Pulpit

Um Sermão Fúnebre Geral de Todos os Santos e Pecadores; Também, dos Céus e da Terra

Orson Pratt

1852-07-25

Fui solicitado a pregar o sermão fúnebre da esposa do irmão Levi Savage, que faleceu em dezembro passado; e desde que cheguei a este lugar esta manhã, fui solicitado a pregar os sermões fúnebres de vários dos Santos que faleceram na Inglaterra; e resolvi, em vez de limitar meu discurso a um único caso individual, pregar o que se poderia considerar um sermão fúnebre geral de todos os Santos que morreram em todas as eras e gerações passadas, com todos os que ainda hão de morrer, e o sermão fúnebre de todos aqueles que não são Santos, e também o sermão fúnebre dos céus e da terra; e para este propósito tomarei um texto, que encontrareis registrado no capítulo 51 da profecia de Isaías, versículo 6—

"Levantai os vossos olhos para os céus, e olhai para a terra embaixo, porque os céus desaparecerão como a fumaça, e a terra envelhecerá como uma veste, e os seus moradores morrerão semelhantemente; porém a minha salvação durará para sempre, e a minha justiça não será abolida."

Todas as coisas com que estamos familiarizados, pertencentes a esta nossa terra, estão sujeitas a mudança; não apenas o homem, no que se refere ao seu corpo temporal, mas os animais do campo, as aves dos céus, os peixes do mar, e toda coisa viva que conhecemos—todos estão sujeitos à dor e à aflição, e por fim morrem e desaparecem; a morte parece ter domínio universal em nossa criação. Certamente é um mundo curioso; certamente não parece um mundo construído de maneira a produzir felicidade eterna; e estaria muito longe da verdade, penso eu, se algum ser, no tempo presente, o declarasse muito bom: tudo parece mostrar-nos que a bondade, em grande medida, fugiu desta criação. Se participamos dos elementos, a morte está ali em todas as suas formas e variedades; e quando desejamos regozijar-nos, a tristeza está ali, misturando-se a cada cálice; e a angústia, a miséria e o sofrimento parecem ser nossa sina presente.

Há, porém, algo no homem que está constantemente em busca da felicidade, da vida, do prazer, de algo que satisfaça o desejo ardente que habita em seu peito. Por que temos tal desejo? E por que não é satisfeito? Por que esta criação é assim construída? E por que a morte reina universalmente sobre todos os seres viventes terrenos? Teria o grande Autor da criação construído este pequeno globo nosso sujeito a todas essas mudanças, calculadas para produzir tristeza e morte entre os seres que o habitam? Foi essa a condição original de nossa criação? Respondo que não; não foi assim construída. Mas como foi feita no princípio? Todas as coisas que foram feitas, pertencentes a esta terra, foram declaradas "muito boas". Onde há dor, onde há doença, onde há tristeza, e onde há morte, este dito não pode ser entendido em seu sentido literal; as coisas não podem ser muito boas onde algo muito mau reina e tem domínio universal.

Somos, portanto, constrangidos a crer que, na primeira formação de nosso globo, até onde a história mosaica nos dá informação, tudo era perfeito em sua formação; que não havia no ar, nem nas águas, nem nos elementos sólidos, nada calculado a produzir miséria, aflição, infelicidade ou morte, na forma em que então estava organizado; não que os mesmos elementos, organizados de maneira um pouco diferente, não pudessem produzir todos esses efeitos; mas, tal como então estava constituído, devemos admitir que cada partícula de ar, de água e de terra estava organizada de modo a ser capaz de difundir vida e imortalidade por todas as variadas espécies de existência animada—a imortalidade reinava em todo departamento da criação; por isso foi declarada "muito boa".

Quando o Senhor fez as aves dos céus, e os peixes do mar, para povoar os céus atmosféricos, ou os elementos aquáticos, essas aves e peixes foram assim constituídos em sua natureza de modo a serem capazes de existência eterna. Imaginar algo diferente disso seria supor que o Todo-Poderoso formou algo calculado a produzir sofrimento e miséria. Que diz o salmista Davi a respeito disto? Ele diz que todas as obras do Senhor permanecerão para sempre. Não fez o Senhor os peixes? Sim. Não fez Ele as aves dos céus? Sim. Não fez Ele os animais do campo, e os répteis, e os insetos? Sim. Permanecem eles para sempre? Aparentemente não; e, no entanto, Davi diz que todas as Suas obras são constituídas sobre esse princípio. Há aqui contradição? Não. Deus deu outros pormenores acerca dessas obras. Ele permitiu que o destruidor as visitasse, o qual usurpou certo domínio e autoridade, levando desolação e ruína a toda parte; as perfeições das organizações originais cessaram. Mas permitirá o Senhor para sempre que essas destruições reinem? Não. Seu poder existe, e existe também o poder do destruidor. Seu poder existe, e existe também o poder da morte; mas Seu poder excede todos os demais poderes; e, consequentemente, onde quer que um usurpador venha a devastar quaisquer de Suas obras, Ele reparará essas devastações, reconstruirá as antigas ruínas, e fará novas todas as coisas: até mesmo os peixes do mar, e as aves dos céus, e os animais da terra devem ainda, para que se cumpram os desígnios do Todo-Poderoso, ser assim constituídos de modo a serem capazes de existência eterna.

Seria interessante saber algo sobre a situação das coisas quando foram formadas pela primeira vez, e como este destruidor conseguiu invadir esta bela criação; quais foram as causas, e por que isso foi permitido.

