Pulpit

O Caráter e o Ser de Deus — A Criação — A Salvação dos Mortos — O Pecado Imperdoável — A Ressurreição — O Batismo do Espírito, Etc.

Joseph Smith, Jr.

1844 April General Conference·Saturday Session·1844-04-06

Amados Santos — chamarei a atenção desta congregação enquanto vos falo sobre o assunto dos mortos. O falecimento de nosso amado irmão, o Élder King Follett, que foi esmagado num poço pela queda de um balde de pedras, foi o que mais imediatamente me levou a este assunto. Fui solicitado a falar por seus amigos e parentes; mas, como há muitos nesta congregação que vivem nesta cidade, bem como em outros lugares, que perderam amigos, sinto-me disposto a falar sobre o assunto em geral, e a oferecer-vos minhas ideias na medida de minha capacidade e na medida em que eu for inspirado pelo Espírito Santo a discorrer sobre este assunto.

Desejo vossas orações e fé, para que eu tenha a instrução do Deus Todo-Poderoso e o dom do Espírito Santo, de modo que eu possa expor coisas que são verdadeiras e que possam ser facilmente compreendidas por vós, e que o testemunho leve convicção a vossos corações e mentes da verdade daquilo que direi. Orai para que o Senhor fortaleça meus pulmões, contenha os ventos, e faça subir ao céu as orações dos Santos, para que entrem nos ouvidos do Senhor dos Exércitos; pois a oração eficaz do justo pode muito. Há força aqui; e creio verdadeiramente que vossas orações serão ouvidas.

Antes de entrar plenamente na investigação do assunto que tenho diante de mim, desejo preparar o caminho e trazer o assunto desde o princípio, para que o compreendais. Farei alguns preliminares, a fim de que compreendais o assunto quando a ele chegar. Não pretendo nem intento agradar vossos ouvidos com superfluidade de palavras, nem com oratória, nem com muita erudição; mas pretendo edificar-vos com as simples verdades do céu.

Em primeiro lugar, desejo voltar ao princípio — à manhã da criação. Esse é o ponto de partida a que devemos olhar, a fim de compreender e conhecer plenamente a mente, os propósitos e os decretos do grande Eloim, que se assenta naqueles céus como se assentava na criação deste mundo. É necessário que tenhamos um entendimento do próprio Deus desde o princípio. Se começarmos certo, é fácil continuar certo o tempo todo; mas, se começarmos errado, poderemos seguir errados, e será coisa difícil de corrigir.

Há muito poucos seres no mundo que compreendem corretamente o caráter de Deus. A grande maioria da humanidade não compreende nada, nem o que passou nem o que há de vir, no que diz respeito ao seu relacionamento com Deus. Não sabem, nem compreendem a natureza desse relacionamento; e, consequentemente, sabem pouco mais do que os animais brutos, ou pouco mais do que comer, beber e dormir. Isso é tudo o que o homem sabe sobre Deus ou sobre a sua existência, a menos que lhe seja dado pela inspiração do Todo-Poderoso.

Se um homem não aprende mais do que comer, beber e dormir, e não compreende nenhum dos desígnios de Deus, o animal compreende a mesma coisa. Ele come, bebe, dorme, e não sabe mais nada sobre Deus: ainda assim sabe tanto quanto nós, a menos que sejamos capazes de compreender pela inspiração do Deus Todo-Poderoso. Se os homens não compreendem o caráter de Deus, não compreendem a si mesmos. Desejo voltar ao princípio, e assim elevar vossas mentes a uma esfera mais elevada e a um entendimento mais exaltado do que aquele a que a mente humana geralmente aspira.

Quero pedir a esta congregação — a todo homem, mulher e criança — que responda em seu próprio coração à pergunta: que tipo de ser é Deus? Perguntai a vós mesmos; voltai vossos pensamentos para vossos corações, e dizei se algum de vós já o viu, ouviu, ou com ele teve comunhão. Esta é uma pergunta que pode ocupar vossa atenção por muito tempo. Repito novamente a pergunta — Que tipo de ser é Deus? Sabe-o algum homem ou mulher? Já algum de vós o viu, o ouviu, ou com ele teve comunhão? Eis a pergunta que, porventura, doravante ocupará vossa atenção. As Escrituras nos informam que "a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste."

Se algum homem não conhece a Deus, e pergunta que tipo de ser Ele é — se buscar diligentemente em seu próprio coração — se as declarações de Jesus e dos Apóstolos forem verdadeiras — ele perceberá que não tem a vida eterna; pois não pode haver vida eterna sobre nenhum outro princípio.

