Pulpit

A Revelação num Mundo em Mudança

Boyd K. Packer

Conferência Geral de Outubro de 1989·Saturday Morning Session·1989-10-01

Depois do batismo, a pessoa é confirmada membro de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias numa breve ordenança, durante a qual lhe é conferido o dom do Espírito Santo. Daí em diante, durante toda a vida, homens, mulheres e até criancinhas recebem o direito a uma orientação inspirada que as guie em sua vida — a revelação pessoal! (Ver Alma 32:23.)

O Espírito Santo se comunica com o espírito por meio da mente mais do que por meio dos sentidos físicos. Essa orientação vem como pensamentos, como sentimentos, por meio de impressões e inspirações. Nem sempre é fácil descrever a inspiração. As escrituras nos ensinam que podemos "sentir" as palavras da comunicação espiritual mais do que ouvi-las, e ver com olhos espirituais em vez de olhos mortais. (Ver 1 Né. 17:45.)

Os padrões da revelação não são dramáticos. A voz da inspiração é uma voz mansa, uma voz pequena. Não é preciso haver transe, nem declaração sanctimoniosa. É mais quieta e mais simples do que isso.

O Livro de Mórmon ensina que "os anjos falam pelo poder do Espírito Santo" (2 Né. 32:3) e registra que, embora um anjo tenha falado a alguns, "[eles] haviam perdido a sensibilidade, de modo que não puderam perceber suas palavras" (1 Né. 17:45; itálico acrescentado).

Se você já experimentou a inspiração, você compreende.

Nosso corpo físico é o instrumento de nosso espírito. Naquela maravilhosa revelação, a Palavra de Sabedoria, somos instruídos sobre como manter nosso corpo livre de impurezas que possam entorpecer, ou até mesmo destruir, aqueles sentidos físicos delicados que têm relação com a comunicação espiritual.

A Palavra de Sabedoria é uma chave para a revelação individual. Ela foi dada como "princípio com promessa, adaptada à capacidade dos fracos e do mais fraco de todos os santos". (D&C 89:3.)

A promessa é a de que aqueles que obedecerem "encontrarão sabedoria e grandes tesouros de conhecimento, sim, tesouros ocultos". (D&C 89:19.) Se abusarmos de nosso corpo com substâncias que causam dependência ou usarmos indevidamente medicamentos controlados, fechamos as cortinas que bloqueiam a luz da comunicação espiritual.

O vício em entorpecentes serve ao desígnio do príncipe das trevas, pois interrompe o canal com o Santo Espírito da Verdade. No momento, o adversário tem uma vantagem injusta. O vício tem a capacidade de desconectar a vontade humana e anular o arbítrio moral. Pode roubar do indivíduo o poder de decidir. O arbítrio é uma doutrina fundamental demais para ser deixada em tal perigo.

É minha convicção, e minha oração constante, que virá, por meio da pesquisa, por meio da inspiração aos cientistas se necessário for, o poder de vencer o vício em entorpecentes através dos mesmos meios que o causam.

Suplico a todos vocês que orem com fervor para que, em algum lugar, de alguma forma, se descubra a maneira de eliminar o vício do corpo humano.

Não é apenas o sofrimento humano, nem mesmo a vida humana, que está em risco; é todas as liberdades pessoais, sociais, políticas e espirituais pelas quais a humanidade tem lutado através dos tempos. Está em risco tudo o que foi comprado pelo sangue dos mártires. O próprio arbítrio moral está em perigo! Se todos orarmos com fervor, o Senhor certamente nos ajudará. E, com essas orações, ensinem seus filhos a obedecer à Palavra de Sabedoria. Ela é a armadura deles e os protegerá de hábitos que obstruem os canais da revelação pessoal.

As coisas do Espírito não precisam — na verdade, não devem — exigir todo o nosso tempo e atenção ininterruptos. As coisas comuns do dia a dia ocupam a maior parte de nossa atenção. E assim deve ser. Somos seres mortais vivendo neste mundo físico.

As coisas espirituais são como o fermento. Em medida, podem ser muito pequenas, mas, em influência, afetam tudo o que fazemos. A revelação contínua é fundamental para o evangelho de Jesus Cristo.

E eu lhes asseguro que a revelação acompanha nosso presidente profeta e aqueles ordenados Apóstolos, como profetas, videntes e reveladores. Mas a revelação não se limita a eles. O Senhor deseja que "todo homem fale em nome de Deus, o Senhor, sim, o Salvador do mundo". (D&C 1:20.)

