Comunicação Espiritual
Parley P. Pratt
Fui levado a refletir sobre este assunto, não apenas pelo meu conhecimento do estado atual do mundo, e dos movimentos e poderes que parecem novos a muitos, mas porque este texto, escrito por Isaías tantos séculos atrás, e copiado por Néfi eras antes do nascimento de Jesus Cristo, pareceu tão apropriado, e tão diretamente adaptado ao estado atual das coisas, como se tivesse sido escrito ontem, ou há um ano. ¶
"Não deveria um povo consultar o seu Deus, para que os vivos ouçam os mortos?" é uma pergunta do Profeta, e em um tempo em que vos convidarão a consultar os que têm espíritos familiares, e os encantadores, etc., ou em outras palavras, os magnetizadores, os batedores, os clarividentes, os médiuns escritores, etc. Quando vos disserem essas coisas, então é o momento de considerar a pergunta daquele antigo Profeta — "Não deveria um povo consultar o seu Deus, para que os vivos ouçam os mortos?" ¶
Ouvimos muito, ultimamente, sobre visões, transes, clarividência, médiuns de comunicação com o mundo espiritual, médiuns escritores, etc., pelos quais se diz que o mundo dos espíritos encontrou meios de se comunicar com espíritos na carne. Eles não trabalham em um canto. O mundo está agitado por esses assuntos. Diz-se que ministros religiosos pregam, editores escrevem e imprimem, juízes julgam, etc., por este tipo de inspiração. É invocado para desenvolver as ciências, para detectar o crime, e, em suma, para se misturar em todos os interesses da vida. ¶
Em primeiro lugar, do que estamos falando, quando tocamos na questão dos vivos ouvirem os mortos? É um dito, que "homens mortos não contam histórias." Se isto não está na Bíblia, está em outro lugar; e, se é verdade, é tão bom quanto se estivesse na Bíblia. ¶
Os Saduceus, no tempo de Jesus, criam que não existiam tais coisas como anjos ou espíritos, ou existência em outra esfera; que, quando um indivíduo morria, era o fim final do funcionamento do seu ser intelectual, que os elementos se dissolviam, e se misturavam com a grande fonte de onde emanaram, o que era o fim da individualidade, ou existência consciente. ¶
Jesus, em resposta a eles, retomou o argumento a partir das Escrituras, ou da história dos pais antigos, venerados por causa da antiguidade, na esperança, por este meio, de influenciar os Saduceus, ou pelo menos os Fariseus e outros, por meios tão poderosos e tão bem adaptados ao fim em vista. ¶
Disse ele, Deus se declarou o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Ora, Deus não é o Deus dos mortos, mas o Deus dos vivos; como quem diz que Abraão, Isaque e Jacó não estavam mortos, mas vivos; que nunca haviam estado mortos de forma alguma, mas sempre haviam estado vivos; que nunca morreram, no sentido da palavra que esses Saduceus supunham, mas estavam absolutamente vivos. ¶
Ora, se seres inteligentes, que uma vez habitaram a carne, tais como os nossos pais, mães, esposas, filhos, etc., realmente morreram, e agora estão mortos no sentido da palavra, tal como entendido pelos antigos Saduceus, ou pelo Ateu moderno, então é vão falar de comunhão com os mortos. Toda controvérsia, nesse caso, chega ao fim sobre o assunto da correspondência com os mortos, porque uma inteligência deve existir antes que possa comunicar-se. Se esses indivíduos estão mortos, no sentido em que o corpo humano morre, então não há comunicação da parte deles. Isto sabemos, por nossa própria observação e experiência. Vimos muitos corpos mortos, mas nunca soubemos de um único caso de qualquer inteligência comunicada a partir deles. ¶
Jesus, em seu argumento com os Saduceus, tratou o assunto segundo os mais estritos princípios da teologia antiga e moderna, e da verdadeira filosofia. Transmitiu a ideia nos termos mais claros, de que uma identidade ou inteligência individual jamais poderia morrer. ¶
O tabernáculo exterior, habitado por um espírito, retorna ao elemento de onde emanou. Mas o ser pensante, o indivíduo, o agente ativo ou identidade que habitava aquele tabernáculo, nunca deixou de existir, de pensar, agir, viver, mover-se, ou ter um ser; nunca deixou de exercer aquelas simpatias, afeições, esperanças e aspirações, que se fundam na própria natureza das inteligências, sendo os princípios inerentes e inestimáveis da sua existência eterna. ¶
