O Sacramento — e o Sacrifício
David B. Haight
Oro por vossa fé e orações para que minhas palavras sejam recebidas e compreendidas “pelo Espírito da verdade” e para que minhas expressões sejam dadas “pelo Espírito da verdade”, de modo que todos possamos ser “edificados e nos regozijarmos juntos”. (Ver D&C 50:21–22.) ¶
Ao estar aqui hoje diante de vocês — um homem restabelecido — as palavras de gratidão e reconhecimento da intervenção divina são tão inadequadas para expressar os sentimentos de minha alma. ¶
Há seis meses, na conferência geral de abril, fui dispensado de discursar, pois eu me recuperava de uma cirurgia séria. Minha vida foi poupada, e agora tenho a agradável oportunidade de reconhecer as bênçãos, o conforto e o pronto auxílio de meus Irmãos da Primeira Presidência e do Quórum dos Doze, e de outros maravilhosos colegas e amigos, a quem devo tanto e que cercaram minha querida esposa, Ruby, e minha família com seu tempo, atenção e orações. Aos médicos inspirados e às enfermeiras atenciosas, expresso minha mais profunda gratidão, bem como pelas cartas e mensagens gentis de fé e esperança recebidas de muitos lugares do mundo, muitas expressando: “Você esteve em nossas orações” ou “Temos pedido a nosso Pai Celestial que poupe sua vida”. Suas orações e as minhas, felizmente, foram atendidas. ¶
Um cartão incomum me fez ponderar sobre a majestade de tudo isso. Trata-se de uma pintura original de Arta Romney Ballif, retratando os céus à noite com suas incontáveis estrelas douradas. Sua legenda, tirada dos Salmos, diz: ¶
“Louvai ao Senhor: … ¶
“Sara os quebrantados de coração, e lhes ata as suas feridas. ¶
“Conta o número das estrelas, chama-as a todas pelos seus nomes. ¶
“… O seu entendimento é infinito.” (Sal. 147:1, 3–5.) ¶
Enquanto eu estava deitado no leito do hospital, meditei sobre tudo o que havia me acontecido e contemplei a pintura contemplativa da irmã do Presidente Marion G. Romney e as palavras dos Salmos: “Conta o número das estrelas, chama-as a todas pelos seus nomes.” Fiquei então — e continuo — maravilhado com a bondade e a majestade do Criador, que conhece não somente os nomes das estrelas, mas conhece o seu nome e o meu — cada um de nós como Seus filhos e filhas. ¶
O salmista, Davi, escreveu: ¶
“Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que firmaste; ¶
“Que é o homem mortal, para que te lembres dele? … ¶
“Pois pouco o fizeste menor do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste.” (Sal. 8:3–5.) ¶
Ser lembrado é algo maravilhoso. ¶
Na noite de minha crise de saúde, eu sabia que algo muito sério havia me acontecido. Os acontecimentos se sucederam com tal rapidez — a dor atingindo com tamanha intensidade, minha querida Ruby telefonando ao médico e à nossa família, e eu de joelhos, apoiado na banheira, buscando apoio e algum conforto e o alívio esperado da dor. Eu suplicava a meu Pai Celestial que poupasse minha vida por mais algum tempo, para me dar um pouco mais de tempo para fazer Sua obra, se fosse Sua vontade. ¶
Enquanto ainda orava, comecei a perder a consciência. A sirene da ambulância foi a última coisa de que me lembro antes que a inconsciência tomasse conta de mim, o que duraria pelos dias seguintes. ¶
A dor terrível e a agitação das pessoas cessaram. Eu estava agora em um cenário calmo e pacífico; tudo era sereno e silencioso. Eu tinha consciência de duas pessoas ao longe, numa colina, uma em um nível mais alto do que a outra. Não era possível discernir detalhes de suas feições. A pessoa no nível mais alto apontava para algo que eu não conseguia ver. ¶
Eu não ouvia vozes, mas tinha consciência de estar em uma presença e atmosfera sagradas. Durante as horas e os dias que se seguiram, foi impresso repetidas vezes em minha mente a missão eterna e a posição exaltada do Filho do Homem. Testifico a vocês que Ele é Jesus, o Cristo, o Filho de Deus, Salvador de todos, Redentor de toda a humanidade, Doador de infinito amor, misericórdia e perdão, a Luz e a Vida do mundo. Eu já conhecia essa verdade antes — nunca havia duvidado nem me questionado. Mas agora eu sabia, por causa das impressões do Espírito em meu coração e em minha alma, dessas verdades divinas de uma maneira muito peculiar. ¶
