Ironia: A Crosta no Pão da Adversidade
Neal A. Maxwell
O que agora leio é, de fato, um versículo dos mais invernais: "Não obstante, o Senhor julga conveniente castigar seu povo; sim, ele prova sua paciência e sua fé." (Mosias 23:21.) ¶
Esta declaração deveras solene de propósito divino deveria manter-nos em alerta espiritual quanto às adversidades da vida. ¶
A ironia é a crosta dura no pão da adversidade. A ironia pode provar tanto a nossa fé quanto a nossa paciência. A ironia pode ser uma forma particularmente amarga desse castigo, porque envolve uma incongruência perturbadora. Envolve resultados que violam nossas expectativas. Vemos os planos mais bem elaborados reduzidos a nada. ¶
Um indivíduo é visível e pacientemente preparado para um papel importante, em meio à ampla expectativa de sua iminente promoção ou eleição. O que se segue, porém, dura apenas um breve momento. Uma vitória política parece tão próxima, recua, e finalmente desaparece por completo. ¶
Sem mansidão, tais circunstâncias irônicas são muito difíceis de administrar. ¶
No casamento, uma declaração descuidada se converte em posição fixa, posição essa que passa a ser mais importante do que a comunicação ou a reconciliação. Uma postura intelectual é orgulhosa e obstinadamente defendida, mesmo diante de uma verdade esclarecedora ou de um conselho corretivo. Contudo, ocasionalmente, como todos sabemos, recuar é, na verdade, avançar. Às vezes é preciso a ironia para induzir essa postura dolorosa, mas progressiva. ¶
Ao inverter as consequências que antecipávamos, a ironia se torna causa frequente de que alguém se ofenda. Quanto maior e mais indomado for o ego de uma pessoa, maior a probabilidade de ela se ofender, especialmente ao provar sua porção de vinagre e fel. ¶
Surgem então palavras como: Por que eu? Por que isto? Por que agora? Certamente, essas palavras podem dar lugar, em seguida, a uma serenidade espiritual. Às vezes, porém, tais palavras precedem uma amarga inconsolabilidade, e então a distância entre a decepção e a amargura é surpreendentemente curta. ¶
Em meio às várias ironias da vida, você e eu podemos começar a nos perguntar: Não notou Deus essa reviravolta tão dolorosa dos acontecimentos? E, se notou, por que a permitiu? Não tenho valor? ¶
Nosso próprio planejamento, muitas vezes, pressupõe que nosso destino esteja em grande parte em nossas próprias mãos. Então sobrevêm acontecimentos intrusos, que primeiro empurram para o lado e depois expulsam por completo aquilo que era esperado e até mesmo merecido. Assim, podemos nos ofender tanto com acontecimentos quanto com pessoas. ¶
A ironia pode envolver não apenas sofrimento inesperado, mas também sofrimento imerecido. Sentimos que merecíamos coisa melhor, e, no entanto, saímos pior. Tínhamos outros planos, até mesmo planos louváveis. Será que não contaram? Um médico, arduamente treinado para ajudar os enfermos, agora, por causa de sua própria doença, não pode fazê-lo. Por um período, um diligente profeta do Senhor foi uma "testemunha passiva". (Mórmon 3:16.) Condições frustrantes impedem mais de um entre nós de cumprir suas rondas designadas. ¶
Desafios personalizados somam-se, assim, àquela aflição e tentação que Paulo descreveu como "senão humana". (1 Coríntios 10:13.) ¶
Ao lidar com a ironia, como em todas as coisas, temos em Jesus um Mestre exemplar. A ironia dramática atacou a divindade de Jesus quase constantemente. ¶
Para Jesus, de fato, a ironia começou já ao nascer. Verdadeiramente, ele se submeteu à vontade do Pai "em todas as coisas desde o princípio". (3 Néfi 11:11.) Toda esta terra se tornou o escabelo dos pés de Jesus (ver Atos 7:49), mas em Belém não houve "lugar ... na estalagem" (Lucas 2:7) e "nenhum berço para o seu leito" ("Away in a Manger", Hinos, 1985, nº 206). ¶
No final, o manso e humilde Jesus bebeu do mais amargo cálice sem se tornar o mínimo que fosse amargo. (Ver 3 Néfi 11:11; D&C 19:18–19.) O Mais Inocente foi quem mais sofreu. Contudo, o Rei dos Reis não se quebrou, mesmo quando alguns de seus súditos fizeram dele "o que quiseram". (D&C 49:6.) A capacidade de Cristo de suportar tal ironia foi verdadeiramente notável. ¶
Você e eu somos muito mais frágeis. Por exemplo, esquecemo-nos de que, por sua própria natureza, as provações são injustas. ¶
No céu, ficou determinado que o excelso nome de Cristo seria o único nome na terra a oferecer salvação a toda a humanidade. (Ver Atos 4:12; 2 Néfi 25:20; ver também Abraão 3:27.) No entanto, o Messias mortal viveu voluntariamente de maneira tão modesta que, como escreveu Paulo, foi como uma pessoa "sem reputação". (Filipenses 2:7.) ¶