Não, eles nunca cessam. Vivem, movem-se, pensam, agem, conversam, sentem, amam, odeiam, creem, duvidam, esperam e desejam. ¶
Mas o que são eles, se não são carne e ossos? O que são eles, se não são tangíveis aos nossos órgãos grosseiros de sentido? De que são compostos, que não podemos vê-los, ouvi-los, nem tocá-los, a menos que sejamos vivificados, ou os nossos órgãos tocados pelos princípios da visão, clarividência, ou vista espiritual? O que são eles? Ora, são inteligências organizadas. De que são feitos? São feitos do elemento que chamamos espírito, que é tanto um elemento da existência material quanto a terra, o ar, a eletricidade, ou qualquer outra substância tangível reconhecida pelo homem; mas tão sutil, tão refinada é a sua natureza, que não é tangível aos nossos órgãos grosseiros. É invisível para nós, a menos que sejamos vivificados por uma porção do mesmo elemento; e, como a eletricidade, e várias outras substâncias, só é conhecido ou manifestado aos nossos sentidos pelos seus efeitos. Por exemplo, a eletricidade nem sempre nos é visível, mas a sua existência se manifesta pelas suas operações sobre o fio, ou sobre os nervos. Não podemos ver o ar, mas sentimos os seus efeitos, e sem ele não podemos respirar. ¶
Se um fio se estendesse em conexão com a linha equatorial do nosso globo em um único círculo de 25.000 milhas de extensão, o fluido elétrico transmitiria um sinal de uma inteligência a outra, ao longo de todo o círculo, em uma pequeníssima fração de segundo, ou, diremos, em um piscar de olhos. Isto, então, prova que o fluido ou elemento espiritual chamado eletricidade é um poder real, físico e tangível, e é tanto uma substância real e tangível quanto as pesadas rochas que foram lançadas ontem no alicerce do nosso pretendido Templo. ¶
É verdade que este fluido ou elemento espiritual sutil está dotado dos poderes de locomoção em grau muito maior do que os elementos mais grosseiros ou sólidos da natureza; que as suas partículas refinadas penetram em meio aos outros elementos com maior facilidade, e encontram menos resistência do ar ou de outras substâncias, do que os elementos mais grosseiros. Daí a sua velocidade, ou poderes superiores de movimento. ¶
Ora, apliquemos esta filosofia a todos os graus do elemento espiritual, desde a eletricidade, que se pode supor um dos elementos mais baixos ou grosseiros da matéria espiritual, subindo por todas as gradações dos fluidos invisíveis, até chegarmos a uma substância tão santa, tão pura, tão dotada de atributos intelectuais e afeições simpáticas, que se pode dizer que está no mesmo nível, em seus atributos, com o homem. ¶
Que uma dada quantidade deste elemento, assim dotado, ou capacitado, seja organizada no tamanho e na forma do homem, que cada órgão seja desenvolvido, formado e dotado, precisamente segundo o padrão ou modelo do tabernáculo exterior ou carnal do homem — como chamaríamos este indivíduo, porção organizada do elemento espiritual? ¶
Chamá-lo-íamos um corpo espiritual, uma inteligência individual, um agente dotado de vida, com um grau de independência, ou vontade inerente, com os poderes de movimento, de pensamento, e com os atributos de afeições e emoções morais, intelectuais e simpáticas. ¶
Conceberíamos que possui olhos para ver, ouvidos para ouvir, mãos para tocar; que possui o órgão do paladar, do olfato e da fala. ¶
Tais seres somos nós, quando deixamos este tabernáculo exterior de carne. Estamos interessados de todas as formas, em nossos relacionamentos, laços de parentesco, simpatias, afeições e esperanças, como se tivéssemos continuado a viver, mas tivéssemos dado um passo ao lado, e estivéssemos experimentando a solidão de uma ausência por uma temporada. Os nossos antepassados, a nossa posteridade, até as eras mais remotas da antiguidade, ou do tempo futuro, estão todos trazidos dentro do círculo da nossa esfera de alegrias, tristezas, interesses ou expectativas; cada um forma um elo na grande cadeia da vida, e na ciência da salvação, aperfeiçoamento e exaltação mútuos por meio do sangue do Cordeiro. ¶
