Instruções sobre Oratória Pública e a Defesa do Evangelho
B. H. Roberts
Ontem o Presidente Smith nos deu instruções que, se seguidas, permitiriam a alguém se fazer ouvir neste grande auditório. Quando ele terminou, pensei: se ele apenas concebesse algum esquema, ou desse alguma instrução que ajudasse alguém a superar sua inclinação ao medo do palco, de modo que nos primeiros momentos, ao se dirigir a uma congregação como esta, pudesse saber se estava falando em tons estrondosos ou apenas num sussurro nervoso, eu lhe seria eternamente grato. ¶
Houve uma observação, feita pelo Presidente Lund em seu discurso ontem, que me impressionou fortemente. Foi naquele ponto de suas observações em que ele apontava que o espírito de contenda não é o espírito de Cristo, e onde nos lembrou que era nosso dever, especialmente o dever dos Élderes da Igreja, pregar o Evangelho da Paz. Isso me lembrou de uma passagem em uma das revelações dadas à Igreja pouco depois da expulsão dos Santos do Condado de Jackson, Missouri. Não tenho dúvida em minha mente de que a instrução pareceria muito difícil de cumprir pelos Santos daquele período. Ler-lhes-ei a passagem: ¶
"E também vos digo: Fazei um apelo de paz, não só ao povo que vos afligiu, mas também a todos os povos; e erguei um estandarte de paz e proclamai a paz aos confins da Terra; e fazei propostas de paz àqueles que vos afligiram, segundo a voz do Espírito que está em vós; e todas as coisas reverterão para o vosso bem." ¶
Digo que esta instrução, nas circunstâncias, era sem dúvida considerada difícil de cumprir. Os Santos, naquele tempo, sofriam sob o sentimento das pesadas injustiças que lhes foram infligidas. Haviam sido açoitados e maltratados. Suas casas haviam sido queimadas. Haviam sido expulsos de terras que haviam comprado do Governo. Eram exilados de seus lares; e ouvir dizer, nessas circunstâncias, para fazer apelo de paz, mesmo às mãos daqueles que os haviam afligido — e erguer um estandarte de paz ao mundo, isso, digo, era uma tarefa difícil para pessoas em sua condição. Deveria ser, e penso que é, mais fácil para nós cumprirmos o espírito desta instrução do que era para os Santos naqueles dias. Quando nossas circunstâncias são muito mais agradáveis, e quando a oposição que temos suportado nos últimos anos não terminou tão desastrosamente para nós, deveria ser comparativamente fácil para nós seguirmos a admoestação dada pelo Presidente Lund, "de pregar o Evangelho da Paz." E não duvido que acharemos esta tarefa mais fácil de realizar se formos inteiramente sinceros conosco mesmos e lembrarmos nossas próprias imperfeições e deficiências, e nossa própria loucura, tanto como indivíduos quanto como comunidade. Para ilustrar o que quero dizer: como sabem, tive alguma experiência no mundo como pregador do Evangelho, como representante da Igreja em campos missionários. É de certo orgulho para mim que nunca preguei o Evangelho de tal maneira que resultasse em violência de turba; contudo, durante minha ligação com a Missão dos Estados do Sul e a missão na Grã-Bretanha, houve poucos distúrbios com os quais eu não estivesse ligado, mas era invariavelmente para prestar assistência a outros que estavam em dificuldade, e a dificuldade não era criação minha. Pela experiência então adquirida, sei que grande parte da oposição encontrada no mundo é resultado da loucura de alguns dos Élderes. Levamos conosco o Evangelho da Paz, é verdade, mas ocasionalmente encontramos Élderes que o atiram sobre o povo como se fossem espinhos de porco-espinho, com o resultado de despertarem inimizades desnecessárias por suas ações. Não deveríamos nos admirar muito de que o mundo religioso não goste de nós. Vocês sabem que torcemos o nariz da Dama Ortodoxia bastante severamente. Começamos dizendo-lhes que nem as seitas individuais nem todas as seitas combinadas constituem a Igreja e o Reino de Deus. Dizemos-lhes que seus credos são falsos e uma abominação ao Senhor; e a parte irritante da declaração, para eles, é que nós o provamos. Ora, nessas circunstâncias, vocês não supõem que vão receber proclamações de paz deles, não é? Duvido que nós mesmos estaríamos muito inclinados à paz, se as pessoas fizessem tal declaração a