O Deus Que Faz Maravilhas
Howard W. Hunter
Em nosso Hemisfério Norte, estamos desfrutando, nesta bela e exuberante estação do ano, de um dos grandes milagres recorrentes da natureza — a regeneração e a renovação da terra a que chamamos primavera. Podem restar alguns dias frios de inverno, mas o sol já iniciou seu retorno vernal, os botões estão surgindo nas flores e nas árvores, e uma vegetação luxuriante está brotando à superfície. ¶
Quão apropriado que, apenas uma semana atrás, toda a Cristandade celebrou, no Domingo de Páscoa, a grande e restauradora ressurreição renovadora do Senhor Jesus Cristo, declarando toda a alegria e a promessa eterna que aquele acontecimento traz para a humanidade. Junto com vocês, dou boas-vindas a esta estação do ano, que nos lembra que Deus é um Deus de milagres, e que seu Filho Unigênito é "a ressurreição e a vida; quem crê em [mim], ainda que esteja morto, viverá." (João 11:25.) ¶
Nesta bela época do ano, lembramo-nos de que a morte não tem aguilhão e a sepultura não tem domínio. Testifico que, depois de todo inverno, há adiante o milagre da primavera — em nossa jornada pessoal pela vida, assim como na natureza. Essas restaurações e renovações são um dom do Senhor Jesus Cristo, o supremo "homem para todas as estações." Desejo falar brevemente sobre alguns desses momentos divinos em nossa vida, quando o Salvador estende a mão para nos redimir, tornar-nos completos e nos fortalecer. ¶
O Salmista escreveu: ¶
"Clamei a Deus com a minha voz; … e ele inclinou para mim os ouvidos. … ¶
"E eu disse: A minha enfermidade é esta; mas eu me lembrei dos anos da destra do Altíssimo. … ¶
"Tu és o Deus que fazes maravilhas; tu fizeste notória a tua força entre os povos." (Salmos 77:1, 10, 14.) ¶
Entre os sinais da igreja verdadeira, e incluídos nas evidências da obra de Deus no mundo, estão as manifestações de seu poder, as quais somos incapazes de explicar plenamente ou de compreender por completo. Nas escrituras, esses atos divinos e bênçãos especiais são chamados, de diversas formas, de milagres ou sinais ou maravilhas ou prodígios. ¶
Não é de surpreender que esses sinais e prodígios tenham sido mais evidentes na vida e no ministério de Jesus Cristo, o próprio Filho de Deus. Mas, por mais surpreendentes e maravilhosos que fossem, os muitos milagres de Cristo eram apenas reflexos daqueles milagres ainda maiores que seu Pai havia realizado antes dele e continua a realizar ao nosso redor. Na verdade, o humilde desempenho, pelo Salvador, de atos tão claramente divinos pode ser apenas uma aplicação muito especial das declarações que ele fez: ¶
"O Filho não pode fazer coisa alguma de si mesmo, senão o que vir fazer o Pai; porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente" (João 5:19) e "nada faço por mim mesmo; mas falo assim como o Pai me ensinou" (João 8:28). ¶
Por exemplo, o primeiro milagre de Jesus registrado no Novo Testamento foi a transformação da água em vinho nas bodas de Caná. (Ver João 2:1–11.) Mas, na verdade, era pobre a produção do vinho nos potes de pedra, comparada à sua produção original na beleza da vide e na abundância das uvas em brotação. Ninguém poderia explicar o milagre único ocorrido na festa de casamento, mas tampouco poderiam explicar o milagre cotidiano do esplendor da própria vinha. ¶
É extremamente notável testemunhar um surdo ouvindo novamente. Mas certamente essa grande bênção não é mais surpreendente do que a maravilhosa combinação de ossos, pele e nervos que permite que nossos ouvidos recebam o belo mundo do som. Não deveríamos nos maravilhar diante da bênção da audição e dar glória a Deus por esse milagre, assim como fazemos quando a audição é restaurada depois de ter sido perdida? ¶
Não é o mesmo quanto ao retorno da visão de alguém, ou à capacidade de proferir nossa fala, ou mesmo aquele maior milagre de todos — a restauração da vida? As criações originais do Pai constituem um mundo verdadeiramente repleto de maravilhas. Não são os maiores milagres o fato de termos vida e membros e visão e fala, em primeiro lugar? Sim, sempre haverá muitos milagres, se tivermos olhos para ver e ouvidos para ouvir. ¶
Apenas mais um lembrete. Uma vez que comecemos a reconhecer as muitas manifestações milagrosas e abençoadas de Deus e de Cristo em nossa vida — tanto as do tipo cotidiano quanto a visão restaurada aos cegos e a audição restaurada aos surdos — poderemos ficar verdadeiramente perplexos diante dos princípios e processos inexplicáveis que produzem tais maravilhas. ¶
