Um Objetivo Além da Vitória
Thomas S. Monson
Anos atrás, muitos de nós participamos, como jogadores ou espectadores, dos torneios de basquete de toda a Igreja e, mais tarde, dos torneios de softball. O prêmio mais cobiçado não era ser declarado o vencedor em primeiro lugar, mas sim receber o prêmio de espírito esportivo. Os aplausos da plateia eram mais altos e mais longos, os sorrisos mais amplos e mais gerais. Um objetivo além da vitória havia sido alcançado. ¶
Ultimamente, temos recebido no Gabinete da Primeira Presidência cartas que relatam sérias discussões na quadra ou no campo esportivo, ofensas proferidas por pais, maus-tratos a árbitros e tudo o que caracteriza a falta de espírito esportivo. Temos espaço para melhorar, irmãos, e precisamos melhorar. ¶
No videoteipe produzido pela Igreja, intitulado The Church Sports Official [O Dirigente Esportivo da Igreja], é apresentada esta verdade proferida pela Primeira Presidência: "As atividades esportivas da Igreja têm um propósito central único, muito mais elevado do que o desenvolvimento da destreza física, ou mesmo da própria vitória. Seu propósito é fortalecer a fé, edificar a integridade e desenvolver, em cada participante, os atributos de seu Criador." ¶
Irmãos, é difícil alcançar esse objetivo quando vencer ofusca a participação. Os salões de recreação em nossos muitos edifícios são construídos com os dízimos dos membros da Igreja. É apenas justo que todos os rapazes e moças dignos tenham a oportunidade de jogar, aprender, desenvolver-se e progredir. ¶
Não é nosso objetivo produzir clones de Larry Bird ou Magic Johnson — nem mesmo de John Wooden ou Pat Riley. Quando vestirem um jogador com o uniforme, coloquem-no no jogo. O basquete começa em breve. Que nossas equipes de rapazes e moças sejam devidamente orientadas. E uma palavra ou duas aos espectadores e técnicos também não seriam demais. ¶
Se me permitem um toque pessoal, compartilho com vocês uma experiência que me constrangeu, um jogo que perdemos e uma lição sobre não nos levarmos demasiadamente a sério. ¶
Primeiro, num jogo de basquete cujo resultado estava em dúvida, o técnico me mandou para a quadra logo após o início do segundo tempo. Recebi um passe de fora de campo, driblei a bola em direção ao garrafão e arremessei. No exato momento em que a bola deixou meus dedos, percebi por que os armadores adversários não tentaram me deter: eu estava arremessando para a cesta errada! Fiz uma oração silenciosa: "Por favor, Pai, não deixe essa bola entrar." A bola bateu na borda do aro e caiu para fora. ¶
Das arquibancadas veio o grito: "Queremos o Monson, queremos o Monson, queremos o Monson — fora!" O técnico atendeu. ¶
Nunca fui uma estrela do basquete. Que momento inoportuno — ser calouro na Universidade de Utah quando os All-Americans Arnie Ferrin e Vern Gardner dominavam os rebotes. ¶
Saí-me muito melhor no softball de arremesso rápido. Minha experiência mais memorável no softball foi um jogo de treze entradas que arremessei em Salt Lake City, num quente Memorial Day. O jogo estava programado para apenas sete entradas, mas o placar empatado não conseguia ser desfeito. Na parte final da décima terceira entrada, com dois eliminados e um corredor na terceira base, o rebatedor bateu uma bola alta para o campo esquerdo. A pegada parecia certa, pensei eu. E, no entanto, a bola escapou das mãos do jardineiro esquerdo. Por trinta e oito anos, provoquei meu amigo que deixou a bola cair. Prometi a mim mesmo que nunca mais faria isso. Nem sequer vou mencionar o nome dele. Afinal, ele também se lembra. Era apenas um jogo. ¶
Em outra ocasião, enquanto arremessava num jogo no Pioneer Park, fiquei absolutamente estarrecido ao ver que o time adversário havia colocado no batedor um jogador de um braço só. Ora, como um arremessador lança a bola para tal adversário? Lancei uma bola suave e alta sobre o home plate. Para minha surpresa, o rebatedor bateu um single, bem por cima da cabeça do segunda-base. Meu temperamento se exaltou. O próximo rebatedor era um ex-missionário vindo do México, Homer Proctor, que media seis pés e duas polegadas e pesava cerca de duzentas e dez libras. Arremessei para ele rápido, alto e por dentro. No primeiro arremesso, ele mandou a bola para fora do campo, um home run. Sempre me lembrarei do sorriso daquele corredor de um braço só, Bernell Hales, enquanto passava pela segunda e pela terceira base e corria alegremente para o home. Tive vontade de chorar, mas caí na gargalhada, assim como todos os jogadores dos dois times. Foi um momento maravilhoso. ¶