Meu primeiro objetivo é descobrir o caráter do único Deus sábio e verdadeiro, e que tipo de ser Ele é; e, se eu tiver a felicidade de ser o homem que compreenda a Deus, e explique ou transmita os princípios a vossos corações, de modo que o Espírito os sele em vós, então que todo homem e mulher, doravante, se assente em silêncio, ponha as mãos sobre a própria boca, e nunca mais levante as mãos ou a voz, nem diga coisa alguma contra o homem de Deus ou os servos de Deus. Mas, se eu falhar em fazê-lo, torna-se meu dever renunciar a toda pretensão adicional a revelações, inspirações, ou a ser Profeta; e eu deveria ser como o resto do mundo — um falso mestre, saudado como amigo, e nenhum homem buscaria a minha vida. Mas, se todos os mestres religiosos fossem honestos o bastante para renunciar às suas pretensões de santidade, quando sua ignorância do conhecimento de Deus se manifestasse, todos eles estariam tão mal quanto eu, de qualquer modo; e seria tão razoável tirar a vida de outros falsos mestres quanto a minha, se eu for falso. Se algum homem está autorizado a tirar minha vida porque pensa e diz que sou um falso mestre, então, pelo mesmo princípio, seria justificável tirar a vida de todo falso mestre; e onde estaria o fim do derramamento de sangue? E quem não seria a vítima?

Mas não vos intrometais com homem algum por causa de sua religião; e todos os governos deveriam permitir que todo homem desfrutasse de sua religião sem ser molestado. Nenhum homem está autorizado a tirar a vida por causa de diferença de religião, a qual todas as leis e governos deveriam tolerar e proteger, certa ou errada. Todo homem tem um direito natural, e, em nosso país, um direito constitucional, de ser tanto um falso profeta quanto um verdadeiro profeta. Se eu mostrar, verdadeiramente, que tenho a verdade de Deus, e mostrar que noventa e nove em cada cem ministros religiosos professos são falsos mestres, sem autoridade alguma, embora finjam deter as chaves do reino de Deus na terra, e fosse eu matá-los por serem falsos mestres, isso inundaria o mundo inteiro de sangue.

Provarei que o mundo está errado, mostrando o que Deus é. Vou indagar acerca de Deus; pois quero que todos vós O conheçais e vos familiarizeis com Ele; e, se eu puder levar-vos ao conhecimento dEle, todas as perseguições contra mim deveriam cessar. Sabereis então que sou Seu servo; pois falo como quem tem autoridade.

Voltarei ao princípio, antes que o mundo existisse, para mostrar que tipo de ser Deus é. Que tipo de ser era Deus no princípio? Abri vossos ouvidos e ouvi, todos vós, confins da terra; pois vou prová-lo a vós pela Bíblia, e dizer-vos os desígnios de Deus em relação à raça humana, e por que Ele interfere nos assuntos do homem.

O próprio Deus foi outrora como nós somos agora, e é um Homem exaltado, e se assenta entronizado naqueles céus. Esse é o grande segredo. Se o véu fosse rasgado hoje, e o grande Deus que sustenta este mundo em sua órbita, e que sustenta todos os mundos e todas as coisas pelo Seu poder, se tornasse visível — digo, se hoje O vísseis, O veríeis com forma de homem — como vós mesmos, em toda a pessoa, imagem e a própria forma de um homem; pois Adão foi criado exatamente à feição, imagem e semelhança de Deus, e recebeu instrução dEle, e andou, falou e conversou com Ele, como um homem fala e tem comunhão com outro.

A fim de compreender o assunto dos mortos, para consolo daqueles que pranteiam a perda de seus amigos, é necessário que compreendamos o caráter e o ser de Deus, e como Ele veio a sê-lo; pois vou dizer-vos como Deus veio a ser Deus. Temos imaginado e suposto que Deus era Deus desde toda a eternidade; refutarei essa ideia, e removerei e afastarei o véu, para que possais ver.

Estas são ideias incompreensíveis para alguns; mas são simples. É o primeiro princípio do Evangelho conhecer com certeza o caráter de Deus, e saber que podemos conversar com Ele como um homem conversa com outro, e que Ele foi outrora um homem como nós; sim, que o próprio Deus, o Pai de todos nós, habitou numa terra, o mesmo que fez o próprio Jesus Cristo; e vou mostrá-lo pela Bíblia. Gostaria de estar em lugar adequado para contá-lo, e de ter a trombeta de um arcanjo, para que eu pudesse contar a história de tal maneira que a perseguição cessasse para sempre. O que disse Jesus? (Notai bem, Élder Rigdon.) As Escrituras nos informam que Jesus disse: "Assim como o Pai tem poder em si mesmo, assim também tem o Filho poder" — para fazer o quê? Ora, o que o Pai fez. A resposta é óbvia — de certa forma, depor o seu corpo e tomá-lo de novo. Jesus, o que farás? Depor minha vida, como fez meu Pai, e tomá-la de novo. Credes nisso? Se não credes, não credes na Bíblia. As Escrituras o dizem, e desafio toda a erudição e sabedoria, e todos os poderes combinados da terra e do inferno juntos, a refutá-lo.

