A Igualdade do Homem e o Comum Acordo
Orson F. Whitney
A conferência foi chamada à ordem pelo Presidente Joseph F. Smith. ¶
O coro e a congregação cantaram o hino: ¶
Regozijemo-nos agora no dia da salvação; Não mais como estranhos na terra precisamos vagar, Boas novas estão soando para nós e para cada nação, E em breve virá a hora da redenção. ¶
A oração foi oferecida pelo Bispo Orrin P. Miller. O coro cantou o hino: ¶
Sobre os sombrios montes da escuridão, Olha, minh'alma, aquieta-te e contempla; Todas as promessas estão em trabalho de parto Com o glorioso dia da graça. ¶
A igualdade do homem. — O comum acordo, princípio básico do governo americano e da Igreja de Cristo. — Duas fontes de poder. — A ordem de Enoque. — A Sião moderna. — O governo perfeito ainda por vir. — Todas as coisas preparando o caminho. ¶
"Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais; que são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis; que entre estes estão a vida, a liberdade, e a busca da felicidade; que para assegurar estes direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados." ¶
Estas palavras, não preciso informar-vos, estão contidas na Declaração de Independência, emitida da cidade da Filadélfia há cento e trinta e cinco anos, no próximo quatro de julho. Elas incorporam princípios subjacentes à estrutura do governo dos Estados Unidos, que ali teve sua origem. Cinquenta e quatro anos depois, ou setenta e nove anos atrás, amanhã, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias foi organizada na pequena vila de Fayette, Condado de Seneca, Nova York. ¶
Estou orgulhoso e feliz hoje, meus irmãos e irmãs, de ser um Santo dos Últimos Dias, e também estou orgulhoso e feliz de ser cidadão desta grande República, o mais poderoso e melhor governo já organizado pelo homem que o sol ilumina. Alegro-me por poder ver, como vós podeis, um propósito divino na fundação deste Governo, assim como na fundação desta Igreja. Creio que há uma relação entre eles — não uma união de igreja e estado, mas a relação de um propósito comum, e esse propósito é de Deus — Ele que foi o fundador desta Igreja e também o fundador desta Nação. Foi algo mais do que uma coincidência que o Evangelho de Cristo, agora chamado mormonismo, mas cujo verdadeiro sobrenome é a Lei Perfeita da Liberdade, viesse a surgir nesta terra de liberdade nestes últimos dias. Desejo, se puder ter o Espírito do Senhor, indicar alguns dos pontos de relação entre este grande governo religioso e o grande governo civil que veio antes dele para preparar o seu caminho. ¶
Pode parecer absurdo a muitos referir-se a uma nação de setenta ou oitenta milhões de pessoas como precursora de um movimento que tem, no presente momento, uma associação de apenas quatrocentas ou quinhentas mil almas. Mas devemos ter em mente que números não determinam grandes princípios, e que grandeza de tamanho nem sempre é grandeza verdadeira. Esta nação de oitenta milhões foi outrora uma nação de três milhões, surgida de umas poucas colônias débeis que, no início, compreendiam apenas algumas centenas de almas famintas e esfarrapadas. Devemos também lembrar que esta Igreja começou com apenas seis membros, e que agora conta seus membros, como foi dito, às centenas de milhares. Daqui a cinquenta ou cem anos, verificar-se-á que o mormonismo cresceu e prosperou até que nenhuma nação debaixo do céu precisará baixar a cabeça de vergonha por ser considerada sua precursora e sua amiga. Devemos dar a todos os grandes movimentos tempo para se desenvolverem, e, entretanto, é mais importante considerar os princípios do que o número de pessoas que neles creem. ¶