Nem toda inspiração vem de Deus. (Ver D&C 46:7.) O maligno tem o poder de interceptar esses canais de revelação e enviar sinais contraditórios que podem nos enganar e confundir. Há inspirações de fontes más que são tão cuidadosamente falsificadas que enganariam até os próprios eleitos. (Ver Mateus 24:24.)

Não obstante, podemos aprender a discernir esses espíritos. Mesmo com todo membro tendo o direito à revelação, a Igreja pode ser mantida como uma casa de ordem.

A revelação vem de maneira ordenada na Igreja. Temos direito à revelação pessoal. Contudo, a menos que sejamos designados a algum ofício de presidência, não receberemos revelações a respeito do que outros devem fazer.

A revelação na Igreja vem para aqueles que foram devidamente chamados, sustentados, ordenados ou designados. Um bispo, por exemplo, não receberá revelação alguma a respeito de uma ala vizinha, porque isso está fora de sua jurisdição.

Ocasionalmente alguém alegará ter recebido autoridade para ensinar e abençoar sem ter sido chamado e designado. Menos de um ano depois de a Igreja ser organizada (fevereiro de 1831), foi recebida uma revelação que o Profeta especificou "abrangia a lei da igreja". Ela contém este versículo:

"A ninguém será permitido sair a pregar meu evangelho ou estabelecer minha igreja, a não ser que tenha sido ordenado por alguém que tenha autoridade, e que a igreja saiba que tem autoridade e foi apropriadamente ordenado pelos dirigentes da igreja". (D&C 42:11; itálico acrescentado.)

É por isso que o processo de sustentar aqueles chamados a um ofício é tão cuidadosamente protegido na Igreja — para que todos saibam quem tem autoridade para ensinar e abençoar.

Uma experiência espiritual incomum não deve ser considerada um chamado pessoal para dirigir outras pessoas. É minha convicção de que experiências de natureza especial e sagrada são individuais e devem ser guardadas em segredo.

Poucas coisas perturbam os canais da revelação com tanta eficácia quanto pessoas que se deixam enganar e se julgam escolhidas para instruir outras quando não foram escolhidas.

Outras, temendo que também possam se desviar, então se retraem e não buscam a fonte da revelação divina. A obediência à autoridade do sacerdócio devidamente constituída nos protegerá de nos desviarmos.

Há aqueles dentro da Igreja que se perturbam quando são feitas mudanças com as quais discordam, ou quando mudanças que propõem não são feitas. Eles apontam isso como prova de que os líderes não são inspirados.

Eles escrevem e falam para convencer outros de que as doutrinas e decisões dos Irmãos não são dadas por inspiração.

Duas coisas os caracterizam: sempre se irritam com a palavra obediência e sempre questionam a revelação. Sempre foi assim. Helamã descreveu aqueles que "começaram a perder a crença no espírito de profecia e no espírito de revelação; e defrontaram-se com os julgamentos de Deus". (Helamã 4:23.) "Foram abandonados a sua própria força" (v. 13), e "o Espírito do Senhor não mais os preservava; sim, havia-se afastado deles" (v. 24).

Mudanças na organização ou nos procedimentos são um testemunho de que a revelação continua. Embora as doutrinas permaneçam fixas, os métodos ou procedimentos não permanecem.

Por exemplo, quando as edições mais recentes das escrituras foram publicadas, muitas correções foram feitas com base em manuscritos originais ou manuscritos do impressor, alguns dos quais não estavam antes disponíveis. Por exemplo, em Alma capítulo 16, versículo 5, aparecia a palavra whether [se]. O manuscrito original desse versículo não existe. Entretanto, quando encontramos a cópia do impressor, vimos que o Profeta Joseph Smith havia mudado a palavra para whither [para onde]. Whether significa "se"; whither significa "para onde". O versículo seguinte confirma que whither está correto.

Outro exemplo: em Alma capítulo 32, versículo 30, as palavras "incha e brota e começa a crescer" ocorriam três vezes. Um erro evidente de composição tipográfica havia deixado uma delas de fora. Na edição de 1981, trinta e cinco palavras foram restauradas. Agora está de acordo com o texto original.

Houve muitas mudanças desse tipo. Nenhuma alterou a doutrina. Cada mudança, por menor que fosse em seus detalhes, foi cuidadosa e oracionalmente considerada e aprovada pelo Conselho da Primeira Presidência e do Quórum dos Doze Apóstolos, em reunião no templo.

Todos os assuntos dessa natureza são decididos dessa maneira. O Senhor estabeleceu esse processo quando deu as revelações relativas às ordenanças do templo.