O homem, quando foi colocado pela primeira vez sobre esta terra, era um ser imortal, capaz de existência eterna; sua carne e ossos, assim como seu espírito, eram imortais e eternos em sua natureza; e assim era com toda a criação inferior—o leão, o leopardo, o cabrito, e a vaca; assim era com as tribos aladas da criação, bem como com as que nadam no vasto oceano das águas; todos eram imortais e eternos em sua natureza; e a própria terra, como ser vivo, era imortal e eterna em sua natureza. "Como! Está a terra viva também?" Se não estivesse, como se poderiam cumprir as palavras de nosso texto, onde fala da morte da terra? Como pode morrer aquilo que não tem vida? "Levantai os vossos olhos para os céus", diz o Senhor, "e olhai para a terra embaixo; os céus desaparecerão como a fumaça, e a terra envelhecerá como uma veste, e os que nela habitam morrerão semelhantemente." Semelhantemente! Como! Os céus e a terra morrerem? Sim, os céus e a terra materiais devem todos passar por esta mudança que chamamos morte; e, se assim é, a terra deve estar viva tanto quanto nós. A terra foi assim constituída para ser capaz de existir como um ser vivo por toda a eternidade, com todos os enxames de animais, aves e peixes que primeiro foram colocados sobre a sua face. Mas como se pode provar que o homem era um ser imortal? Referir-nos-emos ao que escreveu o Apóstolo Paulo sobre este assunto; ele diz que por um homem veio a morte; e nos diz como ela veio: foi pela transgressão de um indivíduo que a morte foi aqui introduzida. Mas foi a transgressão que trouxe todas estas doenças e esta tristeza, esta angústia e este sofrimento, sobre toda a face desta criação? É pela transgressão de um só que os próprios céus hão de desaparecer como fumaça, e a terra há de envelhecer como uma veste? Sim, é pela transgressão de um só; e, se não fosse por sua transgressão, a terra jamais teria sido sujeita à morte. Por quê? Porque as obras do Senhor são constituídas de modo a existir para sempre; e se a morte tivesse entrado sem uma causa, e destruído a terra, e devastado os céus materiais, e produzido uma ruína geral e total nesta bela criação, então as obras do Senhor teriam deixado de perdurar segundo a promessa, sendo imperfeitas em sua constituição, e, portanto, não muito boas.

Mas que pecado foi este, e qual era sua natureza? Eu vos direi o que foi; foi meramente participar de certa espécie de fruto. Mas, diz alguém, penso que não há mal em comer fruto. Não haveria, a menos que Deus tivesse dado um mandamento sobre o assunto. Há coisas na natureza que seriam más mesmo sem mandamento: se não houvesse mandamento, seria mau assassinar um ser inocente, e a própria consciência vos diria que isso seria mau. É um mal que um indivíduo prejudique outro, ou que infrinja os direitos de outro, independentemente de qualquer lei revelada; pois tanto o selvagem, ou aquele ser que nunca ouviu falar das leis escritas do céu—que nunca ouviu falar das leis reveladas de Deus com respeito a esses princípios—como o Santo, sabe que é mau infringir os direitos de outro; a própria natureza da coisa mostra que é um mal; mas não é assim quanto a muitas outras coisas que são más, as quais só se tornam más por mandamento.

Por exemplo, aqui está o dia de sábado: uma pessoa que nunca ouviu a lei revelada de Deus sobre este assunto jamais poderia conceber que fosse mau trabalhar no dia de sábado; consideraria tão certo trabalhar no primeiro dia da semana quanto no sétimo; não perceberia nada na natureza da coisa pelo qual pudesse distingui-la como um mal. Assim também com respeito a comer certos frutos; não há mal algum nisso em si mesmo, foi o mandamento do Grande Deus que o tornou um mal. Ele disse a Adão e Eva: "Eis aqui todos os frutos do jardim; podeis comer deles livremente, exceto desta árvore que está no meio do jardim; agora, cuidado, pois no dia em que dela comerdes, certamente morrereis." Não percebemos que foi o mandamento que tornou isso um mal? Não fosse este mandamento, Adão teria caminhado livremente e participado de toda árvore, sem qualquer remorso de consciência; assim como o selvagem, que nunca ouviu a vontade revelada de Deus, trabalharia no sábado do mesmo modo que em qualquer outro dia, e não teria consciência alguma quanto a isso. Mas quando um homem assassina, sabe que é um mal, e tem consciência disso, ainda que jamais tenha ouvido falar de Deus; e assim se dá com milhares de outros males. Mas por que colocou o Senhor o homem sob estas circunstâncias peculiares? Por que não reteve o mandamento, se o participar do fruto, depois de dado o mandamento, era pecado? Por que deveria ter havido um mandamento sobre este assunto, visto que não havia mal algum na natureza da própria coisa a ser percebido ou entendido? O Senhor tinha um propósito em vista; embora tivesse construído esta bela criação, como já vos dissemos, sujeita à imortalidade, e capaz de duração eterna, e embora tivesse constituído o homem capaz de viver para sempre, ainda assim tinha um objetivo em vista com respeito a esse homem, e à criação que ele habitava. Qual era esse objetivo? E como se haveria de cumprir tal objetivo?

Ora, o Senhor queria que este ser inteligente chamado homem provasse a si mesmo; visto que ele era um agente, o Senhor desejava que ele se mostrasse aprovado diante de seu Criador.

Como poderia isto ser feito sem um mandamento? Podeis conceber algum meio possível? Há alguém nesta congregação com sabedoria suficiente para conceber algum meio pelo qual um ser inteligente possa mostrar-se aprovado diante de uma inteligência superior, a não ser mediante certas leis administradas a esse homem, para que sejam guardadas? Não. Sem lei, sem mandamento ou regra, não haveria maneira possível de demonstrar sua integridade: não se poderia dizer que ele guardaria todas as leis que governam ordens superiores de seres, a menos que fosse colocado numa posição em que fosse provado, e assim demonstrasse se as guardaria ou não. Foi então sabedoria provar o homem e a mulher, e por isso o Senhor lhes deu este mandamento; se Ele não tivesse a intenção de que o homem fosse provado por este mandamento, jamais teria plantado aquela árvore, jamais a teria colocado no meio do jardim. Mas o próprio fato de tê-la plantado onde o homem tinha fácil acesso a ela mostra que Ele pretendia que o homem fosse provado por ela, e assim demonstrasse se guardaria ou não Seus mandamentos. A penalidade pela desobediência a esta lei era a morte.

Mas não poderia Ele dar um mandamento sem estabelecer uma penalidade? Não poderia: seria loucura, pior ainda que loucura, que Deus desse uma lei a um ser inteligente, sem estabelecer uma penalidade para o caso de ser quebrada. Por quê? Porque todos os seres inteligentes desprezariam a própria ideia de uma lei que pudesse ser quebrada à vontade, sem que os indivíduos que a quebrassem fossem punidos por sua transgressão. Diriam eles—"Onde está o princípio de justiça naquele que deu a lei? Não está ali: não O reverenciamos nem a Sua lei; a justiça não tem existência em Seu peito; Ele não respeita as próprias leis, pois permite que sejam quebradas impunemente, e pisadas aos pés por aqueles que Ele fez; portanto, nada nos importa Ele, nem Suas leis, nem Sua pretensa justiça; havemos de rebelar-nos contra ela." De que teria servido, se não houvesse penalidade estabelecida?