Foi algo mais do que uma coincidência que, quando a Igreja de Cristo foi organizada nestes dias, os mesmos princípios subjacentes à estrutura do governo americano estivessem incorporados nos fundamentos da obra de Deus. Citei dois grandes princípios para os quais desejo chamar vossa atenção — a igualdade do homem e a doutrina do comum acordo. Thomas Jefferson afirmou, ao escrever a Declaração de Independência, que todos os homens são criados iguais. Não devemos entender com isso que todos os homens são iguais entre si. Nem todos os homens têm um metro e oitenta de altura; nem todos pesam noventa quilos; nem todos são ricos; nem todos são pobres. Nem todos os homens são líderes — há montanhas e colinas e planícies entre a humanidade; sempre haverá grandes homens e grandes mulheres para serem os líderes e instrutores dos demais. Sim, até mesmo numa democracia, onde todos os homens são declarados iguais. O que se entende, então, por igualdade, tal como referida na Declaração? É a igualdade perante a lei; significa que todos os homens têm igual direito à vida, à liberdade, e à busca da felicidade. Significa que as avenidas de promoção e progresso deveriam estar abertas a todos, tal como Deus pretendeu que fossem quando enviou do céu o evangelho da salvação, que não é mais nem menos do que um código de leis, um sistema de princípios que tem em vista o progresso eterno do homem. ¶
Joseph, o Profeta, declarou que Deus, no princípio, instituiu certas leis, pelas quais as inteligências menores ao Seu redor pudessem ter a oportunidade de progredir como Ele próprio. Não eram iguais lá; não são iguais aqui; jamais serão iguais em todo sentido. Deus sempre será supremo. "A Glória de Deus é a inteligência," e o que O fez Deus foi a inteligência superior que reconheceu aqueles princípios salvadores e enobrecedores que Ele instituiu como o evangelho da salvação, o meio do progresso eterno. Nem todos os homens são iguais em capacidade, em inteligência, mas deveriam ser iguais em oportunidades de progresso, e Deus os fez iguais nesse aspecto. O rei em seu trono não pode obter a salvação em termos mais fáceis do que o camponês em sua cabana. O homem pobre é igual ao homem rico quando se apresenta diante de Deus e pergunta, Que devo fazer para ser salvo? Não há como comprar nosso caminho para dentro do Reino dos Céus; o dinheiro pode comprar muitas coisas, mas não pode comprar a filiação na Igreja de Cristo; não pode comprar os princípios da verdade, as bênçãos do Evangelho, os dons do Espírito Santo. Todos os homens são iguais perante Deus no que diz respeito a estas coisas. Neste grande governo nosso, cuja declaração básica é que os governos derivam seus justos poderes do consentimento dos governados, e na Igreja de Deus, fundada sobre o princípio e a doutrina do comum acordo, pretende-se que todos os homens, tanto quanto possível, sejam iguais. ¶
Também se pretende que os homens sejam livres; mas nossa ideia de liberdade não vai a ponto de excluir Deus de uma voz no governo — este governo religioso ao qual pertencemos. Foi necessário, quando o governo americano foi fundado, que nenhuma religião fosse reconhecida — nenhuma religião em particular — a religião de nenhum homem, e que o povo, apenas ele, fosse considerado a fonte do poder civil; porque este governo foi organizado para o benefício de todos os homens, religiosos e irreligiosos; homens de todas as religiões e sem religião nenhuma; consequentemente, teve de reconhecer o povo, e somente o povo, como a fonte primeira da autoridade. Mas na Igreja de Deus não estamos assim limitados. Todos cremos da mesma maneira, todos temos a mesma religião, e reconhecemos Deus como a fonte primária, e o povo como a fonte secundária do poder. Deus fala, e o povo diz amém. É diferente num governo secular, como o governo dos Estados Unidos. Mas estas grandes doutrinas democráticas ou republicanas — não me importa como as chameis, pois não falo em sentido partidário — estes grandes princípios que envolvem os direitos do homem estão subjacentes tanto ao governo da Igreja quanto ao governo do Estado. ¶