Eis, pois, a vida eterna — conhecer o único Deus sábio e verdadeiro; e tendes de aprender a ser vós mesmos Deuses, e a ser reis e sacerdotes para Deus, assim como todos os Deuses fizeram antes de vós — a saber, passando de um pequeno grau a outro, e de uma pequena capacidade a uma grande — de graça em graça, de exaltação em exaltação, até que atinjais a ressurreição dos mortos, e sejais capazes de habitar em fogos eternos e de vos assentar em glória, como fazem aqueles que se assentam entronizados em poder eterno. E quero que saibais que Deus, nestes últimos dias, enquanto certos indivíduos proclamam o Seu nome, não está brincando convosco nem comigo.

Estes são os primeiros princípios de consolo. Quão consolador é, para os que pranteiam, quando são chamados a se separar de um esposo, esposa, pai, mãe, filho, ou parente querido, saber que, embora o tabernáculo terreno seja deposto e dissolvido, eles ressuscitarão, para habitar em fogos eternos em glória imortal, para não mais sofrerem, padecerem ou morrerem; mas serão herdeiros de Deus e coerdeiros com Jesus Cristo. O que é isso? Herdar o mesmo poder, a mesma glória e a mesma exaltação, até que chegueis à condição de um Deus e ascendais ao trono do poder eterno, o mesmo que fizeram aqueles que já se foram antes. O que fez Jesus? Ora, eu faço as coisas que vi meu Pai fazer quando os mundos vêm rolando à existência. Meu Pai realizou o seu reino com temor e tremor, e eu devo fazer o mesmo; e, quando eu obtiver o meu reino, eu o apresentarei ao meu Pai, para que ele obtenha reino sobre reino, e isso o exaltará em glória. Ele então alcançará uma exaltação mais elevada, e eu tomarei o seu lugar, e assim serei eu mesmo exaltado. De modo que Jesus segue os passos de seu Pai, e herda o que Deus fez antes; e Deus é assim glorificado e exaltado na salvação e exaltação de todos os seus filhos. É evidente além de qualquer disputa; e assim aprendeis alguns dos primeiros princípios do Evangelho, a respeito dos quais tanto se tem falado.

Quando subis uma escada, tendes de começar de baixo, e ascender degrau por degrau até chegar ao topo; e assim é com os princípios do Evangelho: tendes de começar pelo primeiro, e continuar até aprender todos os princípios da exaltação. Mas há de passar muito tempo depois de terdes atravessado o véu antes que os tenhais aprendido. Nem tudo há de ser compreendido neste mundo: será uma grande obra aprender nossa salvação e exaltação mesmo além da sepultura. Suponho que não me seja permitido investigar nada que não esteja contido na Bíblia. Se o fizesse, creio que há aqui tantos homens excessivamente sábios que gritariam "traição" e me matariam. Assim, hoje recorrerei à velha Bíblia e me tornarei comentarista.

Vou comentar a primeiríssima palavra hebraica da Bíblia. Farei um comentário sobre a primeiríssima frase da história da criação na Bíblia — Berosheit. Quero analisar a palavra. Baith — em, por, através, e tudo o mais. Rosh — a cabeça. Sheit — terminação gramatical. Quando o homem inspirado a escreveu, ele não colocou ali o Baith. Um velho judeu, sem autoridade alguma, acrescentou a palavra. Ele achou muito ruim começar a falar sobre a cabeça! Lia-se, originalmente: "O cabeça dos Deuses trouxe à existência os Deuses." Esse é o verdadeiro significado das palavras. Baurau significa trazer à existência. Se não credes nisso, não credes no homem erudito de Deus. Os homens eruditos não podem vos ensinar mais do que aquilo que já vos disse. Assim, o Deus cabeça trouxe à existência os Deuses no grande concílio.

Vou transpor e simplificar isso na língua inglesa. Ó vós, advogados, doutores e sacerdotes, que me perseguistes, quero que saibais que o Espírito Santo sabe algo tanto quanto vós. O Deus cabeça reuniu os Deuses e se assentou em grande concílio para trazer o mundo à existência. Os grandes conselheiros se assentaram à cabeça naqueles céus, e contemplaram a criação dos mundos que foram criados naquele tempo. Quando digo doutores e advogados, refiro-me aos doutores e advogados das Escrituras. Tenho feito isso até agora sem explicação, para deixar os advogados agitados, e todos rirem deles. Algum douto sábio poderia ter a ideia de dizer que as Escrituras dizem tal e tal coisa; e que devemos crer nas Escrituras; que elas não devem ser alteradas. Mas vou mostrar-vos um erro nelas.