Mas qual era a natureza desta penalidade? Foi sabiamente ordenada de modo a instruir o homem. As penalidades infligidas aos seres humanos aqui, por governadores, reis ou governantes, são geralmente de natureza tal que os beneficiam.

Adão foi designado senhor desta criação; um grande governante, empunhando o cetro do poder sobre toda a terra. Quando o governador, a pessoa que foi colocada para reinar sobre esta bela criação, transgrediu, todos em seus domínios tiveram de sentir os efeitos disso, do mesmo modo que um pai ou uma mãe que transgride certas leis frequentemente transmite os efeitos disso até as últimas gerações.

Quantas vezes vemos certas doenças tornarem-se hereditárias, transmitidas de pai a filho por gerações. Por quê? Porque, no primeiro caso, houve uma transgressão, e os filhos participaram dos seus efeitos.

E qual foi a extensão completa da penalidade da transgressão de Adão? Eu vos direi—foi a morte. A morte de quê? A morte do tabernáculo imortal—daquele tabernáculo onde as sementes da morte não estavam presentes, que foi sabiamente formado, e declarado muito bom: as sementes da morte foram nele introduzidas. Como, e de que maneira? Alguns dizem que havia algo na natureza do fruto que introduziu a mortalidade. Seja como for, uma coisa é certa: a morte entrou no sistema; entrou de algum modo, e o pecado foi a mola principal pela qual este monstro foi introduzido. Se não houvesse pecado, o velho pai Adão estaria hoje no jardim do Éden, tão brilhante e florescente, tão fresco e formoso como sempre, junto com sua adorável companheira Eva, habitando em toda a beleza da juventude.

Por um homem veio a morte—a morte do corpo. O que se torna do espírito quando o corpo morre? Será ele perfeitamente feliz? Teria o espírito do velho pai Adão voltado à presença de Deus, e ali habitado eternamente, desfrutando de todas as felicidades e glórias do céu, depois que seu corpo morresse? Não; pois a penalidade daquela transgressão não se limitava apenas ao corpo. Quando ele pecou, foi com o corpo e com o espírito que pecou: não foi só o corpo que comeu do fruto, mas o espírito que deu a vontade de comer; o espírito, pois, pecou tanto quanto o corpo; ambos concordaram em participar daquele fruto. Não haveria de sofrer o espírito, então, tanto quanto o corpo? Sim. Por quanto tempo? Por todas as eras da eternidade, sem fim algum; enquanto o corpo haveria de retornar à sua mãe terra, e ali dormir por toda a eternidade. Esse foi o efeito da queda, deixando de lado o plano de redenção; de modo que, se não houvesse plano de redenção preparado desde antes da fundação do mundo, o homem estaria sujeito a uma dissolução eterna do corpo e do espírito—um a jazer, misturando-se com sua mãe terra, por todas as eras da eternidade, e o outro sujeito, por toda a duração futura, ao poder que o enganou, e o desviou; a ser completamente miserável, ou, como diz o Livro de Mórmon, "morto para as coisas ligadas à retidão"; e desafio a que qualquer desses seres possa ter alguma felicidade quando estiverem mortos para as coisas ligadas à retidão. Para eles, a felicidade está fora de questão; são completa e eternamente miseráveis, e não há remédio para eles, deixando de lado a expiação. Essa foi a penalidade pronunciada sobre pai Adão, e sobre toda a criação da qual ele foi feito senhor e governador. É isso que se denomina pecado original, e seu efeito.

Mas há um dito muito curioso no Livro de Mórmon, ao qual desejo agora chamar vossa atenção; assim está escrito: "Adão caiu para que os homens existissem; e os homens existem para que tenham alegria." Diz alguém: "Se Adão não tivesse caído, então não poderia ter havido posteridade." É exatamente isso que cremos; mas como conciliais isso com aquele dito, dado antes da queda, onde ele foi mandado multiplicar-se e encher a terra? Como poderia ele ter-se multiplicado e cumprido este mandamento, se "Adão caiu para que os homens existissem"? Permiti-me recorrer a outro dito do Novo Testamento: "Adão não foi enganado; mas a mulher, sendo enganada, incorreu em transgressão," diz o Apóstolo Paulo. Ora, depois que a mulher foi enganada, tornou-se sujeita à penalidade; sim, depois que participou do fruto proibido, a penalidade recaiu sobre ela, e não sobre Adão; ele não tinha participado do fruto, mas sua esposa sim. Ora, que se há de fazer? Aqui estão dois seres no jardim do Éden, a mulher e o homem; ela transgrediu, quebrou a lei, e incorreu na penalidade. E agora, suponde que o homem tivesse dito: "Não participarei deste fruto proibido"; a próxima palavra teria sido: "Expulsai-a do jardim; mas deixai Adão ficar ali, pois ele não pecou; não quebrou o mandamento, mas sua esposa sim; ela foi enganada, seja ela banida do jardim, e de minha presença, e da presença de Adão; que sejam eternamente separados." Pergunto: sob tais condições, poderiam eles cumprir o primeiro grande mandamento? Não poderiam. Adão viu isso, que a mulher tinha sido vencida pelo diabo falando através da serpente; e quando o viu, ficou convencido de que a mulher teria de ser banida de sua presença: viu também que, a menos que participasse do fruto proibido, jamais poderia levantar posteridade; portanto, torna-se evidente a verdade daquele dito no Livro de Mórmon, de que "Adão caiu para que os homens existissem." Ele viu que era necessário que, juntamente com ela, participasse da tristeza e da morte, e dos variados efeitos da queda, para que ele e ela pudessem ser redimidos desses efeitos, e restaurados novamente à presença de Deus.

Esta árvore, da qual ambos comeram, chamava-se árvore do conhecimento do bem e do mal. Por que assim foi chamada? Explicar-vos-ei um mistério, irmãos, do porquê de assim se chamar. Adão e Eva, enquanto estavam no jardim do Éden, não tinham o conhecimento que eu e vós temos; é verdade que tinham certo grau de inteligência, mas não tinham a experiência, não tinham o conhecimento pela experiência, que eu e vós temos: tudo o que sabiam era apenas o que sabiam quando ali chegaram; sabiam que lhes tinha sido dado um mandamento, e tinham conhecimento suficiente para dar nomes aos animais do campo à medida que estes vinham diante deles; mas quanto ao conhecimento do bem, não o possuíam, porque jamais tinham tido diante de si algo contrário ao bem.