nosso respeito. Bem, penso que podemos deixar de lado nossa pintura de guerra mais facilmente se lembrarmos nossas próprias faltas e as confessarmos um pouco. O Evangelho de Jesus Cristo é perfeito. Não há defeito nele. Não há imperfeição nele. As revelações de Deus permanecem invulneráveis. Em nossa experiência recente como Igreja, tivemos ampla demonstração dessa verdade. Pensem na rígida análise feita de nossa fé por um dos comitês mais poderosos e inteligentes do Senado dos Estados Unidos. Lembrem-se daquela rígida investigação — que princípio do Evangelho falhou? Por qual princípio revelado tivemos de oferecer alguma desculpa? Por nenhum. A verdade de Deus se manteve firme diante de todo vento que soprou sobre ela. Não consigo conceber assembleia alguma de homens, congresso algum, parlamento algum, assembleia alguma de eruditos diante da qual eu teria a menor hesitação em empreender a defesa e advocacia das revelações de Deus. Não porque haja em mim alguma excelência de entendimento, ou poder de argumentação, ou destreza na defesa; mas porque tenho absoluta confiança no Evangelho de Jesus Cristo, e na força de suas verdades. Mas quando se vem a medir o homem por aquela verdade, descobre-se que ele fica aquém. Quando se vem à defesa dos atos de alguns que figuraram em nossa história, não se pode defendê-los em todos os pontos. O homem é fraco e está muito abaixo do nível da perfeição do sistema de verdade de Deus. Muito do que foi dito não foi sábio. As concepções que os homens tiveram da verdade nem sempre foram exatas. É preciso deixar de lado alguns discursos que foram pregados. Embora a verdade seja perfeita, e defensável em todo ponto, a concepção do homem sobre as coisas e as ações do homem nem sempre são defensáveis. Assim, agora, se recordarmos nossas imperfeições e percebermos que alguns de nossos problemas surgiram por nossa própria loucura, e pela manifestação de fraqueza em nós, será tanto mais fácil para nós erguer este estandarte de paz e aprender, das experiências do passado, métodos melhores de apresentar a verdade ao povo. Preguemos também o Evangelho da paz. O Irmão Junius F. Wells aqui, disse certa vez — ou citou alguém dizendo — "Irmãos, preguem o Evangelho, e preguem-no de modo agradável." Penso que é um bom conselho. ¶
Gostaria que pudéssemos modificar nossa terminologia, ou, pelo menos, ter melhor compreensão da terminologia que usamos. Deixem-me tentar ilustrar o que quero dizer: alguém veio ao Salvador e Lhe disse, no decorrer de sua conversa: "Quem é o meu próximo?" O Salvador respondeu com a bem conhecida parábola do bom samaritano. A principal lição daquela parábola é que nem sempre encontrarão seu próximo entre os sacerdotes, nem os levitas; às vezes o encontrarão entre os samaritanos, cujo nome é sinônimo de um povo desprezado. Neste caso, na parábola do Salvador, o samaritano foi mais próximo do que o sacerdote ou o levita. Eu gostaria que o Salvador nos tivesse dado uma explicação igualmente luminosa do termo: Quem é meu inimigo? Bem, dirão: não o fez Ele? E, talvez, vocês se lembrem do dito do Salvador quando disse: "Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha." ¶
Vocês se lembram disso, talvez, mas isso é apenas metade da verdade; apenas metade do que Jesus disse. Houve outra ocasião em que João observou — e vocês se surpreendem um pouco de que João o fizesse, porque é um pouco fora de seu caráter — mas, ainda assim, ele disse: "Mestre, vimos um homem que em teu nome expulsava demônios, o qual não nos segue; e nós lho proibimos, porque não nos segue." ¶
"Não lho proibais; porque ninguém há que faça milagre em meu nome e possa logo falar mal de mim." ¶
Assim Marcos o relata. Lucas termina a história dizendo: "Quem não é contra nós é por nós." ¶