As nossas perspectivas, esperanças, fé, caridade, esclarecimento, aperfeiçoamento, em suma, todos os nossos interesses, estão entrelaçados, e mais ou menos influenciados pelos atos de cada um. ¶
É este o tipo de ser que se afasta da nossa vista quando o seu tabernáculo terreno é deposto, e o véu da eternidade é abaixado entre nós? Sim, em verdade. Para onde vai então? ¶
Para o céu, diz um; para o mundo eterno de glória, diz outro; para o reino celestial, para herdar tronos e coroas, em toda a plenitude da presença do Pai, e de Jesus Cristo, diz um terceiro. ¶
Ora, meus caros ouvintes, estas coisas não são assim. Nada disso. Tronos, reinos, coroas, principados e potestades, nos mundos celestial e eterno, e a plenitude da presença do Pai, e do seu Filho Jesus Cristo, estão reservados para seres ressuscitados, que habitam em carne imortal. O mundo dos seres ressuscitados, e o mundo dos espíritos, são duas esferas distintas, tanto quanto a nossa própria esfera é distinta da do mundo espiritual. ¶
Para onde vai então o espírito, em sua partida do seu tabernáculo terreno? Passa para a esfera seguinte da existência humana, chamada o mundo dos espíritos, sendo um véu estendido entre nós na carne, e aquele mundo dos espíritos. Bem, diz um, não há mais do que um lugar no mundo espiritual? Sim, há muitos lugares e graus naquele mundo, como neste. Jesus Cristo, quando ausente da sua carne, não ascendeu ao Pai, para ser coroado, e entronizado em poder. Por quê? Porque ainda não tinha um corpo ressuscitado, e tinha, portanto, uma missão a cumprir em outra esfera. Para onde foi então? Para o mundo dos espíritos, para espíritos maus, pecaminosos, que morreram em seus pecados, sendo levados pelo dilúvio de Noé. O ladrão na cruz, que morreu ao mesmo tempo, também foi para o mesmo mundo, e para o mesmo lugar particular no mesmo mundo, pois era pecador, e naturalmente iria para a prisão dos condenados, ali aguardando o ministério daquele Evangelho que não conseguira alcançar o seu caso enquanto na terra. ¶
Quantos outros lugares Jesus possa ter visitado enquanto no mundo espiritual não me cabe dizer, mas houve um momento em que o pobre, inculto, ignorante ladrão esteve com ele naquele mundo. E, como ele começou, ainda que tarde, a arrepender-se enquanto na terra, temos razão para esperar que aquele momento foi aproveitado pelo nosso Salvador, ministrando-lhe aquele Evangelho que não teve oportunidade de lhe ensinar, enquanto expirava na cruz. "Hoje estarás comigo no Paraíso," disse Jesus, ou, em outras palavras, hoje estarás comigo na esfera seguinte de existência — o mundo dos espíritos. ¶
Ora, notai a diferença. Jesus estava ali, como pregador de retidão, como aquele que possuía as chaves do Apostolado, ou Sacerdócio, ungido para pregar boas novas aos mansos, para atar os de coração quebrantado, para pregar liberdade ao cativo, e a abertura da prisão aos que estavam presos. Para que foi o ladrão ali? Foi ali em um estado de ignorância e pecado, sendo inculto, não aperfeiçoado, e despreparado para a salvação. Foi ali para ser ensinado, e para completar aquele arrependimento que, em um momento de morte, começou na terra. ¶
Ele havia visto Jesus expirar na cruz, e havia implorado que se lembrasse dele quando viesse a entrar na posse do seu reino. O Salvador, sob essas circunstâncias extremas, não lhe ensinou então o Evangelho, mas o referiu à próxima oportunidade, quando se encontrassem no mundo espiritual. Se o ladrão, assim favorecido, continuou a aperfeiçoar-se, sem dúvida está esperando, em esperança, o sinal para lhe ser dado, ao som da próxima trombeta, para deixar o mundo espiritual, e reentrar no tabernáculo carnal, e ascender a um grau mais elevado de felicidade. Jesus Cristo, por outro lado, partiu do mundo espiritual no terceiro dia, e reentrou no seu tabernáculo carnal, no qual ascendeu, e foi coroado à destra do Pai. Jesus Cristo, então, e o ladrão na cruz, não têm habitado juntos no mesmo reino ou lugar, por estes mil e oitocentos anos, nem temos prova de que se tenham visto durante esse tempo. ¶
