Testemunho Pessoal e a Linha do Dever
B. H. Roberts
Meus irmãos e irmãs: tenho o prazer de estar convosco nesta ocasião. Sinto-me sempre melhor quando estou na linha e no cumprimento do dever, mas é com sentimentos peculiares que me ponho diante de vós aqui hoje, porque, como já disse tantas vezes, pregar não é meu forte. ¶
Dou testemunho de que tenho ouvido atentamente tudo o que foi dito durante a conferência até agora, e posso subscrever cada palavra proferida. Peço a Deus, nosso Pai, que deixe Suas bênçãos repousarem sobre nós, Seu povo; que possamos aproveitar o que aprendemos durante esta conferência; que, ao voltarmos para nossos lares, vamos em paz, lembrando as instruções e nos esforçando diligentemente por cumpri-las; que vivamos segundo as leis de nosso Pai celestial e guardemos Seus mandamentos, para que sejamos dignos de Suas bênçãos. ¶
Todos os Santos dos Últimos Dias têm certos deveres a cumprir; e, ao fazê-lo, se seguirem os impulsos daquela voz mansa e delicada, jamais errarão em seu julgamento, mas serão capazes de cumprir sua missão da maneira e do modo que sejam agradáveis a nosso Pai celestial. ¶
Peço a Deus que Suas bênçãos repousem sobre nós, que Ele nos guie. Estes dias de conferência são tempos bastante ansiosos, creio, para pelo menos duas classes de pessoas: aquelas que, no curso normal das coisas, podem esperar ter de falar à conferência, e aquelas que têm de ouvi-las. Certamente não sei quem sofre mais. Há muito tempo, tivemos um Bispado na ala onde eu morava, e o Bispo, como talvez convenha a um Bispo, não era particularmente dotado para expressar seu pensamento — não era um "Bispo pregador;" e tinha um conselheiro com um dom bastante parecido. Contudo, havia ocasiões em que ambos tinham de falar na reunião da ala; e certo dia, numa conversa com o conselheiro sobre este assunto, ele me confidenciou que realmente não sabia o que mais o angustiava — tentar dizer algo ele mesmo ou ouvir o Bispo tentar dizê-lo. Tenho vivido, nos últimos dias, na segurança imaginária de que não seria provável que eu fosse chamado a falar durante esta conferência; mas, visto que os irmãos assim o desejaram, sinto-me honrado por ser chamado a dirigir-me a vós. Rogo mais sinceramente para que me sejam dadas as inspirações certas, e que eu diga apenas aquelas coisas que serão apropriadas de dizer, e que deveriam ser ditas; pois não tenho desejo em meu coração senão ajudar nesta grande obra dos últimos dias, à qual, até o presente momento, tenho dedicado minha vida, meu pensamento e meu amor — embora nem sempre esteja à altura da tarefa de expressar meu amor por esta obra numa vida perfeitamente ordenada, ainda assim a amo. ¶
Muitas coisas interessantes foram trazidas à nossa atenção durante esta conferência, e especialmente as referências feitas às observações do Presidente dos Estados Unidos, que recentemente foi o hóspede mais honrado e bem-vindo de Utah. Ouvi seu chamado "sermão" desta tribuna, com grande prazer, e pensei que ele apresentou à comunidade aqui em Utah — tanto não mórmon quanto mórmon — um pensamento excelente e um conselho sensato. Da minha parte, contudo, temi que fosse um sermão que caísse em terreno pedregoso, e duvidei um pouco em meu coração se alcançaria o bem que o executivo da nação esperava alcançar com ele, porque — como observou o Élder Whitney em seu discurso um ou dois dias atrás — cada uma das partes na controvérsia que o Presidente tinha em mente provavelmente pensaria que ele se referia ao "outro sujeito." Sabeis que todos estamos ansiosos por reforma — no "outro sujeito!" e negligenciamos o grande princípio de que, em qualquer necessidade comum de reforma, se cada um se reformasse, todos estariam reformados. Eu estava sentado perto do Élder Whitney, naquela ocasião mencionada, e, junto com ele, pensei que o Presidente se referia a mim; e, na medida em que ele se referia a mim, em seu conselho, o assunto é perfeitamente fácil, porque sou um homem de paz. Quando realmente se torna necessário dizer coisas que parecem duras, sempre acredito em dizê-las da forma mais