"Não Murmureis"
Neal A. Maxwell
Com todos vocês, expresso minha admiração por estes homens maravilhosos que estão sendo desobrigados e cujo status está sendo ajustado. Eles foram exemplares na época de seus chamados; são-no ainda mais hoje. São sermões ambulantes para todos nós. Meu sermão foi essencialmente preparado em junho. É para mim mesmo, assim como para os membros da Igreja. ¶
Murmurar é definido como um ressentimento parcialmente contido ou uma queixa resmungada. Todos nos lembramos, em Fiddler on the Roof [O Violinista no Telhado], dos comentários de Tevye, dirigidos a Deus. ¶
Contudo, assim como "um bocejo [pode ser] um grito silencioso",1 murmurar pode ser muito mais do que um resmungo abafado. O verdadeiro "Destinatário" de parte de nossos murmúrios é claramente o Senhor, como quando o povo se queixou contra Moisés. (Ver Êx. 16:8; 1 Né. 16:20.) Pelo menos Tevye reconhecia honestamente a quem se dirigia. ¶
Murmurar parece vir tão naturalmente ao homem natural. Atravessa todo o espectro escriturístico de queixas registradas. Precisamos de pão. Precisamos de água. (Ver Núm. 21:5.) Os reforços militares necessários não chegaram. (Ver Alma 60.) "Por que será que saímos do Egito?" (Ver Núm. 11:20.) "Por que será que saímos de Jerusalém?" (Ver 1 Né. 2:11.) Alguns, talvez compreensivelmente, murmuraram contra a perseguição de descrentes, e outros até murmuraram sobre qual deveria ser o nome da igreja de Cristo. (Ver Mosias 27:1; 3 Né. 27:3–4.) Mais ironicamente ainda, a vinda de mais escrituras da parte de Deus haveria de causar murmúrios. (Ver 2 Né. 29:8.) ¶
Um exemplo escriturístico antigo de murmúrio envolveu a oferta de Caim ao Senhor, ilustrando como nossas intenções são pelo menos tão importantes quanto nossas ações. (Ver Moisés 5:20–21.) Caim ficou "irado" porque a oferta de Abel foi aceita, mas a dele não. Às vezes, irmãos e irmãs, nós também nos preocupamos se outra pessoa parece ser mais favorecida do que nós. Pior ainda, queremos ser aceitos pelo Senhor — mas em nossos próprios termos, não nos Dele! ¶
Uma causa básica do murmúrio é que muitos de nós parecem esperar que a vida flua sempre suavemente, apresentando uma cadeia ininterrupta de sinais verdes com vagas de estacionamento vazias bem em frente ao nosso destino! ¶
Em seu extremo, o murmúrio reflete não apenas os sentimentos dos descontentes, mas também os sentimentos dos muito conflituosos: ¶
"E seu pesar era... o pesar dos condenados, porque [não podiam] ter felicidade no pecado. ¶
"E [contudo] não vieram a Jesus de coração quebrantado e espírito contrito, mas amaldiçoaram a Deus e desejaram morrer. Não obstante, lutariam com a espada por sua vida." (Mórmon 2:13–14.) ¶
Em sua parábola dos trabalhadores da vinha, Jesus observou como os discípulos que trabalharam desde a primeira hora, tendo "suportado a carga e o calor do dia", murmuraram porque receberam o mesmo salário daqueles que trabalharam apenas na última hora. (Ver Mat. 20:11–12.) Nós, mendigos, estamos tão preocupados com nossos direitos. ¶
Ló e Lêmuel murmuraram contra o pai Leí por havê-los conduzido ao deserto por causa das "loucas imaginações de seu coração". (Ver 1 Né. 2:11; ver também 3:31; 4:4.) Essa mesma dupla deprimente declarou que o pai Leí havia julgado os habitantes de Jerusalém com demasiada severidade, embora Jerusalém estivesse prestes a cair. ¶
Leí repreendeu Ló e Lêmuel murmuradores por reclamarem de Néfi lhes dizer "coisas duras". (1 Né. 16:3.) Leí observou: "Aquilo que chamais ira era a verdade." (2 Né. 1:26.) Quantas vezes vós e eu, irmãos e irmãs, podemos cometer esse mesmo erro! A verdade cortante realmente machuca, mas seu corte pode drenar o orgulho. ¶