Dizer que Jesus Cristo habita no mundo dos espíritos, com aqueles cujos corpos estão mortos, não seria a verdade. Ele não está ali. Ele apenas ali permaneceu até o terceiro dia. Então retornou ao seu tabernáculo, e ministrou entre os filhos da terra por quarenta dias, onde comeu, bebeu, falou, pregou, argumentou a partir das Escrituras, comissionou, ordenou, abençoou, etc. Por que fez isso? Porque havia ascendido às alturas, e sido coroado com todo poder no céu e na terra, portanto tinha autoridade para fazer todas essas coisas. ¶
Assim, tanto basta sobre aquela pergunta maravilhosa que tem sido feita pelos nossos vizinhos cristãos, tantos milhares de vezes, na abundância da sua caridade por aqueles que, como o ladrão na cruz, morrem em seus pecados, ou sem batismo, e as demais ordenanças do Evangelho. ¶
A pergunta surge naturalmente — Ouvem todas as pessoas que morrem sem o Evangelho tão logo cheguem ao mundo dos espíritos? Para ilustrar isto, olhemos para os tratos de Deus com o povo deste mundo. "Que podemos raciocinar senão a partir do que sabemos?" Sabemos e entendemos as coisas deste mundo, em algum grau, porque são visíveis, e convivemos diariamente com elas. Ouvem todas as pessoas neste mundo o Evangelho tão logo sejam capazes de entender? Não, de fato, mas muito poucas, em comparação, o ouviram sequer. ¶
Perguntai aos pobres lamanitas que, com os seus pais antes deles, habitaram estas montanhas por mil anos, se alguma vez ouviram o Evangelho, e vos dirão que não. Mas por quê? Não é pregado na terra? Sim, em verdade, mas a terra é vasta, e as circunstâncias diferem muito grandemente entre os seus diversos habitantes. Os judeus outrora tiveram o Evangelho, com o seu Apostolado, poderes e bênçãos oferecidos a eles, mas o rejeitaram como povo, e por esta razão lhes foi tirado, e assim muitas gerações deles nasceram, e viveram e morreram sem ele. O mesmo com os gentios, e o mesmo com os lamanitas. Deus tem visto por bem oferecer o Evangelho, com o seu Sacerdócio e poderes, em diferentes eras e países, mas tem sido tão frequentemente rejeitado, e por isso retirado da terra. A consequência é que as gerações dos homens têm, por muitas eras, vindo e ido em ignorância dos seus princípios, e das gloriosas esperanças que inspiram. ¶
Ora, essas bênçãos teriam continuado na terra, e teriam sido desfrutadas em todas as eras e nações do homem, não fosse o arbítrio do povo. Escolheram as suas próprias formas de governo, leis, instituições, religiões, governantes e sacerdotes, em vez de se render à influência e orientação dos vasos escolhidos do Senhor, que foram designados para os instruir e governar. ¶
Ora, como estão situados no mundo dos espíritos? Se raciocinarmos por analogia, deveríamos concluir de imediato que as coisas ali existem segundo o mesmo padrão. Não tenho a menor dúvida de que há ali espíritos que ali habitaram por mil anos, que, se pudéssemos conversar com eles face a face, seriam encontrados tão ignorantes das verdades, das ordenanças, dos poderes, das chaves, do Sacerdócio, da ressurreição e da vida eterna do corpo, em suma, tão ignorantes da plenitude do Evangelho, com as suas esperanças e consolações, quanto o é o Papa de Roma, ou o Bispo de Cantuária, ou quanto o são os Chefes das tribos indígenas de Utah. ¶
E por que essa ignorância no mundo espiritual? Porque uma porção dos seus habitantes é considerada indigna das consolações do Evangelho, até a plenitude dos tempos, até que tenham sofrido no inferno, nos calabouços das trevas, ou nas prisões dos condenados, em meio aos açoites de demônios, e espíritos maliciosos e mentirosos. ¶
Assim como na terra, assim no mundo espiritual. Ninguém pode entrar nos privilégios do Evangelho, até que as chaves sejam viradas, e o Evangelho aberto por aqueles com autoridade, para tudo o que há um tempo, segundo as sábias dispensações da justiça e da misericórdia. ¶
