Pulpit

\"Todos os que tiverem perseverado valentemente\"

David A. Bednar

Conferência Geral de Abril de 2026·Saturday Morning Session·2026-04-04

Participo de competições de atletismo desde muito jovem, e a corrida tem sido um elemento essencial do meu condicionamento físico. Ao longo dos anos, desenvolvi uma relação de amor e ódio com a corrida. Adoro os benefícios físicos e o estímulo mental proporcionados pelos exercícios regulares. Mas detesto as dores musculares, a ardência nos pulmões e o esgotamento. Próximo ao final de muitas das minhas corridas de longa distância, exortei a mim mesmo a continuar, não desistir e perseverar até o fim.

No contexto dos exercícios físicos, o verbo perseverar pode sugerir a manutenção de um esforço físico e mental intenso por um período prolongado. Muitos de nós também podemos associar a palavra perseverar à desagradável fadiga causada pelo trabalho rotineiro e por nossas responsabilidades. Contudo, num contexto espiritual, perseverar é muito mais do que persistir com firmeza para concluir deveres ou desafios difíceis.

As escrituras destacam maneiras instrutivas de usar a palavra perseverar. Por exemplo, o Senhor declarou aos nefitas: “Confiai em mim e perseverai até o fim e vivereis; porque àquele que perseverar até o fim, darei vida eterna.”1

Por meio do profeta Joseph Smith, o Salvador revelou: “Se guardares meus mandamentos e perseverares até o fim, terás vida eterna, que é o maior de todos os dons de Deus.”2

Oro pela ajuda do Espírito Santo ao considerarmos uma compreensão mais elevada e mais sagrada do que significa perseverar até o fim como discípulos do Senhor Jesus Cristo por toda a vida.

Tornarmo-nos novas criaturas em Cristo

O evangelho restaurado do Salvador nos incentiva a passar por uma transformação espiritual; não apenas a melhorar nosso comportamento. Ao alinharmos melhor nosso caráter, nossos desejos, nossas ações e o que verdadeiramente amamos com a vontade de Deus, o Salvador pode efetuar uma mudança completa e abrangente em nós.3

Ao nos esforçarmos para nos despojar do homem natural e nos tornarmos santos pela Expiação do Salvador,4 devemos nos achegar a Ele,5 “nascer de novo”,6 ligar-nos ao Pai e ao Filho por meio de convênios e ordenanças sagrados,7 assumir o compromisso de tomar sobre nós o nome do Salvador,8 receber “a plenitude do Espírito Santo”,9 passar por uma “grande mudança [de] coração”,10 e servir ao Senhor “de todo o coração, poder, mente e força”.11 Devemos nos tornar novas criaturas em Cristo.12

Essa vigorosa mudança espiritual só é possível “por meio dos méritos (…), misericórdia e graça do Santo Messias”.13 Como seres mortais, precisamos de maneira absoluta e incessante da ajuda do Pai Celestial e do Salvador para alcançarmos nosso destino eterno.

O papel e a importância dos dons espirituais

Dons espirituais são bênçãos e habilidades que nos são dadas pelo poder do Espírito Santo. Todas as pessoas que recebem o dom do Espírito Santo pela devida autoridade do sacerdócio e pela imposição de mãos são elegíveis para receber dons espirituais destinados a “abençoar e beneficiar aqueles que amam o Senhor e procuram guardar Seus mandamentos”.14 Os dons espirituais são pré-requisitos essenciais para nos achegarmos ao Salvador, sermos abençoados com Seus atributos e, em última instância, tornarmo-nos mais semelhantes a Ele.

O próprio termo “dons espirituais” ensina uma lição fundamental. Todos esses dons são dados por Deus de acordo com Sua vontade e no Seu tempo; não são resultados que conquistamos unicamente por meio de esforço concentrado e disciplina pessoal.

O dom espiritual da caridade e a perseverança até o fim

Mórmon testificou que “a caridade é o puro amor de Cristo”15 e “de [todos, o] maior” dom espiritual.16 É importante notar que a palavra perseverar e seus sinônimos são usados nas escrituras para definir e descrever a caridade.

Por exemplo, “a caridade (…) permanece para sempre”,17 “é sofredora, (…) não busca seus interesses (…), tudo sofre (…), tudo suporta”.18 E, como as irmãs bem sabem, “a caridade nunca falha”.19

Mórmon também ensinou que “para todos os que (…) possuírem [o dom espiritual da caridade], no último dia tudo estará bem”.20 Observem que em diversos contextos, possuir pode significar também “ser caracterizado por”. Podemos possuir a caridade, mas, em última instância, a caridade deve nos caracterizar.

