O Fio de Ouro da Escolha
Howard W. Hunter
Tenho a honra de saudar um vasto público de membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, muitos dos quais estão reunidos aqui na Praça do Templo, em Salt Lake City. No entanto, estou ciente de que, por meio da moderna tecnologia da televisão e da cortesia de várias emissoras, tenho também o privilégio de falar a muitos que não são membros de nossa igreja e que talvez não estejam familiarizados com todas as suas doutrinas e crenças. ¶
Hoje, gostaria de me dirigir a ambos os grupos, tanto aos membros de nossa igreja quanto aos demais, sobre um dos preceitos mais importantes de nossa fé e um dos mais preciosos dons de Deus para a humanidade. É nossa liberdade, nosso arbítrio, nosso direito inalienável e divino de escolher no que acreditaremos e no que não acreditaremos, e de escolher o que queremos ser e o que queremos fazer. Desejo falar de nossa responsabilidade e de nossa oportunidade de escolher a Deus, o bem e a vida eterna, ou de selecionar o mal, o destrutivo e aquilo que conduz a uma dolorosa miséria e ao desespero. ¶
Abraham Lincoln certa vez perguntou: "O que constitui o baluarte de nossa liberdade e independência?" Ele então respondeu: "Não são nossas ameaçadoras fortificações, nossas costas eriçadas de defesas, nosso exército e nossa marinha... Nossa confiança está no amor à liberdade que Deus plantou em nós." (Em John Bartlett, ed., Familiar Quotations, Boston: Little, Brown and Co., 1968, p. 636.) ¶
Há, é claro, aqueles que, em amargura e descrença, rejeitaram a ideia de um espírito independente no homem, capaz de livre vontade, de escolha e de verdadeira liberdade. ¶
Declaramos uma visão brilhante e gloriosa de Deus e do homem a todos os que quiserem ouvir, uma visão revelada e iluminada pela luz restaurada do evangelho de Jesus Cristo. Testificamos da bondade amorosa de Deus e de Seu eterno respeito por cada um de nós, por nós como filhos individuais de Deus e por aquilo que cada um de nós pode vir a se tornar. ¶
Como declarou nosso líder profeta, o Presidente Ezra Taft Benson: "A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias proclama que a vida é eterna, que tem um propósito... [Deus tem um] plano... para o benefício e a bênção de nós, Seus filhos... ¶
"Basilar a [esse] plano de suma importância é nosso livre arbítrio... ¶
"O direito de escolha... corre como um fio de ouro por todo o evangelho... para a bênção de Seus filhos." (The Teachings of Ezra Taft Benson, Salt Lake City: Bookcraft, 1988, pp. 80–81.) ¶
Parte de nossa segurança quanto ao espírito livre, nobre e progressivo do homem vem da gloriosa percepção de que todos nós existíamos e tínhamos nossa identidade, e nosso arbítrio, muito antes de virmos a este mundo. Para alguns, esse será um pensamento novo, mas a Bíblia ensina claramente exatamente essa visão eterna da vida, uma vida que se estende para trás, antes de este mundo existir, e se estende para diante, nas eternidades vindouras. ¶
Deus disse a Jeremias: "Antes que te formasse no ventre, te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei, e às nações te dei por profeta." (Jeremias 1:5.) Em outro momento, Deus lembrou a Jó que "todos os filhos de Deus jubilavam" (Jó 38:7) antes que houvesse ainda qualquer homem ou mulher na terra que Deus estava criando. O Apóstolo Paulo ensinou que Deus, o Pai, nos escolheu "antes da fundação do mundo". (Efésios 1:4.) ¶
Onde e quando aconteceu tudo isso? Bem, aconteceu muito antes do nascimento mortal do homem. Aconteceu numa grande existência pré-mortal, onde desenvolvemos nossa identidade e aumentamos nossas capacidades espirituais, exercendo nosso arbítrio e fazendo escolhas importantes. Desenvolvemos nossa inteligência e aprendemos a amar a verdade, e nos preparamos para vir à terra a fim de continuar nosso progresso. ¶
Nosso Pai Celestial desejava que nosso crescimento continuasse na mortalidade e fosse aprimorado por nossa liberdade de escolher e de aprender. Ele também desejava que exercêssemos nossa fé e nossa vontade, especialmente com um novo corpo físico a dominar e controlar. Mas sabemos, tanto pela revelação antiga quanto pela moderna, que Satanás desejou negar-nos nossa independência e nosso arbítrio naquele momento, agora esquecido, há muito tempo, assim como deseja negá-los a esta mesma hora. De fato, Satanás se opôs violentamente à liberdade de escolha oferecida pelo Pai, tão violentamente que João, no Apocalipse, descreveu "batalha no céu" (Apocalipse 12:7) sobre esse assunto. Satanás nos teria coagido, e teria nos roubado o mais precioso dos dons, se pudesse: nossa liberdade de escolher um futuro divino e a exaltação que todos esperamos obter. ¶