Irmãos, tomemos as providências necessárias para reacender o espírito esportivo, enfatizar a participação e nos empenharmos no desenvolvimento de um caráter cristão em cada indivíduo. ¶
Ora, há outras fases da obra do Senhor em que todos os membros podem participar, nas quais o crescimento do caráter é assegurado e a promessa da vida eterna é concedida. Um desses empreendimentos é chamado de programa de bem-estar. Na verdade, as palavras do Rei Benjamim, no livro de Mosias, fornecem uma descrição perfeita das escrituras, verdadeiramente uma solene incumbência para cada um de nós: ¶
"...para conservardes a remissão de vossos pecados, dia a dia, a fim de que andeis sem culpa diante de Deus — quisera que repartísseis vossos bens com os pobres, cada um de acordo com o que possui, alimentando os famintos, vestindo os nus, visitando os doentes e aliviando-lhes os sofrimentos, tanto espiritual como materialmente." (Mosias 4:26.) ¶
O Presidente Marion G. Romney falou sobre o financiamento do cuidado aos necessitados quando disse: "Tem sido, e agora é, o desejo e o objetivo da Igreja obter das ofertas de jejum os fundos necessários para suprir as necessidades financeiras do programa de bem-estar. … No momento presente, não estamos alcançando esse objetivo. Podemos, devemos e precisamos fazer melhor. Se dobrarmos nossas ofertas de jejum, aumentaremos nossa própria prosperidade, tanto espiritual como temporalmente. Isso o Senhor prometeu, e isso tem sido o registro." ("Basics of Church Welfare" [Fundamentos do Bem-Estar da Igreja], discurso proferido ao Conselho do Sacerdócio, 6 de março de 1974, p. 10.) ¶
Somos generosos no pagamento de nossas ofertas de jejum? Que devemos sê-lo foi ensinado pelo Presidente Joseph F. Smith. Ele declarou que é dever de todo Santo dos Últimos Dias entregar a seu bispo, no dia de jejum, uma quantia equivalente ao alimento que ele e sua família consumiriam naquele dia e, se possível, uma doação generosa a ser reservada e doada aos pobres. (Vide Improvement Era, dez. de 1902, p. 148.) ¶
O Presidente Spencer W. Kimball sugeriu que, em nossa generosidade, fôssemos além de um valor mínimo. Ele nos exortou a "dar, em vez da quantia que economizamos com nossas duas refeições de jejum, talvez muito, muito mais — dez vezes mais, quando estivermos em condições de fazê-lo." (In Conference Report, abr. de 1974, p. 184.) ¶
A generosa resposta dos Santos dos Últimos Dias em tempos de crise é lendária. Muitos se lembrarão do auxílio emergencial prestado aos nossos santos necessitados na Europa após a Segunda Guerra Mundial. O Presidente Ezra Taft Benson dirigiu esse esforço. ¶
Mais recentemente, essa generosidade ajudou a evitar a fome na África. Projetos de irrigação, poços produtivos e métodos agrícolas aprimorados fazem parte de um sonho realizado. Da mesma forma, na época do desastre da represa Teton, em Idaho, a resposta dos membros ao chamado de socorro foi surpreendente. ¶
Hoje, em terras distantes e bem aqui em Salt Lake City, há aqueles que sofrem fome, que conhecem a carência e estão familiarizados com a pobreza. É nossa a oportunidade e o sagrado privilégio de aliviar essa fome, suprir essa carência, eliminar essa pobreza. ¶
O Senhor forneceu o caminho quando declarou: "E o armazém deverá ser mantido pelas consagrações da igreja; e prover-se-á a subsistência das viúvas e dos órfãos, como também dos pobres." (D&C 83:6.) Depois, o lembrete: "Mas é necessário que seja feito a meu modo." (D&C 104:16.) ¶
Na vizinhança onde outrora vivi e servi, operávamos um projeto avícola. Na maior parte do tempo, era um projeto eficientemente administrado, fornecendo ao armazém milhares de dúzias de ovos frescos e centenas de libras de aves abatidas. Em algumas ocasiões, porém, a experiência de sermos fazendeiros urbanos voluntários proporcionou não apenas bolhas nas mãos, mas também frustração de coração e mente. ¶