Ora, tomem as passagens juntas e obterão algo semelhante à verdade delas. Que a escritura interprete a escritura; não a tomem em fragmentos. A obra do Senhor, nestes últimos dias, tem sido de tal caráter que provocou fortes antagonismos, e na linha de frente imediata tivemos inimigos, e muito amargos; homens que não amam a verdade; homens que atacaram a verdade ao atacarem aquilo que buscávamos realizar, e podem, com justiça, ser chamados inimigos da verdade, inimigos de Deus, e nossos inimigos. Não somente não se ajuntam conosco, mas se espalham e procuram destruir. São verdadeiramente contra nós. Mas, peço-lhes, não ampliem em seu pensamento o termo "inimigo" além desses poucos que encontramos neste conflito — não ampliem seu termo a tal ponto que represente todos os filhos de nosso Pai não imediatamente identificados conosco na obra de Deus, como sendo nossos inimigos. Não é verdade; nem todos são nossos inimigos. A grande massa dos filhos de nosso Pai ignora-nos, ou nos é indiferente; e alguns poucos deles têm preconceito contra nós por causa das coisas que ouviram a nosso respeito. Devemos olhar para as hostes dos filhos de nosso Pai como nossos amigos, como nossos irmãos e irmãs; e mesmo onde estejam incitados em animosidade contra nós, isso não deveria criar animosidade em nosso coração — nem mesmo para com aqueles aqui na linha de frente, com quem estamos em conflito imediato. Embora possam nos odiar, não é da nossa incumbência odiá-los. Podemos ter inimigos, mas, sob o Evangelho, não podemos ser inimigos de homem algum. Devemos pregar o Evangelho no espírito de "Paz na terra, boa vontade para com os homens." Manteremos nossos direitos, é claro. Não sacrificaremos verdade alguma para agradar a homem mortal. Não podemos ser infiéis a Deus; isso está fora de questão; mas podemos proceder pacificamente em ensinar esta verdade que Deus nos confiou e que é tão perfeita; podemos e devemos cultivar o espírito de pregá-la no espírito de paz. Agora deixem-me afastar-me, por um momento, deste assunto e chamar a atenção de vocês para a maneira ampla em que Deus procede com Sua obra. ¶
Se há uma tendência, um perigo, contra o qual eu estaria disposto a levantar minha voz entre os Santos dos Últimos Dias, seria no sentido de advertir nosso povo a não se tornar sectário em espírito, em suas simpatias — ou antes em sua falta de simpatias — e em seus métodos. Amo o Profeta Joseph Smith — para mim, em minhas afeições, ele fica logo depois do Filho de Deus, que deve sempre ser o primeiro em nossas afeições, como em nossos pensamentos, e a quem devemos adoração; mas depois do Filho de Deus, aprendi a amar a memória de Joseph Smith, o Profeta. Ele foi, de fato, um homem inspirado por Deus. Ele olhava profundamente para as coisas e as via como realmente são. Entre as qualidades pelas quais o amo está a ausência de tudo o que fosse espírito sectário em sua alma — suas simpatias eram tão amplas quanto a raça humana; sua concepção da relação entre o homem e Deus superou em excelência todos os ensinamentos de todos os outros homens modernos. ¶
Vocês sabem que, em anos passados, alguns dos Santos dos Últimos Dias foram propensos à estreiteza de visão. Quando Deus revelou à Igreja que Independence, no Condado de Jackson, era o lugar central de Sião, o coração do povo se voltou para aquela terra; e às vezes penso que suas afeições e esperanças se contraíram àquele lugar específico. Quando a Igreja foi removida do Condado de Jackson e passou a construir cidades e planejar povoados no Condado de Caldwell; e quando depois — sendo obrigados a deixar o Missouri por completo — passaram a construir cidades em Illinois, os sentimentos de alguns foram postos à prova; sentiam que haviam sido expulsos de Sião: "Deus fez promessas a respeito de Sião, e Ele não as cumpriu," era sua queixa. O espírito de queixa e descrença existia, mais ou menos, entre o povo; mas o Profeta, antes de sua morte, ampliou sua visão e lhes disse que toda esta terra do oeste, a América do Norte e do Sul, era a terra de Sião. Esta era a terra para a qual as predições de Deus apontavam; e não precisavam se preocupar com este ou aquele lugar específico nela, pois os dois continentes americanos constituíam a terra de Sião. ¶
