Características de um Lar Feliz
Thomas S. Monson
Oro para que o Espírito do Senhor esteja comigo. "A felicidade é o objeto e o desígnio de nossa existência; e será o fim dela, se seguirmos o caminho que a ela conduz; e esse caminho é a virtude, a retidão, a fidelidade, a santidade e a observância de todos os mandamentos de Deus." (Joseph Smith, Teachings of the Prophet Joseph Smith, sel. Joseph Fielding Smith, Salt Lake City: Deseret Book Co., 1938, pp. 255–56.) ¶
Essa descrição de um objetivo tão universal foi dada pelo Profeta Joseph Smith. Era relevante então. É relevante agora. Com um mapa tão claro a seguir, por que então há tantas pessoas infelizes? Frequentemente, os cenhos franzidos superam os sorrisos, e o desespero abafa a alegria. Vivemos tão abaixo do nível de nossas possibilidades divinas. Alguns se confundem com o materialismo, se enredam no pecado e se perdem no desfile passageiro da humanidade. Outros clamam com as palavras do converso de Filipe, na Antiguidade: "Como poderei [encontrar meu caminho], se alguém não me ensinar?" (Atos 8:31.) ¶
A felicidade não consiste num excesso de luxo, na ideia mundana de "boa vida". Tampouco devemos buscá-la em lugares distantes, de nomes estranhos. A felicidade é encontrada no lar. ¶
Todos nós nos lembramos do lar de nossa infância. Curiosamente, nossos pensamentos não se detêm em saber se a casa era grande ou pequena, se a vizinhança era elegante ou humilde. Em vez disso, nos alegramos com as experiências que compartilhamos em família. O lar é o laboratório de nossa vida, e o que ali aprendemos determina em grande parte o que fazemos ao sair dele. ¶
A Sra. Margaret Thatcher, primeira-ministra da Grã-Bretanha, expressou essa profunda filosofia: "A família é o alicerce da sociedade. É um berçário, uma escola, um hospital, um centro de lazer, um lugar de refúgio e um lugar de descanso. Ela engloba toda a sociedade. Ela molda nossas crenças; é a preparação para o resto de nossa vida." (Nicholas Wood, "Thatcher Champions the Family," London Times, 26 de maio de 1988, p. 24.) ¶
Dizem que o lar é onde está o coração. De fato, é preciso "muito viver" para transformar uma casa em lar (Edgar A. Guest, "Home," em The Family Book of Best-Loved Poems, ed. David L. George, Garden City, N.Y.: Doubleday, 1952, p. 151–52.) "Lar, lar, doce, doce lar, por mais humilde que seja, não há lugar como o lar." (Hymns, 1948, nº 185.) Deixamos de lado a lembrança dessas doces recordações. Contemplamos pais que já se foram, família que cresceu, infância que se desvaneceu. Lenta, mas seguramente, enfrentamos a verdade: somos responsáveis pelo lar que construímos. Devemos construí-lo com sabedoria, pois a eternidade não é uma viagem curta. Haverá calmaria e vento, luz do sol e sombras, alegria e tristeza. Mas, se realmente nos esforçarmos, nosso lar poderá ser um pedaço do céu aqui na terra. Os pensamentos que pensamos, os atos que praticamos, a vida que vivemos influenciam não apenas o sucesso de nossa jornada terrena; eles marcam o caminho para nossos objetivos eternos. ¶
Os lares felizes apresentam-se de diversas formas. Alguns têm famílias grandes, com pai, mãe, irmãos e irmãs vivendo juntos num espírito de amor. Outros consistem num único pai ou mãe com um ou dois filhos, enquanto outros lares têm apenas um único morador. Há, porém, características identificadoras que se encontram num lar feliz, seja qual for o número ou a composição de seus membros. Refiro-me a elas como "Características de um Lar Feliz". São elas: ¶
"A oração é o sincero desejo da alma, expresso ou não em palavras." (Hymns, 1985, nº 145; paráfrase.) Tão universal é sua aplicação, tão benéfico é seu resultado, que a oração se qualifica como a primeira característica de um lar feliz. Ao ouvirem a oração de um filho, os pais também se aproximam de Deus. Essas criancinhas, que há tão pouco tempo estavam com o Pai Celestial, não têm inibições ao expressar a Ele seus sentimentos, seus desejos, sua gratidão. ¶
A oração familiar é o maior impedimento ao pecado e, portanto, a mais benéfica provedora de alegria e felicidade. O velho ditado ainda é verdadeiro: "A família que ora unida permanece unida." ¶