Foram muitos, muitos séculos antes de Cristo viver na carne, que toda uma geração, à exceção de oito almas, foi eliminada pelo dilúvio. Que foi feito deles? Não sei exatamente toda a sua história no mundo espiritual. Mas isto sei — ouviram o Evangelho dos lábios de um Redentor crucificado, e têm o privilégio de serem julgados segundo os homens na carne. Como essas pessoas foram ministradas por Jesus Cristo, depois de ter sido morto, é razoável supor que esperaram todo esse tempo, sem o conhecimento ou os privilégios do Evangelho. ¶
Quanto tempo esperaram? Podeis calcular por vós mesmos. As longas eras, séculos, milhares de anos que intervieram entre o dilúvio de Noé e a morte de Cristo. Oh! o tédio, o movimento vagaroso do tempo! As eras lentas para um povo habitar em condenação, escuridão, ignorância e desânimo, como punição pelos seus pecados. Pois haviam se enchido de violência enquanto na terra em carne, e haviam rejeitado a pregação de Noé, e dos Profetas que foram antes dele. ¶
Entre essas duas dispensações, tão distantes uma da outra em ponto de tempo, foram deixados a definhar sem esperança, e sem Deus, no mundo espiritual; e semelhante tem sido o destino do pobre judeu, do miserável lamanita, e de muitos outros na carne. Entre a comissão e o ministério dos Santos e Apóstolos dos Primeiros e dos Últimos Dias, houve uma longa e sombria noite de escuridão. Alguns quinze a dezessete séculos se passaram, nos quais as gerações do homem viveram sem as chaves do Evangelho. ¶
Seja na carne, ou no mundo espiritual, não é isto inferno suficiente? Quem pode imaginar um inferno maior do que aquele diante de nossos olhos, nas circunstâncias do pobre, miserável, degradado indígena e seus antepassados, desde que as chaves do Evangelho lhes foram tiradas há uns mil e quinhentos anos? Aqueles que tiveram o Evangelho nas dispensações anteriores, e foram feitos participantes do seu espírito, do seu conhecimento e dos seus poderes, e então se afastaram, e se tornaram inimigos de Deus, e dos seus Santos, os opositores maliciosos e deliberados daquilo que sabiam ser verdade, não têm perdão neste mundo, nem no mundo espiritual, que é o mundo vindouro. ¶
Tais apóstatas procuram, em todas as dispensações, trazer destruição sobre os inocentes, e derramar sangue inocente, ou consentir com isso. Para esses, repito de novo, não conheço perdão. Os seus filhos, que, pela conduta de tais pais, foram lançados na ignorância e na miséria por tantas eras, e viveram sem os privilégios do Evangelho, olharão para tal parentesco com sentimentos mistos de horror, desprezo, censura e piedade, como os agentes que lançaram a sua posteridade nas profundezas da miséria e da aflição. ¶
Pensai naqueles arrebatados pelo dilúvio nos dias de Noé. Esperaram muito tempo na prisão? Quarenta anos! Ó que tempo para se estar preso! Que dizeis de cem, mil, dois mil, três ou quatro mil anos de espera? Sem quê? Sem sequer uma ideia clara ou esperança de uma ressurreição dos mortos, sem o coração quebrantado ser atado, o cativo libertado, ou a porta da prisão aberta. Não esperaram eles? Sim, esperaram, até que Cristo foi morto na carne. ¶
Ora, qual teria sido o resultado, se se tivessem arrependido enquanto na carne à pregação de Noé? Ora, teriam morrido na esperança de uma gloriosa ressurreição, e teriam desfrutado da sociedade dos redimidos, e vivido em felicidade no mundo espiritual, até a ressurreição do Filho de Deus. Então teriam recebido os seus corpos, e teriam ascendido com ele, em meio a tronos, principados e potestades em lugares celestiais. ¶
Suporei, no mundo espiritual, um grau de espíritos da ordem mais baixa, composto de assassinos, ladrões, gatunos, adúlteros, bêbados, e pessoas ignorantes, incultas, etc., que estão presos, ou no inferno, sem esperança, sem Deus, e ainda indignos da instrução do Evangelho. Tais espíritos, se pudessem comunicar-se, não vos falariam da ressurreição ou de nenhuma das verdades do Evangelho, pois nada sabem sobre elas. Não vos falariam do céu, ou do Sacerdócio, pois em todas as suas andanças no mundo espiritual, nunca foram privilegiados com o ministério de um santo Sacerdote. Se dissessem toda a verdade que possuem, não poderiam dizer muito. ¶