Apenas anteontem, um jovem amigo meu me parou na rua. Ele havia feito uma descoberta nas observações do Profeta na Conferência de Abril de 1844; e me perguntou se eu tinha ciência de que o Profeta havia declarado que ambos os continentes americanos eram a terra de Sião, e que dera instruções aos Doze Apóstolos para estabelecerem estacas de Sião em Nova York, e em Boston, e penso que também na Filadélfia. Regozijei-me em ver a animação do semblante e a alegria no rosto de meu amigo, que acabara de fazer a descoberta de uma nova ideia. Regozijei-me com isso, e disse-lhe que eu também havia notado as declarações do Profeta, e, além disso, chamei-lhe a atenção para o fato de que, enquanto o Profeta falava de estabelecer estacas de Sião nos estados do leste, ao mesmo tempo estava preparando um grupo de homens para explorar o oeste e estabelecer a Igreja também nos vales das Montanhas Rochosas. ¶
Meus amigos, não havia nada de estreito ou contraído nas visões e projetos daquele nosso profeta moderno. Sua visão de Sião era tão ampla quanto os continentes americanos. Ora, pensem naquela magnífica exposição do que é o mormonismo, que ouvimos apenas ontem à tarde, do Élder Orson F. Whitney, quando as eternidades foram reunidas, e todos os confins da terra foram feitos convergir nesta grande obra dos últimos dias. Quão edificante foi tudo isso! Mostrou-nos que o mormonismo é algo mais do que uma máquina que se propõe a fazer homens de um só comprimento, uma só altura, e um só peso. Não é uma máquina para fazer homens estereotipados, mas um sistema de verdade com princípios que orientam a conduta; a verdade a ser voluntariamente aceita, e os princípios pessoalmente aplicados, até que o homem seja capacitado, sob este sistema de verdade e estes princípios, a se aproximar de algo semelhante à estatura de um homem perfeito em Cristo Jesus. ¶
Bem, comecei a chamar a atenção de vocês para a grandeza das coisas nesta grande obra dos últimos dias. Várias vezes, aqui, nos foi citado o dito de Isaías, o Profeta: "De Sião sairá a lei, e de Jerusalém, a palavra do Senhor." Essa passagem é muito familiar aos Santos dos Últimos Dias, mas já a analisaram, já pensaram muito sobre ela? Por que a lei de Sião? Por que a palavra do Senhor de Jerusalém? Penso que o Élder Ivins girou a chave para essa questão esta manhã, em suas observações sobre o governo civil e o governo eclesiástico, e a distinção entre eles. No Livro de Mórmon encontro os seguintes princípios estabelecidos — grandes princípios fundamentais; e, notem bem, encontram-se na escritura americana, nas escrituras da terra de Sião. Permitam-me prefaciar a citação. A passagem que vou ler se refere a um evento que aconteceu no reinado do Segundo Mosias. Seus filhos haviam se convertido ao Evangelho, e, tendo sido imbuídos de seu espírito, tinham ido em missões aos lamanitas. Percebendo que seus próprios dias se aproximavam do fim, Mosias estava ansioso quanto à sucessão do reino nefita. Convocou o povo para saber seus sentimentos a respeito da sucessão, e o desejo deles era que um de seus filhos sucedesse ao trono. Então lhes chamou a atenção para os males da monarquia — que estaria tudo bem em ter reis para governá-los, se pudessem estar sempre certos de que seus reis seriam homens justos; mas o problema é que as virtudes nem sempre são hereditárias. Embora o pai seja às vezes justo, os filhos nem sempre seguem seus passos; e assim o Rei Mosias lhes propôs uma grande revolução no governo. Propôs estabelecer um reinado de Juízes, eleitos pelo povo — governo pelo povo, uma república. E agora a passagem: ¶
"Portanto, escolhei juízes pela voz deste povo, para que sejais julgados de acordo com as leis que vos foram dadas por nossos pais, as quais são corretas e foram dadas a eles pela mão do Senhor. ¶
"Ora, não é comum a voz do povo desejar algo contrário ao que é direito; mas é comum a minoria do povo desejar o que não é direito; portanto, observareis e tereis isto por lei — resolver vossos negócios de acordo com a voz do povo. ¶
"E se chegar o tempo em que a voz do povo escolher iniquidade, então os julgamentos de Deus recairão sobre vós; sim, então será o tempo em que ele vos visitará com grande destruição, assim como tem, até aqui, visitado esta terra. ¶
"E agora, se tendes juízes e eles não vos julgam de acordo com a lei que foi dada, podeis fazer com que eles sejam julgados por um juiz superior. ¶
"Se vossos juízes superiores não julgarem justamente, fareis reunir um pequeno número de juízes menores e eles julgarão vossos juízes superiores de acordo com a voz do povo. ¶