agradável possível — não que isso dê a alguém o mesmo grau de satisfação que teria se "se soltasse" no assunto, mas agrada tanto ao outro sujeito ter as coisas duras ditas de forma agradável. Mas agora, não creio que o Presidente se dirigisse a mim como indivíduo, mas se dirigiu a uma condição que existe aqui, uma controvérsia em curso, e para a qual há duas partes — "mórmon" e não "mórmon." Ora, tenho me perguntado se aqueles que representam os "mórmons" nessa controvérsia estão dispostos a sentar-se e considerar seriamente a questão de saber se há alguma culpa em nós; se, em algum aspecto, damos aparência de justificação para a controvérsia em curso; e se há culpa em nossos métodos de conduzir a controvérsia, ou se existem falhas reais de nossa parte que dão, em algum grau, justificação à oposição que enfrentamos — nesse caso — estamos prontos a fazer as correções que possam ser necessárias de nossa parte para reduzir, um pouco, a amargura da contenda? É claro que não espero que os "outros sujeitos" façam nada do gênero; mas pergunto-me se não deveríamos fazê-lo, e confio que o exemplo que poderíamos dar nesse sentido varra, ao menos, todo vestígio de desculpa para a amargura com que a guerra é travada contra nós. ¶
Não posso reivindicar o título de historiador, porque esse é um título muito elevado, muito honroso; equipara-se ao de artista, ao de poeta, ao de filósofo; e não posso presumir, em meus hesitantes, limitados e imperfeitos trabalhos desse gênero, considerar-me um historiador. Contudo, como sabeis, meus trabalhos caíram, em medida limitada, na obra histórica, e isso engendra o hábito de considerar todos os fatores que entram numa ocorrência ou série de ocorrências. Necessariamente cultiva-se o senso crítico, e forma-se o hábito de sopesar um fato contra outro, com vistas a chegar à verdade exata. Seguindo esta linha de trabalho em conexão com a história da Igreja, a verdade me obrigaria a dizer, quanto a eventos do passado, que nosso povo nem sempre foi irrepreensível em sua atitude como comunidade quanto às coisas que fizemos. Deus nos deu um sistema de verdade que constitui o Evangelho de Jesus Cristo — a meu ver este Evangelho é invulnerável; é perfeito, e inatacável pela verdade e pela razão. Defendê-lo é uma alegria, e sempre um sucesso. Mas nossa história — que é apenas outro nome para nossa conduta — nem sempre é defensável em todos os pontos. Embora a Igreja no Missouri e em Illinois jamais tenha feito nada que justificasse a crueldade praticada contra ela pelo povo daqueles estados; e no decorrer da qual houve violações de constituições e infrações da lei — embora tudo isso fosse e seja absolutamente injustificável — ainda assim houve muito de fanatismo, muito de estreiteza, e intolerância, e imprudência da parte de indivíduos entre os Santos dos Últimos Dias. Tornou-se um truísmo que alguns homens não conseguem suportar a prosperidade. Cem homens se afastam do serviço de Deus quando são prósperos, contra um quando têm de lutar com a adversidade. Como diz o Senhor: "No dia de sua paz, trataram com leviandade meus conselhos; mas, no dia de suas tribulações, buscaram-me por necessidade." (Doutrina e Convênios, Seção 101). Negligenciamos o fato, às vezes, de que precisamos do Senhor no dia de nossa prosperidade. ¶
Um hino sectário reconhece esta verdade, onde diz: ¶
"Aproxima-Te de mim, ó meu Salvador, necessito de Ti em minhas alegrias, não menos do que quando os males mais terríveis destroem minha felicidade; pois quando o sol brilha sobre mim e os prazeres se aglomeram em meu caminho, sem Tua mão sábia e guiadora, mais facilmente me desvio." ¶