Quando Joseph Smith e Oliver Cowdery, em 6 de abril de 1830, reuniram o pequeno rebanho que veio a ser conhecido como Santos dos Últimos Dias, esses líderes foram instruídos pelo Senhor a apresentar seus nomes àquela pequena congregação, para ver se a congregação os sustentaria ou não como oficiais presidentes da Igreja. Estes homens haviam conversado com anjos; tinham tido as mãos de anjos impostas sobre suas cabeças; Joseph vira o Pai e o Filho. Mas estas maravilhosas manifestações, e os poderes do sacerdócio que haviam recebido, não os qualificavam para presidir aquela congregação. Havia ainda algo necessário, e o que era? "O consentimento dos governados." O povo que seria presidido por estes homens — o Primeiro e o Segundo Élderes da Igreja — tinha o direito de consentir com o exercício dessa autoridade sobre eles. Deus escolherá um profeta, uma boca, um portador de Seu sacerdócio, um instrutor de Sua verdade, sem pedir permissão a homem algum; mas Ele jamais imporá a nenhum homem, nem a nenhum grupo de homens ou mulheres, um líder, um oficial presidente que não estejam dispostos a sustentar. Isto é um reconhecimento da grande doutrina incorporada na Declaração de Independência — que os governos derivam seus justos poderes do consentimento dos governados. Vereis este grande princípio exemplificado durante esta conferência. Sereis chamados a levantar as mãos para votar se sustentareis ou não homens e mulheres como vossos líderes, vossos instrutores, e oficiais presidentes, e tendes o perfeito direito de decidir essa questão por vós mesmos. ¶
Se aquela pequena congregação que mencionei tivesse levantado as mãos contra Joseph Smith e Oliver Cowdery, qual teria sido o resultado? Isso teria tirado de Joseph e Oliver o seu sacerdócio? Não. Isso teria apagado o fato de que haviam conversado com anjos, e sido ordenados por eles? Não. Isso os teria feito menos as bocas de Deus para aquela geração? Não. O que teria feito? Simplesmente os teria impedido de presidir aquela congregação em particular; mas poderiam ter ido a qualquer outro lugar onde houvesse homens e mulheres dispostos a recebê-los, e poderiam ter organizado a Igreja de Cristo em virtude do sacerdócio que Deus lhes concedera. Lembremo-nos de que Deus também tem certos direitos, assim como o povo. Embora o povo seja devidamente considerado, e um cuidado zeloso exercido por ele e por seus direitos, o Senhor também deve ser levado em conta. Ele não será privado de Suas prerrogativas. É Deus e o povo que compõem o governo da Igreja de Cristo. ¶
Ora, quanto ao princípio da igualdade — este também é um dos fundamentos da Igreja. Os Santos dos Últimos Dias não são apenas iguais nos votos que emitem numa conferência, e em suas oportunidades de salvação eterna, mas, desde o início, o propósito era estabelecer no meio deste povo uma ordem que tornasse os homens iguais tanto nas coisas temporais quanto nas espirituais. Chamava-se a Ordem de Enoque, pois, nos dias de Enoque, quando sua cidade foi santificada e levada aos céus, "o Senhor chamou seu povo Sião, porque eram unos de coração e vontade e viviam em retidão; e não havia pobres entre eles." Foi o mesmo sistema que os nefitas estabeleceram neste continente, e por duzentos anos mantiveram como promessa e prefiguração do Milênio, quando todos os homens serão iguais e livres. Foi a mesma ordem de coisas que os Apóstolos em Jerusalém buscaram introduzir; e parece ter se manifestado sempre que a plenitude dos poderes do sacerdócio esteve na terra. Sempre que a plenitude do Evangelho foi desfrutada pelos homens, tem havido sempre esta tendência, esta inclinação para a igualdade, pois é a condição social mais perfeita. ¶
"Que os tolos disputem sobre formas de governo; O melhor administrado é o melhor." ¶