"E eu vos ordeno que façais estas coisas no temor do Senhor; e ordeno-vos que façais estas coisas e que não tenhais rei; de modo que [notem bem isto], se este povo cometer pecados e iniquidades, recairão sobre sua própria cabeça. ¶
"Pois eis que vos digo que os pecados de muitos foram causados pelas iniquidades de seus reis; portanto, suas iniquidades recaem sobre a cabeça de seus reis. ¶
"E agora desejo que esta desigualdade não exista mais nesta terra, especialmente entre meu povo; mas desejo que esta seja uma terra de liberdade e que todos os homens gozem igualmente de seus direitos e privilégios, enquanto o Senhor julgar conveniente que vivamos e herdemos a terra; sim, enquanto qualquer de nossos descendentes permanecer sobre a face desta terra." ¶
Para mim, isso é, em parte, a lei de Sião — o princípio básico da lei civil da terra — um princípio da lei que está saindo de Sião — a lei civil que há de ser estabelecida e mantida sobre esta abençoada terra de liberdade, e que, eventualmente, direta ou indiretamente abençoará e libertará toda terra em todo o mundo. ¶
Há outra escritura — em perfeito acordo com a passagem que acabei de ler do Livro de Mórmon — de Doutrina e Convênios: ¶
"E também vos digo: É a minha vontade que aqueles que foram dispersos por seus inimigos continuem a exigir compensação e redenção das mãos daqueles que foram colocados como governantes e que têm autoridade sobre vós — de acordo com as leis e a constituição do povo, que permiti fossem estabelecidas e que devem ser mantidas para os direitos e a proteção de toda carne, segundo princípios justos e santos; para que todo homem aja, em doutrina e princípio relativos ao futuro, de acordo com o arbítrio moral que lhe dei, para que todo homem seja responsável por seus próprios pecados no dia do juízo. Portanto, não é certo que homem algum seja escravo de outro. E com esse propósito estabeleci a Constituição deste país, pelas mãos de homens prudentes que levantei para esse propósito; e redimi a terra pelo derramamento de sangue." ¶
Isso, novamente, para mim, é a lei de Sião — em parte a lei que sairá de Sião — a lei da liberdade — a lei de que o povo governará — de que "todo homem," como Mosias o coloca, "goze igualmente de seus direitos e privilégios:" de que se um "povo cometer pecados e iniquidades, recairão sobre sua própria cabeça." Mas para estabelecer no governo civil esta responsabilidade pessoal de cada indivíduo perante Deus, cada indivíduo deve ter voz igual no governo; todo homem deve ser um soberano na instituição civil, e seu voto deve representar a voz e o julgamento de um homem livre, um voto não intimidado por influência, tanto quanto não comprado por corrupção ou ganho. Menos do que isso reduz todo o esquema de governo livre "pela voz do povo" ao desprezo e ao fracasso. ¶
Esta "lei" é expressa novamente na "Declaração de Independência" americana: ¶
"Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão a vida, a liberdade, e a busca da felicidade; e que para assegurar esses direitos são instituídos governos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados." ¶
Essa é a "lei" que agora está saindo de Sião, tal como expressa por aqueles "homens sábios" que Deus declara, em Suas revelações a nós, ter levantado e inspirado para fundar as leis e a constituição do governo dos Estados Unidos; para que os homens não estivessem "escravizados uns aos outros," e para que todo homem pudesse ser responsável por seus próprios pecados no dia do juízo. Esta é a lei de Sião que está saindo pela terra para redimir o mundo da escravidão humana, e estabelecer a liberdade e a responsabilidade e a dignidade do homem. Deve-se observar, de passagem, que há perfeito acordo nestas passagens que citei de autoridades tão amplamente diferentes — do Livro de Mórmon, de Doutrina e Convênios, e da Declaração de Independência. A inspiração que produziu as três, contudo, é da mesma fonte, daí a unidade nas três passagens — unidade de princípio, e unidade de propósito. O princípio de governo anunciado, embora não inteiramente novo, no governo americano é, não obstante, por nossa própria constituição, moldado de novas formas, preservado por novas salvaguardas, mas o tempo não permitirá uma discussão