É quase uma coisa perigosa, para um povo, sentir que é o favorito especial do céu, e que Deus o distinguiu do resto da humanidade dando-lhe uma missão especial, e o exalta ao torná-lo depositário de Sua lei, de Sua verdade, e executor de Sua vontade na terra, em relação ao Evangelho de Jesus Cristo. Para um povo sentir isso é fazê-lo sentir-se todo-poderoso, dentro da lei de Deus, e que Deus o apoiará contra toda oposição. No estado do Missouri, por exemplo, alguns de nossos irmãos, sob o sentimento de serem os escolhidos de Deus, cederam a expressões fanáticas e jactância, quanto ao que Deus faria ao dar-lhes a terra do Missouri por herança. Sua jactância irritou o povo que os cercava. Se analisardes estritamente todas as causas que levaram aos desastres que sobrevieram a nossa comunidade no Missouri, achareis que o zelo excessivo, o fanatismo, a imprudência de sua parte, estavam entre os fatores; e se não estiverdes dispostos a aceitar minhas declarações a esse respeito, basta rever nossa própria história e as revelações de nossa Doutrina e Convênios e ouvir a palavra do Senhor em reprovação a Seu povo por essas coisas; e por causa delas, Ele declara que permitiu que seus inimigos prevalecessem contra eles; porque, por não aderirem estritamente à lei de Deus tal como Ele a lhes entregou, Ele não estava obrigado a dar-lhes vitória sobre seus inimigos. É bom sermos francos conosco mesmos, e fazer um pouco de introspecção; entregarmo-nos a uma pequena autoanálise, e nos corrigirmos a respeito destas coisas, não apenas como indivíduos, mas como comunidade também. ¶
Permiti-me ler-vos de uma revelação, uma passagem ligada a um pouco de história que talvez seja bom relembrar-vos. Em suas primeiras experiências, o Profeta Joseph Smith cometeu seus erros e foi várias vezes repreendido pelo Senhor por causa deles. Quando o Senhor entregou a Joseph, pela mão de Morôni, os registros nefitas, deu-lhe uma ordem estrita de que não deveriam ser exibidos a ninguém além daqueles que o Senhor designasse; a tradução do registro deveria ser uma transação sagrada. Contudo, quando, com a ajuda de Martin Harris, Joseph conseguira traduzir das placas o suficiente para fazer cerca de cento e dezesseis páginas de manuscrito, Martin Harris começou a ficar excessivamente ansioso para exibir o manuscrito a seus amigos. Estava tão convencido, por essa tradução, de que o Profeta tinha o registro, que desejava mostrar a seus amigos, especialmente a membros de sua família, o produto de seu trabalho. O assunto foi apresentado ao Senhor, e o Senhor disse não. Mas Martin Harris continuou sua insistência, e Joseph continuou a inquirir o Senhor, até que finalmente as placas foram tiradas de Joseph, assim como os objetos sagrados associados. Depois de feito isso, deu-se permissão a Martin Harris para levar o manuscrito da parte traduzida sob um convênio muito sagrado, para guardá-lo em segurança, e nomeando aqueles a quem deveria mostrar a tradução. Martin Harris quebrou seu convênio com o Profeta, e o resultado foi que este precioso documento se perdeu para o Profeta e para a Igreja, e assim permanece perdido até hoje. O Profeta perdeu a posse dos objetos sagrados, bem como do registro. O Urim e Tumim se foi, e a angústia daquele homem, nessas circunstâncias, seria difícil de apreciar. Ele foi curvado em humilhação e no mais pungente pesar. Finalmente, contudo, o anjo lhe apareceu e lhe apresentou, mais uma vez, o Urim e Tumim; e o Profeta o usou imediatamente para inquirir o Senhor, e esta foi a abertura da revelação ao Profeta, a saber: ¶
"As obras e os desígnios e os propósitos de Deus não podem ser frustrados nem podem se dissipar. Porque Deus não anda por veredas tortuosas, nem se volta para a direita ou para a esquerda, nem se desvia daquilo que disse; portanto, as suas veredas são retas e o seu caminho é um círculo eterno. Lembra-te, lembra-te de que não é a obra de Deus que se frustra, mas a obra dos homens." ¶
Ora, rogo-vos, guardai essa declaração em vosso pensamento. Permiti-me enfatizá-la, se puder — "Deus não anda por veredas tortuosas;" e quando os homens O representam como se desviando da verdade, ou andando por veredas tortuosas, blasfemam Seu nome. E aquilo que o próprio Senhor declara que não fará, Ele não inspira os homens a fazerem; portanto, Deus e Sua Igreja estão ancorados à verdade. O anjo tomou novamente posse do Urim e Tumim. Em poucos dias o anjo apareceu, trouxe consigo os registros e os objetos sagrados associados, e o Profeta foi reintegrado ao pleno favor e aceitação do Senhor; mas Ele Se refere novamente, na revelação, a este assunto de aderir à verdade. Depois de explicar ao jovem Profeta o plano que fora tramado por seus inimigos para destruir a obra, e a justificativa que alegavam para suas tentativas de destruí-la, Ele disse: ¶