Foi-me mostrada uma visão panorâmica de Seu ministério terreno: Seu batismo, Seus ensinamentos, Sua cura dos doentes e enfermos, o julgamento simulado, Sua crucificação, Sua ressurreição e ascensão. Seguiram-se cenas de Seu ministério terreno à minha mente, com detalhes impressionantes, confirmando os relatos das testemunhas oculares registrados nas escrituras. Eu estava sendo ensinado, e os olhos de meu entendimento foram abertos pelo Santo Espírito de Deus, de modo a contemplar muitas coisas. ¶
A primeira cena foi a do Salvador e Seus Apóstolos na câmara alta, na véspera de Sua traição. Após a ceia da Páscoa, Ele instruiu e preparou o sacramento da Ceia do Senhor para Seus amigos mais queridos, como uma lembrança de Seu sacrifício vindouro. Foi retratado de forma tão impressionante para mim — o amor transbordante do Salvador por cada um deles. Testemunhei Sua atenção cuidadosa aos detalhes significativos — a lavagem dos pés empoeirados de cada Apóstolo, o partir e abençoar do pão escuro e a bênção do vinho, e então Sua terrível revelação de que um deles O trairia. ¶
Ele explicou a partida de Judas e contou aos outros os acontecimentos que logo se sucederiam. ¶
Seguiu-se então o solene discurso do Salvador, quando Ele disse aos Onze: “Tenho-vos dito essas coisas para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflição, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” (João 16:33.) ¶
Nosso Salvador orou a Seu Pai e reconheceu o Pai como fonte de Sua autoridade e poder — até mesmo para conceder a vida eterna a todos os que são dignos. ¶
Ele orou: “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” ¶
Jesus então acrescentou, reverentemente: ¶
“Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste para fazer. ¶
“E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse.” (João 17:3–5.) ¶
Ele suplicou não apenas pelos discípulos chamados para fora do mundo, que haviam sido fiéis a seu testemunho dEle, “mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim.” (João 17:20.) ¶
Depois de cantarem um hino, Jesus e os Onze saíram para o Monte das Oliveiras. Ali, no jardim, de alguma maneira além de nossa compreensão, o Salvador tomou sobre Si o fardo dos pecados da humanidade, desde Adão até o fim do mundo. Sua agonia no jardim, conta-nos Lucas, foi tão intensa que “o seu suor fez-se como grandes gotas de sangue, que corriam até o chão.” (Lucas 22:44.) Ele sofreu uma agonia e um fardo como nenhum ser humano seria capaz de suportar. Naquela hora de angústia, nosso Salvador venceu todo o poder de Satanás. ¶
O Senhor glorificado revelou a Joseph Smith esta advertência a toda a humanidade: ¶
“Portanto, eu vos ordeno que vos arrependais … ¶
“Pois … eu, Deus, … sofri … por todos, para que não precisem sofrer caso se arrependam; … ¶
“Sofrimento que fez com que eu, Deus, o mais grandioso de todos, tremesse de dor e sangrasse por todos os poros, … ¶
“Portanto, ordeno outra vez que te arrependas, para que eu não te humilhe com minha onipotência; e que confesses teus pecados para que não sofras esses castigos.” (D&C 19:15–16, 18, 20.) ¶
Durante aqueles dias de inconsciência, foi-me dado, pelo dom e poder do Espírito Santo, um conhecimento mais perfeito de Sua missão. Também me foi dada uma compreensão mais completa do que significa exercer, em Seu nome, a autoridade de desvendar os mistérios do reino dos céus para a salvação de todos os que são fiéis. Minha alma foi ensinada repetidas vezes sobre os acontecimentos da traição, do julgamento simulado, do flagelo da carne de um dos membros da Trindade. Testemunhei Sua luta ao subir o monte, em Sua condição enfraquecida, carregando a cruz, e Seu corpo sendo estendido sobre ela enquanto jazia no chão, para que os pregos rústicos pudessem ser cravados com um malho em Suas mãos, pulsos e pés, para prender Seu corpo enquanto Ele pendia na cruz, exposto publicamente. ¶