Vamos apresentar um exemplo. Suponde, por exemplo, que jamais tivésseis provado algo doce—jamais tivésseis tido a sensação de doçura—poderíeis ter alguma ideia correta do termo doçura? Não. Por outro lado, como poderíeis entender o amargo se jamais tivésseis provado a amargura? Poderíeis definir o termo a quem jamais experimentou essa sensação, ou a conheceu? Não. Trarei outro exemplo. Tomai um homem que fosse perfeitamente cego desde a infância, e jamais visse o menor raio de luz—poderíeis descrever-lhe as cores? Não. Saberia ele algo sobre o vermelho, o azul, o violeta, ou o amarelo? Não; não poderíeis descrevê-lo a ele de nenhuma maneira que tentásseis. Mas, por algum processo, sejam abertos seus olhos, e que ele contemple os raios do sol refletidos numa nuvem aquosa, produzindo o arco-íris, onde veria uma variedade de cores; poderia então apreciá-las por si mesmo; mas falai-lhe de cores enquanto está cego, e ele não as distinguirá de um pedaço de louça. Assim era com Adão antes de participar deste fruto; o bem não podia ser-lhe descrito, porque ele jamais tinha experimentado o oposto. Quanto a empreender explicar-lhe o que era o mal, seria como empreender explicar a um ser que jamais, por um único momento, tivesse tido os olhos fechados à luz, o que é a escuridão. A árvore do conhecimento do bem e do mal foi ali colocada para que o homem obtivesse certa informação que de outra forma jamais poderia ter obtido; ao participar do fruto proibido, experimentou a miséria, e então soube que outrora fora feliz, pois antes não podia compreender o que era a felicidade, o que era o bem; mas agora o sabe por contraste, agora está cheio de tristeza e sofrimento, agora vê a diferença entre sua antiga e sua presente condição, e se, por algum meio, pudesse ser restaurado à sua primeira posição, estaria preparado para apreciá-la, como o homem que jamais tinha visto a luz. Que o homem a quem todas as belezas da luz foram mostradas, e que jamais esteve na escuridão, seja num momento, num piscar de olhos, privado de sua visão natural; que mudança seria essa para ele; ele jamais soube nada da escuridão antes, jamais entendeu absolutamente o princípio; nunca entrou no catálogo de suas ideias, até que a escuridão viesse sobre ele, e sua visão fosse destruída: agora pode compreender que o meio em que outrora existia era a luz. Agora, diz ele, se eu pudesse apenas recuperar minha visão, poderia apreciá-la, pois compreendo o contraste; restaurai-me à minha visão, e deixai-me desfrutar da luz que outrora tive; deixai-me contemplar as obras da criação, deixai-me olhar novamente para suas belezas, e ficarei satisfeito, e minha alegria será completa. Assim era com Adão; que se prepare o caminho para sua redenção, e para a redenção de sua posteridade, e de toda a criação que geme em dor por ser libertada—que sejam restaurados novamente àquilo que perderam pela queda, e estarão preparados para apreciá-lo.

Para mostrar-vos os terríveis efeitos da queda, não basta dizer apenas que o velho pai Adão experimentou aquela penalidade, e depositou seu corpo no pó; mas todas as gerações desde então experimentaram o mesmo; e vós, e eu, e todo homem, mulher e criança, teremos de passar por essa penalidade; ela nos será infligida, e assim se magnificará a lei de Deus, cumprir-se-ão Suas palavras, e a justiça terá suas exigências. Não é por causa de nossos pecados que morremos; não é porque transgredimos que morremos; não é porque possamos cometer assassinato, ou roubar, ou saquear, ou tomar o nome do Senhor em vão; não são estas coisas que trazem a morte do corpo; mas é o pecado de Adão que faz morrer a criancinha, que faz morrer reis, príncipes e potentados, e que fez morrer todas as gerações, desde os seus dias até o tempo presente. Não pensais que deveria haver algum modo de nos redimir desta terrível calamidade? Não tivemos parte na transgressão de Adão; nem vós nem eu ali estávamos para participar dela; mas foi nosso grande pai quem a cometeu, e estamos sofrendo os efeitos dela.

Não poderão alguns dos sábios homens da medicina desta era—alguns dos grandes médicos e doutores de nosso tempo, que estudaram medicina a vida toda—não poderão eles imaginar algo novo, que alivie a posteridade de Adão desta terrível calamidade? Ainda não o fizeram. O Dr. Brandreth recomendou seu remédio para todo tipo de doença, e até se disse que os barcos a vapor eram impulsionados por seu poder; mas não tornou nenhum homem imortal; não salvou um único homem; e é sumamente duvidoso—é certo—que nenhum homem nesta mortalidade jamais descobriu aquele remédio que nos aliviará destes terríveis efeitos transmitidos do pai Adão até o presente. Há um remédio, mas não se encontra no catálogo das invenções do homem; não se encontra nas entranhas da terra, nem se extrai de nenhuma mina; não se compra com o ouro da Califórnia, nem com os tesouros da Índia. Qual é ele, e como foi descoberto? Foi o Ser que fez o homem, que o fez imortal e eterno, aquele Ser cujo peito está cheio de misericórdia, tanto quanto de justiça, que exerce ambos os atributos, e mostra a toda a criação que Ele é um Deus misericordioso, tanto quanto um Deus de justiça; foi Ele quem descobriu este maravilhoso remédio para preservar a humanidade dos efeitos desta morte eterna. Mas quando será aplicado? Não imediatamente, pois isso frustraria Seus desígnios: quando o corpo tiver voltado ao pó, e depois que o homem tiver sofrido suficientemente pelo pecado original, Ele então o traz à presença para desfrutar de todo o esplendor da imortalidade; Ele diz à Morte que não mais o perturbe; Ele enxuga todas as lágrimas de seus olhos, pois ele está preparado para viver para sempre, e contemplar Sua glória, e habitar em Sua presença.