Em 1841, os santos foram ordenados a construir um templo em Nauvoo, no qual realizariam batismos pelos mortos, e foi-lhes dado tempo para fazê-lo. Seriam rejeitados se falhassem. Ele disse:

"Ordeno-vos, porém, a todos vós, meus santos, construirdes-me uma casa; …

"e se não fizerdes essas coisas, até o final do prazo, sereis rejeitados como igreja com vossos mortos, diz o Senhor vosso Deus." (D&C 124:31–32.)

Os santos não fracassaram. Por mais impossível que lhes pudesse parecer, dada a terrível oposição que enfrentaram, o Senhor prometeu guiá-los por meio de seus servos designados:

"Se meu povo der ouvidos à minha voz, e à voz de meus servos que designei para guiar meu povo, eis que, em verdade vos digo, não serão removidos do seu lugar.

"Mas se não derem ouvidos à minha voz, nem à voz desses homens que designei, não serão abençoados." (D&C 124:45–46; itálico acrescentado.)

Mais tarde, falando sobre o mesmo assunto das ordenanças do templo, o Senhor afirmou novamente que revelará sua vontade a seus servos autorizados:

"Aquele a quem forem dadas essas chaves não terá dificuldade em obter um conhecimento dos fatos relativos à salvação dos filhos dos homens." (D&C 128:11.)

Esse princípio de revelação tem estado com a Igreja desde então. Aqueles que detêm as chaves obtiveram o conhecimento do que fazer. Quando vieram mudanças, elas vieram por meio desse processo. O Senhor faz como disse que faria:

"Eu, o Senhor, ordeno e revogo, como me parece bem." (D&C 56:4.)

"Eu mando, e os homens não obedecem; revogo, e eles não recebem a bênção." (D&C 58:32.)

Ele disse aos santos que, quando inimigos os impedissem de cumprir um mandamento, ele não mais exigiria que o fizessem. E disse:

"A iniquidade e a transgressão de minhas santas leis e mandamentos farei recair sobre a cabeça daqueles que impediram meu trabalho, até a terceira e quarta geração, enquanto não se arrependerem." (D&C 124:50.)

O plano do evangelho foi revelado linha por linha, preceito sobre preceito, um pouco aqui e um pouco ali. E continua: "Cremos que ele ainda revelará muitas coisas grandiosas e importantes relativas ao Reino de Deus." (Regras de Fé 1:9.)

Haverá mudanças no futuro, como houve no passado. O fato de os Irmãos fazerem mudanças ou resisti-las depende inteiramente das instruções que recebem por meio dos canais de revelação estabelecidos desde o princípio.

As doutrinas permanecerão fixas, eternas; a organização, os programas e os procedimentos serão alterados conforme dirigido por Aquele a quem pertence esta igreja.

Nós, que fomos chamados para liderar a Igreja, somos homens e mulheres comuns, com capacidades comuns, lutando para administrar uma igreja que cresce num ritmo capaz de surpreender até os que a observam de perto. Alguns estão inclinados a encontrar defeitos em nós; certamente isso lhes é fácil de fazer. Mas eles não nos examinam mais minuciosamente do que nós mesmos nos examinamos. Um chamado para liderar não é uma isenção dos desafios da vida. Buscamos a inspiração da mesma maneira que vocês buscam, e devemos obedecer às mesmas leis que se aplicam a cada membro da Igreja.

Lamentamos nossas inadequações, lamentamos não sermos melhores do que somos. Podemos sentir, como vocês podem ver, o efeito do processo de envelhecimento à medida que impõe limitações aos líderes de Deus diante de seus olhos.

Mas isto sabemos. Há conselhos, conselheiros e quóruns para contrabalançar as fraquezas e fragilidades do homem. O Senhor organizou sua igreja de modo a permitir que homens mortais trabalhassem como homens mortais, e ainda assim assegurou que o espírito de revelação guiaria em tudo o que fazemos em seu nome.

E, no final, o que é dado vem porque o Senhor o disse, "seja pela minha própria voz ou pela voz de meus servos, é o mesmo". (D&C 1:38.) Conhecemos sua voz quando ele fala.

A revelação continua conosco hoje. As inspirações do Espírito, os sonhos, as visões e as visitações, e a ministração de anjos, tudo isso está conosco agora. E a voz mansa e pequena do Espírito Santo "é lâmpada para os nossos pés, e luz para o nosso caminho". (Salmos 119:105.) Disso dou testemunho, em nome de Jesus Cristo, amém.

Como citar este discursoBoyd K. Packer, “A Revelação num Mundo em Mudança”, Conferência Geral de Outubro de 1989, Saturday Morning Session (1989-10-01). Pulpit Vault, 1989-10-packer-revelation-in-a-changing-world. Tradução desta edição, por método de glossário, churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).