Por exemplo, sempre me lembrarei da vez em que reunimos os rapazes do Sacerdócio Aarônico para dar ao projeto uma verdadeira faxina de primavera. Nossa multidão entusiasmada e enérgica se reuniu no local e, rapidamente, arrancou, ajuntou e queimou grandes quantidades de ervas daninhas e detritos. À luz das fogueiras resplandecentes, comemos cachorros-quentes e nos parabenizamos por um trabalho bem-feito. O projeto estava agora limpo e organizado. Havia, porém, um único problema desastroso: o barulho e as fogueiras haviam perturbado tanto a frágil e temperamental população de cinco mil galinhas poedeiras que a maioria delas entrou em muda repentina e parou de botar ovos. Depois disso, toleramos algumas ervas daninhas, para que pudéssemos produzir mais ovos. ¶
Nenhum membro da Igreja que já enlatou ervilhas, descabeçou beterrabas, transportou feno ou irrigou milho por essa causa jamais se esquece ou se arrepende da experiência de ajudar a suprir os que estão em necessidade. ¶
Compartilhar com outros aquilo que temos não é novidade para nossa geração. Basta voltarmos ao relato encontrado em 1 Reis para apreciar novamente o princípio de que, quando seguimos o conselho do Senhor, quando cuidamos dos que estão em necessidade, o resultado beneficia a todos. Ali lemos que uma seca severíssima assolara a terra. Seguiu-se a fome. O profeta Elias recebeu do Senhor o que, para ele, deve ter sido uma instrução surpreendente: "Levanta-te, e vai a Sarepta … : eis que eu ordenei ali a uma mulher viúva que te sustente." (17:9.) Ao encontrar a viúva, Elias declarou: "Traze-me, peço-te, num vaso, um pouco de água para que eu beba. ¶
Quão inverossímil deve ter parecido a ela a resposta de Elias: ¶
"Não temas; vai, faze conforme a tua palavra; porém faze dele primeiro para mim um bolo pequeno, e traze-mo para fora; depois farás para ti e para teu filho. ¶
"Porque assim diz o Senhor Deus de Israel: A farinha da panela não se acabará, e o azeite da botija não faltará, até o dia em que o Senhor dê chuva sobre a terra. ¶
"E foi ela, e fez conforme a palavra de Elias; e assim ela, e ele, e a sua casa comeram muitos dias. ¶
Diligência, economia e auto-suficiência continuam sendo princípios norteadores desse esforço. Como povo, devemos evitar dívidas desnecessárias. Numa mensagem que o Élder Ezra Taft Benson proferiu numa conferência geral há mais de trinta anos, ele instruiu: "No livro de Reis lemos sobre uma mulher que veio chorando a … o profeta [do Senhor]. Seu marido havia morrido, e ela tinha uma dívida que não podia pagar; e o credor estava a caminho para levar seus dois filhos e vendê-los como escravos. ¶
"Por um milagre, [o profeta] permitiu que ela obtivesse um bom suprimento de azeite. E ele lhe disse: ¶
"'Vai, vende o azeite, paga a tua dívida e vive.'" (In Conference Report, abr. de 1957, p. 53.) ¶
"Paga a tua dívida, e vivei." (2 Reis 4:7.) Que sábio conselho para nós hoje! Lembrem-se, a sabedoria de Deus pode parecer loucura aos homens, mas a maior lição que podemos aprender na mortalidade é que, quando Deus fala e um homem obedece, esse homem sempre estará certo. ¶
Devemos lembrar que o melhor sistema de armazém seria que cada família tivesse um suprimento de um ano dos alimentos necessários, vestuário e, quando possível, as demais necessidades da vida. Na Igreja primitiva, Paulo escreveu a Timóteo: "Porém, se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua familia, negou a fé, e é pior do que o infiel." (1 Timóteo 5:8.) ¶
É nosso sagrado dever cuidar de nossas famílias. Frequentemente vemos o que poderia ser chamado de "negligência para com os pais." Com demasiada frequência, os elementos emocionais, sociais e, em alguns casos, até mesmo materiais essenciais à vida não são fornecidos pelos filhos a seus pais idosos. Isso desagrada ao Senhor. ¶
O armazém do Senhor inclui o tempo, os talentos, as habilidades, a compaixão, os bens consagrados e os meios financeiros dos membros fiéis da Igreja. Esses recursos estão à disposição do bispo para auxiliar os que estão em necessidade. Nossos bispos têm a responsabilidade de aprender a utilizar adequadamente esses recursos. ¶