Tomai outra classe de espíritos — homens piedosos, bem-dispostos; por exemplo, o honesto quaker, presbiteriano, ou outro sectário, que, embora honesto e bem-disposto, não teve, enquanto na carne, o privilégio do Sacerdócio e do Evangelho. Creram em Jesus Cristo, mas morreram na ignorância das suas ordenanças, e não tiveram conceitos claros da sua doutrina, e da ressurreição. Esperavam ir para aquele lugar chamado céu, tão logo morressem, e que a sua sorte então e ali seria fixada, sem qualquer alteração ou preparação posterior. Suponde que voltassem, com liberdade para dizer tudo o que sabem? Quanta luz poderíamos obter deles? Só poderiam falar-vos sobre a natureza das coisas no mundo em que vivem. E mesmo esse mundo não poderíeis compreender, pela sua descrição dele, mais do que podeis descrever cores a um homem cego de nascença, ou sons a quem nunca ouviu. ¶
Que, então, poderíeis obter deles? Ora, mera conversa fiada, na qual haveria uma mistura de verdade, e de erro e enganos, em confusão misturada: todas as suas comunicações trairiam a mesma falta de conceitos claros e lógicos, e de bom senso e filosofia, como caracterizaria a mesma classe de espíritos na carne. ¶
Quem, então, está preparado, entre os espíritos no mundo espiritual, para comunicar a verdade sobre o assunto da salvação, para guiar o povo, para dar conselho, para conferir consolação, para curar os enfermos, para administrar alegria, e regozijo, e esperança de imortalidade e vida eterna, fundadas em verdade manifesta? ¶
Todos os que foram levantados dos mortos, e revestidos de imortalidade, todos os que ascenderam àqueles céus, e foram coroados como Reis e Sacerdotes, todos esses são nossos conservos, e de nossos irmãos os Profetas, que têm o testemunho de Jesus; todos esses estão à espera da obra de Deus entre a sua posteridade na terra. ¶
Poderiam declarar boas novas se estivéssemos apenas preparados para comungar com eles. Que mais? Pedro, Tiago, Joseph, Hyrum, Pai Smith, quaisquer, ou todos aqueles Santos antigos ou modernos, que partiram desta vida, que estão revestidos dos poderes do Apostolado eterno, ou Sacerdócio, que foram para o mundo dos espíritos, não para se entristecerem, mas como mensageiros alegres, portando boas novas de verdade eterna aos espíritos em prisão — não poderiam eles ensinar-nos boas coisas? Sim, se lhes fosse permitido fazê-lo. ¶
Mas suponde que todos os espíritos fossem honestos, e visassem a verdade, ainda assim cada um só poderia conversar sobre as coisas que tem o privilégio de conhecer, ou compreender, ou que lhe foram reveladas ao entendimento, ou trazidas dentro do alcance do seu intelecto. ¶
Se é este o caso, que desejamos então, ao comunicar-nos com o mundo eterno, por visões, anjos, ou espíritos ministrantes? Ora, se uma pessoa está doente, gostaria de ser visitada, confortada, ou curada por um anjo ou espírito! Se um homem está preso, gostaria que um anjo ou espírito o visitasse, e o confortasse ou libertasse. Um homem naufragado gostaria de ser instruído no caminho de escape para si e seus companheiros de uma sepultura aquática. Em caso de fome extrema, um pão trazido por um anjo não seria inaceitável. ¶
Se um homem estivesse em viagem, e assassinos estivessem à sua espera em certo caminho, um anjo lhe seria útil para o informar da circunstância, e tomar outro caminho. ¶
Se um homem estivesse viajando para pregar o Evangelho, um anjo seria útil para informar os vizinhos do seu chamado alto e santo, como no caso de Pedro e Cornélio. Ou não gostaríeis de ter anjos ao vosso redor, para vos guardar, guiar e aconselhar em toda emergência? ¶