Que contraste com as nossas manobras em busca de reconhecimento relativo e status comparativo! Quão diferente também das maneiras pelas quais alguns entre nós enxergam, equivocadamente, o tamanho e a reação de sua plateia como a única comprovação de seu valor. Contudo, essas plateias inconstantes para as quais às vezes atuamos têm o costume de se esvaziar constantemente. Certamente estarão vazias no Dia do Juízo, quando todos estarão em outro lugar, de joelhos. ¶
Como Criador, Cristo construiu o universo, mas na pequena Galileia era conhecido apenas como "o filho do carpinteiro". (Mateus 13:55.) De fato, o Senhor do universo não teve honra nem mesmo em sua própria terra natal, na Nazaré. Embora se maravilhassem com seus ensinamentos, seus vizinhos "escandalizavam-se nele". (Marcos 6:3.) Até mesmo o manso Jesus ficou "admirado da incredulidade deles". (V. 6.) ¶
Como Jeová, Jesus emitiu o mandamento original de guardar o dia de sábado como santo, mas, durante seu ministério mortal como Messias, foi acusado de violar o sábado, porque, nesse dia, concedeu descanso curativo aos aflitos. (Ver João 5:8–16.) ¶
Conseguimos absorver a ironia de sermos feridos justamente ao tentar ajudar? Tendo feito o bem, quando somos caluniados, conseguimos observar as penas do falso testemunho se espalharem ao vento? ¶
Cristo, há muito, muito tempo, como Criador, proveu para nós condições habitáveis nesta terra, fornecendo generosamente todas as condições atmosféricas essenciais à vida, inclusive a água essencial. (Ver Moisés 1:33; D&C 76:24.) Contudo, na cruz, quando ardia de sede, "deram-lhe a beber vinagre misturado com fel; mas, provando-o, não quis beber". (Mateus 27:34; ver também Salmos 69:21.) Ainda assim, não houve censura, mas um Cristo que perdoava. (Ver Lucas 23:34.) ¶
Cristo estava profundamente ciente da ironia constante: "As raposas têm covis, e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça." (Lucas 9:58.) Ele perguntou a um traiçoeiro Judas: "Judas, com um beijo trais o Filho do Homem?" (Lucas 22:48.) E então houve o lamento pungente: "Jerusalém, Jerusalém, … quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e vós não quisestes!" (Mateus 23:37.) Ainda assim, o ritual repetido da rejeição estava acontecendo com Jesus mais uma vez. ¶
Todos nós sabemos o que é não sermos ouvidos, mas e quanto ao desdém, ou mesmo ao desprezo? Além disso, há uma diferença entre perceber a rejeição, como Jesus percebeu, e revoltar-se contra a rejeição, como ele não fez. ¶
Como Criador, Cristo formou "mundos incontáveis" (Moisés 1:33), mas com os dedos formou um pouco de barro com saliva, restaurando a visão de um único cego. (Ver João 9:6.) O Maior ministrou mansamente "a um destes meus pequeninos irmãos". (Mateus 25:40.) ¶
Será que você e eu compreendemos que o significado de nosso serviço não depende de sua escala? ¶
Dentro de poucas horas, Cristo resgataria toda a humanidade, mas ele ouviu a multidão manipulada gritar "Barrabás", livrando assim um assassino que tirava vidas, em vez de Jesus, que as dava. (Ver Marcos 15:7–15.) ¶
Conseguimos permanecer fiéis em meio à justiça falsa? Cumpriremos nosso dever contra o rugido da multidão? ¶
Como o Mestre por excelência, Cristo adaptava seu ensino conforme a prontidão espiritual de seus discípulos. Vemos uma ironia instrutiva mesmo em alguns desses episódios. ¶
Ao leproso curado que voltou com gratidão, a pergunta perscrutadora, porém simples, de Jesus foi: "Onde estão os [outros] nove?" (Lucas 17:17.) A uma mãe de apóstolos mais versada, que desejava que seus dois filhos se assentassem à direita e à esquerda de Jesus, ele disse, em tom de repreensão, mas com amor: "Não sabeis o que pedis. … [Isto] não me pertence concedê-lo." (Mateus 20:22–23.) A um Pedro pesaroso, mas que amadurecia rapidamente, ainda ardendo com a lembrança do canto do galo, veio três vezes a ordem "Apascenta as minhas ovelhas", mas também um sinal de "com que morte" o grande apóstolo seria mais tarde martirizado. (João 18:25–27; 21:15–19.) Quão mais exigente foi isso para com Pedro do que para com o leproso! ¶
Se uma luz súbita e penetrante expõe a distância entre o que somos e o que pensamos ser, conseguimos, como Pedro, deixar que essa luz seja um raio curativo? Temos a paciência para suportar quando um de nossos pontos fortes comparativos é posto em questão? Uma crise dolorosa pode, na verdade, ser o meio de remover o orgulho corrosivo dessa virtude. ¶