A crucificação — a horrível e dolorosa morte que Ele sofreu — foi escolhida desde o princípio. Por meio dessa morte excruciante, Ele desceu abaixo de todas as coisas, conforme está registrado, para que, por meio de Sua ressurreição, Ele ascendesse acima de todas as coisas. (Ver D&C 88:6.) ¶
Jesus Cristo morreu no sentido literal em que todos nós morreremos. Seu corpo repousou no túmulo. O espírito imortal de Jesus, escolhido como Salvador da humanidade, foi até aquela miríade de espíritos que haviam deixado a vida mortal com diversos graus de obediência às leis de Deus. Ele lhes ensinou as “gloriosas novas de redenção do cativeiro da morte, e da possível salvação, … [que foram] parte do serviço singular e predestinado de [nosso] Salvador à família humana.” (James E. Talmage, Jesus, o Cristo, Salt Lake City: Deseret Book Co., 1977, p. 671.) ¶
Não consigo expressar plenamente o profundo impacto que essas cenas confirmaram em minha alma. Sinto seu significado eterno e percebo que “nada em todo o plano de salvação se compara, de forma alguma, em importância, com esse mais transcendente de todos os acontecimentos, o sacrifício expiatório de nosso Senhor. É a coisa mais importante que já ocorreu em toda a história das coisas criadas; é o alicerce sobre o qual repousam o evangelho e todas as outras coisas”, como já foi declarado. (Bruce R. McConkie, Mormon Doctrine, 2ª ed., Salt Lake City: Bookcraft, 1966, p. 60.) ¶
O pai Leí ensinou a seu filho Jacó, e a nós hoje: ¶
“Portanto, a redenção nos vem por intermédio do Santo Messias; porque ele é cheio de graça e verdade. ¶
“Eis que ele se oferece em sacrifício pelo pecado, cumprindo, assim, todos os requisitos da lei para todos os quebrantados de coração e contritos de espírito; e para ninguém mais podem todos os requisitos da lei ser cumpridos. ¶
“Portanto, quão importante é tornar estas coisas conhecidas dos habitantes da Terra, para que saibam que nenhuma carne pode habitar na presença de Deus a menos que seja por meio dos méritos e misericórdia e graça do Santo Messias, que dá a sua vida, segundo a carne, e toma-a novamente pelo poder do Espírito, para poder efetuar a ressurreição dos mortos, sendo ele o primeiro a ressuscitar. ¶
“Ele é, portanto, as primícias para Deus, visto que intercederá por todos os filhos dos homens; e os que nele crerem serão salvos.” (2 Néfi 2:6–9.) ¶
Nossa mais valiosa experiência de adoração na reunião sacramental é a sagrada ordenança do sacramento, pois ela oferece a oportunidade de concentrarmos nossa mente e nosso coração no Salvador e em Seu sacrifício. ¶
O Apóstolo Paulo advertiu os primeiros Santos contra comer este pão e beber este cálice do Senhor indignamente. (Ver 1 Cor. 11:27–30.) ¶
Nosso próprio Salvador instruiu os nefitas: “Todo aquele que come e bebe da minha carne e do meu sangue indignamente, [traz] condenação para sua alma.” (3 Néfi 18:29.) ¶
Os que participam dignamente do sacramento estão em harmonia com o Senhor e se colocam sob convênio com Ele de sempre se lembrarem de Seu sacrifício pelos pecados do mundo, de tomar sobre si o nome de Cristo e sempre se lembrarem dEle, e de guardar Seus mandamentos. O Salvador faz convênio de que aqueles que assim procedem terão Seu Espírito para estar sempre com eles e que, se forem fiéis até o fim, poderão herdar a vida eterna. ¶
Nosso Senhor revelou a Joseph Smith que “não há dom maior que o da salvação”, cujo plano inclui a ordenança do sacramento como uma lembrança contínua do sacrifício expiatório do Salvador. Ele deu instruções de que “é conveniente que a igreja se reúna amiúde para partilhar do pão e do vinho, em lembrança do Senhor Jesus.” (D&C 6:13; 20:75.) ¶
A imortalidade vem a todos nós como dom gratuito, pela graça de Deus somente, sem obras de retidão. A vida eterna, porém, é a recompensa pela obediência às leis e ordenanças de Seu evangelho. ¶
Testifico a todos vocês que nosso Pai Celestial de fato responde às nossas súplicas justas. O conhecimento adicional que me foi dado teve um grande impacto em minha vida. O dom do Espírito Santo é uma posse inestimável e abre a porta para nosso conhecimento contínuo de Deus e para a alegria eterna. Disso presto testemunho, no santo nome de Jesus Cristo, amém. ¶