Por meio de Cristo e Sua valorosa defesa do plano de nosso Pai, prevaleceu o curso do arbítrio e das aspirações eternas. Naquele momento crucial e pré-mortal, um grande marco foi ultrapassado, uma monumental vitória foi conquistada. Como resultado, nos foi permitido continuar a buscar aquilo que o Presidente David O. McKay certa vez descreveu como o "princípio eterno do progresso". Mais tarde, o próprio Cristo viria à terra, observou o Presidente McKay, "para aperfeiçoar a sociedade ao aperfeiçoar o indivíduo, e somente pelo exercício do Livre Arbítrio pode o indivíduo sequer se aproximar da perfeição." (Em Conference Report, abril de 1940, p. 118.) ¶
Assim, viemos à nossa mortalidade, como Jeremias, conhecidos por Deus como Seus filhos espirituais literais, tendo o privilégio de escolher nosso caminho pessoal em questões de crença e convicção religiosa. Com o triunfo de Cristo no céu, ao vencer Lúcifer, e mais tarde Seu triunfo na terra, ao vencer os efeitos da queda de Adão e a morte de toda a humanidade, "os filhos dos homens" permanecem "livres para sempre, sabendo discernir o bem do mal, para agirem por si mesmos e não para receberem a ação. … ¶
"Portanto, os homens são livres... para escolher a liberdade e a vida eterna por meio do grande Mediador de todos os homens, ou para escolherem o cativeiro e a morte, de acordo com o cativeiro e o poder do diabo; pois ele procura tornar todos os homens tão miseráveis como ele próprio." (2 Néfi 2:26–27.) ¶
Para compreendermos plenamente esse dom do arbítrio e seu valor inestimável, é imprescindível entendermos que a principal forma de agir de Deus é pela persuasão, pela paciência e pela longanimidade, não pela coerção e pelo confronto áspero. Ele age por meio de gentil solicitação e de doce persuasão. Ele sempre age com inabalável respeito pela liberdade e pela independência que possuímos. Ele quer nos ajudar e implora pela chance de nos auxiliar, mas não o fará em violação de nosso arbítrio. Ele nos ama demais para fazer isso, e agir assim contrariaria Seu caráter divino. ¶
Brigham Young certa vez disse: "A volição [do homem] é livre; esta é uma lei de sua existência, e o Senhor não pode violar Sua própria lei; se O fizesse, deixaria de ser Deus... Esta é uma lei que sempre existiu, desde toda a eternidade, e continuará a existir por todas as eternidades vindouras. Todo ser inteligente deve ter o poder de escolha." (Em Journal of Discourses, 11:272.) ¶
Contramandar e, por fim, proibir nossas escolhas era o modo de Satanás, não o de Deus, e o Pai de todos nós simplesmente jamais fará isso. Ele, contudo, permanecerá ao nosso lado para sempre, para nos ajudar a ver o caminho certo, encontrar a escolha certa, responder à voz verdadeira e sentir a influência de Seu inegável Espírito. Sua persuasão suave, pacífica e poderosa a fazer o certo e encontrar a alegria estará conosco "enquanto durar o tempo, ou existir a terra, ou existir na face dela um homem para ser salvo". (Morôni 7:36.) ¶
Dada a liberdade de escolher, poderemos, de fato, fazer escolhas erradas, más escolhas, escolhas prejudiciais. E às vezes é exatamente isso o que fazemos, mas é aí que a missão e a misericórdia de Jesus Cristo entram em pleno vigor e glória. Ele tomou sobre Si o fardo de todo o risco do mundo. Ele proveu uma expiação mediadora para as escolhas erradas que fazemos. Ele é nosso advogado junto ao Pai e pagou, antecipadamente, pelas falhas e loucuras que muitas vezes vemos no exercício de nossa liberdade. Devemos aceitar Seu dom, arrepender-nos desses erros e seguir Seus mandamentos, a fim de tirarmos pleno proveito dessa redenção. A oferta está sempre ali; o caminho está sempre aberto. Podemos sempre, mesmo em nossa hora mais sombria e em nossos erros mais desastrosos, olhar para o Filho de Deus e viver. ¶
Quando os filhos de Israel retornaram do Egito e ficaram no limiar da terra prometida, enfrentaram a clara escolha do que estava diante deles. Do futuro que estava prestes a ser deles, o Senhor lhes disse: ¶
"Eis que hoje eu ponho diante de vós a bênção e a maldição: ¶
"A bênção, quando ouvirdes os mandamentos do Senhor vosso Deus, que hoje vos ordeno: ¶
"Porém a maldição, se não ouvirdes os mandamentos do Senhor vosso Deus." (Deuteronômio 11:26–28.) ¶
Essa é a escolha que o Senhor coloca diante de nós, à medida que enfrentamos nossas próprias terras prometidas e nossos próprios futuros brilhantes. Recebemos o conhecimento, a ajuda, o incentivo e a liberdade para escolher o caminho da segurança e da salvação eternas. A escolha de fazê-lo é nossa. Por decreto divino, desde antes deste mundo existir, a escolha real é, e sempre foi, nossa. ¶
Que estejamos conscientes do fato de que nosso futuro está sendo moldado pelas decisões que tomamos. Que possamos exercer nossa fé e nosso arbítrio ao escolher as bênçãos que Deus colocou diante de nós no grande plano evangélico de nosso Salvador, rogo em nome de Jesus Cristo, amém. ¶