"Satanás incita-os a fim de conduzir suas almas à destruição. ¶
"E assim fez um plano astuto, pensando destruir a obra de Deus; mas eu exigirei isso de suas mãos e tornar-se-á em vergonha e condenação para eles no dia do juízo. ¶
"Sim, ele incita-lhes os corações a irarem-se contra esta obra. ¶
"Sim, diz-lhes: Enganai e ficai à espreita para apanhar, a fim de destruir; pois eis que nisso não há dano. E assim os lisonjeia e diz-lhes que não é pecado mentir a fim de apanhar um homem em mentira para destruí-lo. ¶
"E assim os lisonjeia e conduz, até arrastar suas almas para o inferno; e assim os faz cair em suas próprias armadilhas. ¶
"E assim vai de cima para baixo e de cá para lá na Terra, procurando destruir a alma dos homens. ¶
"Em verdade, em verdade eu te digo: Ai daquele que mente para enganar, porque supõe que outro minta para enganar, pois esse não está isento da justiça de Deus." ¶
Isso me faz entender que, embora meu inimigo possa mentir, e enganar, e caluniar e difamar, isso não me autoriza a usar contra ele as mesmas armas. ¶
Nem Deus, nem Seus servos, nem Sua Igreja estão numa esgrima com Lúcifer, usando como armas a inverdade e a chicana. Deus não vai vencer Sua vitória sobre o mal por tais meios. Ele vai vencer pela verdade obtendo vitória sobre a falsidade. Assim, se um homem nos diz que Deus está se desviando de Sua própria lei, que falou uma palavra ao ouvido para quebrá-la à esperança, ou que anunciou uma lei para Sua Igreja e depois disso os homens podem desconsiderá-la e praticar a falsidade — agindo contrariamente a essa lei, ou à posição que a Igreja de Deus tomou —, então podemos saber que esse homem certamente está enganado, porque temos a palavra de Deus como garantia de que Ele não anda por veredas tortuosas, nem justifica mentir para enfrentar mentira. ¶
Quão zelosos deveríamos ser da honra da Igreja de Deus — a Igreja de Deus! Pergunto-me, às vezes, se temos a verdadeira visão de quão magnífica é essa Igreja. Paulo, na epístola aos Hebreus, diz-nos que toda a família dos céus e da terra toma o nome de Cristo. Toda a família dos céus e da terra! A Igreja do Deus vivo! À sua cabeça, a Trindade! Depois disso, todos os dignos que receberam dispensações do Evangelho para esta terra, vindo através do grande patriarca da raça — Adão, nosso honrado chefe patriarcal; e por meio dele até Enoque, e até Moisés, e até os profetas em Israel, até João Batista, e até o Cristo, no meridiano do tempo, que veio fazer o grande sacrifício, e dar a manifestação do amor de Deus pelos homens, para que todos os homens pudessem saber, daí em diante, quão grande, de fato, era o amor de Deus. Depois veio a dispensação aos apóstolos e aos Santos dos primeiros séculos cristãos; seguida pelo período das trevas espirituais; e ainda assim Deus, não desejando que a verdade fosse toda obscurecida, permitiu que fragmentos dela sobrevivessem mesmo através da Idade das Trevas em algumas das doutrinas dos homens, assim como as nuvens, às vezes, depois que o sol se põe atrás do horizonte ocidental, ainda refletem algo da glória de um dia que parte. Depois, por fim, veio a dispensação da plenitude dos tempos, com a grande Testemunha e Profeta de Deus dessa dispensação, Joseph Smith. A Igreja de Cristo então existe tanto na terra quanto no céu, e sua história inclui todas essas grandes dispensações e as eras ainda por vir. Lealdade à Igreja significa lealdade à Trindade, a todos os grandes profetas que se ergueram como representantes de Deus na terra, através de todas as eras; lealdade à verdade; lealdade à história da verdade e a sua consistência. ¶