Este grande Redentor é mais forte que a Morte, mais poderoso que aquele terrível monstro que veio ao mundo, e sitiou todos os seus habitantes; Ele o banirá desta criação. Como o fará? Se a penalidade do pecado original for a separação eterna do corpo e do espírito, como pode a justiça ter todas as suas exigências, e a misericórdia ser mostrada ao transgressor? Há um modo, e qual é? É pela introdução de Seu Filho Unigênito, o Filho de Seu próprio peito, o primogênito de toda criatura, detentor do direito de primogenitura sobre toda criação que Ele fez, e detentor das chaves da salvação sobre milhões de mundos como este; ele tem o direito de vir e sofrer a penalidade da morte pelos filhos e filhas caídos do homem. Ele ofereceu sua própria vida: disse ele, "Pai, sofrerei a morte, ainda que não a tenha merecido; permite que eu sofra as exigências da lei. Aqui estou, inocente em tua presença; sempre guardei as tuas leis desde o dia de meu nascimento entre tuas criações, através de eras passadas até o tempo presente; jamais fui rebelde aos teus mandamentos; e agora sofrerei por meus irmãos e minhas irmãs: seja a tua justiça magnificada e feita honrosa; aqui estou; permite que eu sofra os fins da lei, e que a morte e a sepultura entreguem suas vítimas, e que toda a posteridade de Adão seja libertada, cada alma dela sem exceção." É deste modo que a justiça é magnificada e feita honrosa, e nenhuma das criações do Todo-Poderoso pode reclamar dEle, dizendo que Ele não atendeu aos fins da justiça; nenhum ser inteligente pode dizer, "Desviaste-te de tuas palavras." A justiça teve suas exigências nas penalidades que foram infligidas ao Filho de Deus, no que diz respeito à transgressão de Adão.

Explicarei um pouco mais. No que diz respeito àquela transgressão, todos os habitantes da terra serão salvos. Compreendei-me agora corretamente. Se há aqui algum estranho presente, que não tenha compreendido as opiniões dos Santos dos Últimos Dias, desejo que compreendais que não fazemos referência alguma a nossos pecados pessoais; mas, no que diz respeito ao pecado original do pai Adão, vós e eu teremos de sofrer a morte; e todo homem e mulher que já viveu sobre este globo será redimido daquele pecado. Sob que condição? Respondo: sob nenhuma condição da nossa parte. "Mas," diz alguém, "onde eu vim, dizem-me que devo arrepender-me do pecado original." Não me importa o que vos dizem, sereis redimidos do pecado original, sem nenhuma obra de vossa parte. Jesus morreu para vos redimir dele, e sois tão certamente redimidos quanto certo é que viveis sobre a face desta terra. Este é o tipo de redenção universal em que os "mórmons" creem, embora, num certo sentido da palavra, seja um tipo diferente de redenção universal daquele que as nações estão acostumadas a ouvir. Cremos na redenção universal de todos os filhos de Adão à presença de Deus, no que se refere aos pecados de Adão. Obterão uma redenção universal da sepultura. Não importa quão iníquos sejais; ainda que tenhais assassinado toda a vossa vida, e cometido todos os pecados que o diabo vos incitasse a cometer, obtereis uma ressurreição; vosso espírito será restaurado a vosso corpo. Se Jesus não tivesse vindo, todos nós teríamos dormido na sepultura; mas agora, por mais ímpios que sejamos, se descermos à sepultura blasfemando o nome do Senhor, com a mesma certeza haveremos de subir de novo. Isso é livre graça, sem obras; tudo isso se cumpre sem obras da parte da criatura.

Detenhamo-nos agora sobre outro assunto, enquanto avançamos. Não sabeis, meus ouvintes, que houve outra lei dada desde que o homem se tornou um ser mortal? Seria o Livro de Mórmon? Não. Depois que o homem se tornou um ser mortal, o Senhor lhe deu outra lei. Qual era? "Agora chegaste a uma condição em que conheces o bem e o mal por experiência, e te darei uma lei adequada à tua capacidade," diz o Senhor, "e agora te ordeno que não faças o mal."

Qual é a penalidade? A segunda morte. O que é isso? Depois que fordes redimidos da sepultura, e entrardes na presença de Deus, tereis de ali comparecer para ser julgados; e se tiverdes feito o mal, sereis banidos eternamente de Sua presença—corpo e espírito unidos; a isso se chama a segunda morte. Por que se chama a segunda morte? Porque a primeira é a dissolução do corpo e do espírito, e a segunda é meramente um banimento—um tornar-se morto para as coisas da retidão; e, como já observei, onde quer que um ser seja colocado em tal condição, ali reina a miséria perfeita; não me importa onde os coloqueis; podeis tomar quaisquer dos mundos celestiais, e ali colocar milhões de seres que estão mortos para a retidão, e quanto tempo levará até que façam dele um perfeito inferno? Fariam um inferno de qualquer céu que o Senhor já tenha feito. É a segunda morte—a penalidade ligada ao mandamento dado à posteridade de Adão, a saber: "Cessareis de fazer o mal; pois se cessardes de fazer o mal, sereis redimidos da transgressão de Adão, e trazidos de volta à minha presença; e se não cessardes de fazer o mal, sereis punidos com destruição eterna de minha presença, e da glória do meu poder," diz o Senhor.

"Mas," diz alguém, "Ele é tão misericordioso que não nos infligiria tal penalidade." Já vistes algum homem que tenha escapado da primeira morte? Ou que tivesse alguma perspectiva disso? Não; não podeis encontrar remédio que o impeça de descer à sepultura. Houve alguma fuga para qualquer indivíduo nos últimos 6.000 anos? Ora, se o Senhor tem sido pontual em fazer todo homem, mulher e criança sofrer a penalidade da primeira transgressão, por que suporíeis que podeis estar em Sua presença, e contemplar a glória de Seu poder, e ter vida e felicidade eternas, quando Ele vos disse que sereis banidos dali, que a segunda morte vos será infligida? Quanto à primeira provocação, Ele cumpriu à risca a penalidade da lei; assim fará também com a segunda, e não há como escapar. Diz alguém, "Não há fuga possível?" Não; não na medida em que a possais prover. Mas vos direi que há redenção para o homem desta segunda morte, ou penalidade, e o Senhor permanece um Ser perfeito e justo, sendo Sua justiça magnificada.

Há um modo de escapar dos efeitos de vossas próprias transgressões individuais, mas é diferente da redenção do pecado original de Adão. A redenção daquele pecado foi universal, sem obras, mas a redenção de vossos próprios pecados pessoais é universal com obras da parte da criatura—universal em sua natureza, porque é livre para todos, mas não recebida por todos. A salvação, ou redenção de vossos próprios pecados, não é apenas pela livre graça, requer um pouco de obra. Mas quais são as obras? Jesus Cristo, mediante sua morte e sofrimentos, atendeu à penalidade, sob a condição de que creiais nele, e vos arrependais de vossos pecados, e sejais batizados para a remissão deles, e recebais o dom do Espírito Santo, pela imposição de mãos, e continueis humildes, e mansos, e orantes, até descerdes à sepultura; e, sob estas condições, Jesus intercederá por vós diante do Pai, e dirá: "Pai, não morri apenas pelo pecado de Adão, mas pelos pecados de todo o mundo, na medida em que creem em meu Evangelho; e agora estes indivíduos se arrependeram, reformaram suas vidas, e se tornaram como criancinhas diante de mim, e realizaram as obras que lhes dei a fazer—e agora, Pai, sejam eles salvos com uma salvação eterna em tua presença, e sentem-se comigo em meu trono, como eu venci, e me sentei contigo em teu trono; e sejam eles coroados, com todos os santificados, com imortalidade e vida eterna, para nunca mais serem lançados fora."