Os Santos gostariam de entrar em um santo templo, e ter o seu Presidente e os seus assistentes a administrar pelos seus mortos. Amam os seus pais, embora uma vez quase os tivessem esquecido. Os nossos pais esqueceram-se de nos transmitir a sua genealogia. Não sentiram interesse suficiente em nos transmitir os seus nomes, e o tempo e lugar de nascimento, e em muitos casos não nos ensinaram quando e onde nós mesmos nascemos, ou quem foram os nossos avós, e a sua ascendência. Por que tudo isto? É por causa daquele véu de cegueira que foi lançado sobre a terra, porque não houve verdadeira Igreja, Sacerdócio, ou ordem Patriarcal, nenhum lugar santo para o depósito ou preservação dos sagrados arquivos da antiguidade, nenhum conhecimento dos laços eternos de parentesco, relacionamento, ou interesses mútuos da eternidade. O coração dos filhos se havia distanciado dos pais, e o coração dos pais dos filhos, até que um veio no espírito e poder de Elias, para virar as chaves destas coisas, para abrir comunicação entre mundos, e para acender em nossos peitos aquele brilho de afeição eterna que jazia adormecido. ¶
Suponde que o nosso templo estivesse pronto, e ali entrássemos para agir pelos mortos, só poderíamos agir por aqueles cujos nomes nos são conhecidos. E estes são poucos para a maioria de nós, americanos. E por que é isto? Nunca tivemos tempo para olhar para os céus, ou para o passado ou o futuro, tão ocupados temos estado com as coisas da terra. Mal tivemos tempo para pensar em nós mesmos, para não falar dos nossos pais. ¶
É tempo de que toda essa estupidez e indiferença cheguem ao fim, e que os nossos corações se abram, e as nossas caridades se estendam, e os nossos peitos se expandam, para alcançar a quem? Àqueles que consideramos mortos! Deus se condescendeu tanto à nossa capacidade, a ponto de falar dos nossos pais como se estivessem mortos, embora sejam todos espíritos vivos, e vivam para sempre. Não temos mortos! Considerai só isto! Os nossos pais estão todos vivos, pensando, sendo agentes ativos; apenas nos foi ensinado que estão mortos! ¶
Devo falar dos meus sentimentos, que tive ontem, enquanto lançávamos aquelas Pedras Angulares do Templo? Sim, vou exprimi-los, se puder. ¶
Não foi com os meus olhos, não com o poder da visão real, mas pelo meu intelecto, pelas faculdades naturais inerentes ao homem, pelo exercício da minha razão, sobre princípios conhecidos, ou pelo poder do Espírito, que me pareceu que Joseph Smith, e os seus espíritos associados, os Santos dos Últimos Dias, pairavam sobre nós à beira daquele alicerce, e com eles todos os anjos e espíritos do outro mundo, que pudessem ser permitidos, ou que não estivessem demasiado ocupados noutro lugar. ¶
Por que pensaria assim? Em primeiro lugar, que mais nesta terra têm eles com que se interessar? Onde estariam os seus olhos voltados, na vasta terra, se não centrados aqui? Onde estariam os seus corações e afeições, se lançassem um olhar ou um pensamento em direção à mancha escura nos céus que habitamos, a não ser para o povo destes vales e montanhas? Há outros que tenham as chaves para a redenção dos mortos? Está alguém mais a preparar um santuário para a santa conversa e ministrações pertencentes à sua exaltação? Não, em verdade. Nenhum outro povo abriu o seu coração para conceber ideias tão grandiosas. Nenhum outro povo tem as suas simpatias voltadas em tal medida para os pais. ¶
Não. Se saírdes deste povo, para ouvir as doutrinas de outros, ouvireis os ditados lúgubres — "Como a árvore cai, assim jaz. Como a morte vos deixa, assim vos achará o julgamento. Não há obra, nem projeto, nem conhecimento na sepultura, etc., etc. Não há mudança depois da morte, mas estais fixos, irremediavelmente fixos, por toda a eternidade. No momento em que o fôlego deixa o corpo, deveis ir para um extremo do céu ou do inferno, ali a regozijar-vos com Pedro em tronos de poder na presença de Jesus Cristo no terceiro céu, ou, por outro lado, a rolar nas chamas do inferno com assassinos e demônios." Tais são as doutrinas dos nossos irmãos sectários, que professam crer em Cristo, mas que não conhecem os mistérios da piedade, e os recursos ilimitados da caridade eterna, e daquela misericórdia que perdura para sempre. ¶
É aqui que o mundo espiritual olharia com intenso interesse, é aqui que as nações dos mortos, se assim posso chamá-las, concentrariam as suas esperanças de ministração na terra em seu favor. É aqui que os incontáveis milhões do mundo espiritual buscariam as ordenanças da redenção, na medida em que foram esclarecidos pela pregação do Evangelho, desde que as chaves da antiga dispensação foram tiradas da terra. ¶