Assim diz o poeta Pope. Não obstante, estou convencido de que, entre todos os governos, o maior e o melhor é aquele governo em que o povo se governa a si mesmo. Ao Profeta Joseph Smith foi perguntado por um visitante estranho em Nauvoo: "Como governais este povo, estes americanos, estes britânicos, estes escandinavos, estes homens de todas as partes do mundo, todas as nacionalidades, falando línguas diferentes, tendo costumes e tradições diferentes — como os governais, para que vivam juntos em paz, com um propósito comum, e no espírito de unidade?" O Profeta respondeu sabiamente — e nunca disse coisa mais sábia — "Ensino-lhes princípios corretos, e eles se governam a si mesmos." Aquele governo em que o povo pode se governar, e de fato se governa, a si mesmo por obediência a princípios corretos, é manifestamente superior a qualquer governo que dependa da vontade de um só homem. A palavra de Deus declara: não é conveniente que em todas as coisas o Senhor mande; é servo indolente aquele que espera ser ordenado em tudo. Mesmo num governo em que Deus pudesse ordenar e dirigir tudo, a condição seria inferior ao que seria numa comunidade de homens livres e esclarecidos, desfrutando da plenitude do Evangelho, cheios do conhecimento dos céus, fazendo o bem por conta própria, governando-se a si mesmos, amando os seus semelhantes e fazendo todas as coisas com o olhar fixo na glória de Deus. ¶
Esta bendita condição é o destino dos Santos dos Últimos Dias, que foram chamados a edificar Sião no continente norte-americano. A Cidade de Enoque, e aquela ordem de igualdade que Enoque estabeleceu, foi apenas um sinal e um tipo da maior Sião dos últimos dias, que há de se tornar a alegria de toda a terra. O Profeta Isaías falou disso nestas palavras: ¶
"Levanta-te, resplandece, porque já vem a tua luz, e a glória do Senhor já vai nascendo sobre ti. ¶
Porque eis que as trevas cobrirão a terra, e a escuridão, os povos; porém sobre ti o Senhor virá nascendo, e a sua glória se verá sobre ti. ¶
E as nações caminharão à tua luz, e os reis, ao resplendor da tua aurora." ¶
E quando essa Sião for estabelecida, que há de ser um ímã para as nações, e à qual trarão seu ouro e sua glória como tributo, um tributo alegre e voluntário a Cristo, o Rei — quando os Santos conseguirem realizar essa obra maravilhosa, será porque puseram em prática os princípios que reconhecem a igualdade do homem, e o direito do homem de consentir, sob Deus, quanto a quem o governará, e como será governado. ¶
Não há tempo agora para pregar um sermão sobre tal assunto, mas poderia se pregar um sermão que mostrasse ainda mais a relação entre o governo dos Estados Unidos e o governo da Igreja de Deus. Creio que, se conhecêssemos toda a história humana, veríamos que homens e nações, desde o princípio, abriram e prepararam o caminho para outros homens e nações! Descobriríamos que tudo o que aconteceu no mundo — inspirado por Deus, dirigido pelo céu — teve como propósito o estabelecimento daquele governo perfeito que ainda há de estender o cetro sobre este planeta, quando Cristo reinar como Rei dos reis; aquele Reino ou Comunidade para o qual todos os governos existentes, sabendo ou sem saber, estão preparando o caminho, e do qual a obra impropriamente chamada mormonismo é a precursora imediata. ¶
"Cada raio de luz, cada princípio de poder, Cada acontecimento decisivo da história, Se tivesse uma língua, não testificaria: ¶
Vem depois de mim um mais poderoso; Apenas preparo o caminho diante de sua face; Apenas batizo com água, ele com fogo? Todos estes movimentos têm, como seu decretado cumprimento e consumação, o poderoso propósito do Governante todo-sábio — ¶
"Aquele Deus que sempre vive e ama, Um só Deus, uma só lei, um só elemento, E um distante e divino acontecimento, Para o qual toda a criação se move." ¶
A Irmã Claudia Poulton cantou o solo de soprano "Oh shining light divine" (Ó luz divina resplandecente). ¶