Sabeis com que zelo os homens guardam a honra de um reino — quanto mais vinculante é para os membros deste grande império espiritual da Igreja de Cristo zelar pela honra dessa instituição! Os reinos terrenos tiveram seus patriotas: Richelieu amava a França; e Bulwer Lytton o representa dizendo, ao contemplar a obra que suas mãos e sua mente haviam realizado ao trazer a França da anarquia ao primeiro lugar entre as nações da Europa, — "França, eu te amo! Não toda a terra te arrancará de meu coração. Minha amante, França! Minha esposa! quem proclamará o divórcio entre ti e mim?" Frederico, o Grande, amava a Prússia; Bismarck amava a Alemanha unida; Garibaldi amava a Itália; Cromwell e os Pitt, e Burke, e Disraeli, e Gladstone amavam a Inglaterra. Em nosso próprio país, Washington amava os Estados Unidos; assim também Jefferson, e Webster, e Lincoln. Digno, de fato, foi o patriotismo destes homens, mas quão pequenas, mesquinhas e insignificantes parecem as coisas que desafiavam seu amor, em comparação com este império do Cristo, a Igreja de Deus. Os homens, digo eu, prezam a honra de um reino terreno, quanto mais deveríamos nós prezar a honra do império espiritual de Cristo. O arquipatriota deste império espiritual é o próprio Cristo; e assim como Seu império é mais glorioso do que os reinos terrenos, também Seu patriotismo excede o patriotismo dos homens; pois Ele não apenas morreu por Seu império, Ele viveu por ele! e, além de viver por ele e morrer por ele, reuniu em Sua própria alma todas as tristezas dos membros do império, e carregou os pecados deles Ele mesmo, para que não sofressem pelo pecado, se apenas observassem Sua lei, e guardassem Seus mandamentos. (Doutrina e Convênios, Seção 19). ¶
Tal é para mim a Igreja de Cristo. Amá-la? Ora, que homem que, ainda que em pequeno grau, vislumbre a glória deste reino de Cristo pode deixar de amá-lo? Quem, vendo sua excelência, não a amaria, e desejaria vê-la honrada entre os filhos dos homens? Sua honra e sua palavra, quando empenhada, são a coisa mais sagrada que se pode penhorar. ¶
Temo estar abusando do tempo, mas há apenas mais uma circunstância que gostaria de usar como ilustração, mostrando quão firme deve permanecer a palavra do Senhor, e como Ele considera um juramento e convênio ao qual Ele ou Seu povo estão empenhados. Surge de uma experiência de Israel antigo. O Senhor, como vos lembrais, deu a Palestina por herança a Israel antigo, e um mandamento foi dado a Josué para entrar e tomar posse dela. Naturalmente, tomar posse dela significava uma guerra de conquista. Não havia outra opção, e como os povos que seriam deslocados haviam transbordado a taça de sua iniquidade, não havia nada além da justiça de Deus envolvida em removê-los de suas terras. Assim, Josué prosseguiu com sua guerra de conquista. Foi uma guerra cruel em alguns aspectos, como o são todas as guerras; e ele ganhou — assim nos diz a história secular — o título de "Flagelo de Deus." Os gibeonitas eram um povo que vivia bem ao norte de Jerusalém, e desejavam manter sua posse na terra, e escapar da severidade de Josué. Puseram-se de acordo com esta estratégia: tomaram certa delegação, vestiram-nos com roupas velhas, deram-lhes animais gastos e cansados; suas tendas e equipamentos estavam desgastados e manchados de viagem; seus odres de vinho estavam velhos, e o vinho azedo e nocivo. Essa delegação veio aos acampamentos de Josué, apresentando-se como vinda de um país distante; de um povo, contudo, que ouvira falar de Josué e de sua conquista; e que temia que ele pudesse ser tentado até mesmo a tomar posse de sua terra, e por isso desejavam entrar numa liga de paz com Israel para que não fossem perturbados. Assim, Josué, num de seus momentos de misericórdia, suponho, fez convênio com eles; quando, eis que os disfarces foram removidos, e ali estavam representantes de um povo bem à porta de seu acampamento, que, sem dúvida, teriam sido as próximas vítimas de sua guerra de conquista. Mas ele fizera convênio com eles, e lembrou-se de que, desde os tempos antigos em Israel, valia o princípio de que, ainda que um homem jure em seu próprio prejuízo, contudo não mude ("Aquele que jura com dano seu, e contudo não muda," Salmos 15:4); e assim, feito o convênio, os gibeonitas viveram em paz com Israel por várias gerações. ¶