Tenho uma velha edição do Novo Testamento nas línguas hebraica, latina, alemã e grega. Tenho lido o alemão, e considero-o a tradução mais correta, e a que mais se aproxima das revelações que Deus me tem dado nos últimos catorze anos. Ela fala de Jachoboy, filho de Zebedeu. Significa Jacó. No Novo Testamento em inglês, é traduzido como "James". Ora, se Jacó tinha as chaves, podeis falar de "James" por toda a eternidade, e nunca obter as chaves. No versículo 21 do quarto capítulo de Mateus, minha velha edição alemã traz a palavra Jacó em vez de "James".

Os doutores (refiro-me aos doutores da lei, não da medicina) dizem: "Se pregardes algo que não esteja de acordo com a Bíblia, gritaremos traição." Como podemos escapar da condenação do inferno, a menos que Deus esteja conosco e nos revele? Os homens nos acorrentam. O latim diz Jachabod, que significa Jacó; o hebraico diz Jacó, o grego diz Jacó, e o alemão diz Jacó. Aqui temos o testemunho de quatro contra um. Agradeço a Deus por ter este velho livro; mas agradeço-lhe mais pelo dom do Espírito Santo. Tenho o livro mais antigo do mundo; mas tenho o livro mais antigo em meu coração, isto é, o dom do Espírito Santo. Tenho todos os quatro Testamentos. Vinde aqui, homens eruditos, e lede, se puderdes. Eu não teria introduzido este testemunho, se não fosse para sustentar a palavra Rosh — a cabeça, o pai dos Deuses. Eu não o teria trazido à baila, senão para mostrar que estou certo.

No princípio, a cabeça dos Deuses convocou um concílio dos Deuses; e eles se reuniram e conceberam um plano para criar o mundo e povoá-lo. Quando começamos a aprender desta maneira, começamos a conhecer o único Deus verdadeiro e que tipo de ser devemos adorar. Tendo o conhecimento de Deus, começamos a saber como nos aproximar dEle e como pedir de modo a receber resposta.

Quando compreendemos o caráter de Deus e sabemos como nos aproximar dEle, Ele começa a desvendar os céus para nós e a nos contar tudo a respeito. Quando estamos prontos para nos aproximar dEle, Ele está pronto para se aproximar de nós.

Ora, pergunto a todos os que me ouvem: por que os eruditos que pregam a salvação dizem que Deus criou os céus e a terra do nada? A razão é que são iletrados nas coisas de Deus e não têm o dom do Espírito Santo. Consideram blasfêmia que alguém contradiga a sua ideia. Se lhes disserdes que Deus fez o mundo a partir de algo, chamar-vos-ão de tolos. Mas eu sou erudito, e sei mais do que o mundo inteiro junto. O Espírito Santo sabe, de todo modo; e Ele está dentro de mim, e compreende mais do que o mundo inteiro; e eu me associarei a Ele.

Perguntai aos doutos eruditos por que dizem que o mundo foi feito do nada; e eles responderão: "Não diz a Bíblia que Ele criou o mundo?" E inferem, da palavra criar, que deve ter sido feito do nada. Ora, a palavra criar vem da palavra baurau, que não significa criar do nada; significa organizar — o mesmo que um homem organizaria materiais para construir um navio. Portanto, inferimos que Deus tinha materiais para organizar o mundo a partir do caos — matéria caótica, que é o elemento, e na qual habita toda a glória. O elemento existiu desde o tempo em que Ele existiu. Os princípios puros do elemento são princípios que nunca podem ser destruídos: podem ser organizados e reorganizados, mas não destruídos. Não tiveram princípio, e não podem ter fim.

Tenho outro assunto a discorrer, que se destina a exaltar o homem. Mas me é impossível dizer muito sobre esse assunto. Vou, portanto, apenas tocá-lo; pois o tempo não me permitirá dizer tudo. Está associado ao assunto da ressurreição dos mortos — a saber, a alma, a mente do homem, o espírito imortal. De onde veio? Todos os homens eruditos e doutores da divindade dizem que Deus o criou no princípio. Mas não é assim. Essa mesma ideia diminui o homem em minha estimação. Não creio nessa doutrina. Sei melhor. Ouvi isto, todos vós, confins do mundo; pois Deus assim me disse; e, se não credes em mim, isso não tornará a verdade sem efeito. Farei um homem parecer tolo antes de terminar, se ele não crer nisso. Vou falar de coisas mais nobres.