Permitam-me sugerir, de forma resumida, cinco diretrizes básicas: ¶
O bispo deve buscar os pobres, conforme o Senhor ordenou, e atender às suas necessidades. ¶
Ao cuidar dos necessitados, o bispo exerce discernimento, bom senso, equilíbrio e compaixão. Os recursos da Igreja representam uma confiança sagrada. ¶
Aqueles que recebem assistência do bem-estar devem trabalhar, na medida de sua capacidade, por aquilo que recebem. ¶
A assistência prestada pelo bispo é temporária, e não contínua. ¶
O bispo auxilia com bens e serviços básicos para a manutenção da vida. Ele sustenta vidas, e não estilos de vida. ¶
Permitam-me ilustrar com uma experiência sagrada que reuniu essas diretrizes ao abençoar a vida dos que estavam em necessidade. ¶
Enquanto servia como bispo, num frio dia de inverno, visitei um casal de idosos que morava num duplex de dois cômodos. O modesto lar era aquecido por uma pequena Heatrola a carvão. Ao me aproximar da casa, encontrei o marido, de oitenta e dois anos, seu corpo envelhecido curvado sob a neve forte, enquanto recolhia alguns pedaços de carvão molhado de seu suprimento de combustível exposto ao tempo. Ajudei-o com sua carga, mas fiz a solene resolução de fazer mais. ¶
Orei e ponderei, buscando uma solução. Passo a passo, a inspiração veio. Na ala havia um carpinteiro desempregado. Ele não tinha combustível para sua fornalha, mas era orgulhoso demais para aceitar o carvão miúdo de que precisava para manter sua casa aquecida. Sugeri ao carpinteiro uma maneira de ele trabalhar em troca da ajuda que receberia. Será que ele construiria um galpão de carvão para um casal necessitado? "Claro," ele respondeu. ¶
Ora, onde iríamos obter os materiais? Procurei os proprietários de um depósito de madeira local, de quem frequentemente comprávamos produtos. Lembro-me de dizer aos homens: "Que tal vocês dois pintarem um ponto brilhante em suas almas neste dia de inverno?" Sem saber exatamente o que eu quis dizer, eles concordaram prontamente. Foram convidados a doar a madeira e a ferragem para o galpão de carvão. ¶
Em poucos dias, o projeto estava concluído. Fui convidado a inspecionar o resultado. O galpão de carvão estava simplesmente lindo, com seu revestimento elegante de tinta cinza-marinho. O carpinteiro, que era sumo sacerdote, testificou que realmente se sentira inspirado enquanto trabalhava nesse modesto galpão. ¶
Meu amigo mais velho, com evidente apreço, acariciou a parede da robusta estrutura. Ele me mostrou a porta larga, as dobradiças brilhantes, e então abriu à minha vista o suprimento de carvão seco que enchia o galpão. Com a voz repleta de emoção, disse-me palavras que sempre hei de guardar: "Bispo, veja o melhor galpão de carvão que um homem já teve." Sua beleza só era superada pelo orgulho no coração do construtor. E o idoso beneficiário trabalhava todos os dias na capela da ala, espanando os bancos, aspirando os tapetes dos corredores, arrumando os hinários. Ele também trabalhou por aquilo que recebera. ¶
Mais uma vez, o plano de bem-estar do Senhor havia abençoado a vida de Seus filhos. ¶
Que nosso Pai Celestial guie o sacerdócio desta igreja, para que sejamos obedientes à revelação do Senhor ao Profeta Joseph, na qual se nos ordena: "em todas as coisas lembrai-vos dos pobres e necessitados, dos doentes e dos aflitos, porque aquele que não faz estas coisas não é meu discípulo." (D&C 52:40.) ¶
Seremos qualificados como Seus discípulos quando ouvirmos e atendermos ao conselho de Isaías, que descreve o verdadeiro jejum, o espírito e a promessa do esforço de bem-estar: ¶
"Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desterrados, e vendo o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne? ¶
"Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante da tua face, e a glória do Senhor será a tua retaguarda. ¶
"Então clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui. … ¶
"E o Senhor te guiará continuamente, e fartará a tua alma em lugares áridos, … e serás como um jardim regado, e como um manancial de águas, cujas águas nunca faltam." (Isaías 58:7–9, 11.) ¶
Que esta seja nossa bênção é minha oração, em nome de Jesus Cristo, amém. ¶