"Não é possível a um casal alcançar a felicidade com os olhos fixos em estrelas diferentes; ... eles precisam estabelecer um único ideal e trabalhar rumo a [ele]. ... Cessai de cultivar fantasias impossíveis de futuros impossíveis. Tomai o melhor de [vossos] sonhos e ajustai-os à vida tal como ela vem, dia após dia." (Temple Bailey, "The Bride Who Makes Her Dreams Come True," em Ladies' Home Journal, 1912.) ¶
No dia 7 de outubro, minha esposa, Frances, e eu completaremos quarenta anos de casados. Nosso casamento ocorreu bem a leste daqui, no santo templo. Aquele que realizou a cerimônia, Benjamin Bowring, nos aconselhou: "Permitam-me oferecer aos recém-casados uma fórmula que garantirá que qualquer desentendimento entre vocês não dure mais de um dia? Todas as noites, ajoelhem-se ao lado da cama. Numa noite, Irmão Monson, você faz a oração, em voz alta, de joelhos. Na noite seguinte, você, Irmã Monson, faz a oração, em voz alta, de joelhos. Posso então assegurar-lhes que qualquer mal-entendido surgido durante o dia se desfará enquanto vocês oram. Vocês simplesmente não conseguem orar juntos e reter algo além dos melhores sentimentos um pelo outro." ¶
Quando fui chamado para o Quorum dos Doze Apóstolos, há exatamente vinte e cinco anos neste fim de semana, o Presidente McKay me perguntou sobre minha família. Relatei a ele essa fórmula orientadora de oração e testifiquei de sua validade. Ele se recostou em sua grande cadeira de couro e, com um sorriso, respondeu: "A mesma fórmula que funcionou para você tem abençoado a vida de minha família durante todos os anos de nosso casamento." ¶
A oração é o passaporte para o poder espiritual. ¶
Uma segunda característica de um lar feliz é revelada quando o lar é uma biblioteca de aprendizado. Uma parte essencial de nossa biblioteca de aprendizado serão os bons livros. ¶
Os livros são chaves para o tesouro da sabedoria; ¶
Os livros são portais para terras de prazer; ¶
Os livros são caminhos que conduzem para cima; ¶
Os livros são amigos. Vinde, vamos ler. ¶
(Emilie Poulsson; paráfrase.) ¶
A leitura é um dos verdadeiros prazeres da vida. Em nossa era de cultura de massa, quando tanto do que encontramos é resumido, adaptado, adulterado, fragmentado e reduzido, é reconfortante e inspirador sentar-se a sós com um bom livro. ¶
James A. Michener, renomado autor, sugere: "Uma nação se torna aquilo que seus jovens leem em sua juventude. Seus ideais são moldados então, seus objetivos fortemente determinados." ¶
O Senhor aconselhou: "Buscai dos melhores livros palavras de sabedoria; buscai instrução, sim, pelo estudo e também pela fé." (D&C 88:118.) ¶
As obras-padrão oferecem a biblioteca de aprendizado de que falo. Devemos ter o cuidado de não subestimar a capacidade das crianças de ler e compreender a palavra de Deus. ¶
Há alguns meses, levamos nossos netos numa visita guiada às instalações gráficas da Igreja. Ali, todos nós vimos a edição missionária do Livro de Mórmon saindo da linha de entrega — impressa, encadernada e aparada, pronta para ser lida. Eu disse a um jovem neto: "O operador diz que você pode retirar um exemplar do Livro de Mórmon para ser só seu. Você escolhe o exemplar, e ele será seu." ¶
Retirando um exemplar concluído do livro, ele o apertou contra o peito e disse com sinceridade: "Eu amo o Livro de Mórmon. Este é meu livro." ¶
Realmente não me lembro de outros acontecimentos daquele dia, mas nenhum de nós que ali estava jamais esquecerá a expressão sincera vinda do coração de uma criança. ¶
Como pais, devemos nos lembrar de que nossa vida pode ser o livro da biblioteca familiar mais estimado pelos filhos. Nossos exemplos são dignos de ser seguidos? Vivemos de tal forma que um filho ou uma filha possa dizer: "Quero seguir meu pai" ou "Quero ser como minha mãe"? Diferentemente do livro na estante da biblioteca, cujas capas ocultam o conteúdo, nossa vida não pode ser fechada. Pais, somos verdadeiramente um livro aberto. ¶
Uma terceira característica de um lar feliz é um legado de amor. ¶
Quando menino, eu gostava de visitar a casa de minha avó na Bueno Avenue, aqui em Salt Lake City. Vovó sempre ficava tão feliz em nos ver e nos trazer para perto dela. Sentados em seu colo, ouvíamos enquanto ela nos lia. ¶