Dizemos que o próprio Deus é um ser autoexistente. Quem vos disse isso? É bastante correto; mas como isso entrou em vossas cabeças? Quem vos disse que o homem não existe da mesma maneira, sobre o mesmo princípio? O homem existe sobre os mesmos princípios. Deus fez um tabernáculo e nele colocou um espírito, e este se tornou uma alma vivente. [Referiu-se à velha Bíblia.] Como se lê no hebraico? Não diz, no hebraico, que Deus criou o espírito do homem. Diz: "Deus fez o homem da terra, e nele pôs o espírito de Adão, e assim se tornou um corpo vivente."

A mente, ou a inteligência que o homem possui, é coigual ao próprio Deus. Sei que meu testemunho é verdadeiro; portanto, quando falo a estes que pranteiam, o que perderam? Seus parentes e amigos estão apenas separados de seus corpos por uma breve estação: seus espíritos, que existiram com Deus, deixaram o tabernáculo de barro apenas por um pequeno momento, por assim dizer; e agora existem num lugar onde conversam uns com os outros, o mesmo que fazemos aqui na terra.

Estou discorrendo sobre a imortalidade do espírito do homem. É lógico dizer que a inteligência dos espíritos é imortal, e ainda assim que teve um princípio? A inteligência dos espíritos não teve princípio, nem terá fim. Essa é boa lógica. Aquilo que tem princípio pode ter fim. Nunca houve tempo em que não existissem espíritos; pois são coiguais ao nosso Pai celestial.

Quero raciocinar mais sobre o espírito do homem; pois estou discorrendo sobre o corpo e o espírito do homem — sobre o assunto dos mortos. Tiro o meu anel do dedo e o assemelho à mente do homem — a parte imortal, porque não tem princípio. Suponde que o corteis em dois; então tem princípio e fim; mas juntai-o novamente, e ele continua uma eterna rotação. Assim é com o espírito do homem. Tão certo como vive o Senhor, se teve princípio, terá fim. Todos os tolos, e os eruditos, e os sábios, desde o princípio da criação, que dizem que o espírito do homem teve princípio, provam que ele deve ter fim; e, se essa doutrina fosse verdadeira, então a doutrina da aniquilação seria verdadeira. Mas, se estou certo, poderia com ousadia proclamar dos telhados que Deus nunca teve o poder de criar o espírito do homem, de modo algum. O próprio Deus não poderia criar a si mesmo.

A inteligência é eterna, e existe sobre um princípio autoexistente. É um espírito de eternidade em eternidade, e não há nela criação alguma. Todas as mentes e espíritos que Deus já enviou ao mundo são suscetíveis de ampliação.

Os primeiros princípios do homem são autoexistentes com Deus. O próprio Deus, ao se ver no meio de espíritos e glória, por ser mais inteligente, achou por bem instituir leis pelas quais os demais pudessem ter o privilégio de progredir como Ele mesmo. O relacionamento que temos com Deus nos coloca em situação de progredir em conhecimento. Ele tem poder para instituir leis a fim de instruir as inteligências mais fracas, para que possam ser exaltadas juntamente com Ele, de modo a terem uma glória sobre outra, e todo o conhecimento, poder, glória e inteligência que sejam necessários para salvá-las no mundo dos espíritos.

Esta é boa doutrina. Tem bom sabor. Posso saborear os princípios da vida eterna, e vós também podeis. Eles me são dados pelas revelações de Jesus Cristo; e sei que, quando vos digo estas palavras de vida eterna tal como me são dadas, vós as saboreais, e sei que credes nelas. Dizeis que o mel é doce, e eu também o digo. Posso também saborear o espírito da vida eterna. Sei que é bom; e, quando vos falo destas coisas que me foram dadas por inspiração do Espírito Santo, sois obrigados a recebê-las como doces, e eu me regozijo cada vez mais.

Quero falar mais da relação do homem com Deus. Vou abrir vossos olhos em relação a vossos mortos. Todas as coisas que Deus, em Sua infinita sabedoria, julgou próprio e conveniente revelar-nos, enquanto habitamos na mortalidade, no que diz respeito a nossos corpos mortais, nos são reveladas em abstrato, e independentemente da afinidade deste tabernáculo mortal; mas são reveladas a nossos espíritos precisamente como se não tivéssemos corpo algum; e aquelas revelações que salvarão nossos espíritos salvarão nossos corpos. Deus no-las revela sem prever a dissolução eterna do corpo, ou tabernáculo. Daí a responsabilidade — a terrível responsabilidade que recai sobre nós em relação a nossos mortos; pois todos os espíritos que não obedeceram ao Evangelho na carne devem ou obedecê-lo no espírito, ou ser condenados. Pensamento solene! — pensamento terrível! Não há nada a fazer? Nenhuma preparação — nenhuma salvação para nossos pais e amigos que morreram sem ter tido a oportunidade de obedecer aos decretos do Filho do Homem? Prouvera a Deus que eu tivesse quarenta dias e noites para vos dizer tudo! Eu vos faria saber que não sou um "profeta caído."