À humilde e devota mulher da Samaria, que esperava o Messias, Jesus revelou tranquilamente: "Eu o sou, eu que falo contigo." (João 4:26.) Já um ansioso Pilatos "disse a Jesus: De onde és tu? Mas Jesus não lhe deu resposta." (João 19:9.) ¶
Conseguimos permanecer em silêncio quando o silêncio é eloquente — mas pode ser usado contra nós? Ou murmuraremos, só para que Deus saiba que percebemos as ironias? ¶
Contudo, mesmo com todas essas ironias, ironias tristes, há a grande e alegre ironia da grandiosa missão de Cristo. Ele próprio observou que, precisamente por ter sido "levantado na cruz", pôde "atrair a mim todos os homens", e que, assim como fora "levantado pelos homens", assim também deveriam "os homens ser levantados pelo Pai". (3 Néfi 27:14.) ¶
Mas como podemos nos fortalecer contra a ironia em nossa vida e lidar melhor com ela quando surge? ¶
Sendo mais parecidos com Jesus, como, por exemplo, amando mais. "E o mundo, devido à iniquidade, julgá-lo-á como uma coisa sem valor; portanto, o açoitam, e ele suporta-o; e ferem-no, e ele suporta-o. Sim, cospem nele, e ele suporta-o, [Por quê?] por causa de sua amorosa bondade e longanimidade para com os filhos dos homens." (1 Néfi 19:9.) ¶
Há outras chaves importantes para lidar com isso. "E dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me." (Lucas 9:23.) A sábia abnegação reduz nosso senso de merecimento. ¶
Outra chave fundamental é "[viver] rendendo graças diariamente pelas muitas misericórdias e bênçãos que [Deus] vos concede." (Alma 34:38.) ¶
As relativamente poucas ironias da vida são muito mais do que compensadas pelas muitas misericórdias do céu! Não podemos contar todas as nossas bênçãos todos os dias, mas podemos reportar o saldo reconfortante da última contagem. ¶
Outra maneira vital de lidar com isso foi exemplificada por Jesus. Embora ele tenha sofrido toda espécie de tentações (ver Alma 7:11), "não lhes deu atenção" (D&C 20:22). Ao contrário de alguns de nós, ele não fantasiava, não reconsiderava, nem revivia as tentações. Como é que você e eu não percebemos que, embora inicialmente sejamos mais fortes e as tentações mais fracas, a hesitação inverte essa situação? ¶
A maravilhosa mansidão de Jesus impediu que qualquer "raiz de amargura" "brotasse" nele. (Hebreus 12:15.) Ponderemos as preciosas palavras do Salvador sobre a Expiação, proferidas depois de ele tê-la realizado. Não há menção ao vinagre. Não há menção ao açoitamento. Não há menção de ter sido golpeado. Não há menção de ter sido cuspido. Ele declara, sim, que "[sofreu], tanto no corpo como no espírito", com um requinte que simplesmente não podemos compreender. (D&C 19:18; ver também D&C 19:15.) ¶
Chegamos agora à última e mais terrível ironia de Jesus: sentir-se abandonado no auge de sua agonia no Calvário. A aparente retirada do espírito do Pai suscitou, então, o maior brado da alma na história da humanidade. (Ver James E. Talmage, Jesus, o Cristo, Salt Lake City: Deseret Book Co., 1916, p. 613.) Essa privação jamais havia acontecido a Cristo antes — jamais. Contudo, com isso, Jesus se tornou um Cristo plenamente compreensivo e capacitou-se a ser um Salvador plenamente socorredor. (Ver Alma 7:11–12.) Além disso, mesmo naquela hora mais escura, sentindo-se abandonado, Jesus se submeteu ao Pai. ¶
Não é de admirar que o Salvador nos diga que a angústia combinada no Getsêmani e no Calvário foi tão terrível que ele teria recuado. "Todavia", ele terminou seus "preparativos". (Ver D&C 19:18–19; 3 Néfi 11:11.) A palavra todavia reflete uma profunda determinação divina. ¶
Além disso, mesmo depois de pisar sozinho o lagar (ver D&C 76:107), o que culminou em seu impressionante triunfo pessoal e na maior vitória de todas — o majestoso Jesus declarou mansamente: "Glória seja para o Pai"! (D&C 19:19.) Isso não deveria nos surpreender. No mundo pré-mortal, Jesus se ofereceu mansamente para ser nosso Salvador, dizendo: "Pai, faça-se a tua vontade e seja tua a glória para sempre." (Moisés 4:2.) Jesus foi fiel à sua palavra. ¶
Agora, para concluir, declaro humildemente: "Glória seja para o Pai" — primeiro, por ter criado um Filho tão incomparável. Segundo, "Glória seja para o Pai" por ter permitido que seu Filho especial sofresse e fosse sacrificado por todos nós. No Dia do Juízo, irmãos e irmãs, algum de nós vai querer correr para contar ao nosso Pai como nós, sendo pais, sofremos ao ver nossos filhos sofrerem? ¶
Glória seja para o Pai, em nome daquele que pode nos socorrer em meio a todas as nossas ironias e adversidades (ver Alma 7:11–12), sim, Jesus Cristo, amém. ¶