Seu filho mais novo e a esposa dele ocupam agora essa mesma casa. Visitei-a recentemente. O hidrante na calçada parecia tão pequeno, comparado ao tamanho que tinha quando eu escalava suas alturas imponentes, tantos anos atrás. A acolhedora varanda era a mesma, o ambiente quieto e pacífico não havia mudado. Pendurado na parede da cozinha estava um quadro bordado por minha tia. Ele trazia toda uma lição de aplicação prática: "Escolha seu amor; ame sua escolha." Aquela que preparou essa mensagem está agora com a saúde debilitada. Seu marido, Ray, cuida dela constantemente e é o exemplo perfeito de amor fiel e duradouro. Ela retribui à sua própria maneira. Eles vivem a lição que emolduraram. ¶
Pequenas lições de amor, aparentemente insignificantes, são observadas pelas crianças à medida que absorvem silenciosamente os exemplos de seus pais. Meu próprio pai, um gráfico, trabalhou longa e arduamente praticamente todos os dias de sua vida. Tenho certeza de que, no dia de sábado, ele teria gostado apenas de ficar em casa. Em vez disso, ele visitava parentes idosos e levava alegria à vida deles. ¶
Um deles era seu tio, que fora incapacitado por uma artrite tão severa que não conseguia andar nem cuidar de si mesmo. Numa tarde de domingo, papai me dizia: "Venha, Tommy; vamos levar o Tio Elias para um pequeno passeio." Entrando no velho Oldsmobile 1928, seguíamos até a Rua Oitava Oeste, onde, na casa do Tio Elias, eu esperava no carro enquanto papai entrava. Logo ele saía da casa, carregando nos braços, como se fosse uma boneca de porcelana, seu tio incapacitado. Eu então abria a porta e observava com que ternura e afeto meu pai colocava o Tio Elias no banco da frente, para que ele tivesse uma boa vista, enquanto eu ocupava o banco de trás. ¶
O passeio era breve e a conversa, limitada, mas ah, que legado de amor! Meu pai nunca me leu, da Bíblia, a história do bom samaritano. Em vez disso, ele me levou consigo e com o Tio Elias naquele velho Oldsmobile 1928 pela estrada de Jericó. ¶
Quando nossos lares carregarem esse legado de amor, não receberemos a repreensão de Jacó, registrada no Livro de Mórmon: "Quebrastes o coração de vossas ternas esposas e perdestes a confiança de vossos filhos, por causa de vossos maus exemplos diante deles; e os soluços do coração deles sobem a Deus contra vós." (Jacó 2:35.) ¶
Não nos deixemos desanimar pelos inúmeros relatos de jornal e televisão sobre a discórdia — e às vezes crueldade — entre companheiros, a ponto de supor que a virtude desapareceu e que a lâmpada do amor não brilha mais. Dois de meus amigos mais queridos jazem agora enfermos e desamparados. Não estão sozinhos. Seus fiéis companheiros os assistem com terno amor. Meu amigo Pres, que raramente se afasta do lado de sua esposa, disse dela: "Christine está mais fraca, mas ainda linda. Eu a amo tanto." Que nobre tributo à fidelidade, ao amor, ao matrimônio! ¶
Outra, uma esposa chamada Gertrude, cuida do conforto do marido, Mark, em seu quarto. Tudo é exatamente como ele gostaria que o quarto fosse. Ela lê para ele. Conversa com ele sobre a família. Certa vez, ela me disse, durante essa longa vigília: "Eu o amo mais do que nunca." ¶
Para um belo exemplo de "amor no lar", não precisamos ir além da família do Presidente e da Irmã Benson. Minha esposa e eu tivemos o privilégio de comparecer à festa de sexagésimo segundo aniversário de casamento dos Bensons, há apenas três semanas. Filhos, netos e bisnetos se alegraram enquanto o Presidente e sua companheira, de mãos dadas, conduziam o grupo a cantar "Keep the Home Fires Burning," "Love's Old Sweet Song" e "I Love You Truly." Toda a Igreja pode bem seguir o exemplo dos Bensons de estudar as escrituras, frequentar o templo e desfrutar a vida juntos. ¶
Esses são retratos que representam um legado de amor como característica de um lar feliz. ¶
Uma quarta característica de um lar feliz é um tesouro de testemunho. "A primeira e mais importante oportunidade de ensino na Igreja está no lar," observou o Presidente David O. McKay. "Um verdadeiro lar mórmon é aquele em que, se Cristo por acaso o adentrasse, Ele ficaria satisfeito em demorar-se e descansar." (Gospel Ideals, Salt Lake City: Improvement Era, 1953, p. 169.) ¶
O que estamos fazendo para garantir que nossos lares correspondam a essa descrição? Não basta que somente os pais tenham testemunhos fortes. Os filhos só conseguem seguir até certo ponto às custas da convicção de um pai. ¶