Que promessas são feitas em relação ao assunto da salvação dos mortos? E que tipo de personagens são aqueles que podem ser salvos, ainda que seus corpos estejam apodrecendo e se decompondo na sepultura? Quando seus mandamentos nos ensinam, é tendo em vista a eternidade; pois somos vistos por Deus como se estivéssemos na eternidade. Deus habita na eternidade, e não vê as coisas como nós vemos.

A maior responsabilidade que Deus nos impôs neste mundo é buscar os nossos mortos. O Apóstolo diz: "Eles sem nós não podem ser aperfeiçoados"; pois é necessário que o poder selador esteja em nossas mãos, para selar nossos filhos e nossos mortos para a plenitude da dispensação dos tempos — uma dispensação para cumprir as promessas feitas por Jesus Cristo antes da fundação do mundo para a salvação do homem.

Ora, falarei deles. Encontrarei Paulo no meio do caminho. Digo-te, Paulo, tu não podes ser perfeito sem nós. É necessário que aqueles que se foram antes e aqueles que vêm depois de nós tenham salvação em comum conosco; e assim Deus o tornou obrigatório para o homem. Por isso Deus disse: "Eis que eu vos envio o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor; e ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha, e fira a terra com maldição."

Tenho uma declaração a fazer quanto às provisões que Deus fez para atender às condições do homem, feitas desde antes da fundação do mundo. O que disse Jesus? Todos os pecados, e todas as blasfêmias, e toda transgressão, exceto uma, de que o homem pode ser culpado, podem ser perdoados; e há salvação para todos os homens, seja neste mundo ou no mundo vindouro, que não tenham cometido o pecado imperdoável, havendo provisão, seja neste mundo ou no mundo dos espíritos. Assim, Deus fez provisão para que todo espírito no mundo eterno possa ser encontrado e salvo, a menos que tenha cometido aquele pecado imperdoável que não lhe pode ser remitido nem neste mundo nem no mundo dos espíritos. Deus realizou uma salvação para todos os homens, a menos que tenham cometido certo pecado; e todo homem que tem um amigo no mundo eterno pode salvá-lo, a menos que tenha cometido o pecado imperdoável. E assim podeis ver até que ponto podeis ser um salvador.

Um homem não pode cometer o pecado imperdoável depois da dissolução do corpo, e há um meio possível de escapar. O conhecimento salva o homem; e, no mundo dos espíritos, nenhum homem pode ser exaltado senão pelo conhecimento. Enquanto um homem não der atenção aos mandamentos, deve permanecer sem salvação. Se um homem tem conhecimento, pode ser salvo; embora, se tiver sido culpado de grandes pecados, seja punido por eles. Mas, quando consente em obedecer ao Evangelho, seja aqui ou no mundo dos espíritos, é salvo.

O homem é seu próprio atormentador e seu próprio condenador. Daí o ditado: Irão para o lago que arde com fogo e enxofre. O tormento da decepção na mente do homem é tão intenso quanto um lago que arde com fogo e enxofre. Digo que assim é o tormento do homem.

Conheço as Escrituras e as compreendo. Disse que nenhum homem pode cometer o pecado imperdoável depois da dissolução do corpo, nem nesta vida até receber o Espírito Santo; mas devem fazê-lo neste mundo. Assim, a salvação de Jesus Cristo foi realizada para todos os homens, a fim de triunfar sobre o Diabo; pois, se não o apanhasse num lugar, o apanharia noutro; pois Ele se ergueu como Salvador. Todos sofrerão até obedecerem ao próprio Cristo.

A contenda no céu foi esta — Jesus disse que haveria certas almas que não seriam salvas; e o Diabo disse que poderia salvá-las todas, e apresentou seus planos perante o grande concílio, que deu seu voto em favor de Jesus Cristo. Então o Diabo se ergueu em rebelião contra Deus, e foi lançado fora, com todos os que se levantaram por ele.

Todos os pecados serão perdoados, exceto o pecado contra o Espírito Santo; pois Jesus salvará a todos, exceto os filhos de perdição. O que deve fazer um homem para cometer o pecado imperdoável? Deve receber o Espírito Santo, ter os céus abertos a ele, e conhecer a Deus, e então pecar contra Ele. Depois que um homem pecou contra o Espírito Santo, não há arrependimento para ele. Ele tem de dizer que o sol não brilha enquanto o vê; tem de negar Jesus Cristo quando os céus lhe foram abertos, e negar o plano de salvação com os olhos abertos para a sua verdade; e, a partir desse momento, começa a ser um inimigo. Este é o caso de muitos apóstatas de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Quando um homem começa a ser inimigo desta obra, ele me persegue; procura me matar, e jamais cessa de ter sede do meu sangue. Ele recebe o espírito do Diabo — o mesmo espírito que tinham aqueles que crucificaram o Senhor da Vida — o mesmo espírito que peca contra o Espírito Santo. Não podeis salvar tais pessoas; não podeis levá-las ao arrependimento: fazem guerra aberta como o Diabo, e terrível é a consequência.