Ao sermos abençoados com esse dom sublime, ocorre uma transformação em nossa natureza e caráter espirituais. “Possuir” o dom espiritual da caridade refere-se, em parte, ao desenvolvimento e ao progresso espirituais que são os grandes propósitos do evangelho do Salvador.

Mais elevado e mais sagrado

Para os discípulos do Salvador, a caridade abrange tanto o que fazemos quanto o que podemos nos tornar à medida que desenvolvemos por completo esse dom espiritual. Em sua essência, a caridade certamente inclui atos de compaixão, bondade e generosidade realizados em prol de outras pessoas. Entretanto, em um nível mais elevado e até mais sagrado, a caridade é a própria essência do “fim” pelo qual estamos perseverando: tornarmo-nos novas criaturas em Cristo.

Pensem em como essas duas dimensões abrangentes da caridade são descritas na décima terceira regra de fé. A primeira metade da declaração enfatiza atos caridosos e bondosos: “Cremos em ser honestos, verdadeiros, castos, benevolentes, virtuosos e em fazer o bem a todos os homens.”21

A segunda metade da declaração enfatiza a natureza contínua de nossa transformação espiritual: “Cremos em todas as coisas, confiamos em todas as coisas, suportamos muitas coisas e esperamos ter a capacidade de tudo suportar. Se houver qualquer coisa virtuosa, amável, de boa fama ou louvável, nós a procuraremos.”22

A última regra de fé é uma admoestação para que façamos o bem, sejamos bons e perseveremos até o fim ao nos achegarmos ao Salvador, segui-Lo e recebermos o dom celestial de amar como Ele ama.

A natureza divina e o caráter sublime do Salvador foram as fontes da compaixão perfeita durante Seu ministério mortal. O Redentor do mundo voltou-se para o próximo por meio do amor e do serviço quando enfrentou adversidades espirituais ou dor física — em contraste com o homem natural que existe em cada um de nós, que se volta para si mesmo, movido pelo interesse próprio, pelo egocentrismo e pelo egoísmo. Ao vivermos como Ele nos incentiva a viver e com Sua ajuda, nossa natureza e nosso caráter, com o tempo, tornam-se cada vez mais semelhantes aos Dele.

Ao seguirmos e amarmos o Salvador e servimos a Ele, passaremos gradualmente a nos concentrar menos em nossos próprios desejos e interesses e mais em compreender e atender às necessidades das outras pessoas. Deixaremos de nos limitar a praticar atos de bondade; em vez disso, nosso estado de ser será transformado e se tornará cada vez mais semelhante ao de Cristo. Por fim, a caridade fará parte da nossa natureza.

“Portanto (…), rogai ao Pai, com toda a energia de vosso coração, que sejais cheios desse amor (…), que quando ele aparecer, sejamos como ele, porque o veremos como ele é.”23

De graça em graça

A perspectiva de sermos abençoados na mortalidade mesmo que com uma pequena porção do caráter e dos atributos de Jesus pode parecer algo totalmente impossível para nós. Mas o Redentor “nos mostrou a senda que conduz à vida eterna”.24 O poder de Sua doutrina, de Seus convênios, de Suas ordenanças e de Seu exemplo pode nos abençoar em todos os aspectos de nossa vida.

O padrão de desenvolvimento espiritual evidente na vida mortal do Salvador também se aplica a cada um de nós. Jesus Cristo “estava no princípio com o Pai”.25 Nós também estávamos.26

Ele “veio e habitou na carne”,27 e “a princípio não recebeu da plenitude, mas continuou de graça em graça, até receber a plenitude”.28 Como filhos de Deus, também podemos receber de Sua plenitude “no devido tempo”,29 “de graça em graça”, seguindo o mesmo padrão que o Salvador.30

Exemplos das escrituras

Agora vou ler três passagens das escrituras que contêm a expressão “perseverar até o fim”. E vou acrescentar o trecho “e tiver o puro amor de Cristo” a cada versículo, para que possamos aprender uma lição vital e eterna.