Não pensais que o Pai aceitaria um apelo desta natureza vindo de Seu Filho Unigênito? Sim. Ele é nosso Mediador, para interceder diante do Pai por aqueles que cumprirem seus mandamentos, e as leis de seu Evangelho. O caminho é simples, tão simples e fácil que muitos passam por cima dele e dizem: "Ora, isso não tem importância alguma, de nada vale, não fará bem algum ser batizado na água." Mas se o Senhor não o tivesse constituído sobre um plano simples, adequado às capacidades de todos os homens, poderiam ter alguma desculpa; mas, como é, não têm nenhuma: tudo o que tendes de fazer é crer que Jesus Cristo é o Filho de Deus, afastar-vos de vossos pecados, cessar de fazer o mal, dizendo: "Pai, desde agora hei de cessar de pecar, e trabalharei as obras da retidão; procurarei fazer o bem todos os dias de minha vida; e disto vos dou testemunho hoje, descendo às águas do batismo," e, doravante, viver em novidade de vida. Se fizerdes isso, sereis tão certamente redimidos de vossos próprios pecados, e da penalidade deles, e erguidos para habitar na presença de Deus, quanto fostes redimidos ou erguidos das águas do batismo. Este é o Evangelho, os primeiros princípios do mesmo, pelos quais podeis ser redimidos de vossos próprios pecados; e, com o tempo, virá a morte, e ela vos será doce, pois Jesus sofreu a penalidade do pecado; as dores do pecado desapareceram, e adormeceis em paz, tendo assegurado vossa salvação, e tendo cumprido bem vosso dever, como aqueles cujo sermão fúnebre pregamos esta manhã; e assim adormecereis, com plena certeza de que hareis de ressuscitar, na manhã da primeira ressurreição, com um corpo imortal, semelhante ao que Adão tinha antes de participar do fruto proibido. Esta é a promessa aos que adormecem em Jesus.

Quando nossos espíritos deixarem estes corpos, serão eles felizes? Não perfeitamente. Por quê? Porque o espírito está ausente do corpo; não pode ser perfeitamente feliz enquanto parte do homem jaz na terra. Como pode a felicidade ser completa quando apenas parte da redenção foi cumprida? Não podeis ser perfeitamente felizes até obterdes uma nova casa. Sereis felizes, estareis à vontade no paraíso; mas ainda assim estareis à espera de uma casa onde vosso espírito possa entrar, e agir como agíeis outrora, apenas de modo mais perfeito, tendo poderes superiores. Consequentemente, todos os homens santos que viveram em dias antigos têm aguardado a ressurreição de seus corpos; pois então sua glória será completa.

Que disse Paulo a este respeito? Ele disse: "Combati o bom combate," "guardei a fé; desde agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia." Compreendeis esta passagem? Lembrai-vos de que esta coroa de que fala Paulo não haveria de ser dada no dia em que morremos; mas há de ser dada "naquele dia"—o dia da vinda do Senhor; há de ser dada a todos aqueles que amam a sua vinda; então será o tempo em que Paulo receberá sua coroa; então será o tempo em que os Santos que adormecerem em nossos dias receberão suas coroas—coroas de regozijo—coroas régias. De que serviria uma coroa a um homem que é miserável e infeliz? Muitas pessoas usaram coroas nesta vida; tiranos tiveram coroas de diamantes e ouro; mas de que lhes servem? De nada, exceto a um ser que se fez perfeitamente feliz por sua obediência. Mas o que devemos entender por esta coroa de retidão, que há de ser dada aos Santos? Entendemos que ela é, na verdade, uma coroa de glória; que eles serão reis de fato. João fala, no primeiro capítulo de sua Revelação às Igrejas de seu tempo, e representa os Santos como Reis e Sacerdotes; diz ele, que Cristo "nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai;" e isto, ainda nesta vida.

Em outro lugar, ele fala daqueles que estão mortos—sobre eles cantarem um novo cântico: "E cantavam um novo cântico, dizendo: Tu nos redimiste, ó Deus, pelo teu sangue, de toda tribo, e língua, e povo, e nação; e nos fizeste reis e sacerdotes para o nosso Deus." Aqui, então, encontramos, desde o primeiro capítulo, que foram feitos Reis e Sacerdotes antes de estarem mortos; e, na citação seguinte, encontramos que continuaram a reter seu ofício régio depois da morte, e realmente fizeram cânticos para expressar sua condição feliz—"Tu nos fizeste reis e sacerdotes." Agora vemos a razão pela qual hão de usar coroas, pois hão de ser feitos Reis e Sacerdotes sobre a terra: o Senhor, então, deve ter algum modo de conferir este poder régio.

Compreendeis isto, irmãos e irmãs? Se falásseis, eu ouviria inúmeras vozes responder: "Sim, compreendemos; o Senhor revelou as ordenanças; sabemos como os filhos e filhas de Deus obtêm este ofício régio, enquanto vivem aqui neste tabernáculo mortal."