Aconselho a todos vós que tenhais cuidado com o que fazeis, ou podereis, com o tempo, descobrir que fostes enganados. Contende-vos; não cedais; não façais movimentos precipitados: podeis ser salvos. Se um espírito de amargura está em vós, não vos apresseis. Podeis dizer que tal homem é um pecador. Pois bem, se ele se arrepender, será perdoado. Sede cautelosos: aguardai! Quando encontrardes um espírito que deseja derramamento de sangue — assassinato —, esse não é de Deus, mas é do Diabo. Da abundância do coração do homem fala a boca.

Os melhores homens produzem as melhores obras. O homem que vos diz palavras de vida é o homem que pode vos salvar. Advirto-vos contra todos os personagens malignos que pecam contra o Espírito Santo; pois não há redenção para eles neste mundo, nem no mundo vindouro.

Eu poderia voltar e traçar todo assunto de interesse relativo ao relacionamento do homem com Deus, se tivesse tempo. Posso entrar nos mistérios; posso entrar amplamente nos mundos eternos; pois Jesus disse: "Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito; vou preparar-vos lugar." (João, cap. 14, v. 2.) Paulo diz: "Uma é a glória do sol, e outra a glória da lua, e outra a glória das estrelas; porque uma estrela difere em glória de outra estrela. Assim também a ressurreição dos mortos." (1 Coríntios, cap. 15, v. 41.) O que temos para nos consolar em relação aos mortos? Temos motivo para ter a maior esperança e consolo por nossos mortos, de todos os povos da terra; pois os vimos andar dignamente em nosso meio, e os vimos adormecer nos braços de Jesus; e aqueles que morreram na fé estão agora no reino celestial de Deus. E daí a glória do sol.

Vós, que pranteais, tendes motivo para vos regozijar (falando da morte do Élder King Follett); pois vosso esposo e pai foi esperar até a ressurreição dos mortos — até a perfeição do restante; pois, na ressurreição, vosso amigo se levantará em perfeita felicidade e irá para a glória celestial, enquanto muitos terão de esperar miríades de anos antes de poderem receber bênçãos semelhantes; e vossas expectativas e esperanças estão muito acima do que o homem pode conceber; pois por que Deus no-lo revelou?

ESTOU AUTORIZADO a dizer, pela autoridade do Espírito Santo, que não tendes motivo para temer; pois ele foi para o lar dos justos. Não pranteeis; não choreis. Sei disso pelo testemunho do Espírito Santo que está em mim; e podeis esperar que vossos amigos venham ao vosso encontro na manhã do mundo celestial.

Regozijai-vos, ó Israel! Vossos amigos que foram assassinados por causa da verdade, na perseguição, triunfarão gloriosamente no mundo celestial, enquanto seus assassinos hão de se debater por eras em tormento, até que tenham pago o último ceitil. Digo isto em benefício dos estranhos.

Tenho pai, irmãos, filhos e amigos que se foram para um mundo de espíritos. Estão ausentes apenas por um momento. Estão no espírito, e em breve nos reencontraremos. Em breve chegará o tempo em que a trombeta soará. Quando partirmos, saudaremos nossas mães, pais, amigos, e todos os que amamos que adormeceram em Jesus. Não haverá temor de turbas, perseguições, ou processos e prisões maliciosas; mas será uma eternidade de felicidade.

Pode-se perguntar — "As mães terão seus filhos na eternidade?" Sim! sim! Mães, tereis vossos filhos; pois eles terão vida eterna; pois a dívida deles está paga. Nenhuma condenação os espera, pois estão no espírito. Mas, assim como a criança morre, assim ressuscitará dos mortos, e viverá para sempre no aprendizado de Deus. Nunca crescerá: continuará sendo a criança, exatamente na mesma forma em que apareceu antes de morrer nos braços de sua mãe, mas possuindo toda a inteligência de um Deus. As crianças habitam nas mansões de glória e exercem poder, mas aparecem na mesma forma de quando estavam na terra. A eternidade está cheia de tronos, sobre os quais habitam milhares de crianças reinando em tronos de glória, sem um só côvado acrescentado à sua estatura.