Houve murmúrio também porque Néfi quebrou seu arco de aço e não conseguia construir um navio (ver 1 Né. 17:17) e porque era visto como tentando "reinar sobre nós" (2 Né. 5:3). Contudo, esses mesmos murmuradores logo se fartaram da carne trazida pelo novo arco de Néfi, e navegaram no navio que Néfi construiu. Como é conveniente que líderes inspirados, mas imperfeitos, na Igreja sirvam de ponto focal para nossas frustrações, especialmente se as circunstâncias exigem que sofram em silêncio! Ter confiança em líderes que guardam confidências faz parte de apoiá-los. ¶
Oliver Cowdery não obteve o cobiçado privilégio de traduzir. Foi-lhe dito: "Não murmures, meu filho, porque foi segundo minha sabedoria que agi contigo dessa maneira." (D&C 9:6.) Da mesma forma, foi dito a Emma Smith que "não murmurasse" quando certas coisas lhe foram negadas. (D&C 25:4.) ¶
Ao meditar sobre estes e vários outros exemplos de murmúrio, tornam-se óbvias várias outras coisas. ¶
Primeiro, o murmurador frequentemente não tem coragem de expressar abertamente suas preocupações. Se a queixa envolve um par, o murmurador raramente segue o conselho de Jesus: "Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão." (Mat. 18:15.) ¶
Segundo, os murmuradores são bons portadores de capas na conversa. Embora não peguem pedras eles mesmos, incitam outros a fazê-lo. ¶
Terceiro, embora o murmurador insista em desabafar seus próprios sentimentos, ele considera qualquer resposta a isso como hostil. (Ver 2 Né. 1:26.) Além disso, os murmuradores raramente levam em conta a capacidade de suportar de seus ouvintes. ¶
Quarto, os murmuradores têm memória curta. Israel chegou ao Sinai e depois seguiu viagem até a Terra Santa, embora às vezes estivessem famintos e sedentos. Mas o Senhor os resgatou, seja pelo aparecimento milagroso de codornizes, seja pela água que jorrou de uma rocha. (Ver Núm. 11:31; Êx. 17:6.) Estranho, não é, irmãos e irmãs, como aqueles com a memória mais curta têm as listas de exigências mais longas! Contudo, sem lembrança das bênçãos passadas, não há perspectiva sobre o que realmente está acontecendo. ¶
Este poderoso versículo do Antigo Testamento nos lembra do que realmente está acontecendo: ¶
"E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual o Senhor teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não." (Deut. 8:2.) ¶
A perspectiva faz uma diferença tão enorme e constante em nossa vida. Não deveria nos surpreender, portanto, que Satanás, segundo nos é dito, não conhece a mente de Deus. (Ver Moisés 4:6.) ¶
Talvez, quando murmuramos, estejamos inconscientemente nos queixando por não conseguirmos fechar um acordo especial com o Senhor. Queremos bênçãos plenas, mas sem obediência plena às leis sobre as quais essas bênçãos se baseiam. Por exemplo, alguns murmuradores parecem esperar remodelar a Igreja à sua própria maneira por meio de seus murmúrios. Mas por que alguém quereria pertencer a uma igreja que poderia remodelar à sua própria imagem, quando é a imagem do Senhor que devemos passar a ter em nosso semblante? (Ver Alma 5:19.) ¶
As doutrinas são Dele, irmãos e irmãs, não nossas. O poder é Dele, para delegar, não nosso, para manipular! ¶
Um fato especialmente fundamental sobre o murmúrio está contido neste versículo: "E assim Lamã e Lemuel... murmuravam por desconhecerem a maneira de proceder daquele Deus que os havia criado." (1 Né. 2:12.) ¶
Como Lamã e Lemuel, nós também, às vezes, deixamos de compreender a maneira de proceder de nosso Deus em nossa vida e em nossos tempos. (Ver 1 Né. 2:12; 17:22.) ¶
Os Presidentes Brigham Young e Heber C. Kimball tentaram desencorajar o murmúrio de Thomas B. Marsh, mas em vão. Um arrependido Irmão Marsh disse, mais tarde, sobre aquela época: ¶
"Devo ter perdido o Espírito do Senhor de meu coração... ¶