O Presidente Heber J. Grant declarou: "É nosso dever ensinar nossos filhos em sua juventude. Posso saber que o evangelho é verdadeiro, e minha esposa também pode saber; mas quero dizer a vocês que nossos filhos não saberão que o evangelho é verdadeiro, a menos que o estudem e obtenham um testemunho por si mesmos." ¶
Um amor pelo Salvador, uma reverência por Seu nome e um respeito genuíno uns pelos outros proporcionarão um solo fértil para que um testemunho cresça. ¶
Aprender o evangelho, prestar testemunho, conduzir uma família raramente, ou nunca, são processos simples. A jornada da vida é caracterizada por solavancos na estrada, ondas no mar — até mesmo pela turbulência de nossa época. ¶
Há alguns anos, ao visitar os membros e os missionários na Austrália, testemunhei um sublime exemplo de como um tesouro de testemunho pode abençoar e santificar um lar. O presidente de missão, Horace D. Ensign, e eu percorríamos a longa distância de Sydney a Darwin, onde eu deveria lançar a primeira pá de terra para nossa primeira capela naquela cidade. No caminho, tínhamos uma parada programada numa comunidade de mineração chamada Mt. Isa. Ao entrarmos no pequeno aeroporto de Mt. Isa, uma mulher e seus dois filhos se aproximaram. Ela disse: "Sou Judith Louden, membro da Igreja, e estes são meus dois filhos. Pensamos que vocês poderiam estar neste voo, então viemos visitá-los durante sua breve escala." Ela explicou que o marido dela não era membro da Igreja e que ela e as crianças eram, de fato, os únicos membros de toda a área. Compartilhamos lições e prestamos testemunho. ¶
O tempo passou. Ao nos prepararmos para embarcar novamente, a Irmã Louden parecia tão desamparada, tão sozinha. Ela suplicou: "Vocês ainda não podem ir; tenho sentido tanta falta da Igreja." De repente, o alto-falante anunciou um atraso mecânico de trinta minutos em nosso voo. A Irmã Louden sussurrou: "Minha oração acabou de ser respondida." Ela então perguntou como poderia influenciar o marido a demonstrar interesse pelo evangelho. Aconselhamo-la a incluí-lo em sua lição semanal de Primária em casa e a ser, para ele, um testemunho vivo do evangelho. Mencionei que lhe enviaríamos uma assinatura de The Children's Friend e outros materiais de apoio para o ensino em sua família. Instamos que ela nunca desistisse do marido. ¶
Partimos de Mt. Isa, cidade à qual jamais retornei. Guardarei, porém, sempre em minha memória aquela doce mãe e aquelas preciosas crianças, com os olhos cheios de lágrimas, acenando com carinho e gratidão em despedida. ¶
Vários anos depois, ao discursar numa reunião de liderança do sacerdócio em Brisbane, na Austrália, enfatizei a importância do estudo do evangelho no lar e da importância de viver o evangelho e de sermos exemplos da verdade. Compartilhei com os homens ali reunidos o relato da Irmã Louden e o impacto que sua fé e determinação haviam causado em mim. Ao concluir, eu disse: "Suponho que nunca saberei se o marido da Irmã Louden algum dia se filiou à Igreja, mas ele não poderia ter encontrado um modelo melhor a seguir." ¶
Um dos líderes levantou a mão, depois se levantou e declarou: "Irmão Monson, eu sou Richard Louden. A mulher de quem o senhor fala é minha esposa. As crianças [sua voz tremeu] são nossos filhos. Somos agora uma família para sempre, graças, em parte, à persistência e à paciência de minha querida esposa. Ela fez tudo isso." Nenhuma palavra foi dita. O silêncio foi rompido apenas por fungadas e soluços abafados, e marcado pela visão de lágrimas escorrendo de todos os olhos. ¶
Meus irmãos e minhas irmãs, determinemos, seja qual for nossa circunstância, transformar nossas casas em lares felizes. Abramos bem as janelas de nosso coração, para que cada membro da família se sinta bem-vindo e "em casa". Abramos também as portas de nossa própria alma, para que o querido Cristo possa entrar. Lembremo-nos de Sua promessa: "Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele, comigo." (Ap. 3:20.) ¶
Como Ele se sentirá bem-vindo, como será alegre nossa vida, quando as "Características de um Lar Feliz" O receberem, a saber: ¶
Que nosso amoroso Pai Celestial abençoe a todos nós em nossa busca por lares tão felizes é minha oração, em nome de Jesus Cristo, amém. ¶