Deixarei aqui este assunto, e farei algumas observações sobre o tema do batismo. O batismo de água, sem o batismo de fogo e do Espírito Santo que o acompanhe, é inútil: são necessários e inseparavelmente ligados. É preciso que um indivíduo nasça da água e do espírito para entrar no reino de Deus. No alemão, o texto me confirma o mesmo que as revelações que tenho dado e ensinado nos últimos catorze anos sobre esse assunto. Tenho o testemunho para lançar-lhes na cara. Meu testemunho tem sido verdadeiro o tempo todo. Encontrá-lo-eis na declaração de João Batista. [Lê do alemão.] João diz: "Eu vos batizo com água; mas, quando Jesus vier, que tem o poder (ou as chaves), ele administrará o batismo de fogo e do Espírito Santo." Grande Deus! Onde está agora todo o mundo sectário? E, se este testemunho é verdadeiro, todos estão condenados tão claramente quanto um anátema pode fazê-lo. Sei que o texto é verdadeiro. Convoco a todos vós, alemães, que sabeis que é verdade, a dizerdes sim. (Fortes gritos de sim.)

Alexander Campbell, como pretendes salvar as pessoas apenas com água? Pois João disse que seu batismo de nada valia sem o batismo de Jesus Cristo. "Pelo que, deixando os rudimentos da doutrina de Cristo, prossigamos até a perfeição, não lançando de novo o fundamento do arrependimento das obras mortas, e da fé em Deus, da doutrina dos batismos, e da imposição de mãos, e da ressurreição dos mortos, e do juízo eterno. E isso faremos, se Deus o permitir." (Hebreus, cap. 6, v. 1 a 3.)

Há um só Deus, um só Pai, um só Jesus, uma só esperança de nosso chamado, um só batismo. Estes três batismos formam apenas um. Muitos dizem que o batismo não é essencial à salvação: mas esse tipo de ensino lançaria o fundamento de sua condenação. Tenho a verdade, e desafio o mundo a me contradizer, se puder.

Já preguei um pouco de latim, um pouco de hebraico, grego e alemão; e cumpri tudo. Não sou tão grande tolo quanto muitos me têm considerado. Os alemães sabem que li o alemão corretamente.

Ouvi isto, todos vós, confins da terra — todos vós, sacerdotes, todos vós, pecadores, e todos os homens. Arrependei-vos! arrependei-vos! Obedecei ao Evangelho. Voltai-vos para Deus; pois vossa religião não vos salvará, e sereis condenados. Não digo por quanto tempo. Já se fizeram observações a respeito de todos os homens serem redimidos do inferno; mas digo que aqueles que pecam contra o Espírito Santo não podem ser perdoados neste mundo nem no mundo vindouro: morrerão a segunda morte. Aqueles que cometem o pecado imperdoável estão condenados a Gnolom, a habitar no inferno, mundos sem fim. Assim como concebem cenas de derramamento de sangue neste mundo, assim se levantarão para aquela ressurreição que é como o lago de fogo e enxofre. Alguns se levantarão para o fogo eterno de Deus; pois Deus habita em fogos eternos; e alguns se levantarão para a condenação de sua própria imundície, que é um tormento tão intenso quanto o lago de fogo e enxofre.

Dirigi minhas observações a todos, tanto ricos como pobres, cativos e livres, grandes e pequenos. Não tenho inimizade contra homem algum. Amo a todos vós; mas odeio alguns de vossos atos. Sou vosso melhor amigo; e, se as pessoas erram o alvo, a culpa é delas. Se repreendo um homem e ele me odeia, ele é um tolo; pois amo todos os homens, especialmente estes meus irmãos e irmãs.

Regozijo-me em ouvir o testemunho de meus amigos idosos. Vós não me conheceis: nunca conhecestes meu coração. Nenhum homem conhece minha história. Não posso contá-la: nunca a empreenderei. Não culpo ninguém por não crer em minha história. Se eu não tivesse experimentado o que experimentei, eu mesmo não o teria acreditado. Nunca fiz mal a homem algum desde que nasci neste mundo. Minha voz é sempre pela paz.

Não posso repousar até que toda a minha obra esteja terminada. Nunca penso mal algum, nem faço coisa alguma para prejudicar meu semelhante. Quando eu for chamado pela trombeta do arcanjo e pesado na balança, todos vós então me conhecereis. Nada mais acrescento. Deus vos abençoe a todos. Amém.

Como citar este discursoJoseph Smith, Jr., “O Caráter e o Ser de Deus — A Criação — A Salvação dos Mortos — O Pecado Imperdoável — A Ressurreição — O Batismo do Espírito, Etc.”, 1844 April General Conference, Saturday Session (1844-04-06). Pulpit Vault, 1844-04-smith-character-and-being-of-god. Tradução desta edição, por método de glossário, contentdm.lib.byu.edu.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).