Ensinar as Crianças e Amar o Evangelho
William A. Morton
Tenho certeza de que o Senhor sabe como é difícil para mim levantar-me diante desta vasta congregação, e confio sinceramente que Ele me abençoará com uma porção de Seu Santo Espírito. Sinto-me à vontade numa classe da Primária, mas esta classe da Primária é grande demais para mim. ¶
Vou contar-lhes um pouco de minha experiência. Mas antes de fazê-lo, quero agradecer-lhes, meus irmãos e irmãs, por me apoiarem no cargo para o qual fui chamado. Agradeço ao Conselho Geral e aos oficiais presidentes da Igreja por me considerarem digno de identificar-me com o movimento da escola dominical. Não posso acreditar em meus próprios olhos. Ora, parece-me que faz apenas um ano ou dois desde que eu era um menino descalço, sentado num banco numa escola dominical no norte da Irlanda, ouvindo histórias bíblicas que minha professora me contava, e parece quase incrível que eu esteja aqui esta noite diante desta grande assembleia. ¶
Quero dizer uma boa palavra sobre minha primeira professora de escola dominical. Ela não pertencia à Igreja, mas amava os meninos pequenos. Costumava vir à escola dominical, reunir-nos ao seu redor, e ensinar-nos o Evangelho de Jesus Cristo, até onde o conhecia. Não a vejo há vinte e cinco anos, mas há pouco tempo sentei-me e lhe escrevi uma carta, na qual disse: "Professora, não a vejo há vinte e cinco anos, e, no entanto, vejo-a o tempo todo. Vejo-me como um menino, sentado a seus pés naquela escola dominical; vejo seu rosto sorridente; ouço sua voz amorosa, enquanto me fala do amor de Deus, e me ensina a amá-lo e a guardar Seus mandamentos. E agora lhe agradeço pelo que fez por mim. Algum dia, em algum lugar, na eternidade, eu a encontrarei, e então lhe direi face a face o quanto aprecio o interesse que teve por mim, e tentarei retribuir-lhe toda a bondade que me dispensou." ¶
Sim, aquela professora nos amava, e creio que teve um interesse especial por mim; creio que o Senhor a inspirou a fazê-lo. Ela costumava levar sua pequena classe à sua casa, onde nos servia limonada e bolo, e então nos contava histórias sobre o Senhor Jesus. ¶
Aprendi a amá-la; ainda a amo. Ela é membro da igreja presbiteriana, mas sei que o Senhor a ama, porque ela é uma boa mulher. Todas as mulheres são boas, mas creio que algumas são um pouco melhores que outras, e penso que ela pertencia a essa última classe. ¶
Quero apelar a vós, professores -- vós, professores que às vezes vos desanimais; vós, professores que às vezes vos sentis irritados; vós, professores que sentis vontade de mandar os meninos para casa -- não o façais. Sede pacientes com eles um pouco mais. Levai-os ao Senhor em oração. Não sabeis quem estais ensinando. Procuremos lembrar que já fomos meninos e meninas, alguns de nós nem de longe tão bons quanto os meninos e meninas que estamos ensinando. Mas começamos a ver as coisas de maneira um pouco diferente. Adquirimos um pouco mais de bom senso; já não fazemos de nós mesmos os tolos que fazíamos então, e depois de algum tempo nós, professores, veremos os resultados de nossos trabalhos e ficaremos satisfeitos. ¶
Uma professora de classe de religião veio a mim certo dia. Disse que não conseguia ver nenhum ¶
resultado de seu trabalho. Eu lhe disse: "Não deveis andar sempre à procura de resultados. Quando fazeis o bem, deveis retirar-vos à sombra e deitar-vos, sem contar a ninguém sobre isso. Tudo o que tendes a fazer é semear as sementes; Deus cuidará da colheita." Naquele dia, no exercício de testemunho, depois que a professora prestou seu testemunho, ela disse: "Alguma de vocês, criancinhas, sente vontade de agradecer a Deus pelas coisas boas que Ele lhes dá, ou de prestar seu testemunho?" Uma menininha se levantou e disse: "Quero dizer uma coisa." Permitam-me dizer, antes de contar-lhes o que ela disse, que a professora estivera ensinando uma joia de memorização -- "Honra teu pai e tua mãe, para que os teus dias se prolonguem na terra que o Senhor teu Deus te dá." A criancinha continuou: "Na tarde da última quarta-feira, quando voltei para casa da classe de religião, minha mamãe me disse: 'Você vai até a loja para mim?' Eu disse: 'Não, mamãe, não quero ir à loja,' e mamãe disse: 'Então eu mesma irei. Você vai alimentar as galinhas para mim?' Eu disse: 'Sim, vou alimentar as galinhas.' Quando eu ia a caminho, algo me disse: 'Você não está honrando e obedecendo a seus pais,' então voltei e disse: 'Mamãe, eu vou à loja para você.' Então ela colocou os braços ao redor do meu pescoço e me beijou, e depois disso me senti melhor." ¶