Por quê? Se olhassem para a terra, seria para essas Pedras Angulares que lançamos ontem; se escutassem, seria para ouvir os sons de vozes e instrumentos, e a mescla de música sacra e marcial em honra ao início de um templo para a redenção dos mortos. Com que intensidade de interesse ouviram os cânticos de Sião, e testemunharam os sentimentos dos seus amigos. Alegraram-se ao ver as baionetas reluzentes dos guardas em torno do terreno do templo, e ansiavam pelo dia em que houvesse mil onde agora há apenas um. Desejam ver um povo forte, reunido e unido, com poder suficiente para manter um local na terra onde se pudesse erigir uma pia batismal para o batismo pelos mortos. ¶
Era aqui que todas as suas expectativas se centravam. Que lhes importavam todos os palácios dourados, os pavimentos de mármore, ou os salões dourados de estado na terra? Que lhes importava todo o esplendor, o aparato, os títulos, e os sons vazios dos autoproclamados grandes deste mundo, que todos passam como o orvalho da manhã diante do sol nascente? Que lhes importavam as lutas, as batalhas, as vitórias, e os numerosos outros interesses mundanos que vibram nos peitos dos homens de um lado ou de outro? Nenhuma dessas coisas os interessaria. Os seus interesses centravam-se aqui, e daí se estendiam à obra de Deus entre as nações da terra. ¶
Pensou Joseph, no mundo espiritual, em outra coisa, ontem, além dos feitos dos seus irmãos na terra? Pode ter estado necessariamente ocupado, e tão atarefado a ponto de ser obrigado a pensar em outras coisas. Mas, se eu tivesse de julgar pelo conhecimento que tive dele em sua vida, e pelo meu conhecimento do espírito do Sacerdócio, suporia que estivesse tão apressado a ponto de ter pouco ou nenhum tempo para lançar um olhar ou um pensamento aos seus amigos na terra. Sempre esteve ocupado enquanto aqui, e assim estamos nós. O espírito da nossa santa ordenação e unção não nos deixará descansar. O espírito do seu chamado nunca lhe permitirá descansar, enquanto satanás, o pecado, a morte, ou a escuridão possuírem um pé de terreno nesta terra. Enquanto o mundo espiritual contiver o espírito de um de seus amigos, ou a sepultura mantiver cativo um dos seus corpos, ele nunca descansará, nem afrouxará os seus labores. ¶
Bem podíeis falar de Saul, rei de Israel, descansando enquanto Israel era oprimido pelos cananeus ou filisteus, depois que Samuel o ungiu para ser rei. No início era como outro homem, mas quando a ocasião chamou à ação as energias de um rei, o espírito da sua unção veio sobre ele. Matou um boi, dividiu-o em doze partes, e enviou uma parte a cada uma das tribos de Israel, com esta proclamação — "Assim se fará ao boi do homem que não subir em ajuda do Senhor dos exércitos." ¶
Ó Élderes de Israel! haveis de descobrir que há sobre vós um espírito que vos impelirá a contínuo esforço, e nunca vos permitirá sentir-vos à vontade em Sião enquanto restar uma obra por concluir no grande plano de redenção da nossa raça. Inspirará os Santos a edificar, plantar, aperfeiçoar, cultivar, tornar frutífero o deserto, em suma, a usar os elementos, enviar missões ao exterior, edificar estados e reinos e templos em casa, e enviar ao exterior a luz de um dia sem fim a todo povo e nação do globo. ¶
Fostes batizados, tivestes a imposição de mãos, e alguns fostes ordenados, e alguns ungidos com santa unção. Um espírito vos foi dado. E haveis de descobrir que, se tentardes descansar, será o mais árduo trabalho que já realizastes. Vim aqui para casa de uma missão estrangeira. Apresentei-me ao nosso Presidente, e perguntei o que deveria fazer a seguir. "Descansa," disse ele. ¶
Se me tivessem posto a virar o mundo do avesso, a escavar uma montanha, a ir até os confins da terra, ou atravessar os desertos da Arábia, teria sido mais fácil do que empreender descansar, enquanto o Sacerdócio estava sobre mim. Recebi a santa unção, e nunca poderei descansar até que o último inimigo seja vencido, a morte destruída, e a verdade reine triunfante. ¶
Que Deus vos abençoe a todos. Amém. ¶