  • O Salvador ensinou a Seus antigos apóstolos: “Aquele que perseverar até o fim [ou tiver o puro amor de Cristo] será salvo.”31

  • Néfi testificou: “Ouvi a voz do Pai, dizendo: Sim, as palavras do meu Amado são verdadeiras e fiéis. Quem perseverar até o fim [ou tiver o puro amor de Cristo], esse será salvo.”32

  • Alma declarou: “Quem encontrar misericórdia, perseverar até o fim [ou tiver o puro amor de Cristo], será salvo.”33

Perseverar até o fim é algo intrinsecamente ligado ao dom espiritual da caridade. Perseverar até o fim não é a determinação implacável para que cerremos os dentes, suportemos até os limites da nossa força física e capacidade mental e superemos os desafios e adversidades da vida mortal; é muito mais do que isso.

Perseverar até o fim é a alegre busca de uma vida inteira — prosseguir com fé em Jesus Cristo num processo gradual de confiar e receber ajuda do nosso Salvador para nos tornarmos mais semelhantes a Ele. À medida que nosso amor por Ele se torna cada vez mais forte e profundo, podemos ser abençoados em receber perspectiva espiritual, a graça capacitadora do Senhor e uma alegria imensa e indescritível.34

Promessa e testemunho

A expressão das escrituras “vinde a mim”35 é o convite introdutório do Salvador para aprendermos e agirmos de acordo com Sua doutrina e iniciarmos um processo de renascimento espiritual.

A expressão das escrituras “perseverar até o fim” é um lembrete repetido da vigorosa mudança espiritual em nosso coração36 que deve ser contínua por toda a vida; é também Sua promessa do que podemos nos tornar se verdadeiramente desenvolvermos o puro amor de Cristo.

O Senhor revelou ao profeta Joseph Smith: “Todos os tronos e domínios, principados e poderes serão revelados e concedidos a todos os que tiverem perseverado valentemente por causa do evangelho de Jesus Cristo.”37

Testifico alegremente que cada um de nós, com a graça e a misericórdia do Senhor, pode crer em todas as coisas, confiar em todas as coisas e suportar valentemente todas as coisas. Presto testemunho disso no sagrado nome do Senhor Jesus Cristo, amém.

Notes

  1. 3 Néfi 15:9. ↩

  2. Doutrina e Convênios 14:7. ↩

  3. Ver Mosias 5:2, 7. ↩

  4. Ver Mosias 3:19. ↩

  5. Morôni 10:32. ↩

  6. Ver Mosias 27:24–26. ↩

  7. Ver Doutrina e Convênios 84:20–21. ↩

  8. Ver Doutrina e Convênios 18:23. ↩

  9. Doutrina e Convênios 109:15. ↩

  10. Ver Alma 5:12–14. ↩

  11. Doutrina e Convênios 4:2. ↩

  12. Ver 2 Coríntios 5:17; Mosias 27:26. ↩

  13. 2 Néfi 2:8. ↩

  14. Tópicos e Perguntas, "Dons espirituais", Biblioteca do Evangelho. ↩

  15. Morôni 7:47. ↩

  16. Morôni 7:46. ↩

  17. Morôni 7:47; grifo do autor. ↩

  18. Morôni 7:45; grifo do autor. ↩

  19. Morôni 7:46. ↩

  20. Morôni 7:47. ↩

  21. Regras de Fé 1:13. ↩

  22. Regras de Fé 1:13; grifo do autor. ↩

  23. Morôni 7:48. ↩

  24. "Da corte celestial", Hinos, nº 114. ↩

  25. Doutrina e Convênios 93:21. ↩

  26. Ver Doutrina e Convênios 93:23. ↩

  27. Doutrina e Convênios 93:11. ↩

  28. Doutrina e Convênios 93:13. ↩

  29. Ver Doutrina e Convênios 93:19–20. ↩

  30. Doutrina e Convênios 93:12–13, 20. ↩

  31. Mateus 10:22; grifo do autor. ↩

  32. 2 Néfi 31:15; grifo do autor. ↩

  33. Alma 32:13; grifo do autor. ↩

  34. Ver Alma 26:11; 27:18; 3 Néfi 27:30. ↩

  35. 3 Néfi 9:22. ↩

  36. Ver Mosias 5:2. ↩

  37. Doutrina e Convênios 121:29; grifo do autor. ↩

Como citar este discursoDavid A. Bednar, “\"Todos os que tiverem perseverado valentemente\”, Conferência Geral de Abril de 2026, Saturday Morning Session (2026-04-04). Pulpit Vault, 2026-04-bednar-all-who-have-endured-valiantly. Tradução oficial da Igreja, churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).