Eu disse à professora, ao final da sessão: "Que resultados melhores do que esse desejaria ver? A senhora ensinou a essas crianças uma pequena joia de memorização durante três semanas, e hoje viu-a dar fruto. Ensinou uma lição que creio permanecerá no coração daquela criança enquanto ela viver." ¶
Estamos fazendo grande progresso na obra da escola dominical, e ninguém está mais satisfeito com a obra que está sendo realizada do que o Conselho Geral. Estamos crescendo a passos largos. Estamos muito adiante do que estávamos há poucos anos. Alguns de nós, professores, costumávamos pensar que bastava ao dia a lição do dia; mas agora sabemos melhor do que isso. Aprendemos que devemos crescer e crescer, e nunca cessar de crescer, pois, quando o crescimento cessa, a morte começa. ¶
Mas não estaremos alguns de nós indo justamente para o outro extremo? Creio que estamos queimando as pestanas fazendo preparações, e estudando muito arduamente, e estamos tão preocupados com a preparação da lição, e com o melhor método de apresentá-la, que temo não estarmos dando a devida atenção ao espírito da lição. Há algo como ser cuidadoso demais, sabem. Estive na classe do jardim de infância da Irmã Kesler na semana passada, e uma das membras da classe ilustrou como é possível ser cuidadoso demais. Ela disse que certo dia sua mãe a mandou ao porão com um jarro de creme, e lhe disse: "Tenha cuidado para não deixar o jarro cair." Ela disse: "Eu saí e estava segurando aquele jarro o mais firme que podia, e justamente quando pisei no primeiro degrau da escada do porão, deixei o jarro cair, e ele se partiu numa dúzia de pedaços. Eu estava tão preocupada com o jarro, e tão cuidadosa para que não caísse, que acabei por deixá-lo cair." Creio que há alguns professores tão interessados na preparação da lição, no método de apresentá-la, que estão perdendo de vista o espírito dela. Visitei uma escola dominical recentemente, e ouvi algumas lições muito boas, mas não parecia haver alma nelas. Eram uma compilação de fatos frios e secos, e não conseguiam tocar a alma dos alunos. Creio que, se nossas lições hão de realizar o bem que desejamos que realizem, elas devem tocar o coração; a lição que não consegue isso não cumpriu sua missão. Temo que alguns professores de escola dominical não deixem as lições passarem por seu próprio coração. Todo professor deveria dizer, ao tomar uma lição: "O que há nesta lição para mim? O que há nela que eu possa aplicar a mim mesmo, e tornar parte de mim mesmo, antes de tentar apresentá-la à minha classe?" Nossas lições devem passar por nós mesmos até chegar a nossos alunos. O que penso ser necessário é o espírito da obra da escola dominical, a alma da obra. ¶
Eu estava longe de Sião há algum tempo, numa grande cidade. Era manhã de domingo. Não havia Santos ali, mas decidi que iria adorar em algum lugar, e fui a uma igreja cristã. Ouvi um pregador que disse muitas coisas boas, e aceitei as coisas boas que ele disse, deixando de lado as demais. Ele disse: "Há algum tempo, um jovem chegou a um porto na América. Quando desembarcou, um oficial se aproximou dele e disse: 'Quanto dinheiro você tem?' 'Não tenho um dólar sequer no mundo,' foi a resposta. 'Para onde você vai?' perguntou o oficial. 'Vou para Fall River,' respondeu. 'Você tem parentes aqui?' foi a próxima pergunta. 'Não,' foi a resposta; 'mas tenho alguns em Fall River.' 'Você tem de voltar,' disse o oficial. 'Por quê?' perguntou o jovem. 'Porque você está aqui sem dinheiro e sem parentes, e corre o risco de se tornar um encargo público.' O jovem olhou para ele e disse: 'Eu não me tornarei um encargo público. Dê-me uma chance e chegarei bem a Fall River.' 'Como?' perguntou o oficial. 'Por meio disto,' disse o jovem, batendo numa pequena bolsa sob o braço. 'O que você tem aí?' perguntou o oficial. Abrindo a bolsa, o jovem tirou dela uma bela corneta e, levando-a aos lábios, tocou uma melodia de um dos grandes mestres antigos, uma melodia que trouxe lágrimas aos olhos de todos os que a ouviram. Quando terminou, o oficial disse ao capitão do navio: 'Leve este homem a Fall River às minhas custas.' 'Não,' disse o capitão, 'ele irá a Fall River às minhas custas; preciso exatamente de um homem assim a bordo,' e aquele jovem foi a Fall River porque pôs sua alma em seu instrumento." Quero dizer, professores, que, se esperamos alcançar êxito em nossa obra de escola dominical, devemos pôr nossa alma nela." ¶