"Fiquei enciumado do Profeta... e ignorei tudo o que era certo, e passei todo o meu tempo procurando o mal;... pensei ter visto uma trave no olho do Irmão Joseph, mas não passava de um argueiro, e meu próprio olho estava cheio da trave;... fiquei bravo e queria que todos os outros também ficassem bravos. Conversei com o Irmão Brigham Young e o Irmão Heber C. Kimball, e queria que eles ficassem bravos como eu; e vi que não estavam, e fiquei ainda mais bravo porque não estavam. O Irmão Brigham Young, com um olhar cauteloso, disse: 'Você é o líder da Igreja, Irmão Thomas?' Respondi 'Não.' 'Bem, então', disse ele, 'por que você não deixa isso de lado?'"2 ¶
Os trabalhadores na vinha do Senhor que murmuram sobre as desigualdades da vida, declarou Jesus, murmuram "contra o pai de família". (Mat. 20:11.) A bondade do Senhor é atestada de tantas maneiras — mansões nos aguardam! — e, ainda assim, nós, hóspedes ingratos, continuamos a reclamar das acomodações atuais. ¶
Aqueles de fé profunda não murmuram. São generosamente dispostos, e relutam em murmurar, mesmo em profundas dificuldades, como um grupo fiel, que disse: ¶
"Eis que, [talvez] sejais malsucedidos;... se assim for, não desejamos reclamar... ¶
"Não importa — confiamos em que Deus nos livrará, apesar da fraqueza de nossos exércitos." (Alma 58:35, 37.) ¶
O exemplar Jó, que passou por tanta coisa, estava abertamente ansioso para não acusar a Deus levianamente. (Ver Jó 1:22.) ¶
O clamor de alguém cheio de fé, que também se preocupa com o bem-estar de outros, como Joseph Smith na Cadeia de Liberty, não é murmúrio. Este não é o murmúrio de um seguidor superficial, que se apressa a reclamar e demora a perseverar. Vieram então segurança e mais instruções, e Joseph foi informado: "Meu filho, paz seja com tua alma; tua adversidade e tuas aflições não durarão mais que um momento." (D&C 121:7.) ¶
Os danos a nós mesmos já são razão suficiente para resistir ao murmúrio, mas outro perigo óbvio é seu contágio. Até o fiel pai Leí, por um breve momento, deixou-se levar pelo contágio do murmúrio. (Ver 1 Né. 16:20.) Da mesma forma, quando Moisés vacilou, muito brevemente, foi sob pressão exasperante de rebeldes. (Ver Núm. 20:7–12.) Ninguém sabe manipular uma multidão melhor do que o adversário. ¶
Em vez de murmurar, portanto, o que se precisa é estar de bom ânimo, e estar de bom ânimo é igualmente contagioso. Temos a clara obrigação de nos fortalecermos mutuamente, fazendo as coisas "com o coração e o semblante alegres". (D&C 59:15; ver também D&C 81:5.) ¶
Coisas básicas pelas quais as escrituras dizem que devemos estar de bom ânimo incluem a transcendente bênção de que nossos pecados podem ser perdoados e de que Jesus venceu o mundo! Estas são bênçãos maravilhosas. Além disso, temos a garantia de que o Senhor está em nosso meio. Ele nos conduzirá. Ele estará ao nosso lado. (Ver Mat. 9:2; João 16:33; D&C 61:36; 68:6; 78:18.) Sabendo que essas coisas eternas estão firmemente estabelecidas, não podemos, então, suportar melhor as irritações, como um cronograma de viagem desajustado? Além disso, irmãos e irmãs, como pode chover sobre justos e injustos sem que, ocasionalmente, chova também sobre nosso próprio desfile? (Ver Mat. 5:45.) ¶
É claro que há maneiras previstas — formais e informais — de expressar preocupações e reclamações legítimas, e de fazê-lo de forma produtiva. Essas vias frequentemente não são usadas, especialmente se o real desejo de alguém é exibir seu descontentamento. Desabafar sempre produz mais calor do que luz. (Ver Mat. 18:15.) É verdade, podemos apenas resmungar ou reclamar de passagem. Podemos até fazê-lo com esperteza. Ainda assim, mesmo um murmúrio leve pode ser mais contundente do que gostaríamos de admitir. ¶
