Ensinai-lhes Princípios Corretos
Boyd K. Packer
No início do ano, foi feito um anúncio que teve um grande efeito no orçamento da Igreja. Ele se referia às atividades e despesas operacionais das unidades locais, que passariam a ser pagas, doravante, com os dízimos e ofertas da Igreja. ¶
O propósito desta reunião é transmitir a vocês uma noção da razão para as mudanças nesse procedimento orçamentário. ¶
Estamos confiantes de que, quando vocês compreenderem o espírito e o propósito da mudança, a maioria das perguntas detalhadas será resolvida. Estamos seguindo a admoestação do Profeta Joseph Smith: "Ensino-lhes princípios corretos e eles se governam a si mesmos." (Messages of the First Presidency, comp. James R. Clark, 6 vols., Salt Lake City: Bookcraft, 1965–75, 3:54.) De acordo com as escrituras, não deveríamos precisar ser mandados em todas as coisas. (Ver D&C 58:26.) ¶
A maior parte das decisões deve ficar a cargo de vocês, os membros da Igreja, agindo em harmonia com os princípios anunciados nas diretrizes. A mudança exigirá um ajuste considerável em nosso modo de pensar. Não será possível fazer todas as coisas que temos feito da mesma maneira que as temos feito. Isso trará uma inevitável redução nos programas. Isso foi intencional. Será preciso "escolher e selecionar". Nada essencial se perderá; pelo contrário, as coisas essenciais serão redescobertas, serão encontradas! ¶
O Efeito Será Espiritual
Fomos ensinados que o dízimo não é tanto uma questão de dinheiro quanto uma questão de fé. Embora a mudança nos orçamentos, nas cobranças e na arrecadação de fundos possa parecer, a princípio, uma questão temporal, seu efeito será espiritual. ¶
Já ouvimos líderes do sacerdócio e das organizações auxiliares comentando, com aguda percepção, que essa mudança nos volta mais diretamente para as questões espirituais. Eles estão começando a perceber que, na verdade, este anúncio tem mais a ver com espírito do que com dinheiro. Vocês se tornarão mais dependentes do Espírito e terão maior necessidade de revelação pessoal quando as decisões ficarem a seu cargo. ¶
Alguns Poucos Líderes "Engenhosos"
Também ouvimos falar de algumas invenções muito engenhosas, calculadas para contornar as instruções e manter algumas das atividades caras, até mesmo extravagantes, às quais nos acostumamos. ¶
Essas almas engenhosas terão motivo para se arrepender assim que compreenderem o espírito da decisão. Essas práticas astutas logo desaparecerão à medida que vocês aprenderem o propósito de tudo isso. ¶
Uma Surpresa
Para muitos, o anúncio veio como uma surpresa, uma surpresa muito bem-vinda, e, ainda assim, se vocês tivessem estado ouvindo com atenção, não deveriam ter ficado tão surpresos. ¶
Durante anos, os Presidentes da Igreja falaram e oraram pelo dia em que os dízimos e ofertas qualificariam os membros para a plena participação na Igreja. ¶
O Presidente Joseph F. Smith, já em 1907, declarou: "Talvez não consigamos alcançá-lo imediatamente, mas esperamos ver o dia em que não teremos de lhes pedir um dólar sequer de doação, para qualquer propósito, exceto aquilo que vocês voluntariamente decidirem dar por conta própria, porque teremos dízimos suficientes no armazém do Senhor para pagar tudo o que for necessário para o progresso do reino de Deus." (Em Conference Report, abril de 1907, p. 7.) ¶
A Primeira Presidência tem nos aconselhado repetidas vezes: ¶
"Prezados Irmãos e Irmãs", escreveram eles, "estamos seriamente preocupados com as exigências feitas ao povo da Igreja na condução de seus muitos programas. Estamos muito preocupados que essas exigências não se tornem tão pesadas a ponto de ter um efeito adverso sobre a vida familiar, as atividades profissionais ou a busca de estudos necessários. Também estamos preocupados com os pedidos financeiros feitos a nosso povo. … Temos razões para sentir que essas exigências estão se tornando indevidamente onerosas para muitos." ¶
Isso foi impresso no Boletim do Sacerdócio em 1978, 1982, 1984, 1985, 1987 — cinco vezes! ¶
A Primeira Presidência enviou ainda outra carta intitulada "Redução de Tempo e Dinheiro Exigidos para os Programas da Igreja". Vou ler um trecho dela. ¶
"Estamos muito preocupados que o custo de participação nas atividades da Igreja não se torne indevidamente oneroso para nossos membros. Há preocupação de que alguns que não conseguem arcar com esses custos possam se afastar da plena participação na Igreja. Particularmente os programas de juventude da Igreja devem ser administrados de modo que todos os nossos jovens possam desfrutar de plena participação." (Carta aos presidentes de estaca, bispos e presidentes de ramo, 2 de maio de 1978.) ¶