disso aqui. O anúncio, contudo, do princípio de que os governos derivavam seus justos poderes do consentimento dos governados, foi um grande afastamento do governo pelos reis. Estava destinado a mudar a base sobre a qual se supunha que os governos repousavam — a autoridade divina dos reis. A noção predominante de governo no mundo, na época de nossa Declaração de Independência americana, era a de que os direitos políticos e civis derivavam dos reis; e os homens se consideravam obrigados pelos costumes e leis da antiguidade. Esta declaração, contudo, torna cada geração de homens seus próprios senhores, arquitetos de sua própria sorte política, senhores de sua própria liberdade. Tira o governo civil das mãos dos reis, e, no que diz respeito ao governo civil, das mãos dos sacerdotes também, e o coloca nas mãos do povo. O povo se torna soberano; e aqueles que elegem para o cargo não se tornam governantes, mas servos do povo, para cumprir sua vontade de acordo com a Constituição e as leis da terra, tal como Mosias ensinou os antigos nefitas do mesmo modo e no mesmo espírito. Estes princípios de liberdade civil estão marchando pelo mundo. Deram instituições livres aos continentes da América, do Norte gelado ao Sul gelado. Estes princípios de governo estão estabelecidos por toda parte nas repúblicas do mundo ocidental. As mesmas verdades estão batendo às portas de outras nações. Converteram a antiga monarquia absoluta do Japão numa monarquia constitucional, na qual a voz do povo se torna um fator na determinação do destino do país, e não apenas a palavra ou o capricho do monarca. Estes princípios deram à França o governo mais estável que ela já conheceu. Estes princípios ampliaram as liberdades dos ingleses, até que hoje sua liberdade é sustentada praticamente pelo "Sufrágio Masculino Universal." Testemunhamos, a esta distância, uma terrível luta em curso entre o povo russo e o governo autocrático daquela terra. Fracassos tristes, de fato, o povo tem feito disso até agora, mas já por três vezes exerceu alguma medida daquele poder soberano que nossos princípios reconhecem como inerente ao povo, e elegeu seus representantes para a assembleia nacional; e embora o progresso possa ser lento, ainda assim aquele bater, ainda aquela demanda persistente pelos direitos e liberdades do povo naquela terra continuará até que a "Lei que sai de Sião" permeie todos os sistemas e traga liberdade aos habitantes desta terra. Isso, em parte, é meu entendimento desta ideia de que a Lei sairá de Sião. Deus trabalha não apenas por métodos diretos; trabalha também por métodos indiretos; não apenas por meio das escolas dos profetas, mas de vez em quando levanta um profeta que não foi criado na escola dos profetas. Não me interpretem mal. Porque acredito que os propósitos de Deus estão sendo realizados no mundo agora pelo envio da "Lei de Sião" da maneira indireta aqui descrita — não pensem que acredito que isso impedirá o estabelecimento de uma futura cidade capital de Sião, de onde a "lei" continuará a sair; não apenas pela promulgação destes princípios fundamentais de governo civil, dos quais depende a verdadeira liberdade e dignidade do homem, mas também, pela promulgação de outras grandes e importantes leis referentes à exaltação e glória do homem. Não é assim. Eu apenas gostaria de gravar em vocês, se pudesse, a ideia de que a obra de Deus está agora em processo de cumprimento, e que a obra de Deus é traçada em grandes e amplos planos. Que não há nada de estreito ou contraído em Seus planos; que Ele emprega nações e impérios como Seus agentes, assim como indivíduos, para realizar Sua vontade soberana ao trazer a efeito a vida eterna e a alegria do homem; e esta verdade é conveniente que os Santos dos Últimos Dias reconheçam. ¶