Nos dias de Saul, contudo, somos informados pela Bíblia de que o convênio foi violado, e Saul se soltou sobre esse povo e derramou seu sangue, e chegou perto de destruí-los. Nos dias de Davi, ocorreu uma fome, que persistiu. Os esforços dos sacerdotes, os esforços do rei para deter a fome, pareciam ser todos em vão. A fome continuou ano após ano por três anos; até que finalmente a palavra do Senhor veio a Davi, dizendo: "É por causa de Saul e da sua casa sanguinária, porque matou os gibeonitas." Então Davi, conhecendo a sacralidade de uma palavra empenhada, mandou chamar estes gibeonitas, e disse: "Que quereis que eu vos faça? E que compensação vos darei, para que abençoeis a herança do Senhor?" Eles, em resposta, disseram: "Não é por prata nem ouro que temos questão com Saul e com sua casa; nem tampouco pretendemos matar pessoa alguma em Israel. * * * De seus filhos se nos deem sete homens, para que os enforquemos ao Senhor em Gibeá de Saul." Parou Davi e disse: obtivestes vosso convênio por engano e fraude, e por falsa representação, e não estamos obrigados por ele? Não, não o fez, mas encontrou na família de Saul o sacrifício exigido, os sete, e foram trazidos e entregues nas mãos deste povo agravado, e os levaram para fora, sobre uma colina, e os enforcaram perante o Senhor, diz o historiador; e então, notai esta linguagem, "e depois disso, Deus atendeu às súplicas em favor da terra," isto é, a fome cessou. (II Samuel 21). ¶
Não sou responsável por esta história; está no registro que aceitais como a palavra de Deus; e mostra-nos quão rigorosamente Deus se atém à palavra empenhada. Mas alguém dirá: "não foi essa dura lei antiga posta de lado — esta lei que exigia olho por olho, e dente por dente; esta lei que dizia: não perjurarás, mas cumprirás teus juramentos ao Senhor. Não foi tudo isso posto de lado por Cristo, ao dizer: 'de maneira nenhuma jureis'? E não indica isso que Deus, embora tenha dado um mandamento, pode mudá-lo ou modificá-lo?" Bendito seja o vosso coração, o Senhor, no que me diz respeito, pode e fará o que Lhe aprouver, e eu, por mim, se conheço essa vontade, farei o que puder para levá-la a cabo; mas, notai bem, estes exemplos que vos cito são tomados de um tempo em que uma lei estava sendo substituída por outra, quando a lei de Moisés havia cumprido seu propósito e foi posta de lado pela lei do evangelho. Não creio que possais encontrar em lugar algum das santas escrituras onde o Salvador sustente que, enquanto a lei de Moisés ainda estava em vigor, pudésseis violá-la impunemente. Ele pode substituir a lei de Moisés pela lei do evangelho, como fez, mas não O podeis encontrar aconselhando a violação da lei de Moisés enquanto essa lei estava em vigor. O Jeová dos judeus, que deu a lei a Moisés, é o Cristo do Novo Testamento, e não podeis imaginar tal inconsistência como Ele dar uma lei e depois permitir violações dela; pois Deus, já vimos, não anda por veredas tortuosas. ¶
Ora, meus irmãos e irmãs, talvez estas coisas não me sejam apropriadas de discorrer; mas não posso deixar de pensar nelas; e se sou chamado a falar, devo necessariamente dizer aquilo que me parece a coisa mais importante a ser considerada. Se ultrapassei algum limite de propriedade, ao referir-me a estes assuntos, muito humildemente peço perdão aos irmãos; pois vos asseguro que não há em meu coração desejo algum de assumir qualquer função que não pertença propriamente a meu ministério. Falo apenas porque sempre diante de minha visão está a Igreja de Deus, tal como procurei apresentá-la em pensamento a vós, uma instituição que estou certo prevalecerá; e estou certo de que Deus inspirará Seus servos a fazer aquilo que é essencial para a salvação do povo e para a honra da Igreja de Cristo. Tenho a mais plena confiança de que o que possa ser errático ou esporadicamente errado entre nós será corrigido; e os irmãos presidentes me encontrarão, de coração e mão, com eles, na manutenção da honra e da glória deste grande império do Cristo. ¶
Que o Senhor vos abençoe, é minha oração. Amém. ¶