Tempo como uma Questão
Perceberam que cada uma dessas declarações pedia uma redução tanto de tempo quanto de dinheiro exigidos dos membros? ¶
"Já lhes disse muitas vezes", declarou o Presidente Brigham Young, "que a propriedade que herdamos de nosso Pai Celestial é o nosso tempo, e o poder de escolher a disposição do mesmo. Este é o verdadeiro capital que nos é legado por nosso Pai Celestial." (Em Journal of Discourses, 18:354; itálico acrescentado.) ¶
Alguns de vocês perguntaram por que essa mudança deveria vir justamente quando as forças da tentação cercam nossa juventude como nunca antes. Vocês perguntam: "Não precisamos de atividades e reuniões mais impressionantes, em maior número, em vez de menos?" ¶
Às vezes mais pode ser menos, e às vezes menos é mais. Mesmo com tudo o que despendemos e tudo o que fazemos, não estamos indo tão bem quanto deveríamos e temos poucas evidências de que as atividades dispendiosas realmente protegem nossa juventude. ¶
Há uma lição, uma lição profunda, no Livro de Mórmon. Na parábola de Jacó sobre a oliveira, o senhor da vinha chorou porque havia trabalhado tanto, mas as árvores davam frutos silvestres. "Que mais poderia eu ter feito?", perguntou ele. "Terei afrouxado minha mão, deixando de nutri-la e de cavar ao seu redor e podá-la e estender minha mão quase o dia inteiro? Que mais poderia eu ter feito por minha vinha?" (Ver Jacó 5:47.) ¶
Quantos bispos, com resultados decepcionantes, já sentiram vontade de dizer, em suas próprias almas, essas mesmas palavras? "Que mais poderia eu ter feito por minha ala? Por que frutos silvestres depois de todo o nosso trabalho?" ¶
Foi o servo — sempre é o servo — quem disse: "Não é a altura de tua vinha — não terão os ramos superado as raízes que são boas? E porque os ramos superaram as raízes, eis que eles cresceram mais depressa do que a força das raízes, tomando força para si mesmos." (Jacó 5:48.) ¶
"Não obstante", disse o senhor da vinha, "sei que as raízes estão boas." (Jacó 5:36; itálico acrescentado.) Então ele trouxe brotos das árvores que havia plantado em terreno pobre, pois as achou fortes; e as enxertou, para que "a raiz e a copa tenham a mesma força." (Jacó 5:66.) ¶
Há grande significado na parábola de Jacó para a Igreja em nossa geração. ¶
As reuniões e atividades podem se multiplicar até "tomarem força para si mesmas" à custa do evangelho — da verdadeira adoração. ¶
Essa mudança no orçamento terá o efeito de devolver grande parte da responsabilidade pelo ensino, pelo aconselhamento e pela atividade à família, a quem pertence. Embora ainda haja muitas atividades, elas serão reduzidas em custo, tanto de tempo quanto de dinheiro. Haverá menos intromissões nas agendas familiares e nas finanças das famílias. ¶
As atividades da Igreja devem ser substituídas por atividades familiares. Assim como fomos ensinados quanto aos assuntos temporais, o espírito de independência, economia e autossuficiência será reentronizado como princípio orientador nos lares dos Santos dos Últimos Dias. ¶
E, assim como os líderes de estaca agora patrocinarão menos atividades, deixando mais tempo e dinheiro para os líderes de ala, os líderes de ala, por sua vez, deixarão mais de ambos para as famílias. ¶
Esta decisão estabelecerá um melhor equilíbrio entre exigir das famílias tempo e dinheiro para apoiar as atividades da Igreja e fazer com que as atividades da Igreja complementem o que as famílias devem fazer por si mesmas. ¶
Esse é um equilíbrio difícil, porque algumas famílias precisam de mais apoio do que outras. Talvez tenhamos superprogramado famílias estáveis para atender às necessidades daquelas com problemas. Precisamos buscar um caminho melhor. ¶
Posso ver pais verdadeiramente gratos por terem um melhor equilíbrio nas atividades de sábado. As atividades de sábado podem ser programadas para permitir que nossa juventude tenha suas atividades, mas, em algumas ocasiões, para que fiquem em casa em certos sábados, a fim de aprenderem a trabalhar, a ajudar, a encontrar recreação no ambiente familiar. E as mães e os pais que obedientemente deixaram o lar para supervisionar atividades da Igreja poderão ter mais tempo com seus próprios filhos. ¶
O Presidente Kimball disse: "Isto me choca … chegar a uma compreensão do que temos tentado fazer, tudo com as melhores intenções." Ele afirmou que o custo da filiação, tanto em tempo quanto em dinheiro, estava se tornando "proibitivo para os membros da Igreja, e eles acham muito difícil, e às vezes perdemos membros da Igreja porque não querem admitir que não podem arcar com o que esperamos deles." ("Reduction and Simplification", 13 abr. 1979.) ¶