E quanto à outra parte desta escritura tão familiar a nós: a Palavra do Senhor sairá de Jerusalém? Devem se lembrar, ao considerá-la, de que Isaías vivia no sétimo século antes de Cristo. Penso que, se modernizarmos a expressão da antiga escritura judaica, o significado, talvez, ficaria mais claro. Não desejo tomar liberdades com a palavra escrita de Deus, porque penso que ela se destina a permanecer como os grandes marcos pelos quais devemos caminhar, e o mestre não pode tomar liberdades e mudar os termos da palavra de Deus; e sem fazer isso, mas com o propósito de transmitir-lhes meu pensamento sobre este assunto, suponham que eu lesse a passagem desta maneira: "e a revelação do Senhor sairá de Jerusalém?" Quando levamos em conta a grandeza de nossa própria dispensação do Evangelho, penso que às vezes negligenciamos a grandeza e a magnitude da "Dispensação da Meridiana dos Tempos." Deve-se sempre lembrar que a grande Expiação, o fato central do Evangelho, foi realizada em Jerusalém; que ali o sacrifício foi feito; que ali o Filho de Deus tomou sobre Si nossos pecados; ali nossas transgressões foram postas sobre Ele, e por Suas pisaduras somos curados. A Expiação foi feita ali, digo, e ali também foi feita a grande e suprema revelação de Deus ao mundo para todo o tempo vindouro; pois depois do fato da Expiação de Cristo, a próxima coisa em importância — se é que deve haver algum grau de importância entre as duas coisas — a próxima em importância é a grande verdade, de que Jesus Cristo foi a manifestação de Deus no mundo; a revelação de Deus ao homem; de modo que, doravante, acima do horizonte da visão dos homens, permanece Deus perfeitamente revelado na pessoa e no caráter de Jesus Cristo. E assim como Ele permanece — Deus revelado — as nuvens de erro, superstição, e escuridão de todas as eras se dissipam; pois assim como é o Cristo, assim também é o Pai, em pessoa, em caráter, em misericórdia, em justiça, e em todas aquelas qualidades que compõem a natureza divina. Além disso, Jesus nas escrituras é chamado enfaticamente "o Verbo," pelo qual entendo que se quer dizer a expressão, a revelação, de Deus. "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade" — de modo que verdadeiramente "a Palavra do Senhor," a revelação do que o Senhor era e é, saiu de Jerusalém, assim como "a lei" está saindo de Sião. Como disse a respeito da futura capital da terra de Sião, que as opiniões aqui expressas não excluíam a ideia do futuro estabelecimento de uma cidade capital na terra de Sião de onde a lei continuará a sair naqueles dias, assim não gostaria que pensassem que, porque sustento a opinião de que "a Palavra do Senhor" saiu de Jerusalém na revelação de "o Verbo," ou expressão de Deus na pessoa e no caráter de Jesus de Nazaré — porque creio que a palavra do Senhor saiu de Jerusalém no Evangelho completo de Jesus Cristo — que ali foi feita a Expiação de Jesus Cristo, a verdade central do Evangelho; que ali ocorreu a ressurreição de Jesus, o Cristo, na qual se baseia nossa própria esperança e a esperança do mundo na ressurreição dos mortos — não suponham, peço-lhes, que, por eu sustentar que nessas coisas a Palavra do Senhor já saiu de Jerusalém, eu pense que isso excluirá qualquer futura saída da palavra do Senhor de Jerusalém que possa estar no programa divino. Jerusalém deve ser para sempre um santuário sagrado, um lugar para o qual os olhos de todas as nações se voltarão em busca de luz e inspiração; que mais natural, então, do que ela se tornar uma cidade santa, a capital do mundo oriental, se quiserem, o santo santuário de onde há de sair a palavra do Senhor no futuro ainda mais abundantemente do que no passado, assim como a lei sairá de Sião no futuro como agora e no passado? Estou apenas pleiteando aqui por visões amplas a respeito das coisas de Deus, e dos caminhos de Deus. Nós, Santos dos Últimos Dias, não queremos contrair nossos sentimentos, nossas simpatias, nossas opiniões sobre a verdade aos limites estreitos de nossa própria comunhão eclesiástica; mas devemos reconhecer que Deus faz as coisas em grande escala, e que Ele está dirigindo, e que está influenciando, por Seu Espírito, Seus filhos; e eles se tornarão cada vez mais suscetíveis à influência do Evangelho. Espero que nos tornemos cada vez mais habilidosos em apresentá-lo, para que, por causa da operação destas duas coisas — nossa crescente habilidade e a crescente suscetibilidade do mundo à sua influência — Sião seja ampliada, e a Igreja de Cristo seja ampliada em suas simpatias, até que estejamos firmemente unidos em comunhão pela retidão com todos os homens justos em todo o mundo. Amém. ¶