Alguns realmente questionam a capacidade de Deus, isso diante de Sua garantia para conosco: "Posso fazer a minha própria obra." (2 Né. 27:20, 21.) Portanto, murmurar pode ser outra forma de zombar do plano de salvação de Deus. (Ver 3 Né. 29:6.) Sim, tais indivíduos dizem, Deus tem um plano geral, mas não nos importamos com Seu tempo específico. (2 Né. 27:21; Enos 1:16; Éter 3:24, 27.) No entanto, as escrituras nos aconselham especificamente que "todas as coisas, porém, deverão realizar-se a seu tempo". (D&C 64:32; ver D&C 24:16.) ¶
Sim, tais indivíduos podem reconhecer a Deus, mas criticam Seus caminhos. (Ver Jac. 4:8; D&C 1:16; 56:14.) Queremos que as coisas sejam feitas do nosso jeito, mesmo que nosso jeito seja muito inferior. (Ver Isa. 55:8–9.) ¶
Além disso, uma vez que Deus nos disse que pretende provar nossa fé e nossa paciência, não são situações de estresse justamente os cenários dos quais tal murmúrio surgiria? (Ver Mosias 23:21.) É claro que sim — a menos que sejamos cuidadosos. ¶
Deus realiza as coisas, irmãos e irmãs, "no decorrer do tempo". Isso exige nossa paciência. Além disso, fazer as coisas no decorrer do tempo é muitas vezes Sua maneira de preservar nosso arbítrio ou de nos proporcionar a oportunidade necessária. De fato, certas experiências, sobre as quais poderíamos compreensivelmente murmurar, podem realmente ser para o nosso bem. (Ver D&C 105:10; 122:7; Gên. 30:27.) Assim, vós e eu podemos pensar que Deus está apenas marcando passo, quando na verdade Ele está marcando aberturas para nós, aberturas de que tanto precisamos. Mesmo assim, somos tão lentos em usar essas aberturas para escapar da cela familiar do egoísmo. ¶
O murmúrio também pode ser tão ruidoso a ponto de abafar os vários sinais espirituais dirigidos a nós, sinais que nos dizem, em alguns casos, para deixarmos de nos afundar indulgentemente nas banheiras quentes da autopiedade! Murmurar sobre o peso de nossas cruzes não apenas consome energia que, de outra forma, seria necessária para carregá-las, mas também pode fazer com que outra pessoa largue sua cruz por completo. Além disso, irmãos e irmãs, se não estivéssemos carregando tanto outras coisas, nossas cruzes seriam muito mais leves. A carga mais pesada que sentimos frequentemente vem do peso de nossas promessas não cumpridas e de nossos pecados não resolvidos, que pressionam implacavelmente sobre nós. Em qualquer rendição genuína a Deus, dizemos: "Abandonarei todos os meus pecados para conhecer-te." (Alma 22:18.) A quem entregaremos nossos pecados? Somente Jesus está disposto e é capaz de tomá-los! ¶
Por fim, os que não murmuram têm permissão de ver muito mais. O antigo Israel foi certa vez cercado por "um grande exército" de cavalos e carros hostis. Eliseu aconselhou seu ansioso jovem servo: "Não temas; porque mais são os que estão conosco do que os que estão com eles." O profeta então orou para que o Senhor "abrisse" os olhos do jovem, "e ele viu; e eis que o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo, em redor de Eliseu"! (2 Reis 6:14–17.) ¶
O conselho de Eliseu pode ajudar os membros da Igreja hoje a silenciar nosso murmúrio. Independentemente de como as coisas pareçam, ou passem a parecer, em tempos difíceis, "mais são os que estão conosco do que os que estão com eles". Meus irmãos e irmãs, se nossos lábios estiverem fechados ao murmúrio, então nossos olhos poderão se abrir. Assim oro por todos nós, no santo nome de Jesus Cristo, amém. ¶
Notes
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G. K. Chesterton, em The Concise Columbia Dictionary of Quotations, ed. Robert Andrews, Nova York: Columbia University, 1987. ↩
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Testimonies of the Divinity of The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints by Its Leaders, comp. Joseph E. Cardon e Samuel O. Bennion, Independence, Mo.: Zion's Printing and Publishing Co., 1930, pp. 103, 105. ↩