É minha convicção pessoal de que essa mudança no orçamento terá uma influência enorme na reativação daqueles que se afastaram por não poderem arcar com o custo das atividades da Igreja. ¶
Considerem os pais lutando sob a pressão de prover tudo o que uma família em crescimento requer. Vocês não conseguem vê-los sendo menos firmes ao pressionar seus filhos a frequentar as atividades da Igreja quando realmente não podem arcar com os custos? Quando os pressionamos demais, insinuamos que eles não são bons provedores o bastante. Se vocês entendem um pouco do ego humano, saberão que os pais preferirão se afastar da atividade a admitir que não podem arcar com o custo. ¶
Conseguem imaginar um rapaz de dezessete anos ouvindo sua mãe ao telefone dizer: "Sim, sim, eu sei. Vamos tentar fazer um pagamento parcial no próximo mês. Eu sei que dissemos isso, mas simplesmente não tínhamos o dinheiro. Tivemos algumas despesas médicas. Sim, eu entendo isso. Simplesmente não conseguimos fazê-lo. Ah, por favor, não faça isso. Se o senhor levar, será impossível para meu marido chegar ao trabalho. Por favor, não pode nos dar um pouco mais de tempo?" ¶
Pergunta: Esse rapaz se inscreverá para um acampamento ou conferência de jovens caro, por mais que deseje desesperadamente ir? Ele frequentará regularmente se toda atividade exigir "só mais alguns dólares"? O dinheiro que supostamente ele pode ganhar para pagar seu próprio caminho pode ter usos mais urgentes. ¶
Vocês podem dizer que podemos prover para ele. Cuidado com esse ego humano! Lembrem-se de que já ensinamos a ele e a seus pais a serem independentes, econômicos e autossuficientes. ¶
Pergunta: Esse rapaz irá em missão? Já conheci jovens que pensaram em se desqualificar em vez de impor à família o que sentem ser um fardo financeiro impossível, com talvez a mãe deixando os filhos menores para trabalhar e sustentá-lo na missão. ¶
Agora, os fundos que têm sido gastos com essas coisas poderão ser guardados para as missões. Não conseguem ver que esse compromisso de poupança pode ter uma influência moral e espiritual muito protetora sobre um jovem, de certa forma mais poderosa do que mais uma atividade juvenil emocionante? Pode, de fato, ser um compromisso "salvador". ¶
As escrituras falam de dízimos e de ofertas; não falam de cobranças ou de arrecadação de fundos. Para ser uma oferta, ela precisa ser dada livremente — oferecida. O caminho agora está aberto para que muitos mais de nós participem dessa experiência espiritualmente enriquecedora. ¶
Alguns de vocês conhecem famílias sobrecarregadas com despesas missionárias e outras. Ofereçam-se para ajudar. O bispo pode agir como intermediário, e vocês podem dar o presente de forma anônima. Que privilégio. É preciso fazê-lo com cuidado, para que não desfaçamos a parte da autossuficiência. ¶
Vocês devem inventar maneiras de fazer com que aqueles que se afastaram por causa das despesas saibam da mudança. Eles não estavam na reunião em que o anúncio foi feito. Enviem sua juventude para chamá-los de volta. ¶
Digam-lhes o que o profeta disse: ¶
"Vinde, meus irmãos, todos os que tendes sede, vinde às águas; e aquele que não tem dinheiro, venha comprar e comer; sim, vinde comprar vinho e leite, sem dinheiro e sem preço." (2 Néfi 9:50; itálico acrescentado.) ¶
Para aqueles que podem e estão dispostos, surge a oportunidade de fazer ofertas generosas. Ao deixarem as decisões a cargo de vocês, não veem a doutrina fundamental do arbítrio moral se afirmando? Não veem, na mudança de cobrança para oferta, algo daquilo que é fundamental à nossa provação mortal — a prova? ¶
Tenho pensado muito, ultimamente, no outro profeta, José, que interpretou o sonho do faraó. Tenho pensado nos sete anos de fartura e num tempo para se preparar antes dos anos de fome. ¶
Tenho pensado num faraó humilde o bastante para atender ao conselho de um profeta e num povo que foi salvo por causa disso. Tenho pensado numa família que estava unida — a família de Israel. ¶
Não conseguiria expressar a vocês, meus irmãos e irmãs, a profundidade de meu sentimento a respeito do que foi anunciado. É uma correção de rumo; é um movimento inspirado. Terá influência sobre a Igreja em todo o mundo, não apenas em nossa geração, mas nas gerações vindouras. Tenho a certa convicção de que isso é agradável àquele que é nosso Senhor e nosso Redentor, o próprio Jesus Cristo, nosso Salvador. Em nome de Jesus Cristo, amém. ¶