publicado há cerca de um ano, no qual havia um artigo intitulado "O Contexto Etnológico da Eucaristia". O autor do artigo se propõe a provar que o sacramento da Ceia do Senhor, instituído pelo Salvador na noite de Sua traição, e dado a Seus discípulos como uma solene lembrança de Seu sacrifício, é de origem humana — não foi absolutamente originado por Cristo, mas introduzido na Igreja pelo Apóstolo Paulo, que o descobriu por meio de seu amplo conhecimento de doutrinas e ordenanças anteriores à vinda de Cristo; tais como as dos gnósticos, e dos mitraístas, adoradores do deus-sol. O artigo prossegue mostrando que há indícios de que esses povos antigos praticavam uma cerimônia semelhante à Eucaristia, e que até tribos selvagens e bárbaros têm costumes sacrificiais sugestivos do sacramento da Ceia do Senhor. Daí este autor saltar à conclusão de que ela é de origem humana, um desenvolvimento natural, e não uma revelação sobrenatural. Em resumo, que a Eucaristia é um exemplo de evolução cerimonial. ¶
Como pode a Igreja Cristã enfrentar tal argumento? Os primeiros Pais da Igreja tentaram respondê-lo declarando que Satanás havia imitado o Sacramento instituído por Cristo, e o colocado entre os povos pagãos ao seu redor. Infelizmente para esta defesa, porém, a prática de tais cerimônias entre os mitraístas e os gnósticos era mais antiga do que a introdução do cristianismo. O cristianismo não pode responder, mas o "mormonismo" pode. De pé sobre uma rocha que não há de ser abalada, reafirmamos a divindade do Sacramento, sem temer contradição bem-sucedida. Como responderemos à crítica moderna? Simplesmente proclamando aquilo que Deus revelou: que esta religião, chamada "mormonismo" hoje, cristianismo há dois mil anos, e conhecida, sem dúvida, por algum outro apelido em épocas anteriores, é o Evangelho Eterno, que não deve sua origem a nenhum homem, nem a nenhuma época, mas foi instituída nos céus antes da criação deste mundo, e revelada aos homens sobre a terra em diferentes épocas e diferentes lugares. O "mormonismo" pode dizer, com o Filho de Deus: "Antes que Abraão existisse, eu sou." Adão teve este Evangelho — o Evangelho de Cristo — que existia no mundo antes da vinda de Cristo, e ajudou a preparar o caminho diante de Seu advento. Uma das primeiras coisas que Adão fez, após sua queda do Éden, foi construir um altar e oferecer sobre ele um cordeiro, para prefigurar o sacrifício do Filho de Deus. Depois do dilúvio, quando Noé, com sua família, saiu da arca, uma das primeiras coisas que fez foi erguer um altar e oferecer um sacrifício semelhante. Ele tinha o mesmo Evangelho que ¶
Adão, Enoque e outros tiveram antes dele; e os filhos de Noé — Sem, Cam e Jafé — que povoaram a Ásia, a África e a Europa, sem dúvida levaram consigo, para onde quer que fossem, as tradições da fé antiga, a fé de seus pais, e praticaram seus costumes e observâncias. Que espanto, então, que mesmo entre tribos selvagens, povos bárbaros, por mais antigos que sejam, se encontrem remanescentes desta fé, fragmentos desta rocha dos séculos; ou que a ciência mesmo descubra vestígios de outras revelações de Deus ao homem, das quais a Bíblia — um mero esqueleto de história — nada diz? ¶
O que há em tudo isso que deveria tentar um Santo dos Últimos Dias a descartar as revelações de Deus, e saltar à conclusão de que estas instituições divinas são de origem humana? Absolutamente nada. O fundamento sobre o qual estamos permanece inabalado, imóvel diante de qualquer descoberta da ciência, ou de qualquer investida da crítica moderna. ¶
Mais uma palavra. É um absurdo falar, como alguns fazem, de verdade religiosa e verdade científica, como se fossem duas coisas diferentes. Como se a verdade pudesse ser dividida, tanto quanto a luz, ou a duração eterna. O homem, por sua própria conveniência, divide o tempo em séculos, anos, meses, semanas, dias, minutos e segundos, baseando seus cálculos nos movimentos da terra e dos corpos celestes; mas para Deus não há passado, não há futuro; tudo é presente, não há ontem, não há amanhã — apenas hoje. E a luz, quer venha do sol, quer da lua, quer das estrelas, é toda uma só; a luz do sol sendo a mesma luz que ilumina nossos entendimentos. Toda luz é uma só; toda verdade é uma só. A verdade não pode contradizer a si mesma. Se a ciência e a religião — a verdadeira ciência e a verdadeira religião — parecerem, ainda que minimamente, discordar, é simplesmente porque o homem ainda não descobriu o suficiente, e Deus, talvez, ainda não revelou o suficiente, para nos trazer ao ponto da reconciliação; mas esse tempo há de vir. Não há necessidade de descrer, ou de rejeitar a verdade já revelada, seja por meio da religião, seja por meio da ciência, enquanto se aguarda o tempo do Senhor para esclarecer o mistério. ¶
"A cega incredulidade certamente erra, E em vão examina Sua obra; Deus é Seu próprio intérprete, E Ele a tornará clara." ¶
Amém. ¶