Passemos por cima disso; basta dizer que a morte não lhes arranca esse ofício; pois hão de ser reis, não por um dia, ou por esta breve vida, mas hão de permanecer reis por toda a eternidade; tendo seus tronos, e desempenhando os deveres pertencentes a seu ofício régio. Comparados a isto, que valem todos os pequenos e mesquinhos reinos desta terra? Não valem um estalar de dedos. Os reis do mundo exercem certa autoridade sobre as nações—sobre seus súditos, promulgando leis, e formando governos, e controlando-os; e supondes que os Santos serão reis no mundo eterno, e se sentarão sobre tronos, em silêncio, sem exercer as funções de seu ofício? Não. Não é esse o modo pelo qual o Senhor organizou Suas criações; se há reis, podeis estar certos de que terão reinos sob seu controle; terão autoridade e domínio; darão leis àqueles súditos sobre os quais exercem domínio; controlá-los-ão pelo ofício sacerdotal, pois este está combinado com o ofício régio, e nenhum dos dois pode ser separado por toda a eternidade. Será nosso Deus tão estreito e limitado em Seus sentimentos, em Suas opiniões e disposição, que limitaria a autoridade do ofício sacerdotal a este pequeno globo que habitamos? Não. Deus tem visões mais amplas; Suas obras são sem princípio, e sem fim; são uma volta eterna. Que espécie de obras são estas? São fazer criações, e povoá-las com seres vivos, e colocá-los numa condição de provar-se a si mesmos; e exercer o ofício régio e sacerdotal para redimi-los depois de terem sofrido dor, e tristeza, e angústia; e trazê-los à presença de Deus; para que eles, por sua vez, se tornem reis e sacerdotes para outras criações que hão de ser feitas, e que hão de ser governadas e regidas por aqueles que possuem a devida autoridade.

Não cremos que tudo deva ser limitado a este pequeno espaço de tempo neste mundo; mas os Santos hão de realizar uma obra adequada a seres que são filhos de Deus no sentido mais pleno da palavra, que são precisamente semelhantes a seu Pai; e, se assim é, hão de ser como Deuses, e hão de deter domínio sob aquele Ser que é o Senhor dos senhores; e o hão de deter por toda a eternidade.

Voltemos a nosso texto. Falávamos do sermão fúnebre da terra; a terra há de envelhecer como uma veste e desaparecer. Já vos provei a redenção do homem, e como ele há de tornar-se imortal e eterno; agora vejamos sua herança; vejamos se há de ser erguido no espaço, sem herança alguma sobre a qual permanecer, sem terra alguma onde produzir maná para comer, ou linho para fiar e fazer belas vestes e outras roupas. Vejamos se há de ser uma existência sombria, como o Deus servido pela cristandade, "sem corpo, partes, nem paixões," e situado "além dos limites do tempo e do espaço."

A terra há de morrer; já recebeu certas ordenanças, e há de receber outras ordenanças para sua recuperação da queda.

Voltemos à criação. O primeiro relato que temos da terra, ela estava envolta numa massa de águas; foi chamada do ventre dos elementos líquidos. Este foi o primeiro nascimento de nossa criação—as águas se retiraram, e a terra seca apareceu, e logo foi revestida de existência vegetal e animal. Isso foi semelhante a todos os outros nascimentos; sendo primeiro cercada por um dilúvio de poderosas águas, ela irrompeu delas, e logo se revestiu de todas as belezas do reino vegetal. Com o tempo, ficou poluída pela transgressão de Adão, e assim foi levada sob a sentença de morte, com tudo o que a ela está ligado; e, como diz nosso texto, há de envelhecer e morrer, do mesmo modo que os habitantes de sua face.

Os céus e a terra foram assim poluídos, isto é, os céus materiais, e tudo o que está ligado a nosso globo; tudo caiu quando o homem caiu, e tornou-se sujeito à morte quando o homem a ela se sujeitou. Tanto o homem quanto a terra são redimidos do pecado original sem ordenanças; mas logo encontramos novos pecados cometidos pelos filhos caídos de Adão, e a terra tornou-se corrompida diante do Senhor por suas transgressões. Necessita de ordenanças redentoras para estas segundas transgressões. O Senhor ordenou o batismo, ou a imersão da terra em água, como uma ordenança justificadora. Disse ele a Noé: "Constrói uma arca para tua salvação e a de tua casa, pois hei de imergir a terra em água, para que os pecados que a corromperam sejam lavados de sua face." As fontes do grande abismo, e as janelas do alto, foram abertas, e vieram as chuvas, e submergiram a terra; e a terra seca desapareceu no ventre das poderosas águas, tal como no princípio. As águas se aplacaram; a terra veio à tona revestida de inocência, como o recém-nascido, tendo sido batizada, ou nascida de novo, do dilúvio oceânico; e assim a velha terra foi sepultada com todas as suas obras, e ressurgiu para uma novidade de vida, tendo seus pecados sido lavados, do mesmo modo que o homem deve ser imerso na água para lavar seus próprios pecados pessoais.

Com o tempo, a terra torna-se corrompida de novo, e as nações se embriagam com o vinho da ira da grande Babilônia; mas o Senhor reservou essa mesma terra para o fogo; por isso Ele diz, pelo profeta Malaquias: "Eis que vem o dia que abrasará como forno, etc." Uma purificação completa há de vir novamente sobre a terra, e isto pelo elemento mais poderoso do fogo; e os ímpios serão queimados como restolho. Quando há de ser isto? Há de ser antes de a terra morrer? Isto é uma representação do batismo que o homem recebe depois de ter sido batizado na água; pois então há de ser batizado com fogo e com o Espírito Santo, e todos os seus pecados inteiramente removidos: assim a terra há de ser batizada com fogo, e a iniquidade varrida de sua face, para que a glória de Deus a cubra. Assim como as águas cobrem o grande abismo, assim a terra há de ser submersa e imersa na glória de Deus, e Seu Espírito derramado sobre toda a carne, antes de a terra morrer. Depois desta ordenança purificadora, haverá mil anos de repouso, durante os quais a retidão há de abundar sobre a face da terra; e, logo depois de findos os mil anos, as palavras do texto se hão de cumprir—"Os céus desaparecerão como a fumaça, e a terra envelhecerá como uma veste," etc. Quando a terra envelhecer, e tiver preenchido a medida de sua criação, e todas as coisas tiverem sido feitas segundo a mente e a vontade de Deus, Ele dirá à terra: "Morre." Qual será sua morte? Será afogada? Não: há de morrer pela agência do fogo; há de sofrer uma morte semelhante à de muitos dos mártires; os próprios elementos hão de derreter-se com calor ardente, e os montes hão de tornar-se como cera diante do Senhor. Será a terra aniquilada? Não, não há tal palavra em nenhuma de Suas revelações; tal coisa jamais foi conhecida no seio do Todo-Poderoso, ou de qualquer outro ser, exceto na imaginação de alguns dos modernos, que declararam que o globo há de tornar-se como o "tecido sem base de uma visão." É uma das loucuras sectárias, que os elementos e tudo o mais hão de ser completamente riscados da existência. O Senhor jamais revelou, nem pensou, nem sequer sugeriu tal coisa.