Ao contemplar os milagres, "devemos necessariamente reconhecer a atuação de um poder que transcende nossa atual compreensão humana," escreveu o Dr. James E. Talmage, que, tanto como cientista quanto como Apóstolo do Senhor, possuía qualificações singularmente fortes para examinar tais fenômenos. (Jesus the Christ, 3ª ed., Salt Lake City: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 1916, p. 149.) A ciência e a mente humana desassistida, disse ele, ainda não avançaram o suficiente para analisar e explicar essas maravilhas. Mas, ele advertiu, negar a realidade dos milagres com base no argumento de que os resultados e manifestações devem ser fictícios simplesmente porque não conseguimos compreender os meios pelos quais ocorreram é, à primeira vista, uma arrogância. (Ver p. 149.) Na verdade, aqueles que foram beneficiados por tais milagres são as testemunhas mais convincentes de todas. É difícil argumentar contra resultados. ¶
Considerem este relato simples, mas revelador, do ministério do Salvador, que manifesta as obras de Deus na vida dos homens. ¶
Certo dia de sábado, Jesus ungiu os olhos de um homem cego de nascença, e a visão do homem foi restaurada. Foi uma manifestação surpreendente e inspiradora. Infelizmente, porém, alguns que souberam disso não se alegraram por um dos cidadãos locais ter recuperado a visão. ¶
"Por isso alguns dos fariseus diziam: Este homem [referindo-se a Jesus] não é de Deus, pois não guarda o sábado. Diziam outros: Como pode um homem pecador fazer tais sinais? E havia dissensão entre eles," nos conta a escritura. (João 9:16.) ¶
Diante de tal controvérsia dentro de suas fileiras, esse grupo fez algo muito inteligente — pediram a opinião do homem que havia sido curado. "Tu, que dizes daquele que te abriu os olhos?" (João 9:17) perguntaram, e aguardaram sua resposta. ¶
Ao falar, o homem cego sem dúvida olhou diretamente em seus olhos (um privilégio novo e precioso). Disse ele, claramente: "Que é profeta." (João 9:17.) ¶
Mas essa foi uma resposta perturbadora. Depois de muita discussão, incluindo conversa com os pais do homem, os fariseus concordaram em reconhecer que de fato houvera um milagre e que ele poderia ter vindo de Deus, mas que aquele homem deveria negar qualquer papel que Cristo pudesse ter tido no processo: ¶
"Chamaram, pois, uma segunda vez o homem que tinha sido cego, e disseram-lhe: Dá glória a Deus; nós sabemos que esse homem [Jesus] é pecador." (João 9:24.) ¶
Sem se deixar intimidar por teoria ou lei, o homem disse, devagar o suficiente para que todos ouvissem: "Se [Jesus] é pecador, não sei; uma coisa sei, é que, havendo eu sido cego, agora vejo." (João 9:25.) ¶
Os fariseus, em total frustração e incapazes de contestar aquele único e maior fato inegável do caso, expulsaram o homem de sua presença. Então vem esta doce conclusão para uma história sobre visão renovada e luz mais brilhante: ¶
"Jesus ouviu que o tinham expulsado, e encontrando-o, disse-lhe: Crês tu no Filho de Deus? ¶
"Ele respondeu, e disse: Quem é ele, Senhor, para que nele creia? ¶
"E Jesus lhe disse: Tu já o viste, e é aquele que fala contigo. ¶
"Ele disse: Creio, Senhor. E o adorou." (João 9:35–38.) ¶
Agora a visão havia sido dada duas vezes — uma para remediar um defeito congênito, e outra para contemplar o Rei dos Reis antes que ele ascendesse a seu trono eterno. Jesus vivificara tanto a visão temporal quanto a espiritual. Ele lançara sua luz num lugar escuro, e esse homem, como tantos outros naquele dia, assim como no nosso, aceitara a luz e vira. ¶
O Presidente Spencer W. Kimball nos ensinou com um livro intitulado Faith Precedes the Miracle. Mas há, é claro, um aumento de fé que também deve seguir-se ao milagre. Como resultado dos muitos milagres em nossa vida, deveríamos ser mais humildes e mais gratos, mais bondosos e mais crentes. Quando somos testemunhas pessoais dessas maravilhas que Deus realiza, isso deveria aumentar nosso respeito e amor por ele; deveria melhorar nossa forma de agir. Viveremos melhor e amaremos mais se nos lembrarmos disso. Somos milagres por direito próprio, cada um de nós, e o Filho ressuscitado de Deus é o maior milagre de todos. Ele é, de fato, o milagre dos milagres, e todos os dias de sua vida ele deu prova disso. Devemos procurar segui-lo nesse exemplo. ¶
Morôni cita seu pai no Livro de Mórmon: ¶
"Portanto, meus amados irmãos, cessaram os milagres porque Cristo subiu aos céus … cessaram os dias de milagres?" (Morôni 7:27, 35.) ¶
"Eis que vos digo que não; tampouco os anjos cessaram de ministrar entre os filhos dos homens. … [Nem cessarão], enquanto durar o tempo, ou existir a Terra, ou existir na face da Terra um homem para ser salvo." (Morôni 7:29, 36.) ¶
Testifico da bondade de Deus e do poder de Cristo, e do privilégio que foi dado aos Apóstolos. Sei que Pedro e João tomaram um coxo pela mão direita e, em nome de Jesus Cristo de Nazaré, ordenaram-lhe que se levantasse e andasse — e ele andou. (Ver Atos 3:1–11.) Testifico da restauração do evangelho nestes últimos dias e dos poderes do sacerdócio que tornam possíveis os muitos milagres modernos de nossa dispensação. ¶
Digo de nosso Pai, como disse o Salmista: "Tu és o Deus que fazes maravilhas; tu fizeste notória a tua força entre os povos." (Salmos 77:14.) No sagrado nome de Jesus Cristo, amém. ¶