Certa vez, um jovem artista pintou um quadro e o levou a um crítico para sua avaliação. O artista mais velho o examinou, e então pegou seu pincel e lhe deu uma pincelada. O jovem ficou olhando ¶
para ele, espantado, e disse: "Por que fez isso?" "Ao seu quadro falta uma coisa," disse o artista. "E o que lhe falta?" indagou o jovem. "O toque de uma mão mestra," foi a resposta. E é justamente isso que às vezes falta às vossas lições: o toque da mão do Mestre. ¶
Deus, no princípio, decretou que o homem comesse seu pão com o suor do rosto. Isso não foi uma maldição; foi uma das maiores bênçãos que Deus jamais deu ao homem. E se Deus não dará pão ao homem que passa seus dias na ociosidade, tampouco porá palavras de sabedoria e inspiração na boca de um preguiçoso mental. Ao sentarmo-nos para preparar nossas lições, devemos invocar Sua assistência divina, e então, quando terminarmos, devemos ir a Ele e dizer: "Pai, fiz o que pude; agora enche minha alma com Teu Espírito; inspira-me para meu trabalho, dá a este quadro o toque de Tua mão de mestre." E Ele o fará. Ele nos ajudará sempre. ¶
Antes de retomar meu assento, desejo referir-me a uma declaração feita numa convenção metodista realizada na semana passada. Tenho viajado bastante extensamente por este país, e tenho me associado muito com a juventude de Sião, e posso dizer com sinceridade que não há povo no grande mundo de Deus hoje que ame sua religião tanto quanto a juventude dos Santos dos Últimos Dias. Temos cento e trinta mil membros matriculados em nossas escolas dominicais, e não precisamos usar "selos de troca" para levá-los até lá. O irmão Summerhays tem no bolso um recorte de jornal que mostra que algumas das escolas sectárias do país tiveram de recorrer ao sistema de selos de troca para levar sua juventude a frequentar as escolas dominicais. Ainda não chegamos tão baixo quanto isso. Nunca chegaremos. ¶
Não nos envergonhamos do Evangelho, do Profeta Joseph Smith, nem dos gloriosos princípios que ele nos ensinou, mas eu lhes direi de quem nos envergonhamos. Envergonhamo-nos de ¶
homens e mulheres que alegam ser seguidores do manso e humilde Jesus, e ao mesmo tempo andam falando mal de seus vizinhos, e procurando causar-lhes todo o mal que podem. Disso é que nos envergonhamos. Envergonhamo-nos de ver homens que se autodenominam ministros do Senhor Jesus Cristo reunirem-se em convenções e aprovarem resoluções visando à perseguição, à opressão, à aniquilação de um pequeno grupo de adoradores religiosos em sua própria terra. Há pouco tempo, os ministros do país derramaram lágrimas de crocodilo por causa das perseguições aos judeus pelos russos. Também aprovaram resoluções condenando estes últimos por seu tratamento aos pobres hebreus. Vocês se lembram de que se apelou a algumas nações para que se levantassem e mostrassem sua desaprovação do tratamento dado aos judeus pelos russos, e agora encontramos alguns desses ministros, que foram tão veementes em sua denúncia dos russos por perseguirem os judeus, reunindo-se em convenção e aprovando resoluções pelas quais procuram perseguir e derrubar um pequeno grupo de adoradores religiosos aqui no deserto. Pensem nisso! Disso é que nos envergonhamos, de tamanha inconsistência. Às vezes imagino que posso ver o diabo, reclinado em sua poltrona, rindo da inconsistência desses hipócritas teológicos. ¶
Oro para que Deus abençoe a juventude de Sião; que abençoe os meninos e meninas do novo e eterno convênio. Fomos chamados para ensinar essas crianças; trabalhemos por sua salvação. Esses meninos e meninas nas classes do jardim de infância, esses meninos e meninas nas classes primárias, não serão meninos e meninas para sempre... Depois de algum tempo serão adultos, e se tornarão homens e mulheres grandiosos e bons. Nós os veremos levar adiante o reino de Deus. Posso vê-los, quando eu e vós estivermos depositados na colina, levantando-se e realizando um trabalho mil vezes melhor do que o que vós e eu estamos fazendo hoje. Estamos ensinando Apóstolos e Profetas do Deus Altíssimo. Não sabemos agora quem são esses pequeninos, mas Deus os conhece, e chegará o dia em que se levantarão e nos abençoarão, se apenas cumprirmos nosso dever para com eles e lhes ensinarmos a viver vidas puras e santas. ¶
Que Deus abençoe esta grande obra, e que trabalhemos com todo o nosso vigor, mente e força para a edificação do reino de Deus. E, finalmente, que sejamos redimidos, salvos e exaltados com os santificados no reino celestial de nosso Pai, é minha humilde oração por todos nós, em nome de Jesus Cristo. ¶