A terra não será aniquilada, tanto quanto nossos corpos não o são depois de queimados. Todo químico sabe que o peso de uma coisa não diminui por ser queimada. A presente ordem das coisas deve ser removida, e, como diz o apóstolo João, todas as coisas devem tornar-se novas; e ele nos diz quando: há de ser depois do milênio. O desaparecer equivale à morte, e o fazer-se novas todas as coisas equivale à ressurreição. Será a nova terra feita exatamente como esta terra? Não; mas como esta terra era, antes de o pecado nela entrar; e a haveremos de herdar. Este é nosso céu, e temos o título a ele por promessa, e há de ser redimido pela fé e pelas orações dos Santos, e obteremos de Deus um título a uma porção dele como nossa herança.

Ó vós, agricultores, quando dormirdes na sepultura, não temais que vossas ocupações agrícolas terminem para sempre; não temais que jamais obtereis mais propriedade de terras; mas, se sois Santos, tende bom ânimo, pois quando ressurgirdes na manhã da ressurreição, eis que há uma nova terra feita, na qual habita a retidão, e bem-aventurados sois, pois a haveis de habitar. "Bem-aventurados os mansos", diz nosso Salvador, "porque eles herdarão a terra," embora tenham morrido sem um palmo de terra. Os Santos dos Últimos Dias foram expulsos de uma possessão para outra, até serem levados além dos limites da civilização, para os desertos, onde se supunha que morreriam, e esse seria o fim deles; mas eis que têm firme apego à promessa de que os mansos hão de herdar a terra, quando aqui vierem com corpos imortais capazes de desfrutar da terra. É verdade que podemos ter em abundância as coisas desta vida em sua condição amaldiçoada; mas o que são todas essas coisas? Não são nada. Buscamos as coisas em seu estado imortal, e os agricultores terão grandes fazendas sobre a terra quando ela estiver assim transformada. "Mas não sejais tão apressados," diz alguém, "não sabeis que há apenas cerca de 197.000.000 de milhas quadradas, ou cerca de 126.000.000.000 de acres, sobre a superfície do globo? Isso acomodará todos os habitantes depois da ressurreição?" Sim; pois se a terra durasse 8.000 anos, ou oitenta séculos, e a população fosse de mil milhões em cada século, seriam oitenta mil milhões de habitantes; e sabemos que muitos séculos já passaram sem chegar sequer à décima parte disso; mas, supondo que este seja o número, haveria então mais de um acre e meio para cada pessoa sobre a face do globo.

Mas há outra coisa a considerar. Hão de receber os ímpios a terra como herança? Não; pois Jesus não disse: bem-aventurados os ímpios, porque hão de herdar a terra; esta promessa foi feita apenas aos mansos. Quem são os mansos? Ninguém, senão aqueles que recebem as ordenanças do Evangelho, e vivem segundo elas; devem receber as mesmas ordenanças que a terra recebeu, e ser batizados com fogo e com o Espírito Santo, tal como esta terra o será quando Jesus vier reinar sobre ela por mil anos; e serão vestidos com a glória de Deus, tal como esta terra o será; e depois de morrerem, tal como a terra há de morrer, terão de ser ressuscitados, tal como esta terra há de ser ressuscitada, e então receber sua herança sobre ela.

Olhai para os dezessete séculos que se passaram no hemisfério oriental, durante os quais o som do Evangelho jamais foi ouvido da boca de um servo autorizado de Deus. Suponde agora que, de toda a vasta população desta terra, um em cada cem recebesse a lei da mansidão, e tivesse direito a receber uma herança sobre a nova terra; quanta terra receberiam? Respondemos: receberiam mais de 150 acres, o que seria bastante para produzir maná, e para construir algumas habitações, e algumas mansões esplêndidas; seria bastante para produzir linho para fazer vestes, e para ter belos pomares de árvores frutíferas; seria bastante para ter nossos jardins de flores, e tudo o que o agricultor e o botânico desejam, e ainda sobraria.

Que se faria com as porções sobrantes? Deixai-me contar-vos uma coisa que talvez alguns de vós jamais tenham pensado. Supondes que hemos de ressuscitar da sepultura, macho e fêmea, e que não teremos a mesma espécie de afeições, ternuras e prazeres que temos aqui? Os mesmos sentimentos puros de amor que existem no peito do macho e da fêmea neste mundo existirão, com intensidade sete vezes maior, no mundo vindouro, governados pela lei de Deus; não haverá corrupções nem infrações aos direitos uns dos outros. Não terá cada homem sua própria família? Sim; terá também sua própria mansão e fazenda, seus próprios filhos e filhas. E que mais? Ora, o fato é que o homem continuará a multiplicar-se e a encher esta criação, na medida em que ela não seja preenchida pelos Santos ressuscitados depois de feita nova.

E que fará ele quando esta estiver preenchida? Ora, fará mais mundos, e sairá em enxames como abelhas da antiga colmeia, e preparará novos lugares. E quando um agricultor tiver cultivado sua fazenda, e criado numerosos filhos, de modo que o espaço comece a ficar estreito demais para eles, dirá ele: "Meus filhos, ali há bastante matéria, ide organizar um mundo, e povoá-lo; e tereis leis que vos governem, e compreendereis e conhecereis, por vossa própria experiência, as mesmas coisas que nós conhecemos." E assim será uma volta eterna, e um contínuo aumento; e o governo será colocado sob aqueles que são coroados como reis e Sacerdotes na presença de Deus.

Muito mais se poderia dizer, pois apenas tocamos de leve nestas coisas, apenas girei a chave para que possais olhar através da porta e vislumbrar um pouco das glórias que aguardam os Santos. Deixai-me dizer-vos, não entrou no coração do homem conceber as coisas que Deus preparou para os que O amam, a menos que esteja cheio do Espírito Santo, e, por visão, contemple os tronos e os domínios, os principados e potestades, que estão colocados sob Seu controle e domínio; e Ele há de reger com um cetro justo sobre tudo.

Consideraremos isto uma espécie de sermão de ressurreição para esta criação, e para todos os justos que a hão de habitar. Não temos tempo neste discurso para pregar a ressurreição dos ímpios, nem indicar o lugar de sua localização.

Como citar este discursoOrson Pratt, “Um Sermão Fúnebre Geral de Todos os Santos e Pecadores; Também, dos Céus e da Terra”, (1852-07-25). Pulpit Vault, 1852-07-25-pratt-o-general-funeral-sermon. Tradução desta edição, por método de glossário, contentdm.lib.byu.edu.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).